“Populismo penal quer todo mundo preso e isso só agrava a violência”

Secretário de Segurança Pública revela estratégias para sua gestão e diz que é preciso dar força à polícia comunitária, mas não se pode abrir mão do rigor no combate ao crime

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

A formação de Ricardo Balestreri, em tese, não seria a mais adequada para encarar os batalhões. Os policiais, especialmente os militares, costumam torcer o nariz para historiadores e seus discursos, geralmente por se enquadrarem no estereótipo “militante de esquerda”. Da mesma forma, a aproximação dele com as polícias pode não ser bem vista por colegas do mesmo lado de que milita — o “pessoal” dos direitos humanos.

Nomeado secretário de Segurança Pública e Administração Penitenciária de Goiás em 23 de fevereiro, Ricardo Balestreri carrega a qualidade — que, para ele mesmo, por vezes, acaba por ser um fardo — de transitar fora da questão meramente ideológica dos lados que se postam, dicotomizados na realidade atual do País. “Às vezes o que eu digo agrada mais o lado da esquerda; às vezes, é o contrário”, resume. É o ônus e o bônus de se manter ao largo das disputas ideológico-partidárias e priorizar os aspectos técnicos e científicos das questões de sua pasta.

Foi assim que agiu em sua passagem pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp), que comandou de 2008 a 2010, depois de ser convidado para trabalhar no governo. A experiência de quase três décadas com polícias do mundo inteiro e sua ligação com os direitos humanos — já chegou a presidir a seção brasileira da Anistia Internacional, entre outras atividades — foi fundamental para que o governador Marconi Perillo (PSDB) o convidasse a encarar o desafio da segurança pública em Goiás. Balestreri diz que vai tratar com todos os gestores — inclusive o prefeito Iris Rezende (PMDB) —, independentemente de partido político ou posição ideológica. “Essa é a vantagem que eu tenho de nunca ter me filiado”, resume.

Nesta entrevista ao Jornal Opção, ele condena a política para a segurança pública implantada pelo governo de Dilma Rousseff (PT) — “a gestão destruiu tudo o que havia e não pôs nada no lugar” — e o populismo penal. “Prender todo mundo significa misturar bandidos perigosos a quem cometeu uma infração sem violência e transformar este em um pós-graduado em criminalidade”, diz, já “vacinado” contra interpretações equivocadas tomadas pela imprensa a partir de seu discurso.

Alexandre Parrode — O sr. chegou à gestão pública conhecido por sua proximidade com os direitos humanos e reconhecido por sua competência na atuação com as polícias. Para muitos, isso parece coisa de dois mundos diferentes. Como o sr. explica essa questão?

Comecei meu trabalho na segurança pública presidindo a seção brasileira da Anistia Internacional. Não quer dizer que eu concorde com tudo a respeito da Anistia, discordo de alguns pontos — especificamente no segmento da segurança pública, onde há, várias vezes, posicionamentos muito ideológicos —, mas concordo com vários outros. Sempre me preocupei com a formação da polícia para a promoção da cidadania. Isso começou em 1998, depois de um estágio que fiz com a polícia da Holanda, considerada muito enérgica, mas também promotora dos direitos humanos. Daí veio uma expressão que usei em alguns livros meus: o policial não pode ser meramente um respeitador dos direitos humanos, mas um promotor deles e um protagonista do processo civilizatório. Na verdade, o policial tem de ser o maior promotor dos direitos das pessoas. Isso não quer dizer que ele tenha de ser frouxo, que não tenha de enfrentar bandidos. Absolutamente não há contradição entre essas posições. Desde que ele uma conduta de respeito à lei e à moralidade, o policial pode e deve fazer todo uso proporcional, progressivo e racional da força, conforme, inclusive, preconiza a ONU [Organização das Nações Unidas].

Há 28 anos, portanto, estou “comendo sal” — para usar uma expressão bem goiana — com as polícias brasileiras e de outros países, tendo um intenso convívio desde os extratos mais básicos de sua pirâmide até coronéis e delegados.

Cezar Santos — Em que sua formação [Balestreri é historiador] o tem ajudado a compreender a área da segurança pública?

Isso me valeu uma compreensão histórica do fenômeno policial no Brasil. Casualmente, muitas vezes trabalho com policiais uma análise crítica sobre a história brasileira da polícia, algo que até a própria instituição ainda tem pouco conhecimento. Como também tenho estudos na área de psicoterapia, tenho um entendimento da questão psicológica que envolve a polícia. Ser policial é uma vocação extremamente nobre, fundamental para o Estado democrático de direito, mas muito maltratada pela vida e que precisa de muitas garantias para cumprir seu trabalho.

Alexandre Parrode — Em que sentido o sr. entende “policial maltratado”?

Uma das características de minha gestão na Senasp foi investir nos policiais, especificamente no que chamo de “cuidar dos cuidadores”. O policial é um cuidador social — e, quando digo isso, não me refiro somente à questão salarial —, mas que não é devidamente cuidado. É preciso entender toda a sua dimensão humana, a necessidade da atenção a seu psicológico, aos recursos materiais, a sua capacitação. Ele é alguém que faz o trabalho essencial de levar o Estado de direito particularmente às pessoas mais humildes, que no Brasil são 95% da população.

Alexandre Parrode — O que o sr. pode dizer de sua passagem pela Senasp?

Eu fiquei na secretaria sete anos ao todo, quatro como diretor de Ensino e Pesquisa e três anos como secretário nacional. Curiosamente, meu início ocorreu a partir do meu conhecimento da polícia de outros países. Acredito que só se pode constituir uma segurança pública de boa qualidade com conhecimento comparado. Se ficar olhando para o próprio umbigo não se vai muito longe, é preciso olhar a prática dos outros Estados, dos demais países e ver o que há de bom e de ruim para, então, fazer uma síntese e ver o que realmente reduz os crimes e a violência. Não estamos aqui para fazer discursos cheios de bravatas ou para fazer populismo de aplacar a sede das pessoas. Nosso objetivo é reduzir crime e violência, produzindo resultados com conceitos técnicos e científicos.

Elder Dias — Como o sr. trabalha em relação a esses conceitos?

Eu acredito que é preciso aproximar a polícia da academia, trazer esse conhecimento científico e as polícias de outros países e lugares — Chile, Argentina, Colômbia, Alemanha, Estados Unidos. Fui, a convite do governo norte-americano, conhecer as experiências policiais de lá. Passei um mês nessa atividade, mas não para trazer isso mecanicamente para o Brasil, porque cada país tem sua realidade particular. O que queremos, sempre, é ver e ouvir o que cada país tem de bom e fazer trocas enriquecedoras para nosso caso.

Esse trabalho fez com que, em dado momento, ainda no primeiro mandato do presidente Lula [de 2003 a 2006], eu fosse até a Senasp reclamar de que não havia um trabalho a contento de capacitação da polícia brasileira por parte do governo federal. Falei cerca de uma hora com o então secretário — Luiz Fernando Corrêa, hoje meu grande amigo —, que me recordou que tinha sido meu aluno na Academia Nacional de Polícia, na Polícia Federal.

Quando terminei minha fala, Luiz fez algo inédito. Ele me disse: “Fui seu aluno, gostei muito de suas aulas e acho que você tem total razão em sua reclamação. Não estamos capacitando adequadamente a polícia brasileira. Mas também me dei conta, em nossa conversa, que nós queremos fazer isso, mas não sabemos. Quero lhe fazer um convite: venha para cá e comande o processo de capacitação da polícia brasileira.”

Confesso que entrei em crise, porque estava em um momento muito bom, fazendo consultorias. Voltei pa­ra o Rio Grande do Sul, meu Esta­do de origem, e pedi a ele uma semana. Te­nho uma formação cristã forte e comecei a me sentir muito mal em di­zer não. Profissionalmente eu tenderia a negar, até porque eu ganharia mui­to menos, mas eu achei que deveria topar o desafio. Topei e a partir de então foram quatro anos em que reestruturamos toda a liderança no processo de capacitação da polícia brasileira.

O que é melhor? ter Uma tribuna para denunciar a violação dos direitos humanos ou trazer a polícia para ajudar a promover esses mesmos direitos?”

Cezar Santos — E, depois, o sr. assumiu como secretário. O que foi produzido em sua gestão?

Em meu período como secretário foi criado o Pronasci [Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania], que, infelizmente e estranhamente, destruído por um governo do mesmo partido. Não tenho nada contra quem tenha uma militância partidária, mas minha decisão pessoal foi sempre a de nunca me filiar e ser um militante pela cidadania. Não me arrependo disso, porque me abriu portas para trabalhar com pessoas de todas as ideologias.

Na Senasp, foram 77 cursos de pós-graduação “lato sensu” [especializações], que formavam de 2 mil a 3 mil especialistas em segurança por ano. Isso mudou a cara do Brasil na área, porque antes tínhamos um trabalho policial heroico, mas empírico: o profissional ia para a rua com sua boa vontade, mas sem conhecimento científico. Que tipo de conhecimento científico? Conhe­cimento em segurança pública, que se valia de áreas como Direito, Antropologia, História, Psicologia. E, então, veio uma outra grande vitória que obtivemos na Senasp: depois de uma dura queda de braço com o MEC [Ministério da Educação], conseguimos que fosse decretado que segurança pública é uma área científica do conhecimento. Por essa briga que vencemos, hoje as polícias do Brasil inteiro podem articular cursos de graduação, de pós-graduação “lato sensu”, de mestrado e de doutorado. Em tempo, isso é algo que queremos começar a discutir com a Fundação Tiradentes [entidade representativa dos policiais militares goianos] e trazer para Goiás.

Euler de França Belém — Qual é sua meta com essa visão?

A manchete de alguns órgãos de imprensa diria algo assim: “Secretário quer tirar policiais das ruas para transformá-los em pensadores antropológicos”. Claro que não é isso. O que queremos é que quem está na rua enfrentando bandidos também tenha seu curso de especialização, mestrado ou até de doutorado, para ser, além do homem prático, um profissional com consciência do que funciona ou não, para que tenha discernimento e tome as melhores decisões. O que a academia faz não é desprezar o conhecimento prático, da rua, mas prezar o conhecimento de séculos já acumulado, inclusive pela polícia, que é uma instituição multissecular.

Augusto Diniz — Qual foi o alcance de policiais pelo trabalho da Senasp, em números?

Na Senasp, nos sete anos em que lá estive, estruturamos o maior programa de formação policial do planeta, sem qualquer ufanismo. Tivemos 170 mil bolsistas, policiais que recebiam R$ 443 por mês como incentivo ao estudo, 3,5 milhões de matrículas em ensino à distância e a formação de um banco de 3 mil monografias e teses de altíssima qualidade produzidas por policiais e bombeiros — um acervo que não existe mais. Criamos também um programa de fronteiras e fundamos a primeira escola de fronteiras para policiais estaduais, em Belém.

Elder Dias — As fronteiras são um trabalho de “enxugar gelo”.

Exatamente. Não vamos conseguir controlar as fronteiras do Brasil se não tivermos a colaboração da Polícia Militar e da Polícia Civil dos Estados fronteiriços. A Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal fazem um excelente trabalho, mas a primeira tem 11 mil homens e a segunda tem 10 mil homens. O problema é que temos 16 mil quilômetros de fronteira. Hoje, as fronteiras brasileiras são uma peneira. Sem a ajuda das polícias locais o controle das fronteiras vira uma mentira pública. As armas longas que ameaçam a população das grandes capitais e cidades de médio porte, entram pelas fronteiras secas e pela absoluta liberdade de ingresso de qualquer arma ou droga nas fronteiras marítimas.

Reservamos mais de R$ 170 milhões para começar o trabalho conjunto com as polícias estaduais nas fronteiras. Assinamos um acordo com todos os comandantes das PMs dos Estados fronteiriços e convencemos a Marinha sobre a necessidade desse programa e asseguramos que não estávamos criando uma nova força armada. Era um programa que, garanto, reduziria drasticamente a violência nas grandes cidades, isso em dois anos. Mas, infelizmente, esse programa também foi abandonado pelo governo seguinte [de Dilma Rousseff].

Cezar Santos — Seu bom trabalho na Senasp não corresponde aos nú­me­ros atuais, que mostram que o Bra­sil tem mais mortes violentas do que a Síria em guerra. Como explicar isso?

Concordo com sua expressão, mas só faço um reparo: temos números de guerra, uma guerra não declarada, mas não podemos pensar que seja uma guerra de fato, formal. Digo isso porque na guerra vale quase tudo. Vale enfrentar o adversário sem o mínimo de prudência moral ou legal; vale dizer que o pobre morto na favela foi um “dano colateral”. Não, não pode ser um dano colateral. Em um país como o nosso, que não está em uma guerra de fato, é preciso que o Estado cuide dos pobres, dos desvalidos, dos que vivem no entorno do palco da luta. Não digo isso para que a polícia tenha uma ação menos incisiva, ainda que o combate não seja sua vocação principal, que precisa ser a prevenção. De qualquer forma, a polícia precisa ter critérios morais com a população do entorno. A questão é simples: o bandido é possível prender hoje, amanhã e depois de amanhã; já a vida de um inocente atingido a gente nunca mais devolve.

Tem bandido no meio dos pobres? Com certeza. Mas, também com certeza, por evidência empírica, tem um porcentual muito maior de bandidos no meio dos ricos. Não podemos olhar para os pobres e achar eles são os adversários. Pelo contrário, eles são aqueles a quem devemos proteger, que já estão desprotegidos de quase tudo.

Portanto, é uma guerra em termos de números, mas não em termos morais, porque os “mocinhos” precisam ser duros, mas também precisam de uma conduta moral que os bandidos não têm. Para esses, vale tudo, até mesmo matar o trabalhador na cena da luta. Nós, de nosso lado, temos de ser incisivos, mas é preciso fazer isso com a boa técnica, que é a que preserva a vida do inocente.

Marcos Nunes Carreiro — Tudo o que o sr. disse deve ser aplicado aqui em Goiás. Como tratar isso dentro de um contexto completamente dicotomizado entre a truculência policial, apoiada pela própria população, e o respeito aos direitos hu­manos, que para muita gente, hoje, é o mesmo que defender bandidos?

Precisamos educar uma parte da comunidade dos direitos humanos para deixar de considerar o policial como adversário. Acabou a ditadura no Brasil. Se olharmos o policial como olhávamos no pós-1964, durante a ditadura, estamos cometendo um grave equívoco, porque estamos dispensando, assim, o mais capilar dos valores da democracia. Se o desprezarmos, teremos um apodrecimento do tecido social. Sempre digo que o mais humilde dos soldados da PM, no mais humilde dos becos de uma favela, é ali um gigante em liderança. Digo mais: ele é a única liderança que sobrou naquele contexto. Por isso, aquele soldado, em sua humildade, é ele, mas também a multidão que o segue.

Temos de trabalhar a militância de direitos humanos mais ideologicamente conservadora, que tem aquela visão clássica e dicotômica, para parar de encarar o policial como adversário, mas como seu melhor parceiro, como aquele que tem as melhores condições capilares para levar os valores que queremos para o conjunto da sociedade. O policial precisa ser abraçado e trazido para o campo do desenvolvimento civilizatório. Ou é isso ou é ficar mais décadas e décadas ficar reclamando da violação dos direitos humanos.

O que é melhor? Uma tribuna para denunciar a violação dos direitos humanos ou trazer a polícia para ajudar a promover esses mesmos direitos? Eu faço parte de um segmento que optou pela segunda hipótese e é por isso que, há quase 30 anos, trabalho pelos direitos humanos com o foco na polícia. E não me arrependo.

Em tempo: convencer a comunidade dos direitos humanos é um dos aspectos. Outro é a outra parte da sociedade, que acredita em soluções messiânicas e demagógicas.

Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Cezar Santos — O que seriam essas soluções messiânicas e demagógicas?

É tudo aquilo que se faz acreditando na “bala de prata”, acabar com o vampiro do crime e da violência. É achar que dar porrada e derrubar portas — desculpem os termos chulos — vai transformar tudo em um paraíso. Se isso adiantasse, o Rio de Janeiro hoje seria esse paraíso. Mas o que resolveu lá foi a mudança de visão encaminhada por José Mariano Beltrame [ex-secretário de Segurança Pública]. O que ele fez? Depois de 40 anos com o Rio ouvindo esse discurso populista e demagógico, com discurso de bravatas iludindo a população, ele buscou resultados. Não sou contra viatura desfilando com giroflex ligado, mas é preciso mais do que isso para resolver. Uso muito uma frase, que não é minha, mas que considero fundamental: “Mais do mesmo vai gerar os mesmos resultados”.

No Rio, a situação só mudou quando o Estado teve o mínimo de seriedade para investir em polícia de proximidade — as UPPs [unidades de polícia pacificadora] —, aquilo que foi tratado sempre como ideia romântica. Não é deixar de dar tiro em bandido, mas fazer isso nas situações que forem incontornáveis e indispensáveis, quando o enfrentamento é realmente necessário. O Rio de Janeiro foi transformado por essa ideia “romântica” das UPPs. Isso mudou as favelas, o asfalto, a cidade inteira, mas agora está tudo indo à falência por conta da situação financeira do Estado, que não consegue pagar nem a comida dos policiais.

Marcos Nunes Carreiro — Como conseguir bons resultados hoje, então?

Temos de instituir sistemas que tenham correspondentes de avaliação nacional e internacional de bons resultados permanentes. Tudo que sair fora disso é discurso vão. Em um país polarizado como o nosso, é preciso educar a população, que hoje está oprimida pela truculência dos bandidos. Bandido nunca é bonzinho, sempre é ditador. O bandido que ajuda a senhora da comunidade que ficou doente, levando-a para o hospital, pode ter certeza de que ele vai cobrar o favor com juros e correção monetária — às vezes com o preço da vida dos filhos daquela senhora.

Temos de ter compaixão dessa população e entender que ela se sente ameaçada pelo crime — os pobres, a classe média e a elite. Dessas duas últimas, a gente ouve muita coisa. Estamos trancados em casa e os bandidos, na rua. A compaixão não deve, entretanto, nos deixar cegos a ponto de achar que as emoções vão nos aconselhar as melhores medidas, ainda mais na área da segurança. A emoção nos leva à sede de sangue e o senso comum diariamente nos diz “tem de bater, tem de prender, tem de matar”. Ora, não precisaria haver nenhum discurso moral sobre isso, bastaria uma pergunta racional e técnica: quais foram os resultados dessa lógica da eliminação no Brasil? De que tamanho é a ingenuidade de quem acredita que se elimina o crime eliminando os criminosos?

Moisés Naim [escritor e pensador venezuelano, ex-diretor do Banco Mundial e um dos maiores especialistas do mundo em crime organizado], fala que o crime organizado é a atividade mais lucrativa do planeta em todos os países, inclusive no Brasil. É absolutamente ingênuo pensar que vamos acabar com o crime ou reduzi-lo simplesmente eliminando os criminosos. Em toda atividade econômica há algo chamado exército industrial de reserva. Matando uma geração inteira de bandidos, haverá uma nova e mais truculenta ainda para substituí-la. Infelizmente, temos o populismo penal, que é muito forte aqui em Goiás.

Augusto Diniz — Como o sr. observou esse aspecto aqui, em particular?

Percebe-se o populismo penal na população em geral, na mídia, na política do Estado. É a falsa proposição, embora bem intencionada — não é de má-fé, é produto da ignorância de quem não conhece tecnicamente a área da segurança — segundo a qual prendendo todo mundo se reduzem o crime e a violência. Vou dizer algo revolucionário: prendendo todo mundo indiscriminadamente só se vão piorar o crime e a violência.

Em qualquer lugar do mundo, onde houver um presídio com superpopulação, os bandidos perigosos vão comandar as ações, em vez do Estado. A dinâmica da superlotação prisional só serve às organizações delinquenciais. A lógica de prender todo mundo, inclusive os pequenos criminosos, faz com que a grande maioria destes caia sob o domínio político, intelectual e estratégico das organizações criminais. Quando se contamina a cultura do pequeno criminoso com o mundo dos bandidos de alta periculosidade, quem sai do presídio vai embora muito mais perigoso do que entrou nele.

“Líder do crime organizado não vive em favela”

Cezar Santos — Como se estrutura o crime organizado hoje no Brasil?

No Brasil, só há um grupo de crime organizado. É o grupo paulista [o Primeiro Comando da Capital (PCC)], que está invadindo todo o País. Conheço os documentos de inteligência deles, bem como tive acesso a áudios. O projeto deles é dominar todos os presídios brasileiros, uma grave ameaça ao conjunto da Nação. Seu objetivo é enfrentar, em todos os presídios, o segundo maior grupo criminal do País, que é carioca [Comando Vermelho], mas que, apesar de se pretender crime organizado, ainda não se constitui tal como.

Cezar Santos — O que os diferencia?

O crime organizado é monopolístico e recolhe contribuição de seus membros — e muita contribuição, são milhões em reais que arrecadam —, além de ter rede nacional e internacional. E, com essas características, ainda só existe um no Brasil.

Elder Dias — As raízes do crime organizado já se estenderam aos Poderes constituído — Judiciário, Executivo e Legislativo?

Mais do que indícios, há comprovações com material apreendido, de que há um desejo nessa direção. Estamos muito zelosos com esse fenômeno, porque, se há essa intenção, no mínimo eles já estão tentando fazer. No Poder Legislativo — por exemplo, no Rio de Janeiro —, já está comprovada essa infiltração. Lá, o crime organizado já conseguiu eleger pessoas a seu serviço. Pessoalmente, penso que esse fenômeno deva ser muito mais amplo do que a gente imagina.

Houve um erro gravíssimo cometido pelo Estado brasileiro, que foi a política do avestruz, enterrando a cabeça e dizendo que essa questão não era tão séria assim, que o crime não estava tão organizado nem tão poderoso. Isso é bonito para a opinião pública, para tirar a pressão em curto prazo do próprio Estado, mas é uma mentira. Os bandidos são muito organizados, muito estratégicos. Podem ser incultos, redigir textos mal escritos, mas dão um banho de estratégia. Temos condição de adotar uma estratégia melhor, sim, mas precisamos reconhecer o poderio deles para fazer o enfrentamento da melhor forma.

Cezar Santos — Ao que se sabe, a cabeça pensante do PCC é o Marcola [Marcos Willians Herbas Camacho, preso em São Paulo], mas o Estado não consegue isolá-lo em um presídio de segurança máxima.

Marcola é um dos pensadores estratégicos, mas há um problema: quem realmente domina o crime organizado? Peremptoriamente, posso dizer que não é Marcola. Ele é apenas um “peixe” intermediário. Quem tem o domínio do maior nível, até pelo volume de lucratividade que tem o crime organizado no planeta, que nos desautoriza a pensar que alguém como Marcola tenha a hegemonia do domínio, que seja o chefe.

Cezar Santos — Mas quem seria o chefe do crime organizado?

Esse é o problema, descobrir quem é o chefe. O que posso afirmar, de forma radical, é que os verdadeiros chefes do crime organizado nunca são do nível de Marcola. Os chefes não estão na favela, não moram em vilas. Favela é um ponto de venda escolhido pela relativa desproteção do Estado àquelas populações que ali vivem. Mas os chefes do crime organizado, moram em mansões, são poliglotas, tomam seus jatinhos particulares e fazem suas reuniões em Miami ou em Amsterdã. O problema é que são muito bem articulados e inteligentes, por isso, apesar de ter indícios, é muito difícil pegar esses chefes.

De qualquer forma hoje os bons policiais, com mentalidade científica, sabem que devem combater aquele jaz sobre uma poça de sangue na favela, mas também sabem que não devem passar a ideia de que ali está morto o líder do crime organizado. Isso é falso. Líder de crime organizado não morre ensanguentado de chinelas Havaianas, bermudinha e camiseta. Líder de crime organizado continua incólume administrando seus negócios do alto da pirâmide social. O grande desafio da Polícia Civil é a elevarmos à categoria que desbarata a atividade dos chefões. Ou é assim ou é enxugar gelo, combatendo apenas miseráveis que são opressores de outros miseráveis. Precisamos subir para a cobertura.

Augusto Diniz — Em Goiás, se iniciou um incremento financeira para instrumentalizar a inteligência da polícia. Como o sr. pensa que a Polícia Civil deva ser trabalhada?

A inteligência da Polícia Civil goiana tem me surpreendido com um material de altíssima qualidade. O último que recebi, inclusive, propus até que transformassem em livro. Era um material denso que não consegui parar de ler antes de terminar.

Elder Dias — Material relativo ao crime em Goiás?

Não apenas referente a Goiás, trouxeram também informações de todo o Brasil.

Elder Dias — Em que nível temos o avanço do PCC em nosso Estado?

O grupo não tem a força que tem em outras unidades federativas, mas Goiás faz parte do projeto deles e está nominado, em um documento a que tivemos acesso, como Estado de características estratégicas para suas atividades. Esconder isso da população não é produtivo. Eles ainda estão na fase de arregimentação de forças, ainda sem muita a­gressividade. Por isso, temos de fazer uma interpretação de tudo que aconteça nos presídios, não só de Goiás, mas de todo o País. São movimentos articulados, não só aqui.

Elder Dias — A rebelião na Penitenciária Odenir Guimarães (POG), ocorrida em fevereiro e que teve cinco mortes — entre elas a de Thiago Topete, um dos líderes do tráfico na capital goiana —, tem algo a ver com essa estruturação do crime organizado em Goiás?

Embora haja problemáticas locais, não há nada que aconteça em qualquer presídio brasileiro que não tenha algum nível de participação do grupo paulista. Sua estratégia é obter o monopólio dentro do sistema prisional, porque eles já entenderam aquilo que ainda não foi captado pelo populismo penal: presídios superlotados são bons para seus negócios.

A maior parte das pessoas que entram no crime organizado não faz isso de livre e espontânea vontade, mas coagida. O primeiro movimento que é feito em relação a um pequeno criminoso — o chamado “bandido chinelão” —, quando ele chega ao presídio, é chamá-lo e “convidá-lo” a entrar na organização. Caso haja a negativa, o interlocutor lhe diz o nome da esposa do preso, quantos filhos tem, onde sua família mora esse aqui etc. E depois pergunta: “Preciso dizer mais alguma coisa ou você já entendeu?”. E assim a pessoa começa a contribuir e a trabalhar para o crime organizado. Quando sai — geralmente a pena dessas pessoas é pequena —, esse detento é obrigado a praticar ações. Torna-se um operador para praticar assaltos, tocar fogo em ônibus e outras práticas. Assim cresce a malha de agressão à sociedade.

No populismo penal, se convence a população de que o encarceramento vai resolver. Isso é uma mentira, como eu já disse. É preciso ser muito duro no trato com bandidos perigosos e manter os presídios com um nível adequado de população prisional, sem permitir jamais a superlotação que favorece a atividade criminal. Além disso, é necessário encontrar, junto ao Judiciário, à Defensoria Pública e ao Ministério Público, penas que sejam severas, mas recuperatórias. Por exemplo, a devolução de serviços à sociedade, com seriedade e monitoramento.

Cezar Santos — São as chamadas penas alternativas?

Sim. É uma pena que o pessoal do populismo penal tenha transformado esse instrumento em uma piada. Desmoralizar uma ferramenta porque não está sendo usada como deveria é contraprodutivo. Se não está bem feito, é preciso criar as condições para fazer bem feito.

Marcos Nunes Carreiro — Dada a legislação local e federal, qual é a liberdade que o sr. tem para implantar seu plano em Goiás?

Há, realmente, uma parte que depende das leis federais. A legislação sobre drogas no Brasil, em geral, é muito ruim. Sou contra qualquer tipo de drogas e costumo dizer que, hoje, aos 58 anos, a única que consigo consumir é uma taça de vinho tinto — e que, mesmo assim, já me faz muito mal. Qualquer droga faz mal e qualquer droga deve ser combatida. O problema é que no Brasil se combate as drogas com desinteligência. A chamada guerra às drogas não diminuiu em nada a venda nem o consumo de drogas. Isso nem no Brasil nem em qualquer parte do mundo. Pelo contrário, a coisa só aumentou e se dá com um número enorme de enfrentamentos e de mortes. Então, quando algo está fracassando há 20 ou 30 anos, é preciso mudar a legislação.

O que fazer? Aquilo que Portugal fez: uma legislação que caracterize a natureza da droga e sua quantidade. Maconha, cocaína e crack, todas essas drogas fazem mal, mas são de naturezas diferentes. Isso é técnico e o cidadão comum não tem como saber isso, apenas fica com o fígado ardendo de ódio. Cabe aos especialistas e à mídia explicar que tratar a maconha conforme se trata a cocaína é um erro técnico. Maconha é ruim, tem de ser combatida, é uma substância cancerígena, mas não é uma droga criminógena, ninguém comete crimes por fumar maconha — ao contrário de cheirar cocaína. A maconha tem de ser combatida culturalmente, como ocorreu com o cigarro.

Cezar Santos — Mas a maconha não abre caminho para outras drogas?

A porta de entrada para todas as outras drogas é o álcool. A começar pela maconha até as mais perniciosas, como o crack. Pesquisas nacionais e internacionais mostram que a droga permitida é que abre caminho para o uso das ilícitas. No Brasil, essa droga permitida tem um nome: cerveja. O consumo da cerveja, técnica e psicologicamente falando, quebra a resistência do superego. Quando a psique tem essa resistência quebra, o sujeito se sente com superpoderes. É a chamada síndrome de onipotência, causada por todo uso abusivo de drogas. Ao se tornar impotente, pode-se consumir qualquer droga sem achar que aquilo vá prejudicar — e assim se começa em todas elas. Essa síndrome também está ligada à expansão das doenças sexualmente transmissíveis. É um paradoxo fazer, no carnaval, ao mesmo tempo propaganda de camisinha e, logo a seguir, de cerveja. Depois de um nível de ingestão de cerveja, o indivíduo se sente como um deus. E deus não precisa usar camisinha.

Digo tudo isso para mostrar o quanto esse conceito está longe do cidadão comum, que analisa com o fígado e não com o cérebro e quer que se combata tudo da mesma forma. Quando esse tipo de pensamento vira política, o nome disso é populismo. Por isso insisto que na segurança pública precisamos de gestões técnicas, que compreendam as nuances de problemas assim.

Euler de França Belém — O sr. pode falar mais um pouco sobre a política bem-sucedida em Portugal?

Portugal criou uma legislação que define natureza da droga e quantidade de droga. Eles optaram por aumentar a quantidade admissível, para parar de prender o bandido “chinelão” que vai se tornar, no presídio, um bandido pós-graduado para depois voltar à sociedade. Quem cai no populismo não se dá conta que ele vai retornar, ao fim da pena, aí sim cometendo barbaridades nas ruas.

Como secretário, no meu último ano na Senasp, apresentei os seguintes dados: 90% dos presos brasileiros em função de drogas têm as seguintes características: foram presos desarmados, eram primários, não cometeram nenhum tipo de violência, não formavam nenhuma quadrilha e não representavam nenhum risco à segurança. Por baixo, no Brasil, eles são pelo menos 100 mil. Jogá-los no presídio é transformá-los em monstros. Portugal também teve de enfrentar a fúria do populismo penal, mas optou por implantar um trabalho a partir de dados científicos e foram bem-sucedidos.

Cezar Santos — Qual foi o principal problema que o sr. detectou ao assumir a Secretaria de Segurança Pública em Goiás?

Sem dúvida, o sistema prisional. Herdamos muitas décadas de problemas de difícil solução no Brasil inteiro. Em Goiás não é diferente. Temos superpopulação prisional, mistura de níveis de periculosidade — o que é proibido pela Lei de Execuções Penais, mas não se consegue cumprir em nenhum lugar —, falta de participação de administrações mistas. Precisamos urgentemente conhecer aquilo que deu certo, onde não tem rebelião ou fuga. Por exemplo, ir a Minas Gerais e observar a experiência da Apac [Associação de Proteção e Assistência ao Condenado]. As Apacs são entidades civis, sem fins lucrativos, que fazem parceria com o Estado. Lá nunca se ouviu falar de rebelião ou fuga, mas sim em recuperação de presos e baixa reincidência. Temos de nos abrir mais ao Brasil e ao mundo aqui em Goiás. Vamos trazer coisas novas para adaptar, por que não fazer?

Alexandre Parrode — O sr. é um crítico da cartorialização da Polícia Civil e a viaturização da Polícia Militar, uma prática da ditadura que permanece e que as pessoas tendem a aprovar por uma sensação de segurança. Como enfrentar esses problemas?

Nos anos 50, no Brasil, houve uma reforma de dentro para fora das polícias brasileiras. A Polícia Civil buscou novamente sua prioridade investigativa. Ninguém entra como agente para ficar atrás de uma mesa de uma delegacia. Pelo contrário, a investigação é nobre porque é preciso ir às ruas, no meio do povo. É uma atividade de aproximação com a população.

Por sua vez, a Polícia Militar criou um modelo chamado “Cosme e Damião”. Era um embrião, ainda não científico, de polícia comunitária. A dupla de PMs circulava pelas ruas do bairro e conversavam com os moradores, conheciam tudo aquilo que hoje, com visão científica, chamamos de mancha criminal. A população não só respeitava, mas amava sua dupla Cosme e Damião, como lideranças populares. Não tem melhor serviço de inteligência no planeta do que a comunidade. Vera Araújo, de “O Globo” — uma das jornalistas que mais conhecem o tema segurança pública no Brasil —, uma vez publicou, depois de conversarmos, uma matéria com um título maravilhoso e que serviu para inspirar as UPPs: “Um policial para chamar de seu”. Ela entendeu o recado. Era o “nosso” policial, que não pertencia ao governo nem ao Estado, mas à comunidade.

Ricardo Balestreri fala à equipe do Jornal Opção: “A ditadura militar afastou a polícia da comunidade” | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Elder Dias — Havia, então, uma relação de muita confiança entre polícia e população.

Sabíamos o nome e o sobrenome do policial e ele sabia tudo da gente, também. Tenho uma história pessoal sobre isso. Uma vez, muito pequeno, eu fugi de casa em Porto Alegre, em uma rua perigosa. Três quadras de­pois, um brigadiano — como eram chamados os policiais militares no Rio Grande do Sul — atravessou a rua e me pegou no colo, dizendo: “Ricardo, o que tu fazes tão longe de tua casa?”. Ele me carregou até minha casa, bateu na porta e me entregou a minha mãe. Ela me deu uns tapas e me lembro de ter pensado nessa hora “bonzinho mesmo é a­quele homem que me trouxe”. Aquele sujeito sabia meu nome, sabia onde eu morava e me entregou para minha mãe. Ele era da dupla Cosme e Damião. Isso não dava só uma sensação, mas a certeza de ter segurança pública.

O que aconteceu? Isso foi destruído em 1967 pela ditadura militar, por um temor de ter as polícias muito próximas do povo, por uma visão ideológica de que a polícia tinha de ser “do governo” e não da população, por uma ideia de que os policiais teriam de servir a uma elite dominante e não ao povo. Aí foram criados os dois modelos. O primeiro é uma Polícia Civil numericamente pequena e altamente cartorial, obrigada até por lei a preencher relatórios o dia inteiro. São 130 mil pessoas que recebem o cartório de outra instituição, a Polícia Militar, que tem 700 mil pessoas. Ora, pela lógica matemática, 130 mil pessoas não vão dar conta da demanda de 700 mil, o maior vai sempre engolir o menor. O que ocorre é que a própria PM, em seu modelo, não consegue ver efetivado aquilo que ela entregue. A consequência é que as duas instituições “morrem” sem obter êxito em suas tarefas.

A PM foi subtraída do convívio popular e jogada no modelo — já fracassado nos Estados Unidos — de ultraviaturização. Quero ressaltar aqui que não sou contra o uso de viaturas, isso é nobre e necessário. Radiopatrulhamento é extremamente importante, mas, no Brasil, foi considerado predominante. Esse foi o erro, porque é modalidade de apoio. Nos Estados Unidos isso já tinha falido como modelo predominante. Da mesma forma, o sistema 190 também faliu no mundo inteiro, apesar de ser nobre. Isso porque não é possível chegar ao local da ocorrência antes de três minutos, por razões óbvias. A polícia canadense foi quem levantou este aspecto: o modelo é nobre, mas serve para o consolo da vítima e para o levantamento do quadro. Repito: é algo necessário, mas não é viável montar um sistema inteiro em torno de algo que é subsidiário.

Marcos Nunes Carreiro — Como fazer esse trabalho, então?

Não é o caso de Goiás, onde há o acompanhamento das viaturas, mas em muitos Estados há uma circulação tresloucada. Joga-se o policial na viatura e ele fica rodando o dia inteiro. Se alguém está na rua vê a patrulha passar, mas, se precisar dela, não a encontra. Então, é preciso saber onde achar a polícia. Se não souber como achar fisicamente, é preciso ter o número particular do policial, para ligar para ele. Isso já existe, mas temos de estender essa ação.

Augusto Diniz — Isso passa pelo aumento do efetivo da Polícia Militar?

Temos um efetivo baixo no Brasil, mas em Goiás é bastante baixo. Temos de aumentá-lo, obviamente levando em conta a crise que atingiu o País. Mas precisamos também levar a termo a ideia de que, se a polícia se aproximar da população, ela vai se multiplicar. O conhecimento comparado diz que, no mundo inteiro, isso funciona, porque a polícia, mesmo com baixo efetivo, passa a ser apoiada e a ter informações de que não dispunha e passa a circular de maneira cirúrgica, porque quem dá essa sustentação é o conselho comunitário. Mas é preciso que a população confie na polícia. Para isso, é preciso fazer profissão de fé na conduta do policial, o que só vai acontecer com o convívio.

Augusto Diniz — Para essa aproximação com a comunidade, em sua visão, cabe a desmilitarização da polícia?

Não cabe (enfático). Os dois modelos, civil e militar, podem funcionar bem. No Brasil, por sequela da ditadura, criou-se o estigma de que tudo que for militar é ruim. Não é verdade. Temos quase cem polícias militarizadas em todo o mundo, a maioria em países democráticos. Fiz estágio em algumas delas. A Gendarmerie, da França, é uma das melhores do mundo e é mais militarizada do que a nossa. Da mesma forma, vemos exemplos semelhantes na Colômbia e no Chile, entre outros. Portanto, a solução não é desmilitarizar. Quem propõe isso — e aqui falo do Brasil inteiro, não de Goiás —, com muito respeito a essas pessoas, são os policiais de base, que ao longo de décadas vêm sofrendo com excessos hierárquicos eventuais. Diz-se que tornando todos civis isso se resolveria, mas, se não houver uma modernização, os mesmos abusos acontecerão na instituição civil, só mudaria o nome.

O que precisamos é modernizar o militarismo, uma nova visão sobre o que é hierarquia e o que é disciplina, transpessoal, montada em códigos de ética e não em regulamentos disciplinares arcaicos. Se o regulamento diz que é preciso pedir permissão ao comandante para casar, ele está arcaico, porque casamento é da esfera privada, não da vida pública.

Augusto Diniz — Há uma discussão sobre o Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). A Polícia Civil diz que deve ser uma atribuição única dela, enquanto há uma corrente que pede para que a PM possa lavrar os TCOs no momento da ocorrência. Como o sr. pretende levar essa questão?

Para ser sincero, estou chegando agora ao comando da secretaria e ainda não tenho essa pauta em minha agenda. É algo muito polêmico e teremos de conversar com todo mundo para não ter divergências. Mas, curiosamente, estamos tratando, nesse caso, de uma atividade que não é policial: é registro, uma atividade cartorial. Seria prático fazer isso na hora, de modo rápido e, em tese, é algo que poderia ser feito até mesmo por uma empresa terceirizada. Essa briga é tão absurda que esse tema, levado ao conhecimento de qualquer policial de primeiro mundo, ele iria responder, sem acreditar: “No Brasil vocês brigam por conta de registro? Não é possível!”. Ninguém acredita.

Augusto Diniz — Os sindicatos dos policiais civis defendem que há uma falta de formação do PM para o caso e dizem que ele não teria competência para preencher o TCO, ou poderia usá-lo em favor da própria truculência em seu trabalho.

Vou falar em tese, cada coisa tem sua hora, mas qualquer policial com um mínimo de capacitação, poderia preencher um termo circunstanciado. Basta um cursinho de um dia para que qualquer um de nós possa preencher um TCO.

Augusto Diniz — O sr. tem preocupação em como a mídia interpreta suas declarações em relação à segurança pública. Mas como a Polícia Militar tem recebido sua nomeação como secretário e seu discurso sobre o tema?

Fui bem recebido pelas duas polícias e isso tem uma razão. Como secretário, ajudei bastante Goiás — só no último ano foram quase R$ 70 milhões, o que é muito dinheiro. Grande parte disso foi para a formação do policial. Temos aqui no Estado uma academia de Polícia Civil no nível das melhores do planeta e que foi construída integralmente com recursos de meu período à frente da Senasp. Lá dentro tem até uma cidade cenográfica, coisa para poucos.

Portanto, meu período no governo federal angariou um bem querer das polícias locais. Tem também um outro segmento, que não me conhece ainda e está desconfiado, talvez por achar que eu posso ser “contra a polícia”, por vir dos direitos humanos. Eu tenho tranquilizado dizendo o seguinte: “Vocês têm de continuar a ser a polícia enérgica que são — a polícia de Goiás é assim na abordagem e isso contribui para a redução das ocorrências. A única coisa que não podem fazer é burlar a lei e a moralidade.” Isso não pode ocorrer contra ninguém, nem mesmo contra bandido. Digo isso porque o agente público tem de ter conteúdo moral de representante do Estado democrático de direito.

Alexandre Parrode — Diante da questão da superlotação, surge um movimento de privatização e de parcerias público-privadas para os presídios. Como o sr. se posiciona?

Eu ainda não conversei com o governador Marconi Perillo sobre isso aqui em Goiás, mas estamos iniciando um processo com quem já implantou essa medida. Há casos e casos, bons e ruins. Tivemos no início do ano, no Amazonas [na virada do ano, briga entre grupos de detentos deixou pelo menos 56 mortos no Complexo Penitenciário Anísio Jobim, em Manaus], um caso complicado de presídio privatizado, mas também superlotado. Assim não resolve nada, é preciso cuidado para não ter exploração econômica, o que é algo que está sendo investigado nesse episódio.

É merecida a discussão sobre privatização, mas é importante ver sobre qual nível ela se dá. Por exemplo, a privatização pode se dar de tal modo a entregar a custódia do preso — que é algo de responsabilidade estatal — ou se o melhor seria um sistema misto, com a administração prisional ficaria com o ente privado, mas o poder de polícia sobre o detento ficaria com o Estado.

Augusto Diniz — O Ministério da Justiça agora é Ministério da Justiça e da Segurança Pública. Isso muda alguma coisa?

Sempre defendi a criação do Ministério da Segurança Pública por uma questão de ordem prática que eu conheço a fundo. É que o Ministério da Justiça (MJ) não tem estofo para arcar com o âmbito da segurança pública. Quando digo isso, me refiro a maquinário e servidores. Faz pelo menos anos que é repetido pelo TCU [Tribunal de Contas da União] que a máquina do MJ. Mas o governo federal insiste em manter esse formato, sob o argumento da racionalização administrativa. Só que não é racional. Vou dar um exemplo: em meu último ano como secretário, pedi um levantamento para saber quanto tempo, em média, levava um processo normal de compra no MJ. Resultado: cerca de um ano e sete meses. Imagine ficar esse tempo todo sem governar. O burocrata não entende o que é segurança pública, segura o processo por não compreender do que se trata.

Euler de França Belém — O ex-ministro José Eduardo Cardozo chegou a devolver dinheiro da construção dos presídios.

A gestão de José Eduardo [ministro da Justiça no governo Dilma Rousseff, de 2011 a 2016] não foi técnica. Sou geralmente comedido, mas posso afirmar: sua gestão destruiu todas as políticas de segurança pública sem colocar nada no lugar. Ele tirou a Senasp de um patamar de administrar R$ 1,2 bilhão por ano para pouco mais de R$ 100 milhões foi um crime, não contra o Ministério da Justiça, mas contra o contribuinte, que tinha passado mais de R$ 8 bilhões para a instalação do muito bem-sucedido Pronasci, que vinha reduzindo a criminalidade em todo o País. Até hoje ninguém explicou para a Nação por que se permitiu jogar fora esse dinheiro e se fechou esse programa.

Augusto Diniz — Mudou alguma coisa no Ministério da Justiça com o governo de Michel Temer?

Eu diria que mudou a perspectiva no sentido de resgatar a segurança pública como prioridade, mas não mudou nada em termos de implementação. Alexandre de Moraes [ex-ministro da Justiça, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), indicado por Michel Temer] foi bem-intencionado, foi secretário de Segurança Pública, conhecia o tema, mas veio de um mundo muito fechado, que é São Paulo. Lá há um mundo à parte no Brasil. São Paulo tem tradição de não participar dos colégios dirigentes de segurança pública, infelizmente.

Euler de França Belém — Como o sr. vê uma integração entre as políticas de segurança pública entre as unidades federativas?

Nesse tema eu tenho de dar os méritos ao vice-governador José Eliton (PSDB), que teve a iniciativa de propor a criação do Pacto Integrador de Segurança Pública Interestadual. Surgiu por causa da percepção de que o governo federal havia aberto mão de sua natural liderança do sistema, a partir de 2011. Houve a destruição do que havia e, depois da saída de Cardozo, o novo ministro da Justiça [Alexandre de Moraes] tentou retomar, mas seguindo a visão de São Paulo, com pouco conhecimento da realidade do restante do País, e isso acabou não dando muito certo.

Nesse sentido, José Eliton puxou o Pacto Integrador, que hoje envolve 16 Estados e que, em meu entendimento, além de ações comuns, é uma ideia politicamente muito boa, porque força o governo federal a tomar uma atitude para reassumir o protagonismo. Tenho a honra de presidir o Pacto Integrador e levar ideias como a de reunir os diversos grupos da Polícia Civil para tirá-los da discussão cartorial e começar um trabalho de enfrentamento ao crime organizado no Estado. É uma polícia altamente relevante e que precisa ser tratada nesse alto nível.

Marcos Nunes Carreiro — Goiás tem uma delegacia especializada para tratar do crime organizado [Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco)]. A ideia seria ampliar esse trabalho?

São a ampliação e o reforço a esse trabalho. Criou-se no Brasil uma falsa cultura de que investigar crime organizado é algo para a Polícia Federal. Ela faz um excelente trabalho, mas como fazer tudo o que ela faz — inclusive emissão de passaporte, gerência das guardas, segurança privada etc. —, isso com 11 mil pessoas no quadro? Se parar para pensar, o que ela faz é até um milagre, subindo sua investigação agora para o “andar de cima” da sociedade. Isso é um milagre para uma instituição com efetivo tão reduzido e com tantas atividades. Temos de ser parceiros da PF, acrescentar nossos policiais civis e fazer um trabalho integrado. Dessa forma, então, teremos avanços significativos contra o crime organizado.

Augusto Diniz — Uma parte da sociedade quer rever o Estatuto do Desarmamento, para dar ao “cidadão de bem” o direito de se armar para se proteger. Como o sr. avalia esse ponto?

Eu participei do Ministério da Justiça quando, em conjunto com a Polícia Federal, a Senasp e outros segmentos —, se instituiu a política do recolhimento de armas. Todas as estatísticas posteriores davam conta da queda dos índices de violência e criminalidade. Então, posso dizer com conhecimento de causa: houve efetiva e expressiva redução desses números. O problema é que essa é mais uma daquelas discussões que ficaram polarizadas.

Augusto Diniz — O senso comum diz que, se a pessoa estiver armada na ocasião de um assalto, vai poder reagir à ação do bandido.

Sei que muita gente talvez vá me querer mal, mas tenho de dizer: a quase totalidade das pessoas que estiverem armadas quando forem assaltadas vão ser mortas e perder a arma. Digo isso por razões técnicas: quem vai assaltar já chega com sua arma em punho e muitas vezes já engatilhada, tomando sua vítima de surpresa. Esse é o fato típico de assalto.

Augusto Diniz — Até mesmo policiais, em situação fora do trabalho, acabam morrendo em situações em que tentam a reação.

Sim, porque o assalto é uma ação surpreendente. Então, quem se vê como especialista em tiro acha que pode ter tempo de puxar a arma e ter vantagem. Em quase 100% das ações isso é um erro, quem reagir vai acabar morto e a arma com o bandido. E, se por um fato extraordinário, tanto o bandido quanto a pessoa que vai reagir estiver de arma em punho, há estudos que comprovam que o grau de relutância do bandido é menor do que a pessoa comum. Ele passa por um processo que o livra do sentimento de culpa que lhe dá vantagem de microssegundos e pode fazer a diferença entre a vida e a morte. Portanto, é muita arrogância achar que, tendo uma arma, a pessoa conseguirá reagir e se defender.

Por outro lado, há questões na legislação que poderiam ser discutidas. Por exemplo, se alguém atirar contra o assaltante que invadir sua casa, terá de responder criminalmente por isso. Para mim, é um distúrbio excessivo da lei, entendendo ela que o bem material vale menos do que a vida. Só que esse sujeito invade uma casa armado, é preciso partir do pressuposto de que ele pode tomar sua vida e a de sua família. É o direito à legítima defesa, não dá para esperar o bandido atirar nessa situação, não tem espaço para ser ingênuo.

Porém, volto a dizer: o uso da arma no dia a dia, na rua, é absurdo e só vai aumentar o índice de homicídios e de armas circulando nas mãos dos bandidos.

Marcos Nunes Carreiro — Goiás recebeu uma comitiva japonesa com o foco na questão da segurança pública. Qual é a parceria que pode surgir?

Eles têm um programa que queremos estender, que é o de polícia de proximidade do Japão. Obviamente, trata-se de um país em outras condições, pequeno e de primeiro mundo, mas podemos adaptar ao padrão brasileiro. Um dado curioso é que, apesar de ser um país altamente civilizado, há máfias poderosas e prostituição de caráter violento, além da ameaça do terrorismo. Ser policial no Japão não é fácil como se poderia pensar.

Augusto Diniz — A Guarda Civil Metropolitana tem a incumbência de zelar pelo patrimônio público no município. O sr. entende que pode haver uma parceria com a Segurança?

Eu quero visitar o prefeito [Iris Rezende (PMDB)]. Em todo lugar onde há uma parceria entre a PM e a Guarda, os resultados estatísticos melhoram muito. Vou abusar da condição de ser alguém não partidário no Estado e vou enfrentar os diálogos, às vezes até com uma aparência ingênua. Se os gestores são de partidos diferentes, isso não vai mudar meu objetivo, que é minorar os problemas da população em relação à minha área. Vou chamar todos os interlocutores que puder para nos ajudar. Já estive com a deputada Adriana Accorsi [PT, também delegada] e já tratei com ela sobre colocar a segurança acima da questão partidária. Ela foi incisiva ao concordar comigo. Vou ao prefeito e a todo mundo, porque não tenho partido político.

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Parabéns ao jornal pela tamanha contribuição social na producão desta tao rica matéria. Seguranca Pública no Brasil ainda tem jeito, falta encontrarmos o “jeito” para que nossos governantes abracem a causa como política de Estado e façam com que a sociedade também assim assimile a idéia que se trata de responsabilidade de todos. Oxalá dê firmeza ao governo do Goiás para encontrar e fornecer os meios necessários ao Secretário Balestreri na mais uma marca de sua passagem no campo da discussao e prática da temática Seguranca Pública em nosso país, a partir das inovacoes e ousadas mudancas a serem implementadas… Leia mais

Entrevista espetacular!
O Professor Ricardo Balestreri discutiu com maestria os vários temas da segurança pública. Sendo um profundo conhecedor do tema, esperamos que sua gestão como secretário de segurança pública, possa implementar em Goiás as melhores práticas, pois a segurança pública vem sendo relegada de modo contumaz pelo Estado Brasileiro, fazendo com que a violência e a impunidade tenham atingido níveis de calamidade pública nacional. O sucesso de sua gestão em Goiás permitirá difundir as mesmas políticas de segurança para todo o Brasil. Deus o abençoe e a sua gestão!

Somente um mestre em segurança pública é capaz de reproduzir tão significativos conhecimentos sobre o grave tema. Parabenizar o Professor Ricardo é o mínimo. É preciso que o conjunto das mulheres e homens bem -intencionados deste país maravilhoso ponham suas teses em práticas diuturnas. Ousar e transformar o sistema. Eis o binômio da nossa luta. Grande abraço, dileto Ricardo!

Parabéns ao Jornal Opção que teve a coragem de abordar aspecto tão importante como Segurança Pública com tamanho comprometimento. Ler as palavras do Professor Ricardo Balestreri será sempre uma excepcional aula sobre o tema, sou operador de segurança pública no Distrito Federal há 21 anos, e sempre aprendo muito com o nobre Professor. Parabéns ao Estado de Goiás pelo Secretário de Segurança que vocês tem agora, espero que ele encontre terreno fértil e corações dispostos a apoiá-lo na luta, sem dúvidas o povo goiano ganhará e muito com isto.

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