“Não faz o menor sentido responsabilizar alguém pela manutenção de um brinquedo cinco anos depois”

Dono da empresa que fez a reforma dos equipamentos do Mutirama em 2012, judicializada até hoje, dá sua versão sobre a polêmica, que voltou à tona após a quebra do Twister, deixando feridos no parque, há duas semanas

Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

A primeira vez que o paulista Adilson Capel Rocha foi entrevistado pelo Jornal Opção foi em busca de uma luz para um processo de que muito se ouvia falar pela imprensa, mas que não fora devidamente explorado: a denúncia de superfaturamento na compra de brinquedos para a reforma do parque Mutirama, fato que era exposto com bastante veemência pela oposição ao então prefeito Paulo Garcia (PT) – que teve morte súbita, por infarto, no domingo, 30 de julho –, notadamente pelo vereador Elias Vaz, que na época era do PSOL e hoje está no PSB.

Ocorre que, enquanto o assunto virava polêmica na Câmara e na mídia, o empresário responsável pela obra não tinha sido ouvido. A reportagem, à época, serviu para desmistificar a operação de um modo simples: visitando o local e conversando com Adilson, o dono da Astri Decorações Temáticas Ltda. A desinformação que pairava à época sobre a compra de brinquedos usados – algo que foi transformado em escândalo, como se isso fosse uma malandragem ou mesmo uma ilegalidade, e alimentada ainda por planilhas que mostravam preços de equipamentos novos e mais baratos – foi esclarecida em grande parte por aquela conversa.

Agora, com a infeliz quebra do Twister, que deixou 11 pessoas feridas na quarta-feira, 26 de julho, o nome de Adilson Capel e de sua empresa Astri voltou à tona. O mais curioso: o brinquedo que teve a pane já era propriedade do parque muito antes de Paulo Garcia virar prefeito e dar sequência ao edital de licitação da reforma do Mutirama, aberto por Iris.
Neste novo bate-papo com o Jornal Opção, de São Paulo, onde voltou a morar com a família após sua empreitada em Goiânia, o empresário esclareceu fatos antigos e lançou luz sobre novos. Para quem quer entender sobre o assunto além do que dizem manchetes sensacionalistas ou opiniões pouco embasadas de autoridades, é quase uma aula. E Adilson faz também uma revelação: depois de ter investido o próprio patrimônio para garantir o cumprimento do contrato da reforma e com a judicialização do processo, diz que se encontra em situação financeira “precária” – o valor devido por seu trabalho está depositado em juízo.

Elder Dias — Como o sr. recebeu a notícia da quebra do brinquedo Twister no Mutirama, que acabou causando ferimento em 11 pessoas?
Uma sensação desagradabilíssima, não só pelo acidente como pelos problemas que decorrem do acidente. Afetam-se primeiramente as pessoas que se machucaram, depois quem está nesse entorno, envolvidas nesse processo e, por fim, afeta-se a indústria de parques de diversões como um todo. É uma notícia que ganha impacto nacional e, possivelmente, internacional. Repercute negativamente como é afetada a área de aviação quando ocorre um acidente aéreo, não é apenas a fabricante da aeronave ou a operadora envolvida. Em um parque, se vai em busca de lazer e qualquer coisa que não combine com is­so causa um efeito psicológico ruim.

Elder Dias — No caso do Mutirama, como em qualquer outro acontecimento desse tipo num parque de diversões, as pessoas que estavam em um brinquedo [Twister] são surpreendidas de forma traumática em sua hora do lazer.
Mesmo que não estivesse no brinquedo, o fato de estar no parque naquele momento, de presenciar aquelas cenas, isso não deixa de ser um choque muito grande.

Elder Dias — O sr. chegou a ter alguma informação mais detalhada sobre o que ocorreu com o Twister? O brinquedo tem algum “calcanhar de Aquiles” que deveria ser verificado com mais atenção, inclusive em ter­mos de segurança e manutenção?
Quando nós reformamos esse brinquedo no parque [o Twister já era patrimônio do Mutirama desde 1997], fizemos todos os testes necessários. Na verdade, o procedimento é muito diferente do que as pessoas imaginam, essa reforma não é chegar lá, pegar o brinquedo, pintar e dizer que está reformado: ao contrário do que pensa o senso comum, o brinquedo é todo desmontado, fotografado e, depois de se fazer uma análise pela equipe de manutenção, aí sim é iniciada um processo de re­forma. São feitos en­saios para as pe­ças que precisam desse teste e quem determina isso é o engenheiro mecânico, o engenheiro elétrico ou o engenheiro da especialidade que estiver envolvida.

A segunda parte é feita a partir da remontagem do equipamento. O aparelho é ligado e são feitos testes sem nada, depois com sacos de areia, depois com as pessoas que fizeram a montagem. Então, o engenheiro de segurança faz o laudo do brinquedo — e ele só faz isso após tudo estiver ok — e então o equipamento é tido por nós como “comissionado”, o que significa que ele poderá ser usado em “soft open”, ou seja, se dá sua abertura para um conjunto de pessoas ainda sem sentido comercial. Isso faz parte, inclusive, da parte de treinamento da mão de obra; não se recebem 500 pessoas convidadas de uma vez, mas se faz um uso de forma moderada e controlada.

Agora em relação direta com sua pergunta, um perito foi muito feliz em um comentário que fez. Ele disse que primeiramente seria necessário saber se o rompimento do eixo do brinquedo foi causa ou consequência, porque pode ser, por exemplo, um travamento de rolamento, um motor fora de sincronia ou outro fator que teria provocado, naquele momento, a ruptura do eixo — o que eventualmente não aconteceria se fosse detectado pela manutenção periódica.

Elder Dias — Mas se diz que uma quebra assim não se dá por uma causa apenas.
Dificilmente acontece algo assim por uma única razão. No Brasil, eu desconheço que exista alguma empresa especializada em inspeção de brinquedos de parque de diversões depois de acidentes, mas o que as empresas internacionais fazem depois de um acidente, além da óbvia visita ao aparelho, não tem uma relação exatamente com a peça que quebrou ou com a pessoa que se acidentou: tem a ver com os métodos empregados para fazer a gestão, a operação e a manutenção como um todo. Então, vão perguntar: quem são os funcionários da manutenção? Quantos são? Qual a qualificação deles? Então, fazem uma análise para determinar se a quantidade de técnicos é compatível com a quantidade de brinquedos, de modo a permitir que haja a inspeção diária necessária antes da abertura do parque.

Ou seja, para um parque funcionar bem durante o dia, são necessários talvez dois ou três mecânicos; mas, para abrir às 10 horas com 30 brinquedos para uso dos frequentadores, é preciso que às 7 horas da manhã tenha uma equipe proporcional que dê suporte para uma inspeção adequada.

Elder Dias — Essa empresa especializada seria necessária?
É o ideal, porque seguem uma metodologia para vistoriar corretamente o trabalho de manutenção, verificar a compatibilidade do quadro de pessoal, sua capacidade de discernir os problemas, a orientação que esse pessoal recebe, as regras que obedecem, as providências que tomam. Depois, vão observar quantos funcionários trabalham na operação de cada brinquedo e ver se quem aperta o “start” é o mesmo que recebe as pessoas na catraca, ou observar se quem fica de substituto no horário do almoço é capacitado a exercer a função. Esse tipo de detalhe em relação à operação é essencial para entender todo o processo de funcionamento e o que pode ter ou não favorecido um eventual incidente. Aparentemente isso pode não ser o caso do Twister, mas pode ser o caso de outras atrações. De repente, o funcionário está sozinho na catraca e não vê alguém pulando a cerca e entrando no circuito do brinquedo.

Elder Dias — Por quanto tempo exa­tamente o sr. ficou à frente do tra­balho de funcionamento do parque?
Fiz o acompanhamento desde a inauguração até o começo de outubro de 2012, então, cerca de três meses.

Elder Dias — E quantas pessoas o sr. tinha para esse trabalho diário?
Para lhe dar o número correto, eu precisaria acessar as planilhas para me recordar. Mas posso garantir, com absoluta convicção, que tínhamos um quadro compatível com essa necessidade que eu relatei. Na época, no caso de um brinquedo em que tivesse sido detectada qualquer anormalidade, por menor que fosse, a primeira providência que tomávamos era colocar uma placa na porta do parque avisando aos usuários de que aquela determinada atração não estava disponível. Isso ficava mantido até cumprida a inspeção necessária e, se fosse o caso, a manutenção devida. Assim, quem comprava o ingresso saberia, antes de adentrar, que aquele brinquedo não poderia ser utilizado.

Tínhamos uma equipe multidisciplinar, de artista plástico até engenheiro de toda especialidade necessária, além de mecânicos, eletricistas, além de encarregados, oficiais, suboficiais e auxiliares, em cada uma das áreas.

Elder Dias — Isso depois do início da operação do parque?
Sim. Quem trabalhou conosco durante o período de execução do contrato da reforma acabou sendo contratado e ficou no parque — hoje não saberia dizer se ainda estão. O que posso dizer é que tinham uma participação importante posterior à saída de nossa empresa do Mutirama.

Elder Dias — Que informações chegaram até você sobre a quebra do brinquedo?
O que eu vi foi por fotos e vídeos. Boatos à parte, baseando-me somente no que disse o perito, o que se sabe é que o eixo dele apresentava uma fissura, mas que não daria para determinar somente a partir disso que essa fissura seria causa ou consequência do acidente. Não sou engenheiro mecânico, mas digamos que eu estivesse à frente de um caso como esse: eu chamaria o engenheiro e pediria para que fizesse uma análise. Ele provavelmente diria que seria necessário levar para um laboratório e examinar. Ou seja, meu papel seria exatamente o que a polícia está fazendo, com uma diferença: o perito que concedeu a entrevista é um engenheiro e eu, não.

Elder Dias — Mas essa fissura no eixo, de qualquer forma, não poderia ter acontecido…
Precisaria saber, antes, se isso seria causa ou consequência. A fissura, em si, não significa que o eixo fosse partir, mas que estava sofrendo danos. Para saber o estado de uma peça como esse eixo, é preciso fazer exames que têm uma periodicidade exigida por normas. A partir desses exames poderiam ser detectadas anormalidades na peça, como essa fissura.

Elder Dias — E qual seria essa periodicidade exigida?
A validade de um laudo para um ensaio assim é de doze meses. Porém, o laudo de segurança operacional do brinquedo — é preciso não confundir — tem validade de seis meses. Ou seja, a cada seis meses o engenheiro responsável é obrigado a dar o laudo de todos os brinquedos. Isso não é necessariamente o papel do responsável técnico do parque, já que ele pode contratar um terceiro para fazer um laudo de segurança de um determinado brinquedo que ele não domine.

Alexandre Parrode — A compra de brinquedos usados é algo peculiar ao Mutirama ou ocorre também em outros parques de diversões?
Pelo contrário, a compra de brinquedos usados é lugar comum no ramo dos parques de diversões no Brasil. E tem uma razão de ser: aqui não se fabrica brinquedos, então é necessário importá-los. E, para importar, por questão de legislação, o custo para isso é altíssimo — o que se torna mais um motivo para que o mercado do setor não se desenvolva a contento.

O custo de um equipamento novo é muito alto. Imagine: uma montanha-russa que se adquira por 3 milhões de euros saindo da fábrica, para chegar ao Brasil — entre seguro, impostos transporte marítimo e fretes marítimo e terrestre etc. —, tem seu custo elevado entre 87% e 91% de seu valor. Ou seja, praticamente dobra de valor. Só que tem uma questão ainda: ela só chegou ao parque, ainda será preciso instalá-la. E o custo de instalação pode chegar até 40% de seu valor de fábrica. Ou seja, são 3 milhões da compra, mais quase 3 milhões até chegar ao parque e mais até 1,2 milhão para instalação. Ou seja, mais de 7 milhões de euros para um brinquedo que originalmente custaria 3 milhões.

Alexandre Parrode — Ou seja, isso torna praticamente inviável importar…
Estamos falando de um brinquedo novo. Por quê? Porque é proibida por lei a importação de brinquedos usados. Isso nos prejudica muito, porque só um grande parque teria condição de ter uma filial no exterior, comprá-lo por lá, reformá-lo por lá e trazê-lo como transferência de ativos e não como importação. Isso, obviamente, é algo que não se aplica ao poder público.
Surge então a suposição de que governos não pagariam impostos de importação. Pagam sim, prefeitura paga, governo estadual paga e isenções e reduções são dificílimas de se obter e levam anos até isso. Muitas vezes, vemos um hospital sem aparelho de tomografia e não é porque não licitaram, mas porque não se consegue comprá-lo. No caso do fabricante de brinquedos para parques — equipamentos como rodas-gigantes, montanhas-russas, de um porte maior, ou até mesmo um carrossel —, se alguém pede preços a ele e acerta a compra, ele diz: “Entrego em seis meses”. Esse é o prazo mínimo. Uma montanha-russa demora até dois anos para ser fabricada e isso só sob encomenda. Outro detalhe: ela só sai da fábrica depois de paga. Como uma empresa assim vai participar de uma licitação no Brasil? Não tem como, o “modus operandi” é completamente diferente.

Alexandre Parrode — Não tem previsão na Lei de Licitações para esse tipo de transação?
Eu desconheço. Em uma licitação para um parque de diversões público, creio que a prefeitura ou o governo teria primeiro de receber o produto para depois pagar.

Alexandre Parrode — O que é a lógica da Lei de Licitações.
Sim, creio que valha para tudo, ainda que haja exceções. Por exemplo, a indústria da aviação só libera aeronaves depois de pagas, então como a FAB [Força Aérea Brasileira] deve fazer para adquiri-las? Eu não sei, mas deve ter como.

Alexandre Parrode — Existe no Brasil alguma legislação específica para parques de diversões, em especial, para garantir a segurança dos brinquedos?
Existem normas da ABNT [Associação Brasileira de Normas Técnicas] para parques de diversões. À época que o Mutirama foi reformado, essas normas ainda não tinham entrado em vigor. Porém, elas já foram empregadas por nossa empresa, porque eu e outra pessoa da equipe participamos do grupo de trabalho que elaborou essas normas. Por isso, já tínhamos conhecimento do que deveria ser feito e como deveria ser feito. Não tivemos dificuldade por conta disso. Mas vou além: se o bom senso prevalecer, nem precisa ter normas.

Alexandre Parrode — Mas, indo além também, o que há de legislação sobre compra, venda e transações dentro do País? Existe algum tipo de regulamentação para determinar em que estado um brinquedo pode ou não ser comercializado?
Eu desconheço. Mas, veja bem: a crítica toda sobre se é apropriado ou não comprar brinquedos usados se refere ao Mutirama. Eu até entendo, porque em Goiás não havia tido alguma transação do tipo que eu soubesse — agora descobri que o Twister e outros brinquedos já eram usados quando foram comprados pela Prefeitura de Goiânia. Ocorre também que o governo de Goiás, depois do caso do Mutirama, fez uma licitação para um parque em Posse, no Nordeste goiano, com previsão de compra de brinquedos usados. Outro detalhe da mesma licitação é que não estão permitindo a aquisição de equipamentos de origem chinesa por conta da baixa qualidade dos produtos em relação ao que é reconhecido internacionalmente.

“Denúncia foi baseada em valor achado na internet”

Elder Dias — E a acusação de superfaturamento na compra dos brinquedos para a reforma do parque, por parte do vereador Elias Vaz (PSB), na época, salvo engano, foi feita com base em uma planilha de itens fabricados na China — inclusive a polêmica montanha-russa.
Sim. Os preços apresentados em juízo foram obtidos via internet por um terceiro, uma empresa de Goiânia, cujo responsável dizia ser um vendedor de brinquedos de parque. Só que nunca antes nem depois ele comprou nem vendeu algo de parque de diversões. E já faz cinco ou seis anos de curso dessa ação, mas esse cidadão nunca mais entrou no mercado. Para mim, isso foi encomendado por alguém e ele acessou um site na internet, tomou preços aleatoriamente, imprimiu tudo o que achou de brinquedos — incluindo muitos que sequer foram requeridos para o Mutirama. É uma “trading”, não um fabricante. A condição era tal que o site [alibaba.com] exigia, como condição de negócio, 30% no cartão de crédito e o restante quando da entrega. Eu desconheço que o governo possa comprar nesses termos (irônico) e também não entendo por que tal empresa não participou da licitação, já que dispunha dessas condições.

Na verdade, uma vez esse mesmo sujeito também me procurou no parque, para me oferecer uma montanha-russa que custaria de US$ 500 mil a US$ 700 mil, vinda da China. Puxei algumas informações e então perguntei como era isso. Ele me disse: “Você fornece o projeto e eles constroem”. Eu disse, “espera, eu não tenho um projeto de montanha-russa, isso não existe, há toda uma indústria de design e de engenharia avançada para fazer isso.” E questionei: “Mas eles não têm os projetos deles?”. E o sujeito me respondeu “não, eles são um estaleiro”. Um tanto perplexo, eu ainda o questionei novamente para saber se era isso mesmo. Com a nova resposta afirmativa eu disse “então, esquece, não quero”.

Alexandre Parrode — Como esse mercado de brinquedos funciona de fato no Brasil?
Quem é administrador de parque sabe quem são os fabricantes. Como parques não se contabilizam aquele cujo carrossel foi feito em casa e uma roda-gigante na serralheria da esquina. Um parque pode ser outdoor, como são o Mutirama, o Park do Gorilão, em Ribeirão Preto (SP), o Mirabilandia Park, em Recife e o Beto Carreiro [em Penha (SC)] e o Hopi Hari; e pode ser indoor, como essas áreas de lazer de shopping centers, que não deixam de ser parques, mas internos. Os donos de parques — e não são muitos — têm uma associação. Eles se conhecem, cada um sabe que brinquedo o outro tem, não é um mercado de cem empresas, é um mercado pequeno. Então, o empresário sabe que o outro tem tal brinquedo, comprado de tal pessoa, que comprou daquela outra e o fabricante é “x”.

Passei pela experiência de pedir preço para montanha-russa e roda-gigante, não faz muito tempo, em um novo trabalho. A dificuldade é muito grande, pois o fornecedor quer saber para que parque vai, por que se quer uma montanha-russa desse tamanho, e fala que terá um novo lançamento de modelo e que o prazo é de dois anos. Isso se você for conhecido do mercado, porque, se não for, ele sequer responde.

Alexandre Parrode — E esse mercado está se desenvolvendo?
Não, está estagnado e não está se desenvolvendo no Brasil, pela própria situação econômica do País, o que afeta diretamente a indústria do lazer mais do que outras — a indústria de alimentos, numa crise, vai sofrer muito menos do que a de parques de diversões.

É bom lembrar que todos os grandes parques, aqueles com visitação anual de milhões de pessoas, estão todos situados no hemisfério norte. No hemisfério sul não há nenhum grande parque de diversões. O Brasil recebe 6,5 milhões de turistas por ano; só um parque da Disney tem mais do que isso. Outra questão é cultural: o brasileiro vai ocasionalmente a um parque, mas não duas vezes no ano. Já os Estados Unidos vendem, por ano, 300 milhões de tíquetes de ingressos para parques.

Sobre brinquedos velhos, basta dizer que a roda-gigante de Viena é de 1897. O carrossel da Disneylândia, o mais valioso do mundo, foi fabricado por volta de 1920 e estava parado até ser comprado – usado, obviamente – no início da década de 50”

Elder Dias — O que temos de visitação em parques de diversões no Brasil poderia ser maior? E esse baixo número de visitação tem a ver com o medo ou a insegurança no uso?
Não creio que tenha a ver. Isso procede mais do estudo da viabilidade econômica, que não fecha. O Mutirama, se for para a iniciativa privada imaginando que manterá o padrão de preços populares que tem hoje, não terá viabilidade econômica, pois não cobre os custos de manutenção e operação. Ocorre que, se subir os preços, não haverá volume de público.

Alexandre Parrode — O que temos de informação é que o Mutirama seria superavitário. Isso procede?
A Prefeitura paga a folha do Mutirama. Então, se é dessa forma, o que se fatura na bilheteria vira lucro. Porém, se for para a ponta do lápis os gastos com o quadro adequado de pessoal — até porque não sei o quadro com que estão trabalhando hoje. A previsão que eu tinha para o quadro para manutenção do Mutirama seria de 27 funcionários, o que não conta apenas quem está diretamente relacionado com a manutenção dos brinquedos, mas também um encanador, marceneiro etc. Isso sem contar o quadro operacional, que englobaria porteiro, faxineiro, zelador, motorista e outros.

Quando entregamos o Mu­tirama, não fizemos isso, dissemos “se virem” e viramos as costas. Fizemos a entrega com um projeto de operação, de modo que mostramos como poderia ser feito para que o parque fosse bem-sucedido. O “lucro” do Mutirama, da forma como eu entendi desde sempre, era o ganho social, a perspectiva de proporcionar lazer a pessoas de todas as classes sociais. Isso foi objeto de muitas discussões a respeito do valor do ingresso.

Na época em que o parque está para abrir, o prefeito Paulo Garcia me chamou para uma reunião com um punhado de secretários e me perguntou qual era o valor comercial do ingresso do parque? Eu respondi quando havia cobrado o parque que tinha se instalado ao lado do Shopping Flamboyant [Ita Park]. “Foi 60 reais para adultos e 30 reais para crianças”. Eu respondi “é isso, então”. Quase apanhei, porque ficaram estarrecidos com o valor. Eu tive de completar dizendo que não estava dizendo que aquele era o valor que deveria ser cobrado, mas queria dizer que, se for para colocar o valor comercial, é um parque que não teria público.
Todo estudo de viabilidade econômica para um parque de diversões leva em consideração um raio de 80 quilômetros do local, no máximo. Aí está o público que se consegue levar. Acima disso, são faixas muito pequenas.

Alexandre Parrode — Um vereador [Lucas Kitão, do PSL] está com a proposta de privatizar o parque. É viável?
Pode ser, mas em termos. Quando estive em Goiânia, a Prefeitura não tinha legislação para PPPs [parcerias público-privadas], mas desde 2015 parece que há. Essa legislação prevê que seja formado um conselho para apreciar os diversos pedidos. Há várias formas de gestão — concessão, outorga, PPP etc. Estou neste momento fazendo um estudo para a Prefeitura de São Paulo sobre dois parques urbanos em que todas as possibilidades ainda estão em aberto. A viabilidade econômica é um dos aspectos. No caso do Mutirama, ele não é viável economicamente, em termos de lucro.

Fantasiou-se muito em relação ao dinheiro que foi desviado das bilheterias do parque. Não sei cifras, mas o fato de que esse dinheiro não seja mais “roubável” não quer dizer que aquilo que se arrecada agora cubra os custos. São duas coisas diferentes. Se, por exemplo, só têm 30 brinquedos, é preciso ter de operar com 69 pessoas, porque as pessoas têm de almoçar, tirar férias, há as gestantes também. Ou seja, há um “turnover” no quadro de pessoal muito grande, ele tem de ser maior do que aquilo que vai se utilizar diretamente, até pelo que prevê a legislação trabalhista. Nós previmos que o parque fecharia para manutenção às segundas-feiras, mas, veja, era preciso fazer uma escala de folga para os domingos, já que a lei prevê pelo menos um descanso neste dia por mês.

Além de tudo, a quantificação do pessoal se faz necessária pelos critérios de segurança para o brinquedo. E a cada acidente se aprende. Em função de um acidente no Hopi Hari, em 2012, resolvemos que a torre que estava sendo montada no Mutirama precisava ter, além do sistema de trava do assento, também um sensor no cinto de segurança, de modo que o brinquedo não funcionasse caso ele não estivesse devidamente fechado. Ou seja, depois do acidente no Hopi Hari, o Mutirama foi o primeiro parque a ser entregue já com esse acréscimo. Também daquele acidente veio outra lição: é que um dos funcionários envolvido alegou que não tinha recebido treinamento; o que fizemos, então, foi fazer o treinamento como parte do processo de seleção do pessoal operacional. Se nesse treinamento a pessoa já apresentasse sinais de que não conseguiria acompanhar nossa expectativa, já era dispensava. Por outro lado, quem concluía o curso, assinava um termo declarando que tinha feito a capacitação e que se encontrava apta a operar os brinquedos.

Alexandre Parrode — Então, a privatização do Mutirama pode ser uma saída, mas apenas em parte?
Sim, mas o que essa privatização não vai fazer é desonerar a Prefeitura dos custos que hoje ela assume. Dentro do patamar de preços com que se cobra e do volume de frequentadores que se tem hoje, não é uma operação economicamente interessante. Então, seria necessário se estudar uma PPP em que a Prefeitura faria um aporte de recursos, como se faz com concessões de linhas de ônibus urbano, em que se remunera por passageiros.

Mas algumas questões que me vêm à cabeça: a Prefeitura teria hoje como fazer a fiscalização da operação, nesse caso? Teria como avaliar se o atendimento do funcionário estaria de acordo com o que se espera? A propósito, algo que me chamou muito a atenção durante o período em que estive à frente do parque foi que o perfil do operador goiano era afável, simpático, fácil de trabalhar. Era naturalmente cordial com o público, sem aquele jeito sisudo, duro ou de pouco caso. Era gostoso de ver como lidavam com as crianças, com as senhoras, com as pessoas em geral. E isso faz parte da qualidade do serviço, certamente.

Elder Dias — A reforma do Mutirama foi judicializada ainda em 2011, pelo Ministério Público. Como está hoje essa ação?
A ação foi movida em 2011 e apresentamos a defesa prévia. Em três ocasiões diferentes, houve pedidos de liminar para suspender a execução do contrato. No terceiro, já em fevereiro de 2012, o dr. Fabiano [Abel de Aragão, da 2ª Vara da Fazenda Pública Municipal] resolveu acatar o pedido, suspendendo a execução, mas, em vista de um pedido de reconsideração por parte da Prefeitura e concluindo que não fazia sentido deixar de terminar a reforma, já que só faltavam 10% da obra, concordou em liberar desde que eu não recebesse o que faltava.

Fiquei, então, na seguinte situação: ou vou até o fim e entrego para ficar com crédito para receber o que me era devido ou não entrego e fico sem receber nada, quebrado, no meio do caminho. Hoje, passados todos esses anos, eu não sei se tomaria a mesma decisão [terminar a obra sem receber], talvez eu fizesse de forma diferente. A última movimentação do processo, que os advogados comentaram comigo, foi de que uma das partes não estava adequadamente representada no processo e que, entre o pedido para fazer essa representação e ela acontecer passaram-se oito meses. Agora há outro pedido, de uma das partes — que não sou eu —, para ser nomeado um perito que faça um laudo comparativo entre o que foi comprado na época e o preço de mercado do que foi comprado, para mostrar que não houve superfaturamento nem sobrepreço.

Talvez originalmente quem começou com essa acusação a tenha feito de forma mal fundamentada. Mas, como aí entra a política no meio, não tem então como esse alguém dizer “eu errei”; tem de ir até o final gritando “foi superfaturado!”, mas, na verdade, não foi, não houve isso.

Elder Dias — A imagem de sua empresa, a Astri, ficou prejudicada para outros negócios?
Muito, porque há um espaço que a mídia concede para o ataque. É sempre mais cômodo assim, porque no Brasil virou algo comum dizer que político é corrupto e empresário que trabalha para governo é bandido. Ou seja, me conceituam dessa forma como se eu tivesse uma dessas empreiteiras, e eu não tenho! (enfático) Então, isso acabou, sim afetando a imagem da empresa, apesar de que isso não é tão grave quanto a sazonalidade de negócios. Demoram-se anos entre um projeto de parque e outro.

Só que usaram certas coisas para fundamentar a acusação que vão contra ela própria. Por exemplo: por um lado, disseram que o edital de licitação teria de ter divulgação mais ampla, em jornal de maior circulação, para que participasse uma maior quantidade de empresas; por outro lado, criticam que minha empresa tinha um capital baixo e que não foi exigido um capital mais alto para participar da licitação. Para mim, o que vale é o que está no edital. E o edital em questão não exigia um capital mínimo. Abri a empresa e deixei aquele montante porque não via necessidade de colocar um capital elevado; afinal, eu não dependia do capital de terceiros. Não peguei dinheiro emprestado para fazer a obra, até porque dinheiro de banco era muito caro para custear uma operação desse tipo. Tudo o que fiz foi com dinheiro próprio. Ah, o capital era muito baixo? Era, e continua.

Esse tipo de coisa fundamenta a denúncia é dita como uma insinuação com determinada finalidade, mas não reflete a realidade. Estamos cansados de ver licitações em que o próprio governo estimula a formação de consórcios que são feitos na semana em que vai ocorrer o processo licitatório. Então, se minha empresa foi aberta seis meses antes, qual o problema? Estou no ramo há mais de 35 anos. As pessoas com quem negociei para comprar os equipamentos para o parque não venderam a mercadoria para uma empresa nova ou antiga; venderam porque era eu, Adilson, quem estava comprando. Porque, como eu já disse, o pessoal do mercado se conhece e sabe quem é quem.

Elder Dias — O contrato para a reforma do Mutirama era de cerca de R$ 29 milhões. O que o sr. recebeu desse montante?
Temos de levar em conta a correção monetária em relação a esse valor. Parte dela foi paga e parte tem de ser discutida porque a fórmula de cálculo pela Controla­doria-Geral [do Município] não é compatível com o que um perito contador que contratei para fazer uma análise do que eu teria ainda por receber. Sei que a Prefeitura fez um depósito em juízo no valor de R$ 3,33 milhões em fevereiro de 2013 e estou esperando para receber esse dinheiro até hoje.

Quando se fala em viabilidade econômica de parques, é bom saber que um estabelecimento assim tem como média, ao longo de 20 anos, 5% de seu investimento gastos com manutenção. Isso, em 2012, representaria uma despesa média mensal de R$ 125 mil. Podem dizer que nos primeiros meses não teria por que gastar essa quantia; sim, mas no terceiro ano provavelmente se gastaria mais do que os R$ 125 mil. Isso permite até saber se está sendo feita uma manutenção adequada ou não. Nos meses de julho a setembro de 2012, a Prefeitura não tinha recursos para manter o compromisso do parque em operação. Eu paguei do meu bolso as despesas aquilo que era de consumo do parque durante esse período e entrei com o pedido de indenização em dezembro de 2012. Mas não recebi até agora. São R$ 267 mil.

Elder Dias — Isso não tem nada a ver com o contrato da reforma?
Não, isso era da operação. Disseram “você não pode deixar o parque parar e não queremos ter problema com manutenção”. À época, ocorreram dois incidentes. Um deles foi a parada do carrinho da montanha-russa, que foi absolutamente inusual. Ele ficou preso na última subida do equipamento. Então, fomos lá tirar os rapazes que estavam nele. Pus três engenheiros e a equipe de manutenção para fazer a retirada do carrinho. Poderia ter chamado os bombeiros para fazer a retirada das pessoas, o que seria feito subindo e descendo com cordas.

Preferimos fazer o carrinho voltar a circular no circuito, porque depois de vencer o final da subida pararia na plataforma, por gravidade. Mas alguém chamou os bombeiros e viram como estávamos resolvendo e eu lhes disse que iria demorar. Eles foram embora, mas já haviam acionado a imprensa, que chegou e questionou por que os bombeiros não estavam lá. Os bombeiros voltaram, então, mas nesse meio tempo as pessoas que estavam no carrinho foram resgatadas, depois de o veículo seguir o percurso até o fim. Todos maiores de idade, então todo mundo foi para casa. O que observamos na análise do ocorrido foi que, como todo o sistema de mecanismo de rodagem do carrinho era novo, uma das rodas de nylon estava friccionando com mais atrito, o que acabava por funcionar como um freio e o fez parar na subida. Fizemos o ajuste na roda e não aconteceu nada nunca mais. Falam que a montanha-russa é velha, mas justamente a parte nova foi a que deu problema.

Sobre brinquedos velhos, basta dizer que a roda-gigante de Viena é de 1897. O carrossel da Disneylândia, que é o mais valioso do mundo, foi fabricado por volta de 1920 ou algo assim e estava parado até ser comprado – usado, obviamente – no início da década de 50. Eles o reformaram totalmente e agora pergunte a alguém por lá se a Disney pelo menos cogita em vendê-lo. Cada cavalinho daquele carrossel é avaliado em US$ 100 mil. Muitas vezes, ser velho é a própria atração.

Indo para o outro episódio de incidente, faltou energia elétrica por parte da Celg e tivemos de tirar quem estava na roda-gigante a girando com a mão. Esse equipamento é usado em feiras e é operado com geradores; então, se o gerador tem uma pane, é preciso ter uma técnica para tirar as pessoas da roda-gigante. Nós tínhamos essa técnica e a repassamos aos operadores; quando foi necessário, fizemos isso. Fo­mos acompanhados pelo Corpo de Bombeiros e eles acharam que era simplesmente tirar os ocupantes gôndola por gôndola, mas não é bem assim: é um processo muito mais demorado, porque é pre­ciso tirar quem está na plataforma e girar meia volta para pegar quem estava no extremo oposto, para que seja possível se­gurar na mão o peso da roda-gi­gante. Ou seja, é um processo fei­tos aos poucos, demorado e chato. Mas só foi feito assim porque a Prefeitura, na época, não dis­punha do gerador que recomendamos que fosse comprado para colocar à disposição do brinquedo. No total, pedimos cinco geradores para essa e outras atrações em que a falta de energia pudesse causar qualquer desconforto. Infelizmente, aconteceu.

Elder Dias — Esses geradores também não estavam no contrato original?
No edital, como nossa obrigação de fornecimento, não. Poderia até ter sido aditivado ao contrato, mas eu não quis, porque não fazia sentido eu comprar um gerador para repassar. Mas nós recomendamos essa medida no projeto de funcionamento do parque. O que teve de aditivo no contrato da Astri com a Prefeitura foi a linha do trem. Quando fizemos uma análise da condição da linha férrea que já existia originalmente [em que circulava o antigo Trenzinho do Mutirama], a recomendação técnica foi para substituir todos os trilhos. Outra questão foram as duas passarelas sobre a linha do trem, ligando as três áreas do parque, que optamos por recomendar à Prefeitura para minimizar o cruzamento da linha férrea por parte das pessoas. Foi isso apenas o que houve de aditivos, o que deve ter representado, à época, algo em torno de 7% do valor do contrato. Como era uma reforma, é normal que se haja até 50% de aditivos. Nós não fizemos isso.

Adilson Capel com o repórter Elder Dias, em 2012: “Pus meu patrimônio na obra e dinheiro dela eu não vi ainda” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Elder Dias — O que o sr. de fato ganhou, financeiramente, com a operação Mutirama até o momento?
(silêncio por alguns segundos) O que eu ganhei até agora?

Elder Dias — Sim, o que está em sua conta bancária, ou na conta da empresa Astri, e que entrou por conta da reforma do Mutirama.
De verdade mesmo, na realidade? Só dor de cabeça. Dinheiro eu não vi ainda. O dinheiro que eu tinha, como meu patrimônio, eu coloquei para fazer andar a reforma do parque e cumprir os compromissos. Acabei meu trabalho e o patrimônio que eu tenho hoje é menor do que o que tinha em 2010, antes de ganhar a licitação. Tenho um patrimônio menor e estou em uma situação financeira que, para ser delicado, é extremamente precária.

Elder Dias — E isso é reflexo direto da judicialização do processo da reforma
Independentemente do que possa ser discutido ainda em termos de correção monetária e do que possa ser discutido em termos de processo administrativo, do que há para receber, sem dúvida o depósito estar em juízo me impede de sobreviver nas condições de que eu necessitaria hoje.

Elder Dias — Hoje o sr. faria novamente uma obra como a do Mutirama?
(silêncio por alguns segundos) Sim, faria. Mas em condições diferentes. Se você me perguntar se eu fiz algo que eu não gostei, eu fiz, sim. E não foi reforma de brinquedo, mas uma atração que não teve sucesso, que foi a sala Goiânia Século 21, com um sistema de jogos para crianças. Teve pouca adesão e tempos depois de eu sair de Goiânia, sumiram muitas peças da atração. Então, a desmobilizaram e a transformaram em um salão de festas. É uma frustração que eu tenho. Outra é que foi discutido e decidido por uma equipe de experts que a Casa Mal-As­sombrada [antigo Trem Fantasma] fosse de suspense e não de terror. Eu me arrependi, porque meu instinto dizia para eu fazer terror, para a pessoa, ao sair do carrinho, correr de medo pelo parque (risos). O Palácio de Alhambra, outra atração do parque, tem um valor percebido várias vezes maior do que o que foi gasto realmente.

Elder Dias — E o que o sr. diz a respeito da polêmica montanha-russa, que falam até hoje sobre seus 40 anos de idade e sobre supostamente ter sido comprada em estado de sucata?
Gostaria que pegassem as fotos de quando chegou no parque essa montanha-russa que tanto se criticou por esses motivos. Foram necessárias oito carretas para trazê-la. Fizemos uma pré-montagem em um espaço de quadras anteriores para proceder a inspeção nela inteira. Depois, a desmontamos e a reformamos adequadamente. O que é uma reforma adequada? Melhorá-la em relação a como ela estaria se fosse nova. Instalamos um sistema de sensores de freios eletrônicos ao longo do trajeto, coisa que o fabricante nunca teria pensado em colocar.

Da mesma forma, a cabine de comando dela era totalmente nova, fabricada no parque mesmo. Falaram que eu era um mero revendedor de coisas, que eu só contratava pessoas. É verdade, eu contrato pessoas, empresas, serviços, contrato o que for preciso para fazer meu trabalho bem feito. Faço isso da mesma forma que acho que não devo me meter naquilo que não seja minha especialidade. Tinham partes que deveriam ser feitas por construtoras. O que eu não poderia fazer era ficar na mão de apenas uma delas. Então, contratamos três empresas diferentes para atuar conosco e não corrermos o risco de uma ter problemas de qualquer ordem e ficarmos sem ter a quem recorrer.

E o que foi feito, foi uma obra? Não, foi a instalação de um brinquedo. Só que brinquedo também precisa de obra. A montanha-russa instalada no Mutirama poderia ser usada em parques itinerantes, não precisaria de uma fundação. Nós fizemos a obra porque seria muito mais confortável trabalhar sobre uma plataforma de concreto do que na grama. Aí falam: mas a empresa que está instalando é construtora? Não, ela está instalando um brinquedo, mas, para isso, precisa do serviço da construtora.

Elder Dias — A questão da segurança em brinquedo velho é determinada somente pela manutenção?
Para você ter ideia, as montanhas-russas mais antigas em operação no mundo não são de metal, são de madeira. É interessante, porque as montanhas-russas só passaram a ser de metal para poder ser montadas e desmontadas em feiras e eventos. O metal estraga de dentro para fora, enquanto a madeira se desgasta primeiro na superfície. Então, a peça de madeira se sabe quando está estragando e já se troca a peça; o metal, não, quando vai se detectar o que houve de oxidação, se esperar já pode ser dada a peça como perdida.

Elder Dias — Daí a necessidade de fazer procedimentos além do olho nu, como o ultrassom e o raio-X.
Tem um ditado popular que precisa ser levado em conta nessa hora: “Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento”. Eu nunca me atrevi a dizer cada item a ser verificado num brinquedo; sempre contratei profissionais para fazer isso. E profissionais extremamente chatos. Por exemplo, quem fez o acompanhamento de nosso trabalho para que os brinquedos da reforma do Mutirama fossem laudados foi o engenheiro que foi gerente de manutenção do Playcenter, o melhor até hoje, em minha opinião. Ele acompanhou o trabalho e foi extremamente rigoroso em tudo. Tão rigoroso que pode se dar ao luxo de dizer que só trabalha em tal empresa, porque sabe que o que ele recomendar será acatado. Ou seja, ele mandou fazer, é para fazer. E foi esse o procedimento que adotamos, de acordo com o que ele falou.

Elder Dias — A que então o sr. credita tudo o que ocorreu à época — que chegou a praticamente uma demonização da obra do Mu­tirama — e que voltou à tona agora, com a quebra do brinquedo fazendo vítimas? É má informação ou má-fé?
Por um lado, a má informação deve ter sido a grande base de tudo; por outro, em processo que não tinha nada a ver com a gente ou com o Mutirama, surgiram gravações [material da Operação Monte Carlo] de vereador que falou com Cachoeira [Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, empresário acusado de comprar políticos para trabalhar por suas demandas] e coisas que foram parar em CPI no Con­gresso. Aí eu vi que a coisa sobre o Mutirama ia muito mais longe do que a simples má informação. Havia uma má intenção política ou uma má intenção comercial travestida de política.

Porém, o que vem agora, com essa quebra do brinquedo Twister, tentando ligar algo com aquela reforma, é realmente má informação. Eu cheguei a ver pela imprensa, com esse caso, uma autoridade dizer que o brinquedo era “uma sucata que veio de São Paulo para Goiânia e que empurraram para a gente numa reforma em 2012”. Pare, por favor, é uma grande bobagem. (enfático)

Como assim, nem começou a investigação do caso e já diagnosticaram que o problema era uma sucata que eu teria buscado em São Paulo? Isso não existe! Primeiramente, eu não levei nenhuma sucata e esse brinquedo já pertencia ao parque; mas, ainda que fosse eu quem o tivesse levado, não tem o menor sentido responsabilizar alguém pela manutenção de um equipamento assim cinco anos depois.

Outra pessoa que vi falando foi o presidente da Agetul [Agência Municipal de Turismo e Lazer, cujo presidente é Alexandre Magalhães]. Creio que ele não foi feliz ao declarar à imprensa que não tinha recebido até hoje o ensaio e os laudos da empresa que fez a reforma em 2012. Bom, ele não recebeu e também não vai receber, porque os laudos de segurança que emitimos eram de seis meses de operação, a garantia era de 12 meses e os ensaios têm validade de 12 meses também. Não faz sentido ele procurar meu laudo, de cinco anos atrás. Ele tem de procurar os laudos deste ano, do ano passado, de 2015, no máximo. Aí faria sentido, porque, como os laudos e ensaios vencem a cada 12 meses, é de se presumir que, se ele não teve como fazer o deste ano, por falta de tempo, que tenha disponíveis os do ano passado. Mas, querer saber de laudo de 2012? Eu não entendi. Para ter ideia, depois que a manutenção e operação saiu de nossa responsabilidade, já deveriam ter sido emitidos laudos por dez vezes.

Elder Dias — Como foi sua relação com o então prefeito Paulo Garcia (PT) durante a execução da reforma no Mutirama?
A licitação foi feita em março de 2010, no último mês daquela gestão do prefeito Iris Rezende (PMDB). Os dois tiveram um tratamento muito civilizado comigo, ambos foram íntegros o tempo todo, nunca pediram ou insinuaram qualquer solicitação que pudesse ser considerada inconveniente, ilegal, antiética, indelicada ou qualquer coisa parecida. O dr. Paulo poderia ter, por exemplo, me indicado um engenheiro para trabalhar comigo. Nada, em momento nenhum, nenhum tipo de interferência ou de qualquer pedido de interesse pessoal. A quem z algo assim, ou que fala ele não era um homem sério, eu posso responder: no que me toca, no trato comigo, ele foi absolutamente íntegro. Nosso ritmo de trabalho era diferente dos órgãos da Prefeitura, havia conflito às vezes, mas sempre acatei as determinações que ele me deu e ele sempre buscou ajudar nesse sentido. Administrativamente, também fluiu bem. A única questão que ficou pendente entre nós foi sobre essa questão específica da indenização que não foi paga, nada mais.

Conheci também o irmão do dr. Paulo, o “Pesado” [Altamir Garcia Edreira Júnior, que morreu em 2014], de quem me aproximei quando ele esteve internado em São Paulo. Conheci também sua mãe. No entanto, não era amigo íntimo, nem do dr. Paulo nem do “Pesado”. Nunca nos frequentamos socialmente, ele apenas ia à obra quando queria me ver. E as visitas eram interessantes: quando estava no auge do escândalo do Mutirama, chegavam apenas ele e seu chofer; quando a obra estava ficando pronta, passaram a ir comitivas o acompanhando à visita. l

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Segundo o código de defesa do consumidor, um vício vira defeito, que pose ser comprovado através de perícia técnica. Exemplo, recall das montadoras de veículos automotores, em que o problema do vício do produto, pode transformar em defeito contra o consumidor.

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