“José Eliton é o nome jovem que temos para reformular o Tempo Novo”

Novo presidente da Assembleia Legislativa destaca o crescimento do Estado com Marconi à frente e diz que vice-governador tem tudo para revitalizar o projeto da base aliada

Foto: André Costa/Jornal Opção

José Antônio Vitti diz claramente: “Eu dei muito mais do que recebi da política”. Até 2010, o empresário cuidava apenas de seus negócios, tradicionais em sua família. Seu pai, José Vitti, veio de Rio Claro (SP) para Goiás em 1973, convidado pelo então governador Leonino Caiado, para produzir calcário, o que já fazia em São Paulo. Em uma das vindas, conheceu Marilda Arruda e se casou. Ficou definitivamente no Estado.

Ligado ao sindicato do ramo da mineração e diretor da Fieg, o herdeiro José Vitti resolveu se candidatar a deputado estadual, com apenas 33 anos. Teve 35.095 votos pelo PRTB e assim foi eleito para seu primeiro mandato. Depois de uma passagem rápida pelo DEM, foi convidado pelo governador Marconi Perillo para o PSDB, partido pelo qual disputou a bem-sucedida reeleição, alcançando 43.867 votos.

Escolhido líder do governo em 2015, diz ter vivido a fase de maior aprendizado de sua vida. Agora, como novo presidente da Assembleia, José Vitti encara o cargo como “o maior desafio” de sua vida. Depois de uma fase em que confessou ter desanimado com a política, se mostra disposto a cerrar fileiras para eleger José Eliton à sucessão de Marconi, concluindo que o vice-governador é suficientemente jovem e experiente para dar uma guinada no projeto da base aliada.

Graduado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Vitti é bisneto de uma austríaca com um italiano, mas se considera um “goiano do pé rachado”, apesar do sobrenome — sua família tem origem na cidade de Trento, ao norte da Itália.

Cezar Santos — O sr. integrou recente missão comercial comandada pelo governador Marconi Perillo (PSDB) ao Oriente Médio. Como empresário, o sr. acabou tendo um protagonismo não usual em se tratando de chefes do Legislativo. Qual o balanço da missão e como foi essa atuação?
Foi uma missão extremamente proveitosa. Pudemos conhecer países muito diferentes do nosso, de cultura extremamente fechada. Chamou-nos a atenção o quanto nós podemos abrir aquele mercado. Eles são muito fechados, mas a partir do momento que te conhecem, se abrem, querem te levar para dentro da casa deles. Mesmo sendo empresário e já ter conhecido alguns países desenvolvidos, fiquei impressionado com as riquezas lá. Mas é um lugar onde só tem areia e petróleo. Isso gerou muito dinheiro, por isso eles compraram as maiores empresas de diversos segmentos do mundo e têm muito recursos para investir.
Os árabes são muito pragmáticos, querem saber o que nós temos para oferecer, quanto custa e quanto isso vai dar de retorno. Goiás chamou a atenção deles porque somos uma fronteira agrícola, ao passo que eles não conseguem plantar nada, todo alimento tem de ser comprado de outros países. Eles ficaram muito atentos quando mostramos as potencialidades do nosso Estado e, nesse ponto, quero destacar o trabalho do governador Marconi Perillo. Ele tem por característica natural agir para que Goiás possa ser conhecido e deixe de ser um Estado eminentemente voltado ao agronegócio, atraindo grandes empresas de medicamentos, automobilísticas, e multinacionais do ramo de minérios. Goiás se tornou a terceira maior província mineral do País porque o governador conseguiu atrair grandes empresas multinacionais para investir aqui. Graças à política de incentivo fiscal, política jurídica consistente, uma relação clara e aberta com os que estão vindo para o Estado. Isso gera uma dinâmica boa, quem vem primeiro informar a outros que é bom se instalar em Goiás. Saber “vender” o Estado é uma das principais características do governador.

Nessa vertente, Marconi tem ousadia. Eu fiquei surpreso ao saber que ele foi o primeiro governador de um Estado brasileiro a ir à Arábia Saudita para mostrar seu Estado, o que pode ser confirmado no registro da embaixada brasileira.

Cezar Santos — Consta que o embaixador brasileiro na Arábia Saudita, Alberto Luiz Pinto Coelho Fonseca, fez elogios ao trabalho da comitiva…
Sim, ele ficou impressionado com a desenvoltura do governador. E o embaixador só conheceu o príncipe porque Marconi foi convidado para jantar com o príncipe da família regente dos Emi­rados Árabes. O governador, por sua vez convidou o embaixador, que não conhecia a família real.

Quanto ao meu papel na comitiva, não porque eu seja diferente dos demais presidentes do Legislativo, mas é que sou empresário e naturalmente curioso. Estive ali representando o nosso Poder, mas ao mesmo tempo fiquei atento ao que isso poderia gerar de oportunidades. Sou presidente de sindicato [das Indústrias de Calcário, Cal e Derivados do Estado de Goiás, Tocantins e Distrito Federal (Sincal)], diretor da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), recebi em Goiás muitas missões de outros países, já fui em muitas fora do Brasil. Então, naturalmente eu pude contribuir às vezes em uma explanação do próprio governador, repassar dados que eu tinha em mente. E também pelo fato de ter sido por dois anos líder do governo na Assembleia, todo projeto passou em minhas mãos. Sempre curioso, eu estudei os projetos. Daí, certamente, pude ter um papel mais ativo na missão, acho que por ter esse viés de empresário.

Elder Dias — Foi efetivamente fechado algum negócio para Goiás nessa visita?
Sim. Já havia tratativas com a Caracal, uma das maiores fabricantes de armas do mundo. Hoje esse negócio está concretizado. O príncipe assinou o protocolo de intenção, contratos, para que eles possam vir. O príncipe saiu e foi até o hotel onde o governador iria apresentar nosso potencial, assistiu toda a palestra, levou o documento e assinou. E mais: pessoalmente, ele levou nossa comitiva à fábrica, para vermos como é o processo de fabricação de armamentos pesados. É irreversível esse negócio vir para Goiás e o CEO da Caracal está vindo ao nosso Estado no mês que vem.

Euler de França Belém — E no ramo do agronegócio, que é o forte de Goiás?
Estivemos na maior feira de alimentos do Oriente Médio, a Gul­food, com mais de 5 mil es­tandes, uma movimentação fantástica, muitas empresas brasileiras fechando negócios, e também algumas empresas goianas. Por exemplo, a goiana Milhão, que fornece matéria-prima para produtos derivados de milho, fechou vários negócios com os árabes, com a África e com a Rússia.

Eles também mostraram muito interesse pela nossa carne — os grandes frigoríficos brasileiros instalados em Goiás estavam lá. O interesse deles por alimentos é enorme. O país deles é uma cidade e tudo em volta é areia, eles produzem zero de alimento e têm de comprar tudo de fora. Nossa potencialidade nessa área chamou a atenção deles.

Euler de França Belém — Por falar nisso, publicou-se agora que Goiás está batendo recorde na produção de soja. O sr. acompanha isso?
Sim, acompanho bastante. É uma tendência natural, ano a ano, batermos nossos recordes estaduais. A soja está avançando em área plantada, a cada ano os produtores vão abrindo mais áreas. Estive na semana passada pela região de Niquelândia, Uruaçu, Barro Alto, e fiquei impressionado com o tanto de lavoura por lá. É natural que batamos recordes. Soja é uma commodity, ao produtor dá a segurança para fazer hedge [proteção contra oscilações inesperadas nos preços] nas bolsas. O produtor vai ganhando mercado e expandindo sua área, arrendando a terra do vizinho. Claro que vai chegar o momento de equilíbrio, de estagnação, o que depende também dos concorrentes vizinhos, quebra de safra deles, do mercado externo, enfim. Mas nosso Estado é muito grande, e estamos num processo de crescimento ainda da soja nos próximos anos.

Euler de França Belém — E em relação a outras culturas? A produção de milho, por exemplo, também está alta…
Está, mas o preço do milho às vezes não dá tanta segurança ao produtor. Nosso Estado vai girar nessas culturas, na produção de carne. E estamos produzindo muita cana, temos muitas usinas de açúcar e de álcool. E a tendência também é aumentar a produção de cana nos próximos anos.

Euler de França Belém — Por que os chineses recuaram no plano de entrar no Médio Norte goiano para produzir soja?
Não sei, talvez por não serem do ramo. Sou ligado à classe e sei que não basta achar que vai produzir, tem de ser ligado à terra, ter envolvimento, conhecimento técnico, aplicar tecnologias adequadas. O chinês é acostumado a fazer coisas muito mais baratas, no jeito deles, um país fechado em que o governo subsidia tudo. Aqui é diferente, é mão na massa. Talvez os chineses não tiveram a devida perspicácia disso, nem a paciência.

Euler de França Belém — Em Goiás há produtores do nível do Blairo Maggi [ministro da Agricultura, estabelecido no Mato Grosso e apelidado de “Rei da Soja”]?
Temos grandes produtores. Na região de Jataí há grande produtores, os chamados “alemães”… eles têm sobrenome bem alemão. O nosso deputado estadual Victor Priori é um grande produtor, não posso dizer que é no nível do Blairo Maggi, mas não perde longe não, fica coladinho. Priori é grande produtor e conhecedor do ramo.

Augusto Diniz — A soja está em crescimento e hoje dá uma segurança financeira ao produtor. Não há uma preocupação, entretanto, com a instalação de uma monocultura em Goiás?
Na verdade, há uma preocupação dessas ao longo dos anos, mas nunca houve um desequilíbrio. Lembro-me de que quando começaram a chegar as usinas de álcool ao Estado e alguns municípios, como Jataí e Rio Verde, se não me engano, aprovaram lei limitando a quantidade de hectares que poderiam ser ocupadas pela cana-de-açúcar, temendo que ela tomasse conta de tudo. Mas isso não aconteceu e não vai acontecer, porque o mercado se ajeita por si mesmo. Do contrário, seria muito mais interessante focar apenas na carne, porque o preço está muito bom.

Ocorre que os grandes produtores fazem rodízio de culturas e do que colocam na lavoura. Hoje é muito difícil ter um produtor de ponta que não tenha gado em sua fazenda, até porque ele aproveita a “cama” [restos da lavoura de soja, milho, etc., recolhidos durante a colheita], porque essa palhada tem uma composição muito boa para engordar boi. Então, ele faz um consórcio dentro da própria terra para não ficar refém de um único produto.

Elder Dias — É como um investidor que aplica em várias carteiras…
Exatamente. Se o produtor tiver essa inteligência, vai sempre caminhar para isso.

Cezar Santos — O pequeno produtor não tem a soja como viável para si?
O pequeno produtor, hoje, vai trabalhar mais com o milho — que é um produto que sai mais barato para produzir — e com o boi, que tem um retorno quase impossível de não bom resultado, não vai perder sua produção, como é o risco que sempre circunda a soja. O boi pode até demorar para engordar, mas isso é bem mais garantido.

Elder Dias — Como está a agricultura familiar hoje em Goiás?
Temos algumas políticas para esse setor que são muito positivas. A agricultura familiar é voltada à subsistência da própria comunidade, que geralmente é pequena. Temos incentivos em Goiás à sua prática. Na minha região conheço muitos agricultores familiares, por exemplo, na área de granja. Com uma horta e mais um cercado com porcos, a família garante sua sobrevivência com tranquilidade.

Euler de França Belém — E sobre a reforma agrária? Há produtividade?
Vejo como produtividade quase zero, em relação ao tipo de assentamento que vem sendo feito ultimamente no Brasil. Não adianta dar um pedaço de terra para o sujeito e não o cobrir com insumos, com uma linha de crédito adequada. É preciso parar e reformular tudo. O que vemos hoje são fazendas produtivas sendo invadidas e outras, em locais de pirambeiras [terreno acidentado], por exemplo, que ninguém quer. Andando por Niquelândia, vi um assentamento em que tudo está no mato.

Pessoalmente — não como político —, vejo que dentro do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária] há pessoas com alguma tendência a fazer o errado. Tanto é que tivemos indícios de incentivo a invadir algumas áreas para depois forçar uma desapropriação. Um empregado de uma fazenda de um conhecido me disse, esses dias, que colocaram na cabeça de um sujeito que ele teria de “mexer com o Incra” e que resolveram pagar um pessoal para invadir um terreno. Isso aconteceu e veio o pessoal do Incra para negociar. O proprietário aceitou o valor que o instituto queria pagar. Só que o Incra demorou um ano para pagar e, quando resolveu, o dono já queria renegociar, pois sentiu que tinha desvalorizado. Para fazer uma nova avaliação, tudo levaria mais um ano. Ou seja, tudo isso deveria ser investigado e depois trabalhado. De que adianta assentar as pessoas e elas não terem um centavo para investir na terra? O que fazem, então, é ficar o tempo imposto pela lei até poder vender aquilo e invadir outro lugar.

Augusto Diniz — Qual seria o formato ideal, em sua opinião, para resolver tanto o problema do produtor como o de quem quer ter o direito à terra?
Efetivamente localizar terras que não são produtivas. O direito à propriedade não pode ser desrespeitado, desde que se obedeça ao critério de produtividade. Essas terras teriam de passar por uma avaliação técnica para constatar que realmente são improdutivas e o processo de desapropriação precisaria ser claro e dentro dos valores de mercado. Outra questão é se pagar o título que ele possa de fato resgatar, sem que tenha de passar anos e anos para receber. Após essa etapa, seria preciso fazer uma triagem das famílias que buscam ter seu pedaço de terra. Aí, seria necessário dar aos beneficiados um acesso a linhas de crédito com juros praticamente a zero. Se fizer isso, aí sim, funciona.

Euler de França Belém — O vice-governador José Eliton já foi definido como o candidato do PSDB ao governo no próximo ano. Se a situação ganhar, ficará 24 anos no poder. Mas o que o sr. falaria ao eleitor, para justificar mais um mandato para a base aliada?
Eu creio que os avanços que tivemos ao longo desses mandatos é que nos credenciam. A cada quatro anos há essa chance de ser mantido no cargo ou ser dispensado.

Elder Dias — É como um referendo…
Claro, não estamos há 24 anos sem passar por eleições. Se a população entendeu que fosse merecido que ganhássemos mais quatro anos, e depois mais quatro e mais quatro, é por vislumbrar que nosso projeto, que sempre foi encabeçado pelo governador Marconi e pelo PSDB, foi bem-sucedido. Obviamente, a cada mandato que se acumula, mais tempo no poder e mais desgastes, também. Mas essa avaliação, pela população, sempre vai ser feita dessa forma.

Acho que José Eliton vai pe­gar um momento de grande “pe­dreira”, porque nosso referencial é muito alto. Comparar Marconi a qualquer outro político do Estado é algo muito complicado. Portanto, nosso futuro candidato vai levar o peso desse projeto de 20 anos, além de ter uma nota de corte muito alta, lá em cima.

Obviamente, em um projeto que está há tanto tempo no poder, começam a ocorrer os desgastes, as rusgas. Defendo publicamente que o governador dê espaço a novos nomes, e ele tem feito isso com maestria. Hoje a briga por espaços na chapa majoritária ocorre porque temos um projeto vitorioso — ora, se fosse ruim, não ia ter essa disputa. Por que tem briga por vaga ao Senado? Por que tem gente esperneando pela suplência de uma candidatura de senador de Marconi? Claro, porque ele tem mérito. Assim, vemos que, apesar do desgaste, temos visto que há avanços. O Tempo Novo talvez não seja mais o mote — talvez seja o tempo da inovação, da modernidade. Vamos ter de buscar uma nova bandeira, o Tempo Novo já se esgotou com esse nome, mas foram 20 anos exitosos.

Agora temos de observar nos­sos adversários. O que eles mostraram também que possa ser melhor do que o que temos, pa­ra que nosso eleitor deixe de estar conosco e vá estar com eles?

“Precisamos de nomes que gerem expectativa de futuro”

Elder Dias — O deputado Daniel Vilela (PMDB) qualifica a oposição, já que desde 1990 o PMDB tem Iris Rezende ou Maguito Vilela como candidato? Ter o nome de Daniel como candidato, sendo ele presidente da comissão especial que trata da reforma trabalhista na Câmara, torna a oposição mais dinâmica em relação a outros nomes que a base aliada já teve?
Não tenho dúvida. É um jo­vem que foi vereador, deputado estadual, é deputado federal, tem o DNA político no sangue, e isso realmente dá um discurso diferente à oposição que nós costumávamos enfrentar, que nós comparávamos a algo retrógrado, ao passado. Agora não, eles vêm com uma outra imagem. E é por isso que nós temos de estar preparados. Mas nosso candidato também é novo, jovem, além de estar experimentado por dois mandatos como vice-governador.

Obviamente, nós precisamos compor essa chapa também com outros nomes que gerem expectativa para o futuro. Eu tenho dito que está na hora de a gente dar oportunidade a novos nomes do nosso lado. Temos bons e preparados nomes para poder compor essa chapa majoritária. É por isso que decidir com tamanha antecedência talvez não seja o ideal. Nós temos quase dois anos, período em que podem surgir alguns nomes para vir a compor.

Por que nós temos de ter candidatos ao Senado que já estão aí há anos e com idade avançada? Por que não vir com um nome novo e outras pessoas? Nós precisamos realmente ter paciência para decidir, porque nós temos condições, com vários outros nomes, de fazer frente a nomes novos que surgirão na oposição — se é que vão surgir. É bom ressaltar que estamos falando de Daniel agora, mas amanhã pode não ser ele. Vai que Iris resolva disputar…

Elder Dias — O sr. acredita que é melhor enfrentar uma oposição unida em torno do senador Ronaldo Caiado (DEM)?
Não sei se seria melhor ou pior. Na verdade, não consigo enxergar o PMDB aceitando a vice de Caiado, até porque, na visão do próprio PMDB — que é uma visão absolutamente clara, pelo tamanho do partido e pela capilaridade que têm — foi o partido que elegeu Caiado, não foi Caiado quem deu visibilidade ao PMDB. Eles vão ter de fazer essa junção de coisas acontecer. E o nome natural, que seria o Daniel, pode se tornar o de Iris. Ele mesmo já foi buscado em sua fazenda para ser candidato a prefeito e, veja, está ele aí de novo. Com a oposição do jeito que está e as coisas como vão indo, será que Iris não falaria “eu vou tentar a última vez o governo, já que eu estou aqui”?

Elder Dias — E poderá aproveitar a brecha no poder, sem Marconi como adversário.
Exatamente isso.

Elder Dias — No entanto, o próprio Iris já disse que Caiado se tornaria candidato a governador natural do partido, caso viesse a se filiar ao PMDB.
Mas o senador Caiado perderia um grande discurso que ele usou a vida toda e que continua a dizer, que é o de ser fiel a seu partido, o Democratas. E tem outra coisa: lá atrás quantos não receberam esse convite, foram para o PMDB e logo em seguida foram fritados? Isso em um passado bem recente. Caiado vai acreditar nisso? Será que ele acha que vai chegar, entrar em uma linha de frente com os Vilela, com os Rezende, e simplesmente ser ungido?

Augusto Diniz — Em meio a tudo isso, como está o cenário da situação, da base aliada, na Assembleia? Há algum racha ou crescimento da oposição?
Eu não vejo isso. Veem-se movimentos pontuais que acontecem a todo momento dentro da Assembleia Legislativa. Na política existe uma característica humana que aflora mais do que outras, que se chama vaidade. Às vezes um parlamentar vai a determinada secretaria e acha que foi mal atendido ali, ou que o secretário tinha de conceder aquele benefício a ele, mas isso não aconteceu. Aí, então, o deputado chega à Assembleia, vai à tribuna e “sapeca”. Isso não quer dizer que ele está insatisfeito com o projeto do PSDB, com o governador ou com a base. Ele ficou insatisfeito naquele momento em que ele não se sentiu valorizado, que achou que deveria ter sido atendido.

Elder Dias — É quase um acesso de mau humor…
É. E, depois daquilo, uma conversa resolve. Nós temos na base alguns pré-candidatos a deputado federal. E temos também secretários que são pré-candidatos ao mesmo cargo. Isso vai ser um embate que vai acontecer durante um ano. Os dois anos em que fui líder do governo, confesso, foram os dois anos de maior aprendizado de minha vida, talvez — inclusive pela conjuntura, porque vivíamos o momento mais difícil da crise que nós enfrentamos no País. Mas ali eu fui observando como as coisas acontecem.

Confesso que agora eu fico com dó do líder do governo, porque vamos passar por um momento de eleição. Vejo deputado que reclama de não ter tido um benefício a um município realizado. Então, o governador decide que vai fazer um plano para que o benefício seja atendido, mas o prefeito vem para despachar com o secretário. Aí o deputado fica chateado porque não é o secretário quem tinha de entregar o benefício, acha que tinha de ser ele. Não é bem por aí. O secretário é o dono da pasta, se ele vai ser candidato ou não é do jogo. A política é assim.

Também é aberto e facultado ao deputado chegar ao governador e falar “eu quero ser secretário”. Tem muita secretaria para que o governo está torcendo para trazer um e ninguém quer. Então, querem bater o escanteio e cabecear. E querem que o goleiro não fique embaixo da trave, quer que vá para o vestiário. (risos)

Cezar Santos — Há poucos dias o PSD deu um grito de independência na Assembleia. Isso alterou alguma coisa e pode provocar problema em votações?
Negativo. Absolutamente pacificado. Eu converso muito. Sempre que tem algum grito eu procuro chamar o deputado para trocar uma ideia e saber o que está acontecendo. Isso é de momento. O PSD… você falou PSD ou PSB? Porque houve o mesmo caso para os dois. (risos)

Cezar Santos — Referi-me ao PSD.
No PSD, o próprio Vilmar Ro­cha [secretário estadual de Cidades e Meio Ambiente, presidente do partido em Goiás] ou Thiago Peixoto [deputado federal] são companheiros fiéis. Mas é que, às vezes, para chamar atenção e ocupar um espaço, as pessoas usam a gritaria, para dizer “olha, nós estamos aqui”.

Cezar Santos — Usam a ferramenta que podem.
Mas dentro da Assembleia não houve grande ressonância para isso. Lincoln Tejota e mesmo Francisco Júnior, que são os deputados do PSD, logo em seguida disseram que são Marconi. Lincoln tem o projeto dele, de ser candidato a deputado federal, vai chegar agora e falar que é independente do governo? Claro que depende. E não só ele, todos dependem do governo, por isso são da base governista. E não saem porque estão sendo atendidos. E sabem que vão ser atendidos agora, porque nós passamos dois anos debaixo de chicote, o governador fez o maior ajuste fiscal que esse Estado já viu, talvez o maior do Brasil, muito arrojado e difícil. Nós fomos agredidos verbalmente, eu recebi moeda atirada na cara, papelada. Xingamento, então, nem se fala. Mas ficamos firmes porque nós acreditamos no nosso líder. E hoje nós vamos colher os frutos.

Enquanto nós estamos com Estados absolutamente em terra completamente arrasada, sem pagar funcionários, em pé de guerra, Goiás já esqueceu esse lado, estamos avançando, o governador já está chamando prefeito para celebrar convênio, liberando recurso. Há a possibilidade de lançar o maior programa habitacional do País ainda neste mês. O prefeito só vai precisar da área, o governo federal e o estadual vão cuidar da construção da casa para a pessoa pagar com uma parcela insignificante. Nossas rodovias serão todas reformadas. Obras que estavam por acabar com certeza serão finalizadas. Nós temos investimentos da ordem de R$ 6 bilhões que devem ser a­nunciados nos próximos dias. En­tão agora, na hora em que a coisa vai ficar boa, o deputado vai rebelar e ir para a oposição? Eu duvido muito.

Cezar Santos — O sr. falou sobre o ajuste levado pelo governo à Assembleia, mas ainda tem uma parte dele a ser votada. Essa proposta vai en­frentar alguma dificuldade, já que as reformas no plano federal estão sob uma tensão muito gran­de, com manifestações, e po­de ser contaminada pela re­percussão de mudanças nacionais?
Alguns defendem que deveria se esperar aquilo que vai acontecer em nível federal para que as mudanças em Goiás aconteçam. Outros acham que é o contrário, como o próprio governador pensa. Nós não estamos preocupados em arrumar o nosso terreiro em função do terreiro dos outros. Vamos arrumar o nosso. Se os outros quiserem arrumar, bem; se não quiserem, amém, vamos avançar.

E eu acho que isso é uma política correta, tendo em vista que nós tomamos essas decisões lá atrás e hoje estamos conseguindo avançar. Há a discussão de não termos dado a data-base. Mas, se você soubesse o que eu tenho de pessoas levando currículo para trabalhar na Assem­bleia e para fazer estágio… as pessoas simplesmente não conseguem arrumar emprego, hoje um salário de mil reais dá briga. A coisa está feia.
Em Goiás podemos nos colocar como privilegiados. Quem vai fazer uma manifestação e brigar é justamente o funcionário público. Muitos de maneira injusta, mas muitos buscando reivindicar seus direitos, estão preocupados e com medo. Mas esse projeto que está na Casa é uma proposta que tem alternativas e válvulas de escape que dão a possibilidade de ser revisto e modificado de acordo com a melhora do cenário.

Cezar Santos — Uma manifestação de protesto de forças policiais pode acontecer?
Quando a gente ouve falar que a Polícia Militar vai fazer uma movimentação, é de ficar chateado. Se pegar um comparativo do que era a polícia quando o governador assumiu e hoje, nós somos o terceiro Estado. Nós perdemos apenas para o Distrito Federal, que é uma outra realidade, e um Estado do Norte (Rondônia) que conta com uma ajuda do governo federal. Nós temos hoje coronel ganhando mais de R$ 20 mil. Um major da PM ganha R$ 14 mil. Nós temos salário inicial para um policial em torno de R$ 5 mil.

Augusto Diniz — Quando o sr. citou a questão da dificuldade em se encontrar emprego hoje em razão da crise econômica que o País enfrenta, um dos pontos da reforma da estrutura da Seduce que gerou insatisfação entre parte dos deputados foi a extinção das subsecretarias regionais de educação. Como essa insatisfação — principalmente pelo medo de perder a cota de indicação de cargos de confiança nessas subsecretarias —, foi tratada na base e na Assembleia?
Na verdade, não era bem isso. Isso me remete ao que eu disse sobre a questão política e do que é a força de uma subsecretaria. Eu participei muito desse processo. Eu até retornei de uma viagem a pedido do próprio governador para que pudesse participar e tentar apaziguar a situação. Existem alguns cargos que são emblemáticos no interior. E um desses cargos que são emblemáticos é a subsecretaria. E ela é indicada geralmente pelo parlamentar que representa aquela região.

É claro que tem os critérios técnicos adotados pela subsecretaria, mas claro que existe a força de um deputado que representa aquela região em falar “esta professora é a que eu coloquei como subsecretária”. Na cabeça do parlamentar — e obviamente às vezes isso ocorre —, aquela subsecretária vai dominar todos os diretores e professores daquela região. Em meu entendimento, isso é algo que nem sempre acontece. Muitas vezes, aliás, o efeito é contrário. Eu já vi a pessoa indicar um subsecretário e todo mundo odiar a pessoa. Mas há a força política do deputado em dizer que ela está lá por causa de sua indicação. Como se estabeleceu diminuir a quantidade de subsecretarias, e isso foi um critério técnico da Secretaria de Edu­cação, aqueles que perderam em suas cidades se sentiram prejudicados. E aí foi quando aconteceu a insatisfação.

Elder Dias — A questão foi muito mais política do que educacional.
Exatamente. Existem alguns cargos nas subsecretarias? Sim. Mas levamos este problema ao governador, dizendo a ele que, se a questão era de enxugamento e diminuição de gastos, vamos acabar com todas e vamos criar um critério técnico para que estas subsecretarias voltem. Em algumas secretarias havia um número grande de contratos temporários — não eram cargos comissionados, apesar de também haver esses. Mas os cargos comissionados são do deputado, independentemente de estar na subsecretaria de educação ou no Detran. Isso ele não está perdendo. São cargos sobre os quais ele pode ter domínio, a depender de sua força no governo, dentro do regime que o governador implica.

Então, eu fui a favor de que, caso essas estruturas voltem, que sejam de forma eminentemente técnica, voltadas de fato para a educação. Neste ponto, eu concordo com a secretária de Educação [Raquel Teixeira]: não podemos levar para áreas muito técnicas — como educação e saúde — questões meramente políticas. É importante, portanto, que a indicação de determinada região fique mantida para o deputado, mas que estas secretarias tenham uma estrutura mais enxuta e mais técnica. Todos compreenderam e agora está sendo formada essa nova gestão de subsecretarias, que talvez não levem mais este nome de “subsecretarias”, mas sim algo como “polos tecnológicos de ensino”.

Cezar Santos — O sr. pode falar um pouco do desafio de estar à frente da presidência da Assembleia, assumida recentemente? E sobre a retomada da construção da nova sede?
Sem dúvida alguma, é o grande desafio da minha vida. Administrar uma Casa com mais 40 parlamentares que também se julgam administradores do poder não é tão simples assim. Eu herdei uma Casa que avançou em muitos aspectos, mas herdei muitos problemas, também. É uma estrutura grande, temos muitas diretorias, vários setores etc. Todos os deputados querem ocupar o seu espaço, mas sempre esbarramos em algumas questões técnicas. Estourou em minhas mãos algo que a qualquer momento viria à tona: uma nova resolução da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) exige a obrigação de colocar, no cálculo do índice, pensionistas, aposentados e também o Imposto de Renda, o que tem um impacto significativo. Não apenas em minhas contas, no Legislativo, mas também nas contas do Executivo, do Ministério Público, dos Tribunais de Conta e também do Judiciário. Este vai ser meu grande desafio.

Cezar Santos — E o sr. vai ter menos dinheiro?
Não vou ter menos dinheiro, mas talvez, no que tange à questão de pessoal, eu tenha mais pessoas do que a lei vai me permitir. Isto gera corte. Cortar é mexer em vespeiro. Os deputados acham que a Casa pode acomodar todos.

Cezar Santos — Mas há previsão para se realizar estes cortes?
Há previsão, sim, para este ano. Eu trouxe alguns técnicos, pessoas absolutamente conhecedoras da área de recursos humanos, que estão debruçados sobre aquilo que é gasto com nosso pessoal, e, provavelmente, se eu ultrapassar o índice permitido pela Lei de Responsabilidade, terei de chamar os deputados para mostrar a realidade da Casa. Dizer a eles que vou trabalhar, mas que isso não depende de mim. Se há limite de pessoal extrapolado, qual é a única forma que existe de solucionar? O corte. Se alguém me der alternativa, vou com certeza procurar segui-la.

Algumas coisas, na Assembleia Legislativa, parecem que vão se tornando perenes, fazendo parte da cultura e da mentalidade do servidor, que acaba acreditando que naquilo não se pode mexer. Mas nós temos de enfrentar. Por exemplo, há uma cultura da venda de férias em que se goza dos dias de férias durante um certo tempo e depois pode vender seus 15 dias. Isso tem um impacto significativo, herdei R$ 4 milhões em atrasados. A lei é clara: você pode vender, mas o gestor não é obrigado a comprar. O gestor pode fazer a opção por comprar ou não. E eu, mais do que ninguém, gostaria de ser o presidente que olha para o servidor, mas dentro de uma realidade da gestão da Casa. Não posso, sob pena de me arriscar a incorrer em crime, dizer que lá pode tudo. Mas é preciso que o servidor do Legislativo entenda que, neste momento em que está sendo exercida sobre toda a sociedade ajustes e readequações, ele também precisa fazer a sua parte. Nós, que cobramos tanto que nosso valor seja reconhecido pela sociedade, temos de cumprir também aquilo que a sociedade rege. Por que o servidor da Assembleia Legislativa não precisa bater ponto e todos os outros servidores, de todos os lugares, precisam? Da mesma forma que alguém é bem remunerado por seu trabalho, essa pessoa também tem de se dedicar ao tempo que a legislação obriga.

Cezar Santos — E quanto à construção da sede?
Eu tenho muitas reservas quando o assunto é a construção da sede. Esses dias saiu uma nota de que essa construção já é uma novela — e eu concordo que seja, dados os anos que já estão correndo e nos quais ela ainda não foi concluída. Vejo que tenho grandes chances não de entregar a obra, mas de dar a ela um bom andamento. Eu já obtive o sinal verde do governo, do secretário da Fazenda, Fernando Navarrete, que se mostrou muito solícito em todos os momentos em que estive com ele mostrando a nossa realidade. Ocorre que a construção da sede não é apenas para os parlamentares. A impressa que lá está sofre. Nós não temos internet de qualidade, improvisamos um “chiqueirinho” em um cantinho, que acomoda cinegrafistas e jornalistas. Se alguém precisa passar uma matéria, não há local adequado. Nós também não temos estacionamento. Os flanelinhas tomam conta da rua e quando se realizam as feiras [às terças e sextas-feiras], o lugar se torna um caos. As comissões não têm salas. Estamos em uma casa que foi construída para 24 parlamentares e, hoje, tem 41. O telhado é precário. Mas estou preparando um relatório de tudo, com fotos, com tudo o que for necessário para mostrar para todos os veículos.

Euler de França Belém — Na nova obra, não há perigo de dano estrutural para aquelas construções de concreto, que estão abandonadas há cerca de oito anos?
Não. Nós temos um laudo de uma empresa que nos dá total segurança com aquilo que foi colocado lá. Obviamente que tomaremos todas as precauções. Essa também é minha preocupação, porque eu passo por lá quase todos os dias, pois moro ali perto. Mas esta preocupação já foi dirimida por termos este laudo, que foi apresentado ainda na gestão de Hélio de Sousa [presidente anterior da Assembleia], que assegura que há total segurança para continuar desde o ponto em que está. E eu vou apresentar o relatório sobre a situação do nosso prédio atual para conseguir dar continuidade à construção no novo local.
É como eu disse, não temos sequer wi-fi de boa qualidade. E, veja bem, claro que não podemos entrar no mérito de cada poder, mas vejamos o exemplo do Judiciário: por meio das brigas que eles tiveram, conquistaram o duodécimo deles e agora têm as suas obras sendo construídas, como fóruns modernos. O Tribunal de Contas do Estado (TCE), que tem sete conselheiros e é um órgão auxiliar da As­sembleia, tem uma sede fantástica, e é mérito deles. Nós também precisamos tentar dar nossa contribuição, fazer o mea-culpa de que não fomos competentes para conquistar isso, para ter essa nova sede a mais tempo. Só que não adianta ficarmos lamentando. Nós temos de buscar. Temos dinheiro de nosso fundo, mais de R$ 20 milhões para modernização e construção do Le­gislativo, que, por meio da venda da folha de pagamentos, de leilões, enfim, toda uma verba veio para esse fundo, de modo que não precisamos do governo para iniciar o processo. Agora, infelizmente, nossa burocracia é muito grande. Lamentavelmente, nossas leis tornam tudo muito amarrado.

Euler de França Belém — E não tem demanda judicial?
Não. É claro que cada um tem uma forma de conduzir, mas eu já conversei com a empresa que esteve lá. Claro que ficaram chateados, queriam tocar o projeto etc.

Presidente da Assembleia, José Vitti: “Nunca recebi um centavo da política e faço porque gosto. Entretanto, também não quero ter de tirar patrimônio meu para colocar na política”

 

“É a população que precisa fiscalizar o deputado”

Euler de França Belém — E quanto aos deputados? Há quem diga que o sr. é um tanto quanto leniente com os deputados. O sr. não vai fiscalizar as faltas de deputados?
Eu sempre tenho dito o se­guinte: eu não sou bedel de de­pu­tado. Eu não me considero nem melhor e nem pior do que ne­nhum dos outros deputados que lá estão. Cada deputado que es­tá lá chegou pelo voto popular. Na­da mais justo do que a própria população fiscalize o deputado que elegeu. Eu não me sinto no direito de chegar em uma casa da qual ninguém é dono e dizer: “A partir de hoje você tem que estar aqui, no plenário. Senão vou cortar seu dia”. Quem sou eu para fazer isso?

Euler de França Belém — O sr. é o presidente.
Eu sou o presidente para a condução dos trabalhos da Casa, para pautar, para formular as comissões, para fazer com que a Casa funcione. Eu não sou patrão de ninguém.

Euler de França Belém — Mas não há projetos que deixam de ser votados por falta de quórum?
Sim. Mas as presenças e au­sên­cias estão no Portal da Trans­parência. Não preciso que me vigiem, por que terei que vigiar o outro? Agora, a população, sim. Os mecanismos de fiscalização deram ao cidadão as ferramentas para acompanhar o que cada parlamentar está fazendo. Mas é preciso esclarecer uma coisa: às vezes, o parlamentar está na Casa, mas, pelo regimento interno, ele não pode não querer estar no Plenário. Isso é uma prerrogativa do deputado e, na Câmara dos Deputados, significa estar em obstrução. Se está chateado com o governo, não entra em plenário para votar. Isso acontece também em Brasília, é normal. O parlamentar pode estar no café ou no gabinete atendendo um prefeito ou um vereador. E eu não posso cortar o ponto desse parlamentar, porque ele está lá. Tanto é que, quando pedem a verificação de quórum, ele vai lá, marca sua presença e sai. En­tão, qual critério teremos de usar para cortar o ponto deste parlamentar? O que precisamos trabalhar é a mu­dança cultural, que é a fiscalização da sociedade. Nós somos colocados sob avaliação a cada quatro anos, pois vamos pedir voto. É fácil a população dizer: ok, o que você já fez?

Euler de França Belém — O sr. vai sair como candidato a deputado federal na próxima eleição?
Não sei. Confesso que tenho dúvidas em relação a isso. Já tive muita vontade de ir para Brasília, por achar que teria mais condições de ajudar meu segmento e meu Estado, mas desanimei com política; animei-me novamente agora, porque vim do Executivo. E sou autocrítico: se daqui dois anos eu não tiver feito o que disse aqui, eu direi que fui incompetente. Vou fazer essa autoavaliação. Nunca fiz planos para nada. Acabei vindo para a política, virei deputado e passei quatro anos observando como funcionava a Assembleia e quis tentar um dia ser presidente. Não planejei ser líder do governo e recebi esse convite em um momento em que estava completamente desanimado de política. E foi uma escola muito grande. Conquistei os deputados pela minha forma de agir, pela relação sempre sincera. Todos os acordos firmados com a oposição foram cumpridos, tanto da nossa parte quanto da deles. Por isso, nossa relação se fortaleceu e acabei sendo presidente da Casa sem prometer nada. Fiz campanha sem prometer cargo, mas só dizendo que eu faria o possível para ser companheiro dos parlamentares. Até acho que alguns deles estão um pouco insatisfeitos comigo.

Euler de França Belém — Por quê?
Porque herdei uma realidade que mudou a regra do jogo. Incrementar os pensionistas, aposentados e Imposto de Renda no índice de cálculo do pagamento de pessoal aumentou substancialmente nosso índice e isso ocasionou a impossibilidade de poder ajudar o deputado de alguma forma. De repente, um deputado precisa acomodar alguém porque perdeu a eleição na sua cidade. Eu queria dizer sempre “sim” para esse parlamentar, mas talvez terei que dizer “não”.

Euler de França Belém — Procede que têm pessoas ganhando mais de R$ 50 mil na Assembleia?
Há um pouco de mito nisso. Con­fesso que ainda não sei os salários de todos, mas não vi ninguém ga­nhando esse valor. É claro que procuradores ganham bem e também há cargos da administração que remuneram bem, mas supersalários, não.

Euler de França Belém — Mas a Assembleia cumpre o teto constitucional?
Sim. Ninguém ganha mais que o teto e, se ganha, é porque tem decisão judicial que permite o ganho. Nesses casos, o corpo técnico da Casa me dá respaldo.

Euler de França Belém — Voltando: a tendência, então, é que o sr. dispute novamente para deputado estadual? O sr. pode ser o vice-governador?
A vice-governadoria me atrai. Até uma eleição para o Senado me atrai. Agora, confesso que me permito pensar em uma eleição para deputado federal; há algum tempo essa não era uma hipótese. Fui lançado presidente da Casa por um grupo de deputados e, entre eles, alguns sonham muito em ser deputados federais. Então, não quero entrar em rota de atrito, até porque eles podem dizer: “Poxa, elegi o Vitti para ele me prejudicar agora”. Por isso, não me descarto, mas é provável que eu ajude os companheiros que tenham mais vontade que eu. É óbvio que isso depende de conversas e de quem serão os candidatos do nosso lado. Depende também de uma conversa com o governador, que tem me incentivado para esse projeto. Porém, tenho pé no chão.

Elder Dias — O sr. aceitaria ser suplente de Marconi Perillo, caso ele se candidate ao Senado?
Nossa Senhora!, fácil. (incisivo) Não precisava nem terminar de falar a frase. (risos) Quem não quer?

Augusto Diniz — E estaria disposto a gastar para fazer a campanha?
Tem algo que hoje eu não quero mais fazer para eleição: é gastar dinheiro de meu bolso. Em minhas duas eleições, gastei dinheiro meu e também para ajudar companheiros nas eleições municipais e nunca tive ajuda de empresários, mesmo sendo do ramo. É uma vergonha eu ser uma pessoa do ramo e não conseguir captar dinheiro. Por isso falo que santo de casa não faz milagre. Só que não consigo mais colocar dinheiro meu. Cheguei a entrar em dificuldade. Perdi, por exemplo, a sociedade com minha família porque sou político. Então, hoje, eu sou sozinho. Se eu quebrar, estou só. Porém, não posso fazer isso, porque tenho minhas filhas e uma consciência de que eu doei muito mais para a política do que recebi dela. Nunca recebi um centavo da política e faço porque gosto. Entretanto, também não quero ter de tirar patrimônio meu para colocar na política.

E acho também que Marconi não será candidato a senador, mas a vice-presidente. Mas, se sua estrela dessa vez não funcionar e ele for ao Senado, ele não precisará se movimentar. Todo empresário estará lá para ajudá-lo.

Euler de França Belém — Quem o sr. acha que será o candidato a presidente pelo PSDB: João Doria [prefeito de São Paulo] ou Geraldo Alckmin [governador de São Paulo]?
Alckmin.

Elder Dias — Mesmo com o controle de Aécio Neves, que preside o partido nacionalmente?
Sim.

Euler de França Belém — Mas o sr. não acha o PMDB entra na chapa?
Pode ser. As coisas agora começam a ter uma mudança grande e veremos o que vai acontecer nas cenas dos próximos capítulos. Veremos como ficarão as delações.

Euler de França Belém — Quando o Estado tentou mexer na questão dos incentivos fiscais, quando Ana Carla Abrão era secretária da Fazenda, os empresários reclamaram que os deputados estaduais não os apoiaram.
Eu sou empresário. Os grandes empresários, os que têm os maiores incentivos, com raríssimas exceções, ajudaram pouco ou quase nada os parlamentares que foram eleitos. Na visão dos grandes empresários de Goiás, deputado estadual é nada. Talvez um grau abaixo de nada, se tiver. Agora, no momento que precisaram, aí reclamaram. E nós ajudamos muito.

Euler de França Belém — Mas isso não é pensar com grandeza. Se não tiver dinheiro, então, não tem apoio?
Negativo, eu não disse isso de forma alguma relacionado a dinheiro. Mas imagine o peso que teria o dono da Arroz Cristal, por exemplo, nos abrir sua empresa e dizer “pessoal, preciso do voto de vocês para esse deputado”. E eles conseguiram o que estavam pedindo. Agora, em momentos de crise, é preciso entender que cada um de nós tem de dar a sua contribuição para o Estado.

Elder Dias — Os empresários pecaram nisso, então?
Esses empresários chegaram a ser gigantescos hoje graças aos incentivos que Goiás deu a eles. Posso citar várias empresas que eram absolutamente pequenas e que se transformaram em multinacionais. Ora, o Estado os ajudou muito e, no momento em que o Estado estava a duras pe­nas, eles também poderiam ter con­tribuído. Chegaram a um a­cordo, mas a luta foi dura. Ana Car­la queria tirar todos os incentivos e, quanto a isso, eu já não con­cordo. Em contrato assinado não se mexe. Pense: eu sou um grande empresário e só vim para Goiás por causa dos incentivos concedidos e da segurança jurídica que o Estado tem. Aí no meio do jogo o Estado muda as re­gras? Não dá. E nessa briga en­traram muitos parlamentares, assim co­mo o vice-governador José Eliton e o próprio governador Marconi. Se existe uma sintonia em Goiás é a do setor produtivo com o governador e vice-versa. Eles acreditam no governador.

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