Tolerância política e existencial pode ser o antídoto contra a nova violência

Comenta-se que pai matou o filho devido a divergência política. Não deve ter sido só isso. Mas no momento assiste-se a intelectuais de esquerda manipulando jovens nas ocupações das escolas

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Saturno devorando um filho, de Goya

O jornalismo é feito de certezas, de informações incisivas. Porém, mesmo o melhor jornalismo, o que escapa do meramente factual — e, sim, é mais cuidadoso com o que se entende por “fatos” — é feito, em larga medida, de especulação. A verdade de uma reportagem é quase sempre falimentar, quer dizer, não traduz à perfeição a realidade. É um recorte, e em geral extremamente lacunar, da realidade. Digamos que ocorre um crime: o pai matou o filho e, em seguida, se matou. O repórter colhe as informações básicas, ouvindo algumas testemunhas, parentes e policiais, e volta para a redação, onde escreve uma síntese do que “ocorreu”. As aspas na palavra “ocorreu” merecem explicação. Primeiro, porque a reportagem é verdadeira, não inventa nada — os detalhes estão lá e poderão ser conferidos no inquérito policial e, a seguir, na ação judicial (se houver). Segundo, porque, mesmo que seja dotado da maior boa vontade e do preparo intelectual adequado, o repórter não terá tempo suficiente para capturar todas as motivações mais gerais e sutis do crime. Publica o que colheu de imediato, que, divulgado (e caindo na boca das pessoas), se torna a “verdade”. Mas as histórias dos indivíduos são sempre mais complexas do que sugere uma reportagem de jornal — ainda, insistamos, que seja muito bem-feita. As próprias “testemunhas” (ou fontes), sobretudo parentes, podem dizer uma coisa, no momento da emoção exacerbada, quando a razão às vezes sucumbe, e depois, com a retomada da capacidade de julgar com mais descortino, moderação e distanciamento, poderão revelar outra coisa. O problema é que o jornalista está à cata de informações rápidas que provoquem sensações e, por isso, raramente volta a temas “antigos”, exceto quando os casos são rumorosos e se tornam espécies de novelas. Se retornar, como eventualmente ocorre, é provável que terá condições de apresentar nuances, ainda que se não mude o quadro básico.

No livro “O Jornalista e o Assassino” (Companhia das Letras, 176 páginas, tradução de Tomás Rosa Bueno), a jornalista e escritora Janet Malcolm, da prestigiosa revista americana “New Yorker”, anota: “Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”. A frase é de primeira, mas não é inteiramente precisa. Mas uma coisa é certa: o jornalista costuma reduzir a vida de uma pessoa a um simples fato, a defini-la, por exemplo, pela morte — não pela integralidade da vida.

Na terça-feira, 15, data dos 127 anos da Proclamação da República, o engenheiro Alexandre José Silva Neto, de 60 anos, matou seu filho único, Guilherme Silva Neto, de 20 anos, numa rua do Setor Aeroporto, em Goiânia. A mídia registrou o caso com relativa fartura de informações, inclusive ouvindo parentes, como uma tia e a mãe do jovem estudante de Matemática da Universidade Federal de Goiás (UFG). A rigor, o caso parece esgotado. Mas está mesmo? Talvez não. Mas cabe à imprensa escarafunchar a vida da família para revelar mais do que foi revelado? Não se sabe. Nas redes sociais, por exemplo, especula-se, de maneira até indelicada, sobre as motivações do crime. Há quem fale de uma possível “esquizofrenia” do engenheiro Alexandre Silva, sugerindo que tomava medicamentos de indicação psiquiátrica, mas não se apresenta provas. Há quem mencione a sexualidade de Guilherme Silva como possível motivo da irritação do pai. Ora, a sexualidade do garoto não interessa ao público. Mesmo assim, um jornalista, líder de movimentos de defesa dos homossexuais, insiste na tese de crime homofóbico. Mas o que ele e todos nós, jornalistas e leitores, sabemos de fato sobre a família Silva? Quase nada. Vamos defini-la, a partir de agora, única e exclusivamente pela morte trágica, eliminando toda a história anterior? Uma familiar fala num possível calvário do estudante. Isto resume a história de 60 anos de Alexandre Silva e 20 anos de Guilherme Silva? Talvez não.

Amor demais às vezes é sinônimo de problemas inflacionados. Talvez seja o caso de Alexandre Silva. O engenheiro não queria que o filho — único, frise (acrescente-se: foi pai aos 40 anos) — participasse dos movimentos de ocupação de áreas da Universidade Federal de Goiás. O garoto, que se apresentava como anarquista — é provável que estava se descobrindo —, dizia-se anti qualquer governo, participava dos movimentos políticos de jovens na universidade, como é natural. “Se você não é de esquerda aos 20 anos, não tem coração. Se não se torna um conservador aos 40, não tem cérebro.” A frase é atribuída ao político e escritor inglês Winston Churchill, mas pode ter sido pronunciada por John Adams, François Guizot ou Georges Clemenceau. Guilherme Silva tinha 20 anos e era libertário. O pai, aos 60 anos, era um homem conservador, moralmente rígido. A família admite que, apesar do rigor com o qual tratava, ele amava o jovem.

A securitária Rosania de Moura Rosa, tia de Guilherme Silva, disse à imprensa que Alexandre Silva “tinha medo de que o filho fosse, por exemplo, morto pela polícia e olha o que aconteceu. Ele mesmo o matou”. É como se tivesse matado o garoto, possivelmente o ser que mais amava, para evitar que outro o matasse. Teria sido um surto psicótico? Não se sabe e é difícil saber, afinal, o engenheiro morreu. O que restam são especulações e informações dos familiares, que, apesar da emoção e do estado de choque, são as pessoas mais confiáveis para opinar, ao lado de possíveis médicos de Alexandre Silva.

A imprensa tratou o assassinato seguido de suicídio — Alexandre Silva matou Guilherme Silva e se matou (o fato de ter ficado em cima do corpo do filho, como se estivesse pranteando-o depois de tê-lo matado, sugere uma passionalidade impressionante; indica que não queria deixá-lo escapar nem depois de morto, como se quisesse reintegrá-lo ao seu próprio corpo, como fora outrora) — como motivado por discordância política. A divergência política por certo havia, mas pode ter funcionado tão-somente como uma espécie de gatilho, o motivo imediato, mas não a razão seminal.

Guilherme Silva havia se tornado um homem, com opiniões próprias sobre vários aspectos da vida e com amigos que eram muito diferentes (até por motivos geracionais) do herói da infância, o que certamente contrariava o pai — que queria vê-lo, provavelmente, como um retrato seu em “miniatura”. Um Alexandre dois e não o Guilherme um, com sua própria história. O resultado é que os dois estavam quase anulados. Guilherme Silva queria ser Guilherme Silva, mas era, ao menos em casa, também “Alexandrinho” — um filho de Narciso. Para piorar, ao se preocupar tanto com a vida do filho, fica-se com a impressão de que Alexandre Silva queria, pela negação, ser Guilherme Silva. Ao matar a diferença, aquilo que o atormentava, Guilherme Silva, Alexandre Silva matou a si próprio. O filho era anjo e não podia se tornar demônio. Então o pai se tornou demônio e matou aquele que deveria ser anjo. Mas ninguém é só anjo ou é só demônio. Somos, todos nós, verdadeiros poços de complicações, com a diferença de que a maioria não sai por aí, mesmo se esquizofrênico, assassinando pessoas. O respeito às diferenças — políticas, comportamentais, sexuais — é que gera a civilização necessária a uma relativa paz entre os homens.

Tolerância é civilização

Narciso, de Caravaggio

Narciso, de Caravaggio

O poeta John Donne escreveu um belo poema no qual diz que nenhum homem é uma ilha. O Brasil também não é uma ilha. O país tem suas especificidades, mas não passa ao largo do debate ideológico mundial. Falou-se, durante certo tempo, no fim das ideologias, com a vitória do liberalismo e da democracia depois da debacle do socialismo na União Soviética e países satélites. Mas, como notou o historiador e crítico social americano Russell Jacoby, no livro “O Fim da Utopia — Política e Cultura na Era da Apatia” (Record, 300 páginas, tradução de Clóvis Marques), as ideologias estão de volta, daí o clima agressivo e extremamente politizado. Há uma polarização: ou se é de esquerda ou se é de direita. Quem é de esquerda sublinha que quem é de direita está inteiramente equivocado. Quem é de direita frisa que quem é de esquerda está integralmente errado. Quase não há mais espaço para o centro político — daí a vitória de Donald Trump, um apóstolo da direita política dos Estados Unidos, para presidente da República.

Num momento em que a crise econômica esconde a crise de valores — a globalização às vezes retira o “lugar” das pessoas no mundo, criando um não-lugar, o que gera uma depressão que, além de econômica, às vezes é psíquica—, vale ler um dos melhores ensaios do livro de Russell Jacoby, “O fim do fim do fim das ideologias”. A síntese é que não se pode mais falar em fim das ideologias.

Há uma discussão ampla sobre vários pensadores que discutiram o fim e o renascimento das ideologias, mas vamos nos concentrar tão-somente num aspecto. Russell Jacoby destaca que a derrota do socialismo contribuiu, paradoxalmente, para enfraquecer o liberalismo. Um alimentava-se da energia do outro, quer dizer, ao se combaterem, no terreno das ideias e da política, acabaram por contribuir para uma sociedade mais, digamos, aberta e democrática.

Sugerindo que “a história faz ziguezague”, Russell Jacoby afirma que “é evidente que o radicalismo e o ideal utópico que o sustenta deixaram de ser forças políticas ou mesmo intelectuais importantes. E tampouco aplica-se isto exclusivamente aos adeptos da esquerda. A vitalidade do liberalismo encontra-se em seu flanco esquerdo, que funciona como seu crítico e cobrador. Sempre que a esquerda renuncia a um sonho, o liberalismo perde chão, torna-se flácido e instável. (…) A derrota do radicalismo priva o liberalismo de sua vitalidade”.

Russell Jacoby anota que “a consequência mais paradoxal da derrota do esquerdismo” é uma espécie de “perda da determinação e da clareza do liberalismo”. Um pouco adiante, o historiador acrescenta: “O problema é que o liberalismo tornou-se insosso porque a esquerda que lhe dava estofo desapareceu ou se tornou ela mesma liberal — ou ambas as coisas. A esquerda constituía a espinha dorsal do liberalismo; como se evaporou, a espinha amoleceu. (…) Os novos liberais adotaram um idioma que é enaltecedor sem ser transcendental, penetrante sem ser profundo”. Daí surge um “liberalismo” que o pesquisador qualifica como “aguado”.

Ressalve-se que o ensaio de Russell Jacoby é de 1999 (tem 17 anos). O quadro do Brasil difere um pouco do que assinala, mas, ao menos em termos filosóficos, sua análise merece consideração. No plano estrito da política, o país passa por uma fase de radicalização. Há uma extrema direita que pede a volta da ditadura civil-militar, a de 1964, quando, como se sabe, os militares, cada vez mais profissionalizados, não querem retornar ao poder. As vivandeiras do momento não conseguem convencê-los nem comovê-los. Eles preferem ficar nos quarteis, respeitando a Constituição.

Para além de uma esquerda moderada, que havia se instalado no PT — que é mais moderado, na prática, do que seu discurso às vezes sugere (no poder, quando tentou adotar medidas autoritárias, “admitiu” ser contido pela sociedade), há uma esquerda radical. Tal esquerda está assenhorando-se da universidade, reduzindo o espaço da esquerda moderada — até mesmo o velho PC do B (o que adorou Ióssif Stálin até pouco tempo) começa a ser apodado de reacionário (sem o PT no poder, deve aderir ao velho radicalismo) — e começando a criar crises que não passam necessariamente pelo campo democrático. Lembra, e não apenas vagamente, os socialistas russos do século 19 e do início do século 20, antes da hegemonia dos mencheviques e, sobretudo, dos bolcheviques. Há inclusive professores, manipuladores de alunos, que professam ideias praticamente terroristas, muito próximas daquilo que Dostoiévski revela no romance “Os Demônios” (Editora 34, 704 páginas, tradução de Paulo Bezerra). Fala-se que os alunos estão “acampados” em espaços das universidades — de vários Estados, não só de Goiás — e que mestres estão lá para protegê-los de eventuais violências policiais. Ora, quem acredita nisto também crê em Saci Pererê e Curupira. Há professores que são inocentes-úteis, que acreditam que estão mesmo “protegendo” os alunos. Mas parte dos professores está lá por outros motivos. Eles são os verdadeiros líderes do movimento e ficam nos “acampamentos” mais para controlar e manipular os estudantes do que para protegê-los.

Russell Jacoby está, portanto, certo: as ideologias estão mais vivas do que nunca. Mas qual é mesmo o ideal utópico desta esquerda que controla os jovens e os põem para invadir escolas? Primeiro, não está nada preocupada com a melhoria da educação. Segundo, está fazendo mais política do que lutando pela educação. Terceiro, o combate ao poder, mas não a apresentação de uma alternativa, é o seu mote basilar. Falta Iluminismo à esquerda brasileira — a que está seduzindo e manietando os estudantes do ensino médio e das universidades. Falta um ideário. Deslustra quem está no poder, mas propõe o quê mesmo? Só o caos.

Ao esquerdismo deformado, com intelectuais manipulando garotos — há professores que chegam a vigiar alunos e colegas —, surge o direitismo desenfreado dos que propõem o retorno dos militares ao poder (há uma direita democrática contrária à maluquice dos extremistas). Quando se propõe o que não é possível — como dissemos, os militares não querem retomar o poder — o que se está sugerindo à sociedade é que não se tem proposta alguma. A busca do conflito pelo conflito — a exposição midiática recriando a sociedade do espetáculo — não contribui para melhorar e ampliar a democratização de uma sociedade.

Se quisessem contribuir para uma sociedade mais aberta, com uma democracia mais ampla, os intelectuais, tanto da (extrema) esquerda quanto da (extrema) direita, deveriam aparecer publicamente para expor suas ideias e, ao mesmo tempo, para cobrar tolerância de seus representantes e representados. A criação de um espaço coletivo para o diálogo é fundamental para fortalecer a sociedade democrática — contra governos militares ou governos bolivarianos —, o que não significa que um setor tem de seguir o outro caninamente. O que se precisa é de um denominador comum. O respeito à divergência, ao pensamento e ação alheios, não exige necessariamente convergência.

O descompasso entre os Silvas, com o pai, Alexandre, matando o filho, Guilherme, provavelmente tem a ver com problemas individuais de cada um — mais do pai, provavelmente — e da família. Mas a divergência política certamente foi acelerada por aqueles que estão manipulando os jovens, aproveitando-se da falta de preparo e amadurecimento deles, como os bolcheviques fizeram durante tanto tempo na União Soviética. Lá, sob Ióssip Stálin, filhos eram jogados contra pais, chegando a denunciá-los publicamente, o que levava à condenação ao Gulag e, não raro, ao fuzilamento. Vale a transcrição do final do poema “Os herdeiros de Stálin”, do poeta russo Ievguêni Ievtuchenko (“Poesia Russa Moderna”, Editora Brasiliense, 292 páginas): “O Partido/me ordena/que eu não cale mas fale./E mesmo que alguns repitam:/’Deixe disso!’,/eu insisto./Enquanto neste mundo houver herdeiros de Stálin,/para mim,/no Mausoléu,/Stálin ainda resiste”. A tradução é do poeta brasileiro Haroldo de Campos. l