Saída da crise começa pelo agronegócio, que só precisa de mais investimentos

A indústria brasileira, solapada pela crise, está parcialmente quebrada. A saída do país, portanto, não está no aeroporto, e sim no campo, que é altamente produtivo e competitivo

Michel Temer (presidente), Henrique Meirelles (ministro da Fazenda) e Marconi Perillo (governador de Goiás): o trio sabe que um Estado menor e menos inchado representa um certo alívio para a sociedade | Fotos: Reprodução

Michel Temer (presidente), Henrique Meirelles (ministro da Fazenda) e Marconi Perillo (governador de Goiás): o trio sabe que um Estado menor e menos inchado representa um certo alívio para a sociedade | Fotos: Reprodução

Há um consenso no mundo de que o Brasil é viável. Tanto que, apesar das intempéries políticas, figura entre as dez maiores potências globais. No momento, sob recessão, a economia vai mal. A crise, tida como a maior da história do país, decorre menos da inaptidão dos empresários e mais dos desarranjos gestados pelo Estado (governos estaduais e federal).

É provável que, se não cair e se conseguir estabilizar a política — criando segurança em vários sentidos, e não apenas jurídica —, Michel Temer fique na história como o presidente que, assim como Itamar Franco, pôs as coisas nos eixos, permitindo a retomada do crescimento.

No momento, para que se estabilize a economia, é preciso, antes ou ao mesmo tempo, que se estabilize a política. É óbvio que não se deve esquecer a Operação Lava Jato — pelo contrário, deve ser incentivada —, mas a economia do país não pode subordinar-se a uma investigação, que, de algum modo, tende a contribuir para a paralisação dos agentes econômicos. Há, pode-se dizer, Estado demais na economia. Michel Temer está implementando medidas — como a PEC do teto dos gastos públicos e as reformas previdenciária e trabalhista — exatamente para tornar a economia mais livre do Estado. Não só. O que se está fazendo, e os resultados (positivos) serão obtidos a médio e longo prazo, é uma redução do Estado, com o objetivo de torná-lo um pouco menos dispendioso para a sociedade.

A carga excessiva de impostos, que castiga os empresários, resulta de que, para se manter um Estado cada vez mais pantagruélico, é preciso de uma arrecadação cada vez mais ampliada. O Estado escorchante decorre do fato de ser caríssimo à sociedade. O Estado gasta e a sociedade paga a conta. Na crise, enquanto aquele que tem empresa e gera empregos quebra, o Estado segue “gordo” como um elefante, sem reduzir seus custos e cobrando os impostos como se fosse um carrasco do tipo jacobino.

Os que têm humor sugerem, citando um músico, que a saída do Brasil é o aeroporto. Na realidade, não é. Porque não há nações perfeitas; o que há são países que, plenamente institucionalizados, seguem regras essenciais e coerentes que impedem que as crises se perenizem, ao contrário do que está ocorrendo nas terras patropis. Numa frase mais realista, ainda que menos bem-humorada, o que se quer dizer é que a saída do país está no campo.

Ah, dirão os economistas, mesmo os heterodoxos: “De novo, a história das commodities”. Ora, na crise, os indivíduos caçam com cachorros, gatos e, até, gansos — menos, é claro, com ratos.
Quando se fala em commodities pensa-se, naturalmente, em produtos não transformados — como soja, milho, ferro, carnes. Porém, tais produtos são fundamentais para o relativo equilíbrio da balança comercial. Países gigantes como o Brasil, com suas terras férteis, não escapam, e jamais escaparão, de vender commodities no mercado externo. Alimentos, por exemplo, são produtos que, mesmo sob crise, os países jamais deixarão de adquirir. Podem até diminuir as compras, mas não podem evitá-las totalmente. Portanto, insistamos, a saída do Brasil não está no aeroporto, e sim no campo.

Mas o campo de que se fala aqui não é aquele idealizado. Trata-se, isto sim, do campo moderno, avançado. Não se pode falar mais no fazendeiro tradicional quando se discute o meio rural. Hoje, o que há, cada vez mais, são empresários atilados, com sua produção por vezes mecanizada, com sementes de alta qualidade e produtividade extremamente alta. Mais: é mais adequado se falar em agronegócio e não em negócios rurais ou do campo. Parte da produção da zona rural chega transformada aos mercados nacional e internacional — e não apenas como commodities.

Um dos editoriais do “Estadão”, da edição de 12 de dezembro, com o título de “As pistas estão no agronegócio”, afirma que “a melhora da economia brasileira em 2017, depois de dois anos de recessão, pode começar pelo campo, com uma safra de grãos de 213,1 milhões de toneladas — se o tempo, como se espera, for favorável. Sinais de recuperação, ainda escassos em outro setores, aparecem bem mais claramente na atividade do campo. (…) A colheita prevista para a safra 2016-2017 será 14,2% maior que a da temporada anterior. (…) Em 2016, como ocorre há um bom tempo, as exportações de alimentos e outros produtos originários do campo têm sido o pilar mais importante do comércio exterior”.

“O Estado de S. Paulo” sublinha que “a agropecuária brasileira é uma das menos subsidiadas”. Embora seja altamente competitivo, o setor precisa de mais investimentos. “De janeiro a outubro, o agronegócio embarcou mercadorias no valor de US$ 73 bilhões. O desempenho foi suficiente para garantir um superávit de US$ 62,1 bilhões. Isso foi mais que suficiente para cobrir o déficit acumulado em outros segmentos e ainda garantir ao país um saldo positivo de US$ 38,5 bilhões.”

Faltam créditos oficiais, em termos de quantidade e qualidade. “Na indústria, a interferência governamental, com protecionismo  e ampla distribuição de favores, foi insuficiente para produzir inovação e ganhos de competividade. O governo pode, é claro, fazer mais pelo agronegócio. Um das tarefas urgentes é promover investimentos em logística”, sugere o “Estadão”. Recentemente, o deputado federal Heuler Cruvinel (PSD) disse, numa entrevista ao Jornal Opção, que o Sudoeste de Goiás, um dos celeiros agrícolas do país (e exportador), clama por estradas recuperadas.

Numa entrevista ao jornal “Valor Econômico”, o filósofo e economista Eduardo Giannetti afirmou, de maneira enfática: “A indústria deve se preparar para uma operação desmame. Ela está acostumada a chorar e ser atendida”. De fato, a atividade industrial é altamente subsidiada pelo Estado. Determinadas regiões do país, como Goiás, cresceram, em termos industriais, devido a incentivos fiscais. Num primeiro momento, sobretudo em decorrência da dificuldade de transporte e da falta de infraestrutura básica — inclusive energia elétrica confiável —, sem os incentivos, como o Fomentar (formulado pelo economista Flávio Peixoto, pai do deputado Thiago Peixoto) e o Produzir (criado no governo de Marconi Perillo), dificilmente Goiás teria se industrializado. Manter os incentivos fortalece a industrialização e, portanto, a geração de empregos. Entretanto, em determinados períodos, especialmente quando o Estado precisa de recursos para beneficiar a sociedade — as maiorias, que precisam de educação e saúde de mais qualidade (o que Goiás tem fornecido, diferentemente de vários Estados, como o Rio Grande do Sul e o Rio de Janeiro, governados por políticos do PMDB) —, é preciso conter, ao menos em certa medida, a sangria da renúncia fiscal. Os empresários e seus lobistas, em geral políticos, precisam entender que, na crise, é preciso dar sua contribuição, não ao Estado em si, mas à sociedade.

Índia e Meirelles
Na quinta-feira, 22, a “Folha de S. Paulo” publicou uma reportagem, “Vaivém das commodities”, assinada por Mauro Zafalon, que discute um assunto pouco comentado no Brasil — a relativa pujança do mercado da Índia. Fala-se tanto da gigante China que se esquece da gigante Índia.
Mauro Zafalon escreve que “a Índia, que tem tido um crescimento econômico de 6% a 7% nos últimos anos, vai ultrapassar os chineses em população nos anos 2050. A necessidade por alimentos vai explodir, mas o país tem recursos naturais limitados. (…) Os indianos vão ficar muito dependentes de importações de alimentos. (…) A marca mais clara da dependência externa dos indianos é a demanda por leguminosas, que eles chamam de pulses. Em dois a três anos vão importar 7 milhões de toneladas. Em 2030, serão de 30 milhões a 35 milhões. As pulses são um conjunto de espécies de leguminosas que produzem grãos de maior qualidade nutricional: grão de bico, lentilha, tipos de feijão. (…) A demanda indiana que pode ser abastecida pelo Brasil vai de leguminosas a frango, óleos e produtos lácteos. (…) A Embrapa já tem lentilha e grão de bico adaptados no Brasil, inclusive com produtividade de 2.500 e 2.700 quilos por hectare neste último. Na Índia, a produtividade não é nem metade da brasileira: de 800 a 1.200 quilos”. Noutras palavras, os Estados brasileiros, como Goiás, se diversificarem a produção agrícola e se forem incentivados na medida certa e no tempo adequado, poderão ter na Índia — espécie de nova China — um grande parceiro comercial.

Antes, sugerir que uma pessoa estava “na lavoura” equivalia a se dizer que estava falida. Agora, ao contrário, é a lavoura que pode arrancar o país da crise.
Finalizemos o Editorial com o tema exposto nos primeiros parágrafos. O que se deve sugerir é que ruim com Michel Temer, pior será sem Michel Temer. Mesmo correndo o risco de se tornar cada vez mais impopular, o presidente está fazendo aquilo que precisa ser feito — cortando gorduras do setor público e reduzindo o Estado paizão.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, está comandando uma grande operação de reajuste do Estado, tornando-o mais eficaz para que seja mais leve para a sociedade. Se Michel Temer e Henrique Meirelles caírem, dada a onda moralista que assola o país — e não se está criticando o combate à corrupção e a necessidade de se criar indivíduos que se tornem, cada vez mais, cidadãos institucionais —, será pior para todos os brasileiros.

Há muito não se tinha um presidente, não populista e não autoritário, com coragem suficiente para enfrentar o “dragão da maldade” chamado Estado. Michel Temer, com todos os defeitos que possa ter — a avaliação justa de um político, como de qualquer indivíduo, deveria ser pela média, não pelos extremos —, está fazendo as reformas de que o país precisa.

O presidente Michel Temer, um homem de cultura, deveria se lembrar que, quando falava em disputar a Presidência da República em 1965 — acabou cassado pelos militares, sob pressão das vivandeiras —, Juscelino Kubitschek dizia que, se eleito, iria investir na agropecuária, setor que negligenciou, em parte, no seu primeiro governo. l