Reforma de Marconi quer Estado mais útil pra sociedade. Cerebraço é mais inteligente do que bundaço

Reforma administrativa tem como objetivo tornar o Estado mais barato para a sociedade e possibilitar que o governo tenha recursos para melhorar serviços e a qualidade de vida das pessoas. O governador também pensa na possibilidade de 2015 ser um ano de forte crise econômica

Foto: reprodução / site oficial

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A economista italiana Mariana Mazzucato escreveu um livro que é lido tanto por governantes quanto por empresários de todo o mundo. “O Estado Empreendedor — Desmascarando o Mito do Setor Público vs. o Setor Privado” (Portfolio Penguin, 304 páginas, tradução de Elvira Serapicos) é um best seller mundial e possivelmente deve ter sido lido pelo governador de Goiás, Marconi Perillo, pelo secretário de Gestão e Planejamento, Leonardo Vilela, por Igor Montenegro, agora superintendente do Sebrae, e pelo economista Giuseppe Vecci, deputado federal eleito pelo PSDB. A professora de política científica e tecnológica da Universidade de Sussex, na Inglaterra, disse, numa entrevista ao repórter Diego Viana, do “Valor Econômico”, que “toda vez que houve crescimento rápido e inovador, havia governos extremamente ativos. É uma questão de aprender as lições e criar governos que consigam construir, com o setor privado, um ecossistema dinâmico e inovador. (…) O Estado não é só um ator importante no mercado, mas, literalmente, forma e dá sentido a um mercado. (…) O mercado capitalista é um fenômeno recente e foi essencialmente promovido por governos. A visão sobre nanotecnologia veio do governo. A visão da internet veio do governo. Ao redor do mundo, hoje, a visão para a energia renovável veio dos governos. É um fato histórico”. Tentar esconder o papel do Estado, como empreendedor, criador e financiador, é um dos mitos dos tempos contemporâneos. Microsoft, Apple e Google, entre outras grandes empresas, devem muito ao Estado americano.

Quando afirma que, com as reformas atuais e as próximas, planeja construir o “Estado necessário”, Marconi Perillo está dizendo mais ou menos o que sugere Mariana Mazzucato. Noutras palavras, está propondo um Estado mais ativo, arrojado e focado em resultados. Um Estado com mais capacidade de investimento em obras, serviços e inovação é mais útil à sociedade e, portanto, ao mercado. Porém, para investir mais em qualidade de vida e inovação, é preciso sobrar recursos. Em suma, o custo do Estado precisa ser menor, porque senão o dinheiro arrecadado é desviado quase que exclusivamente para financiá-lo. Adiante, o Editorial volta ao assunto.

O Estado corporativo

O jornalista Michael Reid, editor da “The Economist”, possivelmente a publicação mais influente do mundo (acima do “New York Times”), é autor do livro “Brasil — A Turbulenta Ascensão de um País” (Campus, 320 páginas, tradução de Cristiana de Assis). Ele foi correspondente da revista inglesa no Brasil e estuda o País com atenção e paixão. Numa entrevista a Jorge Felix, do “Valor Econômico”, Michael Reid diz que não acredita que o Brasil “corra o risco de outro colapso econômico”. Mas receia “que, sem a liderança política e as políticas corretas e sem reformas políticas, entre outras, seu ritmo de avanço poderá decepcionar tanto brasileiros quanto estrangeiros”.

artigo_jose maria e silva.qxdContrariando a posição da presidente Dilma Rousseff, Michael Reid afirma que a crise econômica global não é responsável integralmente pelo baixo crescimento da economia patropi. “O Brasil ficou abaixo da média internacional por erros de política econômica e falta de mudanças estruturais para atacar o custo Brasil.”

No lugar de fazer as reformas tributária, fiscal e trabalhista, Lula da Silva, quando presidente, e Dilma Rousseff “relaxaram”, avalia Michael Reid, e optaram por “aproveitar o boom das commodities”. A chamada âncora verde sustentou o crescimento do País nos últimos anos, mas escondeu a paralisação relativa de outros setores. Há, por exemplo, um processo de desindustrialização acentuado.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, e Dilma Rousseff são caracterizados como adeptos de uma política “nacional-desenvolvimentista”. Michael Reid prefere outra nomenclatura: “Estado corporativo moderno”. “O PT nasce de uma insurgência pacífica contra o Estado corporativo de Getúlio Vargas, numa greve considerada ilegal, feita por um sindicato não reconhecido, contra, portanto, o coração do Estado corporativo, e a surpresa é que, uma vez no poder, o PT tenha se convertido, tenha se deixado cooptar por esse modelo de Estado, com subsídios, setores escolhidos, ou seja, dinheiro público para ‘insiders’”.

Por que o PT aderiu ao Estado corporativo e não provocou uma ruptura? O suposto “recuo” do petismo — que criou uma espécie de getulismo sem Vargas, com Lula se tornando uma espécie de novo Getúlio Vargas, um discípulo tardio e de origem operária, um João “Jango” Goulart de barba e mais esperto — se deve ao que Michael Reid chama de “presidencialismo de coalizão”. “Reid concluiu que tudo poderia ter sido diferente se PT e PSDB tivessem constituído um só partido socialdemocrata, na década de 1980, para romper a hegemonia do PMDB. Ou impediriam o velho vício de o moderno se alimentar do arcaico e vice-versa, estancando, assim, qualquer possibilidade de avanço histórico”, escreve Jorge Felix, sintetizando as ideias do jornalista. “O peemedebismo não está limitado ao PMDB, uma forma de fazer política que tem a ver com o arcaico”, assinala o editor da “Economist”.
Ao se submeter ao Estado corporativo, o governo da presidente Dilma Rousseff — como o de Lula da Silva — contribui para frear o investimento e dificultar “a distribuição de renda por meio de serviços públicos gratuitos e de qualidade, como educação, saúde, ou melhorias no saneamento básico, transportes e mobilidade urbana”. Michael Reid sublinha que “os movimentos de junho de 2013 mostram que a reivindicação era um Estado diferente, um gasto para os cidadãos, no bem-estar da população”. Porém, casado com o sistema arcaico, dificilmente o governo petista terá condições de apresentar respostas consistentes a problemas reais e não meramente ideológicos. O editor de “Economist” diz que o Brasil precisa “elevar o nível de investimento para 24% do PIB” para que se possa chegar a um crescimento de 4% ao ano.

Se escapar do corporativismo, é provável que a presidente Dilma Rousseff leve o país a um crescimento de 3% a 4% ao ano. Não basta indicar um ortodoxo como Henrique Meirelles para ministro da Fazenda, pois, como afirma Michael Reid, o verdadeiro ministro da Fazenda tem sido, na prática, a presidente. Há uma sinalização de que o PMDB não quer mudança e exige mais controle do governo, sobretudo agora que a oposição, com Aécio Neves, está mais ativa e fortalecida. As entrevistas recentes de petistas, como Lula da Silva, o Sr. PT, e Gilberto de Carvalho, indicam que o PT quer ampliar o Estado corporativo. Noutras palavras, embora Dilma Rousseff tenha dito que é presidente do Brasil e não do PT, este sugere que quer um governo “mais petista”. Qual o motivo disto? O PT já vislumbra o quinto mandato, em 2018, com uma possível candidatura de Lula da Silva. Por isso quer manter um Estado mais “político” e, provavelmente, em “campanha” durante quatro anos. O próximo governo de Dilma Rousseff seria um ensaio-interregno para a volta de Lula. Pode ser bom para o PT e para Lula. Mas não será para a presidente e, sobretudo, para o País. Resta saber se, cercada pelo PMDB e pelo PT, a petista, que não é vista como petista pelos petistas, tem condições de reagir.

Com as reformas anunciadas na semana passada, o que Marconi Perillo está propondo é um rompimento, ainda que parcial, com o Estado corporativo. O tucano-chefe, como não é ideólogo, apenas não formula a ideia com o vocabulário do britânico Michael Reid. Adiante, quando se falará das reformas, o Editorial voltará à questão.

Ideias para o País crescer

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Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

O economista Carlos Eduardo Soares Gonçalves, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo e autor do livro “Economia Sem Truques” (Campus, 224 páginas), em parceria com Bernardo Guimarães, escreveu um artigo, “E agora, Dilma”, publicado no “Valor Econômico”, no qual aponta oito pontos “para pôr a economia nos eixos”.
Carlos Eduardo sugere, em primeiro lugar, a extirpação de “leis de conteúdo nacional, que danificam a produtividade da economia e forçam a sociedade a pagar mais caro pelos bens finais consumidos”. Costuma-se dizer: “Os produtos da Zara na Espanha são mais baratos do que os da Zara no Brasil”. É mais ou menos isto que o economista está apontando, quer dizer, as regras brasileiras tornam os produtos locais mais caros.

O segundo ponto, conforme Carlos Eduardo, é, “gradativamente, acabar com o esquema de subsídios setoriais implementados pelo hipertrofiado BNDES. Isso gera direcionamento forçado da poupança da economia para quem tem o privilégio de ter acesso facilitado aos cofres dessa instituição”. O economista está criticando a política de formatar “campeões nacionais” (como o grupo JBS-Friboi). Uma ressalva: a economista Mariana Mazzucato avalia que o BNDES tem um papel importante, porque se vive num mundo “em que a finança privada recuou da economia. Quem vai preencher os buracos? Não é qualquer tipo de finança que permite inovação e desenvolvimento econômico, especialmente em novas áreas. É a finança paciente e comprometida com o longo prazo. (…) Um banco público com uma missão, capaz de atrair os melhores cérebros e financiar pacientemente as áreas de fronteira, é uma coisa boa. Precisa ter formas de avaliar o investimento e entender que não se trata de trabalhar simplesmente em mercados preexistentes, mas criar mercados, empurrar as fronteiras de novas áreas. Nessa perspectiva, o modo de avaliar o sucesso do investimento é outro”. A economista italiana sugere, porém, que empresas financiadas pelo capital público doem um pouco mais de si para a sociedade, para o Estado. Sobre o insucesso de alguns empreendimentos financiados pelos bancos públicos, como o BNDES, a doutora em economia afirma que é assim mesmo. Mas um sucesso sólido, como o da Tesla, do setor de energia renovável, já compensa o investimento. “Por que não guardar [para o Estado] alguns direitos e ações da Tesla?” Assim, se poderia cobrir as perdas de outras empresas, como a Solyndra, e o prejuízo público seria menor.

Voltemos às teses de Carlos Eduardo. O terceiro ponto tem a ver com a reforma tributária, “com ênfase em diminuição de custos de transação, simplificação de procedimentos, unificação de tarifas em torno de um imposto de valor agregado nacional. E precisamos reverter as desonerações setoriais, que geraram forte queda no superávit primário e nenhuma melhora no desempenho da economia. Por fim, no front fiscal, o governo precisa parar de maquiar as coisas”.

O quarto ponto diz respeito a “mais abertura comercial, menos proteção, menos viés ideológico na agenda internacional. O Brasil precisa se inserir nas cadeias globais de produção, precisa competir internacionalmente. Isso aumenta a produtividade da economia, nos deixa mais ricos, nos ajuda a produzir mais com menos insumos”. Para isto, frisa Carlos Eduardo, a presidente Dilma Rousseff precisa começar com “um cronograma de redução das tarifas de importação. Pode ser gradual, mas precisa ser implementado”. O economista defende que a petista-chefe “vá com vigor atrás de acordos comerciais com Europa e EUA. Esqueça os vizinhos bolivarianos, que estão se afundando e querem nos puxar para o buraco junto com eles”.

Como quinto ponto, Carlos Eduardo propõe que “a produtividade do setor público precisa crescer. Em saúde e educação, principalmente, mas também nos outros bens públicos. Como? Com mais meritocracia. Precisamos de uma reforma administrativa que imponha remuneração variável ao setor público”. Mais uma vez, é preciso observar que, no seu terceiro governo, o governador Marconi Perillo preocupou-se com a instalação de uma meritocracia no Estado. E a atual reforma visa, entre outras coisas, aumentar a qualidade — a produtividade — dos serviços públicos.

Avançar “com as concessões via leilões sem fixação prévia de rentabilidade” é o sexto ponto. “A carência de investimentos em infraestrutura é ominosa. Estudos empíricos sugerem que há efetiva relação de causalidade correndo de melhoras na infraestrutura para mais investimento em máquinas e equipamentos.” No seu terceiro governo, operando num Estado com dimensão de país — maior do que Portugal, Cuba, Israel e Coreia do Sul juntos —, Marconi Perillo investiu maciçamente em infraestrutura. Reconstruiu e ampliou a malha rodoviária — algumas estradas foram duplicadas —, construiu centro de convenção e está construindo um aeroporto de cargas em Anápolis. De alguma maneira, ante certa omissão do governo federal — observe-se que a presidente Dilma Rousseff não consegue concluir o Aeroporto Santa Genoveva, em Goiânia —, atuou como uma espécie de micro presidente da República no Estado que governa. Chegou a iluminar a BR-153, uma rodovia federal. A ação deveria ser do governo federal, mas, ante a quantidade de acidentes, o tucano tomou a iniciativa e a iluminou no perímetro urbano entre Goiânia e Aparecida de Goiânia.

O sétimo ponto é considerado “hiperimportante” por Carlos Eduardo. “Precisamos melhorar o ambiente de negócios por essas bandas. Recuperar dívidas e, principalmente, abrir e fechar negócios precisa ser algo muito mais ágil e célere. Isso facilita o surgimento de novas empresas e o fechamento das ineficientes. São as novas empresas, a propósito, que aumentam a taxa de inovação na economia.” O economista não está errado, mas Mariana Mazzucato também não equivoca-se quando diz que não se deve ignorar o papel do Estado como carro-chefe das inovações. O próprio Carlos Eduardo, como professor e pesquisador de uma universidade pública, é o exemplo do que diz a economista italiana. No Brasil, pelo menos, as pesquisas inovadoras são feitas, em regra, nas instituições públicas, que são do Estado. Equivocado (mas está mudando) é manter a universidade longe do mercado, da sociedade.

O oitavo ponto tem a ver com a inflação. “Os juros estão baixos para o momento atual e o Banco Central precisa elevar os juros”, afirma Carlos Eduardo. Surpreendendo setores do mercado, o governo Dilma Rousseff aumentou a taxa básica de juros (Selic) de 11% para 11,25% ao ano. O economista propõe um pouco mais: “Eu diria que Selic a 13% por um tempo ancoraria as expectativas hoje desancoradas”.

Cerebraço ou bundaço?

Há uma coisa que alemães, japoneses, chineses e americanos não entendem: como pode a folha de pagamento do funcionalismo público “devorar” cerca de 70% da arrecadação mensal de um Estado brasileiro? Se o fosse uma empresa privada, o Estado estaria falido. Porque, além dos salários dos servidores, o governo tem de pagar dívidas, fornecedores, o custeio da máquina e, quando sobra dinheiro, fazer investimentos. Se o Estado arrecadar 1 bilhão de reais, 700 milhões aproximadamente serão destinados a pagar 150 mil funcionários. É óbvio que não dá para sair demitindo ou responsabilizando os servidores por essa anomalia. Mas é preciso estudar uma forma de beneficiar os outros 6 milhões de goianos que não são funcionários do Estado.

O que fazer? A maioria dos Estados fica inerte, em geral quebrados e trabalhando única e exclusivamente para quitar, todo mês, a folha do funcionalismo. A pressão por mais concursos, forma democrática e legal de se contratar, é geral na sociedade brasileira. Tanto que se criou um neologismo para definir quem passa parte de sua vida fazendo concursos. Os concurseiros integram uma legião de anônimos que anda por todo o Brasil prestando concursos públicos. Por que a maioria dos brasileiros quer um emprego público? Por dois motivos básicos. Primeiro, porque avaliam que há mais estabilidade no setor público — raramente há demissões. Segundo, e mais importante, os salários são bem maiores do que aqueles pagos pela iniciativa privada. Um jovem de pouco de mais de 20 anos presta concurso para juiz ou promotor e seu salário inicial chega a mais de 18 mil reais. Na iniciativa privada — exceto se o indivíduo for um prodígio, e especialmente se trabalhar no mercado financeiro —, dificilmente alguém começa a carreira ganhando mais de 5 mil reais.

Não se está, neste Editorial, sugerindo o fim dos concursos públicos ou que são desnecessários. O que se está dizendo é que os governos federal, estaduais e municipais estão cada vez mais inchados e muitos concursos são feitos sem critérios e sem pensar que a sociedade, às custas de seu conforto e da redução de investimentos em saúde, educação e segurança pública, tem de bancar folhas salariais que, de tão pesadas, praticamente inviabilizam algumas unidades da Federação. Quando o deputado federal Thiago Peixoto, do PSD, assumiu a Secretaria da Educação, a grita por concurso para professores era enorme.

Descobriu-se, porém, que centenas de professores estavam fora das salas de aula. Alguns cuidavam de hortas, outros apenas ligavam computadores e alguns até trabalhavam como motorista. Reconvocados para trabalhar na profissão para a qual prestaram concurso, caiu o déficit de professores. A médio prazo — ou a longo prazo, dadas as pressões corporativas —, os Estados, e não apenas Goiás, deverão repensar a redução de suas folhas de pagamento. Às vezes, no lugar de concursos, deverão investir em requalificação e, depois, em remanejamento de servidores.

Enquanto não se tem como discutir a folha do quadro efetivo — é uma ilusão pensar que o problema são os “comissionados”, como parecem acreditar a sociedade e, maliciosamente, os setores corporativos —, é preciso fazer alguma coisa mesmo. Com o projeto de reforma administrativa que enviou para a Assembleia Legislativa, o governador Marconi Perillo está pensando em economizar 300 milhões de reais por ano (25 milhões por mês). Parece pouco. Mas não é. Com este dinheiro poderá construir escolas e hospitais, além de equipá-los, e fazer outras obras. Poderá investir em inovação, como o incentivo a projetos e pesquisas, como sugere a economista Mariana Mazzucato.

O que Marconi Perillo pretende é que o Estado não seja apenas um pagador de salários, dívidas e custeio da máquina. Ao propor o “Estado necessário” — que não é máximo, o dos desenvolvimentistas, nem mínimo, o dos liberais ortodoxos —, o tucano-chefe está sugerindo, isto sim, que o Estado seja útil aos 6,5 milhões de goianos. A todos eles. Está dizendo, também, que um Estado menos dispendioso libera o governo para novos investimentos. No momento, como em quaisquer outros Estados, Goiás, quando cria um programa de investimentos — como o de recuperação da malha rodoviária —, precisa recorrer ao mercado financeiro, em geral o público. Entretanto, ao contrário do que muitos pensam, por jogo político ou ingenuidade, a presidente Dilma Rousseff não está “doando” dinheiro para o governo do tucano Marconi Perillo. Nada disso. O governo de Goiás está contraindo empréstimos — dívidas, pois — para financiar o crescimento da economia e o desenvolvimento do Estado. Às vezes critica-se quando um Estado obtém financiamentos, porque isto gera forte endividamento. Ora, o Estado não é como a iniciativa privada, cujo objetivo é o lucro imediato.

O Estado investe a fundo perdido, ou melhor, seu retorno é econômico, social e cultural, mas não é financeiro (quer dizer, não há lucro em termos de dinheiro; no futuro, cresce a arrecadação). Quer dizer, investe, a sociedade se beneficia dos investimentos, e, aos poucos, o Estado vai pagando a dívida. É assim no Brasil e em qualquer outro País (ninguém deve tanto, no mundo, quanto o governo dos Estados Unidos). Um programa caro mas necessário, como o de eletrificação rural, dificilmente será bancado pela iniciativa privada. Porém, como é necessário e vital para fortalecer o mercado e melhorar a qualidade de vida dos indivíduos, o governo o banca. Ficando, depois, com a dívida.

Numa entrevista à revista “Época”, Mariana Mazzucato disse: “Se o gasto for em educação, em aumento de produtividade, na construção daquelas relações simbióticas para aumentar o investimento geral em pesquisa, no longo prazo, a relação entre dívida e PIB será mais saudável. O problema não é a dívida, e sim a composição do gasto”. Fala-se que Goiás tem uma dívida “gigante”. Não há dúvida, não é uma dívida pequena. Porém, um estudo detido certamente mostrará que os empréstimos que foram feitos por vários governadores — eram “carimbados”, quer dizer, definidos para uma finalidade específica (o dinheiro não pode ser desviado para outro fim) — contribuíram para o crescimento e o desenvolvimento de Goiás. Não é à toa que o Estado é o nono mais poderoso do país, em termos de economia, o primeiro em educação (ensino médio) e um dos que mais crescem.

Então, ao fazer a reforma, para tornar o Estado mais enxuto, Marconi Perillo está enfrentando os setores corporativos — que não querem nenhuma mudança — e seus próprios aliados políticos. Isto é, o governador está pensando no Estado, na sociedade, nas pessoas, e não em interesses localizados. A reforma, que certamente será modelo para outros Estados e até para o governo federal, tende a chamar a atenção do País para Goiás.

Ao cortar sete secretarias (fundiu algumas e sobraram apenas dez), duas agências e 14,9 mil servidores — além de gratificações —, Marconi Perillo está dizendo que foi eleito pela sociedade para tornar o Estado mais produtivo e útil a todos. Ao mesmo tempo, indicando que tem visão de estadista, entendendo que Goiás não é uma ilha, frisou que, ao fazer os cortes, está antecipando-se à crise que tende a explodir com força em 2015. Empresas estão cortando gastos, estão reduzindo investimentos, porque preveem que o próximo ano será complicado.

O governador de um Estado, como principal executivo do governo, precisa ter a mesma visão dos executivos privados. Mas, diferentemente deles, tem de manter os investimentos. Para mantê-los, e até ampliá-los, tem de cortar gastos. É o que está fazendo Marconi Perillo. Está se comportando como estadista e como executivo — um gestor firme e eficiente — que tem noção do que fazer para enfrentar a tempestade que se avizinha. O que ele está propondo, que pode até ser doloroso agora, será benéfico para todos, e mesmo a custo prazo. Goiás, com as medidas tomadas, tende a sofrer menos com a crise.

Quando diz que é o único responsável pela reforma, Marconi Perillo não está sendo arrogante. Ele está apenas assumindo a responsabilidade pelos cortes duros. É a posição correta. Está sendo um homem de Estado, não de partido e grupos de interesses. Como tem autoridade, conferida pelos eleitores nas urnas — e vai para seu quarto mandato —, certamente vai enfrentar, com energia, as reações corporativas e políticas.

Um grupo de produtores culturais pretende fazer um “bundaço” na porta do Palácio das Esmeraldas. É curioso, até divertido, e chama a atenção da mídia. Mas talvez seja mais inteligente usar o cérebro — que tal um “cerebraço”? — e estudar se a junção da Secretaria da Cultura com a Secretaria da Educação vai resultar em prejuízo para a cultura. O Jornal Opção defende que o setor público apoie e financie atividades culturais. Mas não custa lembrar que os três maiores romances brasileiros — “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, e “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa — e pelo menos cinco grandes romances universais, “Guerra e Paz”, de Liev Tolstói, “Madame Bovary”, de Gustave Flaubert, “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, “Ulysses”, de James Joyce, e “O Som e a Fúria”, de William Faulkner, foram escritos e publicados sem nenhum centavo do poder público. Não é função do Estado — como já ocorreu no Brasil — financiar cineasta para que compre apartamento em Copacabana ou fique o ano inteiro em botecos discutindo se Werner Herzog é superior a Rainer Fassbinder. Nada contra a publicação de livros e o incentivo à produção de CDs. Nada contra a cultura. Mas um incentivo maciço à educação, com escolas públicas aproximando-se dos níveis das particulares, talvez seja mais útil à sociedade. É provável, até, que delas sairão muitos escritores e artistas que, talentosos, conquistarão espaço no plano nacional e às custas de seus próprios esforços.

Por isso, no lugar de pernaços, bundaços e dedaços, sugere-se que os produtores culturais — obviamente, não são sanguessugas do dinheiro público e muitos devem produzir de maneira extraordinária, até genial — optem por um cerebraço, que estudem a reforma e verifiquem em que seus projetos serão prejudicados. Agora, se querem manter uma Secretaria da Cultura para fins particulares, sem pensar na sociedade, aí não há nada a fazer. O interesse corporativo (e pessoal) quase sempre está acima do interesse público — o que não é, logicamente, positivo para os indivíduos, para a sociedade.

A reforma é para tornar o governo mais produtivo para a sociedade — e atende aos reclames das ruas por um Estado mais enxuto, mais barato, que possa investir em serviços de mais qualidade e mais amplos. Quem for contra deve pensar nisto. Nem precisa concordar. Mas pelo menos deve pensar. Mas claro que ninguém pensa com bundaços. l

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parabéns euler, o texto é um passeio sobre diferentes visões de governança para chegar no exemplo mais vigoroso da atualidade, que é a reforma proposta por marconi. o governador goiano se antecipou ao que deve ser uma tendência nacional, sobretudo tendo em vista a magra expectativa de mais um governo federal petista. na área da cultura, que sigo de perto, podemos tecer uma narrativa tanto real quanto fortemente simbólica para outros setores. a saída de martha suplicy fez o brasil acordar para o fato de que ficamos 12 anos com a gestão cultural no Brasil derrapando na mesa trilha, com… Leia mais

Pois é, o próprio texto assume a situação que a cultura irá perder verba por descuido do Governador. Infelizmente nosso governador parece que pegou um papel e foi marcando o que queria cortar sem pensar no assunto pois estava com viagem marcada para a Europa e não queria perder tempo. Se fosse um pouco mais cuidadoso veria que unir a sec. de cultura com educação e esporte é uma grande burrice pois perderá verbas federais direcionadas as secretarias de cultura (quando exclusivas). Infelizmente Marconi não se preocupa com o povo.

Oportuníssima a discussão que você levanta, Euler, tanto quanto colocar Mariana Mazzucato nela. De fato, é relevante notar que os governos modernizadores na administração pública buscam uma nova equação nesta dinâmica de gastos com folha de servidor público/devolução de serviços públicos de qualidade. O cumprimento de uma Lei de Responsabilidade Fiscal – herança de FHC tão execrada ainda pelo PT, mas cada vez mais aprovada pela sociedade – que limita gastos e realinha orçamento público com desenvolvimento e justiça social não é novidade no discurso vigente em Goiás desde o fim dos anos 90, com o governador Marconi Perillo e… Leia mais
Estão misturando as coisas… é claro, a administração pública deve ser eficiente, é um dos princípios. Portanto, deve-se perseguir metas e resultados. Mas comparar com grandes corporações do setor privado pura e simplesmente é não considerar que cada um tem suas características particulares. Empresas privadas visam lucro, logo perseguem suas metas visando lucro, o que só é possível com a exploração. Ao contrário, a administração pública deve prestar serviços de qualidade, e já que não visa lucro, uma vez que a receita vem dos impostos (impostos),e a obrigação com a eficiência e qualidade deve ser maior, sem no entanto lançar… Leia mais

Ele pode começar economizando os repasses para midia e publicidade, já seria um otimo começo.

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