Donald Trump não é o fim da história para a democracia americana, que não permite ditadores

O presidente eleito dos Estados Unidos, apesar dos arroubos de caudilho, não é uma ameaça à democracia. Sabe que será contido e enquadrado pelo vigor das instituições 

Donald Trump e Barack Obama: os dois defendem o primado do Império americano, o que varia é a retórica | Foto: Divulgação/Facebook

Donald Trump e Barack Obama: os dois defendem o primado do Império americano, o que varia é a retórica | Foto: Divulgação/Facebook

Há livros de rara excelência, mas precipitados. Trata-se do caso de “O Fim da História e o Último Homem” (Rocco, 489 páginas, tradução de Aulyde S. Rodrigues), do filósofo americano Francis Fukuyama. Embora não seja marxista (aproxima-se mais de Hegel), o pensador praticamente repetiu uma tese de Karl Marx, só que invertida. Para o filósofo alemão, o fim da história, se se pode dizer assim, se daria com a chegada do homem ao paraíso, quer dizer, à sociedade comunista, a etapa superior do socialismo.

O filósofo britânico John Gray sugere que Marx, filho rebelde de Hegel, extraiu da religião, quiçá do cristianismo, e do positivismo, a corrente filosófica de Auguste Comte, a ideia do comunismo como “fim da história”, como ponto de chegada da sociedade. Da religião, extraiu a ideia de um paraíso. A sociedade edênica, tida como o “fim”, seria resultado da luta histórica da esquerda. Do positivismo, o autor de “O Capital” e do “Manifesto Comunista”, retirou a tese de que o mundo se desenvolve de modo progressivo — os modos de produção são comunitário, escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo e, por fim, comunismo. O progresso seria contínuo, linear. Porém, como notaram Isaiah Berlin e John Gray, no meio do caminho do progresso há os percalços, como Ióssif Stálin, na União Soviética, e Adolf Hitler, na Alemanha. Os dois, longe de levarem a humanidade adiante, como pretendiam suas teorias, fizeram-na recuar. Eles restauraram a barbárie. Pode-se dizer, portanto, que a história avança, mas também recua. Por isso, talvez seja impossível falar em “fim da história”.

Pois, embora não seja marxista e esteja mais próximo do ideário liberal, Francis Fukuyama, por intermédio de um artigo e de um livro, ousou falar em “fim da história”. A decadência do socialismo no Leste Europeu, com a queda do Muro de Berlim (em 1989) — espécie de símbolo da barbárie socialista, de uma sociedade que havia se fechado à comunicação com o chamado “mundo livre” — e a debacle da União Soviética, com a queda de Mikhail Gorbachev e a ascensão de Boris Yeltsin (um pouco mais tarde, em 1991), indicariam que o capitalismo havia vencido. Não uma vitória episódica, circunstancial. Tratava-se de uma vitória definitiva, portanto incontornável. A sociedade democrática, de matiz liberal, havia vencido. O socialismo seria um acidente na História do mundo e o capitalismo seu ocidente, seu norte.

Não se deve exigir que filósofos não escrevam em cima dos fatos, quando estão acontecendo. Porque, esticando a realidade, podem contribuir para a expansão de seu entendimento. Mas talvez se precise apresentar as ideias de maneira mais nuançada, trocando teses definitivas por teses que apresentem os problemas com certa abertura. De fato, embora não esteja morto e enterrado para sempre, o socialismo — ou comunismo, como preferem seus adversários — não tem a mesma energia que tinha no século 20, entre 1917, com a Revolução Russa, e 1991, com a queda da União Soviética. Entretanto, o que dizer da China?

Há quem postule que a China professa um capitalismo de Estado. Se se pode dizer assim, a China criou um sistema original, híbrido de capitalismo e comunismo. A economia, apesar do controle estatal — rigoroso e flexível ao mesmo tempo —, é capitalista. Porém, o Estado, por meio do Partido Comunista, exerce um controle da economia. Portanto, o comunismo está vivo e apaixonado pelo capitalismo — numa espécie de casamento transgênico e, surpreendentemente, eficiente. Pode-se, pois, falar em “fim da história” a respeito da China, país que tem o segundo maior PIB do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e superando Japão, Ale­manha e Inglaterra?

Não há dúvida de que o mercado faz as coisas funcionarem no capitalismo e, vá lá, no socialismo (ou capitalismo) de Estado. Mas o Estado, diria um militante anarquista, tornou-se descartável? De maneira alguma. Mercado e Estado, que deveriam ser adversários — e até inimigos, na opinião de liberais mais radicais —, são amantes, às vezes ternos, às vezes turrões. A crise da economia dos Estados Unidos, uma das mais sérias dos últimos anos — que abalou seu sistema de crédito, raiz de qualquer economia capitalista —, provou que o mercado, para se safar, não raro precisa do Estado. O presidente Barack Obama, um estadista e um realista de primeira linha, entendeu, de pronto — como Franklin D. Roosevelt, entre as décadas de 1930 e 1940 —, que a economia americana tinha salvação, que passava pela recuperação das empresas privadas, mas com amplo apoio do Estado. Ao Estado cabe o investimento a fundo perdido, sem retorno financeiro imediato. Porém, a função do mercado é mais financeira — o capitalista precisa ter lucro — do que social. Então, numa crise, quando tem dificuldade de investir, porque, se o fizer, pode quebrar, precisa do amparo do Estado, de seus recursos financeiros.

As crises do capitalismo — e, de resto, de quaisquer outros modos de produção da história — ocorrem de tempos em tempos, daí se falar em ciclos de queda e expansão. Há quem acredite que se possa falar em “eterno retorno” — ao qual fizeram menção tanto o filósofo italiano Giambattista Vico (relido por Isaiah Berlin) e quanto o filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Se há crises e bonanças, de tempo em tempo, não se pode falar, deste modo, em “fim da história”. Há momentos luminosos e há momentos de trevas — e não raro no mesmo período histórico. Enquanto a União Soviética e a Alemanha recriavam a barbárie, com o Gulag e os campos de concentração e extermínio, como Auschwitz — em pleno século 20 —, os Estados Unidos se consolidavam como potência econômica democrática.

As crises do Oriente Médio, com a expansão do terrorismo, que fragiliza as sociedades mais democráticas — que são necessariamente mais permissivas, no sentido de “conceder” maior grau de liberdade aos indivíduos —, sugerem também que não se pode falar em “fim da história”. Lá, mesmo entre aliados dos Estados Unidos, como a Arábia Saudita — que chega a patrocinar terroristas desde que se apresentem como inimigos letais dos xiitas (tema, aliás, de um comunicado de Hillary Clinton quando secretária de Estado) —, não se pode falar em vitória das ideias liberais (que, como a democracia, não são lá grandes coisas, mas não inventaram nada melhor), ou seja, em fim da história. A União Soviética de Vladimir Putin, um czar corrupto e violento, aliou-se à Síria do sanguinário Bashar al-Assad. Num primeiro momento, os Estados Unidos postaram-se contra o ditador sírio, mas, como ele combate o Estado Islâmico — ameaça muito superior para a civilização —, é preciso escolher o, digamos, “mal menor”.

O marxista inglês Eric Hobs­bawm, historiador de primeira linha, apesar de certas escorregadas ideológicas, notou que, quando se falava em globalização, pensava-se num mundo plano (ideia mais tarde desenvolvida pelo jornalista Thomas Friedman, no livro “O Mundo É Plano — Uma Breve História do Século XXI”, Editora Companhia das Letras, 480 páginas), com os Estados nacionais perdendo sua importância. Como historiador que examinava períodos longos, do século 18 ao século 20, em vários livros, como “A Era dos Extremos — O Breve Século XX” (Companhia das Letras, 632 páginas, tradução de Marcos Santarrita), Hobsbawm observou que as sociedades podem experimentar períodos de estabilidade, em que podem crescer em paz, mas as turbulências permanecem, e não se trata apenas de se falar nas ações do terrorismo. Pensava-se que a globalização “liquidaria” os Estados Nacionais (que não são a internet, com sua liberdade praticamente total), criando “fronteiras livres”. Porém, pelo contrário, os Estados nacionais continuam talvez mais sólidos do que nunca. No momento, longe de se pensar em abrir as fronteiras, os Estados querem mantê-las fechadas ou ligeiramente fechadas, com o objetivo de proteger seus interesses — que, a rigor, são quase feudais.

O escritor V. S. Naipaul, no romance “Os Mímicos”, sublinha que só o poder revela o político. Do homem de Estado se deve cobrar pelas ações, mais do que pelas palavras. O presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump — que é menos aloprado do que se pensa, mas, acima de tudo, é um marqueteiro do primeiro time (tanto que repetiu centenas de vezes as mesmas ideias e slogans, para massificá-los e torná-los coletivos) —, sabe que não terá como “fechar” os Estados Unidos. Porque, apesar do protecionismo, a economia americana é “aberta”. A terra do escritor William Faulkner, produto de som e fúria, é a pátria do consumo (com crédito praticamente sem limites), do capitalismo levado ao extremo.

O político mexicano Porfirio Díaz é autor de uma frase célebre: pobre México — tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos. Pois agora, com um muro, Donald Trump quer isolar os americanos dos mexicanos. Será possível? Muito difícil. Mas a ideia simbólica, de um Muro de Berlim americano separando dois países que, no fundo, são irmãos, de tão conectados — os americanos chegaram a se apropriar de parte do território dos mexicanos, que, como uma espécie de vingança inconsciente, decidiram reocupá-los, com a imigração —, está formulada. O líder republicano sabe das coisas, de como palavras, ditas de maneira repetitiva e intensa, podem se tornar coisas, atos.

Mas poderá Donald Trump fazer tudo o que diz, ou até o que não diz? Não. O presidente dos Estados Unidos, radical ou não, é um “escravo” das instituições e não tem como forçá-las ao ponto de uma ruptura. O Congresso, com maioria republicana ou democrata, e a Suprema Corte são empecilhos a possíveis arroubos autoritários. As palavras sugerem que Trump se parece com um caudilho latino-americano, mas o fato é que o presidente eleito é democrata. A sociedade americana vai circunscrevê-lo, portanto, às regras da democracia. Frise-se que sociedades perfeitas, com homens ideais, não existem e nunca existirão.

Francis Fukuyama certamente, se fosse escrever outro livro, poderia nomeá-lo assim: “A história Sem Fim”. A vitória de Donald Trump, que “assusta” alguns, sugere que a história é um terreno movediço e, por vezes, pantanoso. Mas deve-se temer o republicano? Não. A democracia resiste a tudo — até ao PT de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

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