Armagedom da Lava Jato tende a instalar um Silvio Berlusconi na Presidência da República?

A destruição dos “integrados” pode contribuir para pôr no poder, a partir de 2019, um político apocalíptico, como Ciro Gomes e Jair Bolsonaro

Ciro Gomes, Jair Bolsonaro, Marina Silva e João Dória: qual deles vai se “candidatar” a ser o Silvio Berlusconi dos tristes e corruptos trópicos? O quarto é o menos radical, mas não é nenhum estadista | Fotos: Divulgação e Ernesto Rodrigues (Marina)

O que se vai se escrever neste Editorial não é ortodoxo e, mesmo sem se ter a intenção, talvez choque o leitor. Alerta-se que não se trata de análise conclusiva, tampouco se pretende condenar a Operação Lava Jato, que é importante ao incentivar uma espécie de reinvenção institucional do Brasil. Trata-se, muito mais, de um comentário de caráter exploratório, convocando para um debate que, às vezes, escasseia na imprensa patropi. Por isso, comecemos com o passado — que, como sugeriu o escritor americano William Faulkner, nunca está morto, e nem mesmo é passado —, faremos um brevíssimo passeio turismo pela história do Brasil e da Itália e, depois, retomaremos o apocalipse da Lava Jato.

Parte do Brasil — Minas Gerais e Rio Grande do Sul na linha de frente — articulou a Revolução de 1930 com o objetivo de reinventar o país. Os tenentes, apóstolos de Getúlio Vargas e Antônio Carlos de Andrada, acreditavam que a corrupção seria varrida do mapa e que se instalaria uma legalidade geral e irrestrita. Acabaram apoiando e, até, sustentando a ditadura do presidente entre 1937 e 1945 — o chamado Estado Novo —, expurgando os oposicionistas da vida política nacional. Getúlio Vargas, depois de 15 anos no poder, caiu em 1945, sob pressão dos militares que, aliás, eram seus liderados nesse tempo todo. O presidente seguinte, Eurico Gaspar Dutra (o folclore político conta que era tão feio que as crianças, ao vê-lo falando, gritavam: “Mãe, o bicho fala! o bicho fala!”), do PSD, era general, havia sido fascinado pelo nazista Adolf Hitler, e ganhou graças ao apoio de Getúlio Vargas, que rejeitava a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes (“é bonito e é solteiro”, dizia-se; o doce brigadeiro ficou conhecido assim por sua causa), da UDN.

Na ditadura, perseguindo de maneira implacável seus adversários — vários foram torturados e mortos —, Getúlio Vargas consagrou-se por reorganizar o Estado e, durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), articular recursos para alavancar o crescimento da economia e o desenvolvimento. Era um desenvolvimentista. Mas uma ditadura deixa problemas sérios num país, pois cria vícios anti-institucionais, dependência de salvadores da pátria. Coisas do gênero. É possível sugerir que uma geração de políticos foi castrada pelo Estado Novo e mesmo pelo período anterior à ditadura, que era uma semiditadura. Não há ditaduras boas, só ruins.

Os civis que não conseguiram derrotar Eurico Dutra, Getúlio Vargas (ganhou uma eleição para presidente, derrotando o “doce” Eduardo Gomes), Juscelino Kubitschek e conquistaram uma vitória de Pirro com Jânio da Silva Quadros tornaram-se vivandeiras e não saíam dos quarteis conspirando com militares como Eduardo Gomes, Castello Branco, Carlos Luís Guedes, Olímpio Mourão, Odílio Denys, Golbery do Couto e Silva, Ernesto Geisel, Amaury Kruel e Cordeiro de Farias. Era um pacto faustiano que, dada a inserção no tempo histórico — o presente às vezes cega sobre o futuro —, os civis entenderam mal, mas os militares entenderam bem. A desmoralização dos civis não foi um trabalho exclusivo dos militares, e sim, sobretudo, de civis, como Carlos Lacerda e Magalhães Pinto. Em 1964, as vivandeiras da UDN contribuíram, de maneira decisiva, para entregar o poder aos militares. Pode-se dizer, até, que o golpe não foi apenas militar, e sim civil-militar, assim como a ditadura foi civil-militar. Os militares, os mesmos tenentes de 1930, queriam o poder, é claro. Mas não só. Queriam, e de certo modo conseguiram, destruir os principais políticos daquele tempo — parte acusada de corrupção. Os que não destruíram tornaram servos de seus governos, entre 1964 e 1985. Juscelino Kubitschek e João Goulart, do PSD e do PTB, e Carlos Lacerda, da UDN, foram cassados. Nem mesmo Carlos Lacerda, um político inteligente e homem do sistema, entendeu que a missão dos militares era, como em 1930, “limpar” a política por meio do expurgo dos políticos tradicionais.

A ditadura, ao criar uma espécie de apocalipse, criou uma sociedade próxima do paraíso e infensa à corrupção? Na verdade, criou uma sociedade pior. Para os cidadãos, mesmo quando avessos ao imperativo institucional, é muito mais saudável uma democracia conturbada, como a do pré-1964, do que uma ditadura organizada, mas sem liberdade. A ditadura, por mais que tenha criado uma infraestrutura para o país — é inegável o crescimento e o desenvolvimento, assim como é inegável no tempo de Getúlio Vargas —, não foi benéfica para a sociedade, ao contribuir para a gestação de uma geração de indivíduos quase “amorfos”. Ao mesmo tempo, não criou políticos melhores. Alguém pode sustentar que José Sarney e Antonio Carlos Magalhães eram melhores do que, digamos, Juscelino Kubitschek e, no campo governista, Milton Campos? Óbvio que não. Os dois políticos mineiros eram estadistas. Sarney e ACM eram (é, no caso do maranhense, que, aos 87 anos, está vivíssimo) frangos de granja de frigoríficos sem cuidados especiais.

É provável que a atual geração política, de baixa qualidade, excetuando alguns nomes, sejam “filhos”, ainda que civis, dos tempos da ditadura. Fica-se com a impressão que, depois da ordem imposta pelos militares, os civis chafurdaram no caos.

Itália suja

A corrupção na Itália é endêmica? Talvez seja. O filósofo inglês Theodore Dalrymple sugere, num ensaio brilhante, que, paradoxalmente, a corrupção não paralisa a economia italiana. Mas o fato é que, cansados da corrupção e da ligação de políticos com o submundo criminoso, os italianos criaram a Operação Mãos Limpas. Políticos perderam mandatos e chegaram a ser presos. Mas a Itália melhorou muito? Como dizem os jovens: “Só que não”. Como assim?

Ora, a Operação Mãos Limpas merece todos os elogios, pois contribuiu para depurar a política italiana. Certo? Sim. Mas nem tudo são flores. A importantíssima operação, cuja intenção era reinventar uma Itália purificada, destruiu os políticos ruins, os medianos e os melhores foram “de embrulho”. Não sobrou quase ninguém para contar a história. O resultado é que a política sobrou “limpa” para a vigência do primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Quer dizer, limparam a política para Silvio Berlusconi sujá-la outra vez. Pense no italiano como num Paulo Maluf — que tentou mas não conseguiu ser presidente — ampliado. O armagedom da Mãos Limpas, paradoxalmente e sem intenção, gerou o apocalipse Silvio Berlusconi. A destruição de “tudo” — que às vezes é o que se quer — em geral produz o “nada”.

Lava Jato

A formidável Operação Lava Jato, absolutamente necessária — Sergio Moro ficará na história como um magistrado decente, competente e pró-instituições —, destruindo praticamente todos os políticos, os maus, os mais ou menos e, até, os bons (ninguém tem condições de participar de campanhas eleitorais sem caixa 2, sem dinheiro não contabilizado. Alguém acredita, de fato, que Fábio Tokarski, do PC do B, e Roberto Freire, do PPS, e José Genoino, do PT, são corruptos? Se acredita é obrigado a acreditar em fadas. São políticos espartanos, decentes), vai contribuir mesmo para melhorar o país? O que restará depois do abate da Arca de Noé do Mal?

Não se pode dizer, até porque seria desrespeitoso e injusto, que vai sobrar a escória. Mas, como sugeriu o filósofo alemão Max Weber — um dos poucos intelectuais que não era nefelibata em relação à política real —, a política precisa mesmo de profissionais, de especialistas. Imagine Renan Calheiros sem corrupção ou, vá lá, com menos corrupção. Imaginou? O leitor pode até discordar, mas seria, e certamente é, um grande político. Assim como Lula da Silva é um político notável, apesar de ter se envolvido com questões pouco católicas. Poderia ter se aproximado mais de um Fernando Henrique Cardoso, que, como Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, tem comportamento de estadista. Há percalços, como a “compra” da reeleição, mas, no balanço geral, FHC é um político de primeira linha. Assim como é José Serra, descontadas a casmurrice e a chatice. O leitor por certo se lembra da comédia, divertidíssima, “Quanto Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder. Jack Lemon disfarça-se de mulher e um homem apaixona-se por ele/ela. No final do filme, sente a necessidade de se apresentar como homem, o que afastaria o parceiro, mas este diz: “Ninguém é perfeito”.

Pois é: “ninguém é perfeito”. Não há como construir uma sociedade paradisíaca, com tudo funcionando. O que se pode, e o que Sergio Moro e procuradores da República e policiais federais querem, é construir um país (mais) institucional, no qual roubar, usando a política, seja a exceção, não a regra. Uma sociedade que rejeita a impunidade — para todos, dos pobres aos ricos —, mesmo não sendo perfeita, é o que se almeja.

Mas o risco de destruir tudo — de se achar sempre, para ficar num exemplo, que todo caixa 2 gera propina — pode ser o começo da construção do nada. Digamos que todos os políticos mais importantes da atualidade — Lula da Silva, José Serra, Aécio Neves, Geraldo Alckmin, Renan Calheiros — sejam retirados do proscênio. O que acontecerá? O que sobrará?

O PSDB tem o prefeito de São Paulo, João Dória. O tucano está indo bem, mas a Presidência não é equivalente a uma prefeitura e o tucano não tem perfil de estadista. Um presidente não pode ser apenas um gerente; precisa ser, também, um grande político — o que João Dória não é.

Marina Silva, da Rede, é uma política de rara decência, com perfil de estadista, mas sem experiência mínima em termos de gestão e não articula politicamente com habilidade. Tende, se eleita, a se tornar uma Dilma Rousseff… mais fleumática e moralista. O PDT tem Ciro Gomes. Jair Bolsonaro, para quem partido não importa, aparece nas pesquisas de intenção de voto bem aquinhoado pela sorte.

Ciro Gomes e Jair Bolsonaro dariam presidentes eficientes, com perfis de estadista? Possivelmente, não. Ciro Gomes é impulsivo, ao estilo de Jânio Quadros e Fernando Collor, e dificilmente conseguiria articular uma base parlamentar para governar sem atropelos. O mesmo ocorreria no caso do radical Jair Bolsonaro. Para ser presidente da República não basta ser honesto e ter boas intenções. É preciso ter paciência, jogo de cintura, decência e perfil de estadista.

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Discordo. Ciro Gomes foi governador e prefeito, tem experiência de gestão, inclusive como ministro, e não teve problemas com base parlamentar, tanto é que seu grupo político governa o Ceará até hoje (e antes que gritem “coronel!”, que coronel é esse que não tem uma rádio, um jornal nem uma TV? Se um mesmo grupo político administrar por anos um Estado significa coronelismo, o PSDB em SP e em GO são os maiores coronéis do Brasil). Ele pode falar coisas que as pessoas não estejam acostumadas, mas será que no momento atual é mais importante mesmo ser polido do que… Leia mais
Mas você não sacou? O texto necessita objetar os cenários mais prováveis, para que o argumento dele se satisfaça. É o exaurimento lógico. Afinal, lançando mão da Itália, a ideia é “ir de mal a pior”, logo, aqui, tem que ser igual. Só que está mal distribuído. São muitas linhas (muito espaço) delineando a estrutura e, no momento de aplicar a premissa geral à premissa menor (possíveis consequências no Brasil futuro), tenta desconstruir os presidenciáveis com poucas linhas… Corre o risco de atacar espantalhos. Para que a argumentação fosse mais verossímil, acho que deveria ter trabalhado melhor nisso daí. Ficou… Leia mais

~Pessoalmente não penso em eleger um politico, estadista…. para o país , estado ou que seja o município, mas sim o candidato mais preparado moralmente, com suficiente prática dos conceitos éticos, respaldado em conhecimento, mas acima de tudo ser efetivamente o melhor gestor. Ciro, Bolsonaro, Marina Silva, nem pensar. No entanto, quem irá definir será a maioria, sendo esta o retrato das consequências do caminho até aqui traçado, somente um milagre poderá nos tirar da mesmice caótica social e moral.

Caos melhor que ordem? parei de ler aí. O problema é que confundem liberdade com libertinagem

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