Ao citar José Serra como beneficiário de conta na Suíça, Odebrecht reforça tese de corrupção sistêmica

O mal lavado, o PSDB, falou mal do sujo, o PT, por muito tempo. O que se vê, pela delação dos executivos da empreiteira, é que a corrupção contaminou quase todo o espectro político 

Lula da Silva, do PT, e José Serra, do PSDB: vale mesmo a pena destruir políticos como o petista e o tucano? O que se vai colocar no lugar deles? Marina Silva, política decente, teria a estatura deles? | Fotos: Ricardo Stukert/ Instituto Lula e Beto Barata/PR

Lula da Silva, do PT, e José Serra, do PSDB: vale mesmo a pena destruir políticos como o petista e o tucano? O que se vai colocar no lugar deles? Marina Silva, política decente, teria a estatura deles? | Fotos: Ricardo Stukert/ Instituto Lula e Beto Barata/PR

A política é uma desgraça. É mesmo? Pode até ser. Mas não se faz nada sem a política — nem aqui nem alhures. Na Itália, a Operação Mãos Limpas expurgou a maioria dos políticos, acusados ou meros suspeitos de corrupção. Pensava-se que, finalmente, se alcançara o nirvana. Um novo mundo se descortinaria a partir da devastação do velho mundo. Ledo engano. Embora a depuração tenha sido justa na maior parte dos casos, o processo, apontado como de extremo rigor até por alguns magistrados, longe de gerar uma elite política melhorada, mais ética e competente, produziu Silvio Berlusconi, o ex-primeiro-ministro que faz o americano Donald Trump parecer quase santo.

Está a se defender que não se deve fazer depurações, em busca de uma sociedade mais decente? Não. O que se está dizendo é que a demolição de alguns políticos — como o ex-presidente Lula da Silva — pode não levar, necessariamente, ao surgimento de políticos mais qualificados. O ocaso de Getúlio Vargas, que se matou em 1954, felizmente deu origem a Juscelino Kubitschek, um político de rara vocação de estadista. Porém, por via do populismo, gerou também Jânio Quadros, que, ao renunciar em agosto de 1961, contribuiu para criar o clima de anarquia política que, em 1964, levou ao golpe de Estado. A geração seguinte não é automaticamente melhor do que a anterior.

A destruição de um político como Lula da Silva, da esquerda moderada — apesar dos arroubos autoritários, sobretudo do palavrório, o petista-chefe nunca escapou do campo institucional —, significa que se terá um político muito superior, em termos éticos e de competência, mais à frente? Não se sabe. Mas nenhuma sociedade gera com facilidade políticos como Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Bilac Pinto, Carlos Lacerda, Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Ulysses Guimarães, Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. Numa longa entrevista publicada em livro, o presidente Ernesto Geisel — um general e político decente — concluiu que os militares que apontavam que JK era corrupto cometeram um grave equívoco. Teria cometido algum tráfico de influência? É provável, mas não criara uma corrupção sistêmica como se vê agora no Brasil. Assim como Getúlio Vargas, não era corrupto, apesar de que existia corrupção em seu governo, como em qualquer outro.

Não há a menor dúvida de que Marina Silva é uma política decente. O ocaso de Lula da Silva a levará ao poder? Não se sabe; talvez sim. Mas a ex-senadora da Rede tem a mesma estatura política do petista? Não tem. Corre o risco de, se eleita, soçobrar, e ainda mais rapidamente, como o chefão do PT. A política é o que é, como notou Nicolau Maquiavel, ao explicitá-la como uma atividade humana (não divina), complicada e sujeita a equívocos. A política não é uma atividade para puros e puristas. Por isso choca os que se consideram puros num mundo que é eterna e profundamente impuro.

O que não se deve, porém, é sugerir que indivíduos como Lula da Silva e o presidente do Senado, Renan Calheiros, por serem poderosos, não devem ser investigados, julgados e, se for o caso, condenados. O que se propõe é que, de olho na história — que julga por vezes com mais cautela e sapiência —, se tenha alguma tolerância e se evite o julgamento meramente moralista, que acaba produzindo atitudes condenatórias de um radicalismo incontornável. O futuro às vezes ameniza ou relativiza as avaliações candentes de determinado período histórico.

As circunstâncias históricas corroboram por vezes para criar certo caos político. Desde pelo menos 1989, com a eleição de Fernando Collor, as campanhas eleitorais se tornaram excessivamente caras, artificialmente caras. Resulta disso que os políticos precisam cada vez mais de dinheiro para bancá-las. No processo de angariar dinheiro, arrancado do bolso dos empresários — que, por sua vez, arrancam dinheiro dos cofres públicos, em regra —, políticos acabam se locupletando. É possível dizer que se criou um mercado para o fazer político, o que, se é lucrativo para marqueteiros, pesquisadores, consultores, produtores e donos de gráficas, pode ser extremamente lesivo para os próprios políticos. Primeiro, porque se tornam dependentes de empresários — mesmo que, de acordo com a teoria da lei (não cumprida), não possam mais investir nas campanhas — e, quando “assumem” o poder (os poderes, porque não é apenas o Executivo que é um poder; o Legislativo também é), são compelidos a prestar serviços aos seus financiadores. Segundo, no meio do processo de articular fortunas, que se tornam atraentes até para os decentes, os políticos podem acabar locupletando-se do ponto de vista pessoal. Quem rouba para o partido acaba roubando para si — parece ser uma lógica incontornável.

José Serra

Fala-se em corrupção sistêmica como se fosse uma criação do PT. De fato, o PT acelerou a corrupção de tal forma que a tornou sistêmica. Entretanto, se o problema se tornou sistêmico, não há como dizer que a contaminação envolve exclusivamente o PT e seus aliados mais próximos, como PMDB, PP, PR, PTB, PDT e PC do B. As campanhas altamente dispendiosos, aliada ao desejo do homem de se enriquecer com facilidade — não é à toa que tantos brasileiros se tornaram “escravos” vitalícios do cassino da Caixa Econômica Federal, com seus múltiplos jogos, como a Mega-Sena —, criaram um processo corrupto generalizado, do qual escapam poucos.

Não há dúvida de que José Serra, como Lula da Silva, pertence ao círculo de políticos qualitativos do país. Porém, candidato a presidente da República, em 2010, envolveu-se com os esquemas paralelos para obter dinheiro com o objetivo de tocar sua campanha.
Em processo de delação premiada, executivos da Odebrecht estão relatando como se dava sua relação com políticos de proa do país. Agora, dois executivos, Pedro Novis e Carlos Armando Paschoal, revelaram que a campanha de José Serra, a de 2010, recebeu 23 milhões de reais da Odebrecht pelo sistema do caixa dois. A notícia já havia sido revelada em agosto, mas agora há o acréscimo de que o dinheiro foi depositado numa conta de um banco da Suíça — o país-lavanderia.

Dois políticos, Ronaldo Cezar Coelho e Márcio Fortes, teriam operado os 23 milhões de reais. O primeiro no exterior e, o segundo, no Brasil. O primeiro nega ter cometido qualquer irregularidade, mas a informação não parece falsa e a Odebrecht diz que tem como provar o que apresentou à Pro­curadoria da República. José Serra também negou que tenha se envolvido na suposta falcatrua. O fato é que, mesmo com sua negativa, o dinheiro, muito dinheiro, teria sido usado na sua campanha eleitoral. É inimaginável que o tucano, um economista atento e centralizador ao extremo, não estivesse a par do que estivesse acontecendo com as finanças de sua campanha.

Os executivos da Odebrecht disseram à “Folha de S. Paulo” que “o pagamento de caixa dois não estava vinculado a nenhuma contrapartida”. Em nome do jornalismo objetivo, tipificado por seu manual, o jornal dirigido por Otavio Frias Filho não tece nenhuma ironia, nem nas entrelinhas. Mas por que alguém racional — ninguém é tão racional quanto os donos e executivos de empreiteiras — daria 23 milhões de reais a um político se, adiante, não pudesse cobrá-lo pelo “favor”? Talvez, quem sabe, estivesse pagando algum favor já feito.

Ao Tribunal Superior Eleitoral, a Odebrecht informou que repassou apenas 2,4 milhões de reais à campanha de José Serra. Portanto, 20,6 milhões foram repassados por fora, configurando o caixa dois. O ministro das Relações Exteriores apresentou, por meio de sua assessoria, uma resposta protocolar: “Não vai se pronunciar sobre supostos vazamentos de supostas delações relativas a doações feitas ao partido em suas campanhas”. Em agosto, o tucano sublinhou que as finanças de sua campanha eram administradas pelo PSDB. “A minha campanha foi conduzida na forma da lei e, no que diz respeito às finanças, era de responsabilidade do partido”, disse, naquele mês, José Serra. É “uma” resposta, mas não é “a” resposta que se espera. Ninguém é inocente para acreditar na palavra do tucano que, insistamos, é um dos mais qualificados políticos e gestores do país. O que diz beira à desfaçatez, mas é o argumento típico construído por advogados. Ganha-se tempo e, sobretudo, transfere-se a culpa para o partido. Na prática, não há culpado, exceto se se especificar que, na época, o partido “era” Ronaldo Cezar Coelho e Márcio Fortes.

A delação da Odebrecht vai provar, cada vez mais, que a corrupção no país era mesmo sistêmica e não exclui quase nenhum partido — exceto os que não interessam às empresas. O PSDB, que estava no ataque, agora corre para a defesa. Mesmo sabendo, assim como no caso do PT, que sua posição é indefensável. Conclui-se que o “mal lavado”, o PSDB, falou demasiado do “sujo”, o PT, sem perceber que sua hora estava chegando. Fora do poder há tantos anos (desde 2002), em termos nacionais, o PSDB deve continuar mais mal lavado do que sujo. Ainda assim, nada limpo. Ao menos, as denúncias estão democratizadas.