34 anos
Elder Dias
Tostão, 65 anos
Um dos maiores craques do futebol brasileiro, o maior nome da história do Cruzeiro vive hoje recluso em BH e não gosta de ser reconhecido
Tostão em três momentos: jogando pelo Cruzeiro, comemorando gol na Copa de 70 e escrevendo artigo como colunista

 

 


Eduardo Rodrigues
Especial para Resenha Esportiva


Conjunto do Iapi, na Avenida Antônio Carlos em Belo Horizonte, início dos anos 60. As tradicionais famílias mineiras deixam casas com gramados e jardins, para morar em conjuntos habitacionais, construídos pelo visionário Juscelino Kubitschek. A família Gonçalves de Andrade estava entre elas. Um garoto franzino se destaca nas peladas de final de tarde no campo de futebol improvisado na área comum do conjunto. Eduardo Gonçalves de Andrade era um garoto diferenciado. Aplicado e responsável na escola, fazia também diferença no campinho de futebol, chamando a atenção de dirigentes do América Mineiro, decacampeão estadual e maior torcida da cidade.

Na Toca do Coelho (mascote do América), Eduardo ganhou o apelido de Tostão: por ser franzino, quase raquítico. Apesar da fragilidade física, o menino Tostão demonstrava habilidade incomum e inteligência com raciocínio rápido, coisa rara no futebol. Em alguns meses, era destaque nas categorias de base. Os jornais da época noticiavam o “achado” do Coelho com grande estardalhaço. O Cruzeiro, comandado por italianos, estava se estruturando e formando um plantel de peso para entrar com tudo na era do Mineirão, estádio que seria inaugurado em 1965. Com a “onda Tostão” — assim se dizia nas resenhas esportivas da Rádio Inconfidência —, os dirigentes celestes, fazendo jus ao nome de sua mascote (Raposa) foram até a casa dos pais de Tostão e os convenceram a levar o craque para a Toca da Raposa.

Começava ai, um das mais belas histórias do futebol brasileiro. Tostão formou, juntamente com Raul, Piazza, Procópio, Dirceu Lopes, Natal, Evaldo e Ilton Oliveira, uma das maiores equipes do futebol brasileiro de todos os tempos. O maior jogador da história do Cruzeiro comemorou, nesta quarta-feira, 25, seu 65º aniversário.

Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão, vestiu a camisa celeste entre 1964 e 1972 e tornou-se o goleador máximo da história do clube. Foram 245 gols marcados em 383 jogos. O artilheiro deixou o Cruzeiro com apenas 25 anos. Um deslocamento na retina e o risco de perder a visão fizeram Tostão encerrar a carreira prematuramente, com 26 anos recém-completados – a despedida do craque foi em fevereiro de 1973.

Tostão foi a estrela maior do time campeão brasileiro de 1966 e conquistou seis Campeonatos Mineiros pelo Cruzeiro. Foi o primeiro jogador de um clube de Minas Gerais a ser convocado para uma Copa do Mundo, em 1966, e também foi titular absoluto do time tricampeão mundial de 1970, formando trio ofensivo com Pelé e Jairzinho. Marcou 36 gols em 59 partidas pela seleção brasileira, como jogador do Cruzeiro.

Em 1970, o atleta foi homenageado em um filme dirigido por Ricardo Gomes Leite e Paulo Laender, com trilha sonora de Milton Nascimento e Fernando Brant. Em dado momento do documentário "Tostão, a Fera de Ouro", torcedores cariocas no Maracanã são entrevistados e dizem que Tostão, embora mais jovem, já se comparava a Pelé. Ao encerrar a carreiro prematuramente, Tostão, reconhecido como intelectual e politizado, voltou aos bancos escolares, formando-se em Medicina, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Por muitos anos, clinicou no Hospital Belo Horizonte, onde não admitia (é um sujeito excêntrico) ser chamado por colegas e pacientes pela alcunha de Tostão.

Estudioso, passou do consultório para a sala de aula na UFMG, onde lecionou Obstetrícia por longos anos. Tostão foi diversas vezes convidado para voltar ao mundo da bola como comentarista, mas, manifestava o desejo de apagar da história seu passado futebolístico. Após muita insistência, Luciano do Valle, recém-saído da TV Globo, convidou Tostão para o novo projeto esportivo da Rede Bandeirantes, o qual, mesmo relutante, aceitou. A experiência durou pouco. Tostão se sentia desconfortável, com o assédio de colegas e torcedores, bem como com idiotices de colegas e o excesso de propagandas nas transmissões esportivas. Rompeu com Luciano do Valle, do qual levou péssima impressão.

Voltou para Belo Horizonte, onde se enclausurou em seu apartamento, saindo esporadicamente com sua esposa, para passear nas tardes de domingo em shoppings de pouco movimento. Tostão é avesso a eventos, festas e badalações. Não gosta de ser reconhecido na rua. Fica incomodado com a aproximação de pessoas, querendo mesmo, ser esquecido como futebolista. Atualmente Tostão, em sua clausura, escreve para jornais e revistas do Brasil e do mundo.

Eduardo Rodrigues é radialista e cronista esportivo.