34 anos
Elder Dias
Glorioso Tigrão!
Décadas atrás, o Vila Nova era recebido como a seleção brasileira no interior de Goiás. Hoje, pode cair para a 2ª Divisão do Campeonato Goiano
Arquivo - Vila Nova FC
Time campeão de 1969

 
 
 
Eduardo Rodrigues
Especial para a Resenha Esportiva
 
 
 
Cheguei a Goiás em março de 1969, com 12 anos de idade. Em Rialma, meu primeiro contato com o chão goiano, paramos em um restaurante na avenida principal (Bernardo Sayão) para almoçar. Um rádio de pilha estava ligado na Rádio Anhanguera, no programa “Quanto Canta o Sabiá”. Como nasci na porta de uma emissora de rádio, aqui em Minas, prestei atenção na programação. 
 
Em certo momento, ouvi o locutor dizer que Guilherme, o grande avante do Vila Nova, estava apto para enfrentar o CRAC no Estádio Olímpico. Feliz com a notícia da recuperação de Guilherme, o locutor (não me lembro o nome) colocou um musiqueta para tocar, assim: “Hoje é domingo, patrão/ eu vou ao campo/ vou ver o Vila Nova jogar/ Com Guilherme no comando de ataque/ o Vila vai ganhar.”
 
O Vila Nova foi minha primeira referência futebolística em Goiás. Recordo todo o prestígio do Vila, principalmente no interior do Estado. Em 1971, em Porto Nacional, hoje no Estado de Tocantins, presenciei, no feriado prolongado das comemorações do Dia da Pátria, a chegada do Vila Nova em um avião fretado para disputar um torneio de futebol, com combinados da região. 
 
O aeródromo da cidade estava lotado de torcedores encarnados, que entusiasticamente ali estavam para conhecer os craques do Tigrão. Milhares de flâmulas tremulavam quando a aeronave (um Electra?) pousou na pista, parando em uma cobertura improvisada. Jogadores, vestindo terno e gravata, desembarcaram como se fossem campeões do mundo. Cercados por torcedores — o Vila tinha a maior torcida do interior — e autoridades regionais, foram entrando nos Simcas, automóveis de luxo da época. 
 
Durante os quatro dias que durou o torneio, torcedores e curiosos abarrotavam a Praça Principal, defronte a Escola de Enfermagem. O Vila venceu o torneio, como era de se esperar, mesmo jogando em um campo desprovido de bom gramado. Durante os anos seguintes, acompanhei a trajetória do Vila com um misto de fascinação e desejo de vestir aquela camisa vermelha.
 
Em 1980, experimentei outra vez um encontro com o Vila Nova fora da capital. Desta feita, no Estádio Jerônimo Fraga em Jataí (GO). Tarde cinzenta de julho, frio intenso, o esquadrão  vermelho — com Modesto, Danival (ex-Atlético Mineiro e seleção brasileira), Erivelton (ex- Fluminense), entre outros — fazia história, coroando a conquista do tetracampeonato goiano.
 
Relatar os acontecimentos do glorioso passado futebolístico do Vila Nova serve de âncora  para que seus torcedores e dirigentes percebam o quão nefastas e irresponsáveis foram as gestões posteriores aos fatos relatados. O clube foi entregue a mercenários, oportunistas, despreparados, que usam o glorioso Tigre da Vila Famosa para interesses escusos.
 
Falido, sem crédito, rebaixado para série C do Campeonato Brasileiro, corre o risco inglório de ser rebaixado para a 2ª divisão do Campeonato Goiano. Existe salvação para o Vila Nova? Acredito que sim: seu maior patrimônio é sua imensa torcida. Isso basta? Acredito que não. Mas a força e o sangue vermelho que correm como rio caudaloso nas veias de sua torcida varonil são meio caminho para arregimentar, quem sabe, um grupo de encarnados que possa fazer com que as glórias do passado resplandeçam no presente.