Edição 1899 de 27 de novembro a 3 de dezembro de 2011
Elder Dias
O menino que plantará árvores
Aos 14 anos, o alemão Félix Finkbeiner coloca autoridades políticas e científicas em seu devido lugar: quem precisa decidir sobre o futuro não são os adultos do presente
Jornal Opção
O menino Félix Finkbeiner (no alto) é uma materialização rejuvenescida do velho — e fictício — Elzéard Bouffier (acima), que reflorestou toda uma região em “O Homem que Plantava Árvores”: sermão nos adultos de hoje

Ao contrário do professor e crítico de cinema Lisandro Nogueira, que afirma ter chorado poucas vezes em filmes, tenho lágrimas e películas como cúmplices: choro quase que por esporte durante tramas às vezes até banais, por me projetar naquele universo. Assim como o estádio é o lugar da vibração e do xingatório, a sala escura é a academia para o exercício da introspecção e da reflexão.

Mas aconteceu em vídeo, e não no cinema, minha maior emoção com um filme neste ano. E não foi com um personagem de carne e osso, mas com um homem desenhado: Elzéard Bouffier — o protagonista da animação canadense “O Homem que Plantava Árvores” (“L’Homme qui Plantait des Arbres”), baseada no conto do escritor francês Jean Giono e produzida em 1987.

Em um enredo que se desenrola nas primeiras décadas do século 20, Elzéard é um homem velho e sozinho e que, sozinho, plantando suas sementes dia após dia, refloresta uma região inteira nos Alpes franceses. É o tipo de história que é uma fantasia — até porque é uma animação —, mas que, aos poucos, toma tons de realidade — por ter alguém a executando de forma tão simples e real — e o espectador passa a questionar se aquilo não poderia mesmo ter sido verdade.

Félix Finkbeiner é um Elzéard do século atual. Só que não é um velho, muito menos um desenho animado. É um alemãozinho de carne, osso e disposição: hoje com 14 anos, resolveu desde quando tinha apenas 9 lutar para garantir seu futuro e o de sua geração. Acabei o descobrindo por meio da coluna on-line “Viajologia”, de Haroldo Castro, na revista “Época”, que relatou a participação do garoto em uma recente conferência ambiental na Itália.

Aconteceu em um encontro sobre mídia, democracia e sustentabilidade na província italiana de Cuneo. Autoridades diversas da área, especialistas, doutores, cientistas e outras titulações. Na plateia, um pré-adolescente que destoava dos marmanjos metidos a sabichões (ou até mesmo sabichões de fato). Eis que ele desmonta o palavrório todo ao levantar uma faixa com o texto “Stop talking, start planting” (“Parem de falar e comecem a plantar”). Para arrematar, tomou a palavra, mostrou conhecimento sobre o assunto — talvez de forma mais hábil e com certeza menos cínica do que muitos dos expositores — e deu xeque-mate no encontro: “Daqui a 50 anos vocês não vão estar aqui, mas nós, jovens, estaremos.”

Um argumento direto e cruel, que derrubou todo o blablablá pela preservação do planeta: decidindo o que não lhe caberia em vida — o futuro do planeta em meio século —, os honoráveis cinquentões foram vítimas de um justo sermão de um representante dos diretamente interessados na causa: um cidadão recém-egresso do mundo infantil, Félix Finkbeiner.

A história do homem é a história do egoísmo. Ou antropocentrismo, como talvez queiram alguns. Desde a imagem mitológica de Adão e Eva nos preocupamos, como seres humanos, em saborear a nossa maçã tranquilamente. Nada muito além disso. A maçã do outro é problema do outro. Com o advento das redes sociais isso fica cada vez mais explícito: passe a peneira e veja quanto exibicionismo existe, de diversas maneiras — comentários, fotos, piadas compartilhadas e até naquilo que, à primeira vista, parece uma causa justa, engajada, “social”. É fácil ser solidário na frente do computador. Oferecer ao próximo e ao mundo uma doação real de si mesmo? Aí fica mais complicado.
É isso o que ocorre desde sempre, só que em amplitude diplomática, nas conferências ambientais: todo mundo quer salvar o mundo, desde que no pacote sejam igualmente salvas suas próprias regalias. É assim que os Estados Unidos, exemplo-mor dessa atitude, lidam com as demais nações e vão continuar lidando.

Seja o comportamento de um Estado ou de um indivíduo, é contra isso que se insurge o pequeno Félix: ele quer o compromisso de todos para com todos — aliás conforme deveria ser, utopicamente falando, em um lugar não habitado apenas pelo eu-Estado ou pelo eu-indivíduo.

À semelhança do velho Elzéard, o jovem Félix quer plantar árvores. E ao contrário do velho Elzéard, ele não quer plantar sozinho. Quer que cada país plante 1 milhão de árvores — 132 milhões ao todo, de acordo com sua contagem de países. A meta dá, no máximo, 25 km² de área reflorestada. Na prática, é inexequível para um Estado como Mônaco, que tem 2 km² de área total, e irrisória para o Brasil: anularia apenas um dia de desmatamento na Amazônia.

O que não se anula é o efeito positivo da vontade do fictício — embora verossímil — Elzéard e do real — embora quixotesco — Félix. Não há como questionar que o homem de hoje e o modo de produção de hoje visam nada mais do que si mesmos. Por isso, a COP 17 — mais um encontro, de 28 de novembro a 9 de dezembro, em Durban (África do Sul), sobre questões ambientais — está natimorta: não vai gerar nada mais do que mais blablablás, discursos, ponderações e protelações.

Deixar que o adulto de hoje decida responsavelmente sobre a Terra que ele não mais habitará é pedir à raposa para poupar as galinhas poedeiras — aquelas que garantirão o futuro do galinheiro e, por extensão, a sobrevivência das futuras raposas.

Governantes que quisessem deixar de ser honoráveis para ser honrados e cientistas que quisessem ser sábios e não sabichões deveriam dar seus lugares nas cúpulas às crianças. Deixem os americaninhos, as brasileirinhas, os japonesinhos e as africaninhas decidirem sobre o futuro, porque o futuro é deles. São eles, os filhos deles e os netos destes que conviverão com os efeitos mais nefastos da poluição e da destruição de todo o planeta produzidas hoje, em nome do crescimento econômico de tão poucos.

A outra alternativa para as autoridades seria pensar e agir como Elzéard e Félix. Mas os Obamas, as Merkels e os Sarkozys estão muito velhos para se agirem como Elzéard e muito imaturos para pensarem como Félix. O mundo e a vida são muito mais do que a própria maçã. Mas o resultado das cúpulas ambientais prova que os adultos que mandam na vida do mundo realmente não aprenderam essa lição.

(Dedicado a Tânia Fonseca, amiga cinquentona que um dia se vestiu de criança para escrever “O mundo de Arthur”, uma crônica para meu filho, que ainda nasceria. Arthur tem hoje 2 anos, mas vai entrar para a turma do Félix)