34 anos
Elder Dias
Médicos que matam
A morte de uma criança por falta de um medicamento que não foi comprado por causa de desvio de dinheiro tem embutida a mesma tragédia de outra que morre na África
A cena de uma criança faminta à beira da morte na África guarda toda semelhança com a de um garoto com leucemia que não vai receber seu remédio

Dizem que quem rouba é ladrão. Está certo quem diz. Mas nem todo roubo se dá da mesma forma nem com a mesma intensidade. Nem falo aqui da diferença entre quem rouba um pote de manteiga no supermercado e quem assalta um banco. Falo de um roubo maior e mais perverso do que qualquer crime praticado pela maior das quadrilhas especializadas em adentrar agências bancárias Brasil afora, com fuzis e granadas. Falo do roubo da vida e da esperança que acontece quando alguém faz um esquema para tirar dinheiro de um hospital que é a única chance de vida para milhares de pessoas.

Há muitos anos se ouve falar de uma crise financeira séria no Hospital Araújo Jorge, idealizado para atender com excelência a pessoas vítimas de uma das doenças mais antigas e mais mortais da história humana: o câncer. Desista de ler este artigo agora aquele que, morando em Goiás, nunca teve um parente ou um amigo que foi se tratar naquele conhecido endereço próximo à Praça Universitária, palco de dores e lágrimas, mas também de fé e resistência.

Apesar de popularmente se falar que é o hospital que está em crise, esta na verdade atinge é a mantenedora do hospital , a Associação de Combate ao Câncer em Goiás (ACCG), idealizada por Alberto Augusto de Araújo Jorge — um médico alagoano sonhador, que se tornou especialista na doença em Berlim, na Alemanha, e concretizou sua meta de vida em Goiânia, criando a associação e fundando em 1966 o hospital do câncer que leva seu nome desde 1970.

A princípio, quando esses dias ouvi em uma rádio que o Ministério Público iria fazer uma devassa nas contas da ACCG, torci para que nada fosse encontrado pela tal Operação Biópsia. Que fosse algo como um boato sem fundamento, apesar das evidências causadas pelo estranho e abrupto endividamento da entidade nos últimos anos, que chegou a ser considerado “impagável” pela própria família de Araújo Jorge, que é representada no hospital por Estanislau Araújo, filho do fundador.

Meu desejo de que nada se descobrisse encobria o medo de ter de lidar com algo um tanto assustador: ter de constatar que alguém roubou dinheiro de crianças, velhos, mulheres, enfim pessoas, seres humanos, que têm, na rapidez do atendimento e no medicamento necessário e urgente o único passaporte para a sobrevivência ou, quando isso não é mais possível, pelo menos uma maior sobrevida. Pois é verdade: roubaram o Araújo Jorge.

Fico imaginando quantas pessoas o ideal do sr. Alberto Augusto não teria salvado durante essas mais de quatro décadas. E não quero nem ficar imaginando quantos homens e mulheres de todas as idades deixaram de viver por causa de sujeitos que se apoderaram de seu ideal e o transformaram em riquezas pessoais. Não há outra forma de expressar que não seja essa: trocaram a continuidade de inúmeras vidas humanas por caprichos pessoais — carros novos, viagens ao exterior, roupas caras, talvez uma chácara, confortos mil.

Até poderia entrar na seara de um drama pessoal a relatar. Como já disse, qualquer goianiense teria algo a dizer e, nesse sentido eu não seria diferente. O Hospital Araújo Jorge, apesar de última e concreta esperança de muita gente, é com certeza um local de muita dor. Não há quem sinta prazer em passar, por espontânea vontade, um dia nos corredores da unidade, como paciente ou acompanhando um deles. Pode-se dizer que voluntários têm um desprendimento cativante. Mas prazer é algo que não se encontra em um hospital do câncer.

Encontram-se, sim, remédios e tratamentos. Ou pelo deveria se encontrar. Quando alguém vai tentar fazer algum procedimento ligado à doença sem plano de saúde e pela iniciativa privada começa a dar valor em uma unidade como o Araújo Jorge. São medicamentos caros, exames idem, tudo isso que, lá naquele hospital, se obtém, ainda que com filas e pouco conforto, de forma praticamente gratuita.

É esse tipo de conquista que é interrompido quando alguém toma para si o que é de todos. Um desvio em uma unidade hospitalar como essa é como o desligar dos aparelhos do paciente; é morte certa para muita gente que não tem mais para onde correr nem alguém a quem recorrer. Maldade pura, pensada e requintada.

Em meio a isso, um detalhe se coloca como a cereja em um bolo funéreo: o rombo, ou roubo, é arquitetado e executado não por profissionais do crime saídos de penitenciárias e já de cara avistados como sujeitos perigosos. Não: são profissionais da medicina, saídos de faculdades e vistos como anjos da população, aqueles que salvam vidas e têm tratamento de semideuses por quase todos nós. Aparecem com destaque e sorrisos em colunas sociais. Mas executam, como antíteses de Hipócrates, o antinatural do pacto social, o inesperado da cena, o escândalo na acepção mais evidente da palavra.

Ainda que não vejamos a imagem daquela criança esquelética cercada por urubus, pela fome e pela morte iminente, o hospital assaltado reproduz, sob outro formato, a mesma cena da savana africana: no leito, o pequeno menino com leucemia agoniza, esperando em vão pelo remédio que não vai chegar. O garotinho ainda não sabe, mas vai morrer. Causa mortis: desvio de recursos para medicamentos executado por um médico. Não tem como ser mais cruel.

Se a morosa Justiça humana não resolver o caso e não punir com severidade os culpados pelo rombo, não sei o que será do ser infeliz que se comove e até se desespera com o drama, mas não acredita na Justiça divina. Nessas horas, qualquer existencialismo é posto à prova. Sobra-se a raiva. E ponto. E dor final.