
Brasileiro é o ser mais criativo do planeta. Não tenho dúvida disso. Não sei exatamente por causa de quê. A suspeita de muitos recai na miscigenação única destas terras, que nos deu uma universalidade tão rica de caras e culturas, fenótipos e costumes, feições e atitudes. Foi dessa composição cheia de adereços étnicos e comportamentais que nasceu o “jeitinho brasileiro”, conhecido mundialmente, para o bem e para o mal. Vem desse “jeitinho” nossa música, nosso futebol, nossa reza, nosso carnaval, enfim, nosso jeito de ser e de ser visto pelo mundo.
E vêm daí também os funcionários fantasmas, a verba indenizatória, o auxílio-paletó, o caixa dois, os dólares na cueca. Todo esse “jeitinho brasileiro” se coloca a desserviço de todos nas diversas artimanhas lícitas e ilícitas, legais e ilegais, mas todas imorais, que ocorrem nos corredores e gabinetes de câmaras e assembleias País afora. É o lado perverso da criatividade nacional, do qual quem detém o poder faz uso para abrir o saco de autobenesses, garantindo vantagens a si mesmo, a familiares e aos conhecidos e “parceiros” (termo que poderia ser trocado, nesses casos, por “comparsas”).
Mas ultimamente não tenho me indignado com nada que venha dos políticos. Deles, já não espero muita coisa. Minha expectativa de mudança estaria em quem vai votar (ou não) neles nas próximas eleições. Esse “quem” que somos nós. Acontece que ando igualmente indignado conosco, que elegemos esses políticos a cada urna que passa nos outubros de anos pares.
Não é preciso muita reflexão para entender o porquê, nem para se indignar junto: percebo (poderia também escrever “percebe-se”, já que não digo nada que seja inatingível a qualquer um que pense por dois minutos sobre a questão) que estamos muito bem representados no Congresso: lá há corruptos, ladrões, palhaços, jogadores de futebol e até gente séria. Nada que não se encontre em qualquer vila por aí.
No que diz respeito particularmente à corrupção nossa do dia a dia, algo aparentemente banal causa, pelo menos em mim, uma rara perplexidade e expõe o que há de pior dentro de cada um: a solidariedade maligna. Uma expressão que parece um antagonismo, mas não é: nós, brasileiros, somos tão criativos que inventamos um modo de fazer o mal achando estar fazendo o bem. E um grande exemplo disso é a rede virtual antiblitz, um desserviço que se presta da seguinte forma: alguém que trafega por um local onde algum órgão de fiscalização de trânsito esteja postado usa o Twitter para repassar o endereço da operação a um perfil anônimo — no caso de Goiânia, o principal é o @RadarBlitzGO.
É ao mesmo tempo algo incrível e inadmissível ver tanta gente que se acha “do bem” (e muitos são realmente, a despeito dessa atitude) se prestando ao papel de sabotar o trabalho da polícia. Não veem nenhum problema em repassar a informação preciosa a amigos que talvez estejam em condições alcoólicas inconvenientes ou com veículo ou documentação irregular. Param (ou não) o carro adiante da blitz para gastar tempo e dinheiro avisando gente que nunca viu na vida sobre uma ação positiva do Estado e que náo fica barato ao bolso de cada um de nós. Pior ainda: mais do que salvar esse “amigo desconhecido” da blitz, o prestativo tuiteiro da noite pode dar a deixa para a escapada de um foragido da Justiça, que poderia ser abordado e recapturado. É ou não é um sinal claro de solidariedade maligna?
Talvez o maior dos desafios para a Nação neste novo século, do qual já se passou uma década, seja isolar os efeitos negativos do “jeitinho” e, ao mesmo tempo, potencializar seu lado positivo. Em outras palavras, seria estancar a corrupção intrínseca e deixar vazar o melhor da genialidade improvisadora que o brasileiro tem. Parece ser — ou talvez nem mesmo pareça — uma tarefa relativamente exequível, mas trabalhosa. Custará algumas gerações e tal mudança de cultura só virá em conjunto com mudança radical na educação, a começar dos próprios pais, em casa. A questão, porém, é que ninguém quer que o filho seja passado para trás e busca preveni-lo disso, o que se faz com legítima e necessária razão. Mas educar seu filho para ser esperto é diferente de ensiná-lo a ser espertalhão. É essa, provavelmente a diferença básica entre tentar não levar prejuízo em nada e buscar levar vantagem em tudo.
Durante as 24 horas da sexta-feira, 3, o perfil @RadarBlitzGO reproduziu 40 alertas a respeito das condições de fiscalização pelas ruas de Goiânia. Não sei precisamente quantos pontos de blitz houve no mesmo período na capital, mas certamente conseguiram cobrir a maioria, senão a quase totalidade do trabalho da polícia e dos agentes de trânsito. Como o perfil do Twitter tem 11,7 mil seguidores na rede, pelo menos algumas centenas deles foram alertados durante todo o dia, sobre onde passar ou não. Dessas centenas, com certeza uma porcentagem, ainda que pequena, era de gente que estava em flagrante situação de desobediência à lei, seja por consumo excessivo de álcool ou até mesmo por ser procurado pela Justiça.
Coloquei o assunto em debate com meus amigos virtuais. Todos eles rechaçaram, de alguma forma, a atitude de divulgar os pontos de blitz. Mas dois confessaram que se orientam pelo perfil que reproduz as informações, embora não os repassem (por meio de “retweets”). Questionei uma tuiteira que havia alertado sobre uma operação dessas e ela respondeu, de forma evasiva: “Esse assunto gera opiniões a serem discutidas e que não fluem claramente aqui. Sou a favor (dos alertas) e respeito os que não são.”
Creio que a internet móvel pode e deve ser, sim, um modo contemporâneo de comunicação e prestação de serviços. Pode ajudar outras pessoas, entidades e também autoridades constituídas com informações valiosas. Então, ainda com um olhar regional pelo meio virtual, fico imaginando se algum desses cidadãos tão prestativos para dedar blitz já mandou uma tuitada ao @CBMGO (Corpo de Bombeiros de Goiás) para alertar sobre uma queimada ou parou uma vez que fosse o carro para denunciar à @SEMAS_Goiania (Secretaria Municipal de Assistência Social de Goiânia) uma situação de mendicância dessas que ocorrem todo dia no nosso nariz, no semáforo do caminho para o trabalho.
Enfim, com que filosofia de civismo andamos e rodamos pelas ruas de Goiânia ou de qualquer outra localidade? Colaboramos para uma sociedade mais fraterna e segura ou cooperamos com uma confraria de espertalhões?