34 anos
Elder Dias
De parques e outras coisas antiambientais
Nem sempre um lago cercado de verde é sinal de real benefício ecológico. Principalmente quando vem totalmente cercado de arranha-céus
Parque Flamboyant é exemplo de local em que o verde é usado pela especulação imobiliária como chamariz

Um casal de amigos que mora no Rio, Sid­nei Barbosa e Andrea Marins, veio a Goiâ­nia pela primeira vez no fim de semana passado e fiz o papel de anfitrião, circulando com eles pela cidade. Não deu outra: elogiaram a quantidade de verde espalhada por todos os cantos da capital — com exceção, eu ressaltaria, da região de Campinas e bairros vizinhos, onde há só um parque (Campi­ninha das Flores) e ruas muito pouco arborizadas.

A priorização do verde em Go­iâ­nia, na verdade, nasceu com o projeto original da cidade, de Atillio Correia de Lima, que já previa uma reserva ambiental para a área onde hoje está localizado o Mutirama. Era o Parque Bo­tafogo, que a Prefeitura agora tenta recuperar com o novo projeto, que virou centro das atenções da oposição em ano eleitoral por envolver também a reforma do Mutirama.

Mas existem dois fatos a serem postos: o primeiro, positivo, é que Goiânia é, sim, uma cidade esplendorosa em quantidade de verde, como bem observaram meus amigos cariocas; o outro, negativo, é que nem sempre esse verde significa preservação ambiental. É o caso de boa parte dos parques criados recentemente, que atentaram pouco para a questão técnica em relação às fontes de água (nascentes).

Em Goiânia, há uma delicada relação mútua entre parques e empreendimentos imobiliários. Não por coincidência, praticamente todos os benefícios à qualidade de vida que chegam na forma dessas áreas são logo cercados por anúncios de novos condomínios e edificações — exceções são o Parque Beija-Flor, no Setor Jaó, o Parque Itatiaia, no Conjunto Itatiaia, e o Parque Nossa Morada, em setor do mesmo nome, sendo que nesses dois últimos não houve grandes intervenções, como lagos e outros equipamentos de maior envergadura; aliás, parecem áreas verdes como outras quaisquer, sem praticamente nenhuma atenção especial da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma).

Não somente pela população recebida, pelo tráfego gerado e pela especulação envolvida, os empreendimentos em áreas de parques trazem implicações. A principal diz respeito a algo essencialmente vital: a morte de nascentes e/ou o desprezo total de quem autoriza as obras às particularidades dos cursos d’água, com bombeamento contínuo, impermeabilização e até canalização total. Muitos dos que mora ou trabalham nos Setores Sul e Oeste não sabem, mas em seu deslocamento diário passam por cima de um córrego totalmente subterrâneo, o Córrego dos Buritis. É ele quem dá origem às águas do bosque do mesmo nome, após correr, imperceptível, sob as Avenidas 87, 85 e Assis Chateaubriand, entre outras, e passar debaixo do Tribunal de Justiça e de tantos outros prédios desde sua nascente, na área do Clube de Engenharia.

A pressão da interferência humana sobre o potencial hídrico das cidades tem levado a resultados perigosos, quando não trágicos, porque, obviamente, essa água vai emergir em algum lugar. Ou pior, não vai ter para onde escoar, como ocorre em grandes temporais, e se transformar em inundações repentinas, alagamentos e enxugadas perigosas, com prejuízo material e humano. Se Goiânia está tendo isso de forma cada vez mais recorrente, tem a ver com o modo com que tem si­do tratada a política ambiental pelos planos diretores.

Diante do cenário desfavorável ao meio ambiente que é, por natureza, toda aglomeração urbana, os parques poderiam ser instrumentos importantes a favor de um relativo reequilíbrio ecológico. Mas não têm sido e, pelo contrário, eles mesmos têm sofrido a consequência da degradação. O exemplo mais recente é o Parque Cascavel, cujo lago, em pleno período chuvoso, está secando. A foto estampada na página 4 do jornal “O Popular”, em matéria que discorre sobre o definhamento do lago artificial, mostra ao fundo, margeando o parque, um prédio em construção que tem, pelo menos, 27 andares. Ele provavelmente será um entre muitos que cercarão a região tendo o parque e seu lago como propaganda de venda. Impossível que as fundações dessas obras, a tão poucos metros da área verde, não influenciem diretamente no ritmo das águas e no lençol freático.

No Parque Flamboyant ou no Parque Vaca Brava, há verdadeiros arranha-céus de pé ou em construção que se propõem a ser o “sonho de morar” de quem tem um poder aquisitivo acima da média. Apartamentos com até quatro suítes (pra quê tanto ba­nheiro?), com pelo menos duas vagas para estacionamento para cada unidade e outras coisas. Tudo isso erguido em volta de uma área verde. Em uma visão sociológica, o professor Dijaci David de Oliveira, da UFG, considerou es­ses parques uma apropriação de um espaço antes público por uma casta social. Eles seriam uma espécie de “jardim” desses empreendimentos milionários.

Entretanto, mais do que a questão social — que pode ser motivo de um outro artigo — há a apropriação do patrimônio natural, geológico, hídrico, da cidade. A água manipulada de alguma forma no Parque Flamboyant vai influenciar na vida do cidadão que mora no noroeste da capital.

Por fim, outra região que deveria ser mais controlada - e não tem sido — pelo poder pú­bli­co é a das imediações do en­con­tro do Rio Meia Ponte com os Ribeirões Anicuns e João Leite. Além dos empreendimentos ha­bi­tacionais em andamento no Setor Goiânia 2, há algo totalmente inapropriado e mais grave: o crescente adensamento comercial e industrial da região. O shopping em obras às margens do Córrego Caveirinha e tendo o Meia Ponte logo ao lado é uma a­fronta, na perspectiva de que ele deve atrair especulação imobiliária para um local tão rico em termos de água e tão frágil do ponto de vista de erguimento de edificações. A um quilômetro dali, há o complexo da Car­gill/Uni­lever, que já está em lugar errado e atraindo empresas de logísticas e caminhões e tráfego pesado e poluição. Tudo isso em local proibitivo. Neste exato momento, em vez de buscarem uma forma de tirar a indústria e seus satélites da área e preservar o complexo hídrico, o que está acontecendo é um passo a mais para subir um centro de compras gigantesco.

Até quando o poder público em geral (órgãos administrativos municipais, estaduais e federais, Ministério Público e Justiça) vão se omitir a salvar Goiânia do caos ambiental?