
Um casal de amigos que mora no Rio, Sidnei Barbosa e Andrea Marins, veio a Goiânia pela primeira vez no fim de semana passado e fiz o papel de anfitrião, circulando com eles pela cidade. Não deu outra: elogiaram a quantidade de verde espalhada por todos os cantos da capital — com exceção, eu ressaltaria, da região de Campinas e bairros vizinhos, onde há só um parque (Campininha das Flores) e ruas muito pouco arborizadas.
A priorização do verde em Goiânia, na verdade, nasceu com o projeto original da cidade, de Atillio Correia de Lima, que já previa uma reserva ambiental para a área onde hoje está localizado o Mutirama. Era o Parque Botafogo, que a Prefeitura agora tenta recuperar com o novo projeto, que virou centro das atenções da oposição em ano eleitoral por envolver também a reforma do Mutirama.
Mas existem dois fatos a serem postos: o primeiro, positivo, é que Goiânia é, sim, uma cidade esplendorosa em quantidade de verde, como bem observaram meus amigos cariocas; o outro, negativo, é que nem sempre esse verde significa preservação ambiental. É o caso de boa parte dos parques criados recentemente, que atentaram pouco para a questão técnica em relação às fontes de água (nascentes).
Em Goiânia, há uma delicada relação mútua entre parques e empreendimentos imobiliários. Não por coincidência, praticamente todos os benefícios à qualidade de vida que chegam na forma dessas áreas são logo cercados por anúncios de novos condomínios e edificações — exceções são o Parque Beija-Flor, no Setor Jaó, o Parque Itatiaia, no Conjunto Itatiaia, e o Parque Nossa Morada, em setor do mesmo nome, sendo que nesses dois últimos não houve grandes intervenções, como lagos e outros equipamentos de maior envergadura; aliás, parecem áreas verdes como outras quaisquer, sem praticamente nenhuma atenção especial da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma).
Não somente pela população recebida, pelo tráfego gerado e pela especulação envolvida, os empreendimentos em áreas de parques trazem implicações. A principal diz respeito a algo essencialmente vital: a morte de nascentes e/ou o desprezo total de quem autoriza as obras às particularidades dos cursos d’água, com bombeamento contínuo, impermeabilização e até canalização total. Muitos dos que mora ou trabalham nos Setores Sul e Oeste não sabem, mas em seu deslocamento diário passam por cima de um córrego totalmente subterrâneo, o Córrego dos Buritis. É ele quem dá origem às águas do bosque do mesmo nome, após correr, imperceptível, sob as Avenidas 87, 85 e Assis Chateaubriand, entre outras, e passar debaixo do Tribunal de Justiça e de tantos outros prédios desde sua nascente, na área do Clube de Engenharia.
A pressão da interferência humana sobre o potencial hídrico das cidades tem levado a resultados perigosos, quando não trágicos, porque, obviamente, essa água vai emergir em algum lugar. Ou pior, não vai ter para onde escoar, como ocorre em grandes temporais, e se transformar em inundações repentinas, alagamentos e enxugadas perigosas, com prejuízo material e humano. Se Goiânia está tendo isso de forma cada vez mais recorrente, tem a ver com o modo com que tem sido tratada a política ambiental pelos planos diretores.
Diante do cenário desfavorável ao meio ambiente que é, por natureza, toda aglomeração urbana, os parques poderiam ser instrumentos importantes a favor de um relativo reequilíbrio ecológico. Mas não têm sido e, pelo contrário, eles mesmos têm sofrido a consequência da degradação. O exemplo mais recente é o Parque Cascavel, cujo lago, em pleno período chuvoso, está secando. A foto estampada na página 4 do jornal “O Popular”, em matéria que discorre sobre o definhamento do lago artificial, mostra ao fundo, margeando o parque, um prédio em construção que tem, pelo menos, 27 andares. Ele provavelmente será um entre muitos que cercarão a região tendo o parque e seu lago como propaganda de venda. Impossível que as fundações dessas obras, a tão poucos metros da área verde, não influenciem diretamente no ritmo das águas e no lençol freático.
No Parque Flamboyant ou no Parque Vaca Brava, há verdadeiros arranha-céus de pé ou em construção que se propõem a ser o “sonho de morar” de quem tem um poder aquisitivo acima da média. Apartamentos com até quatro suítes (pra quê tanto banheiro?), com pelo menos duas vagas para estacionamento para cada unidade e outras coisas. Tudo isso erguido em volta de uma área verde. Em uma visão sociológica, o professor Dijaci David de Oliveira, da UFG, considerou esses parques uma apropriação de um espaço antes público por uma casta social. Eles seriam uma espécie de “jardim” desses empreendimentos milionários.
Entretanto, mais do que a questão social — que pode ser motivo de um outro artigo — há a apropriação do patrimônio natural, geológico, hídrico, da cidade. A água manipulada de alguma forma no Parque Flamboyant vai influenciar na vida do cidadão que mora no noroeste da capital.
Por fim, outra região que deveria ser mais controlada - e não tem sido — pelo poder público é a das imediações do encontro do Rio Meia Ponte com os Ribeirões Anicuns e João Leite. Além dos empreendimentos habitacionais em andamento no Setor Goiânia 2, há algo totalmente inapropriado e mais grave: o crescente adensamento comercial e industrial da região. O shopping em obras às margens do Córrego Caveirinha e tendo o Meia Ponte logo ao lado é uma afronta, na perspectiva de que ele deve atrair especulação imobiliária para um local tão rico em termos de água e tão frágil do ponto de vista de erguimento de edificações. A um quilômetro dali, há o complexo da Cargill/Unilever, que já está em lugar errado e atraindo empresas de logísticas e caminhões e tráfego pesado e poluição. Tudo isso em local proibitivo. Neste exato momento, em vez de buscarem uma forma de tirar a indústria e seus satélites da área e preservar o complexo hídrico, o que está acontecendo é um passo a mais para subir um centro de compras gigantesco.
Até quando o poder público em geral (órgãos administrativos municipais, estaduais e federais, Ministério Público e Justiça) vão se omitir a salvar Goiânia do caos ambiental?