
“A Oban de fato era um lugar onde os presos eram torturados às vistas de alguns ricaços que pagavam para poder assistir a tortura dos inimigos deles.”
Dom Paulo Evaristo Arns
Não são raras as vezes nas quais o canalha ou o crápula ou o psicopata se escondem sob a máscara do profissional. A esse tipo de truque estamos relativamente habituados. O raciocínio nos parece aceitável. E, no entanto, essa fórmula pode ser apenas algo como um tique querendo livrar a cara do profissional — termo pelo qual o mundo próspero parece ter particular predileção. Um enfoque talvez ligeiramente menos fácil é aquele no qual o profissional e o psicopata (ou o canalha e o crápula) se confundem. Ou quem sabe as duas formas sejam na verdade uma única e crápula (ou psicopata e canalha) seja efetivamente aquele ser extremamente profissional capaz de executar qualquer tarefa que apareça dentro do seu campo de atividade, com dedicação e... gozo. Fato é que essas figuras são muito mais comuns que gostaríamos de acreditar que fossem e antes que esta modesta coluna decaia pretensiosamente para o território da especulação mais ou menos filosófica o melhor é dar cor, corpo e nome ao personagem do qual quer tratar.
Henning Boilensen foi um dinarmarquês que, após se naturalizar brasileiro, tornou-se empresário de sucesso e diretor-presidente da empresa Ultragaz, do Grupo Ultra, nos anos 1960, em São Paulo. Participante ativo da iluminada alta sociedade paulista, parte de sua capacidade empresarial era doada a uma atividade sombria: presenciar e aperfeiçoar a tortura de presos políticos em porões escondidos da ditadura.
Para contar um pouco da vida deste cidadão acima de qualquer suspeita, o diretor de “Cidadão Boilesen” (disponível em DVD, Imovision), Chaim Litewski, dedicou 15 anos de pesquisa e realizou centenas de entrevistas. Os depoimentos vão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, numa das melhores participações, ao coronel Erasmo Dias, de ex-guerrilheiros envolvidos na morte de Boilensen (o empresário e torturador foi executado na rua num dos bairros nobres da capital paulista por um comando de organizações de esquerda envolvidas na luta armada) ao próprio filho do dinamarquês, de gente do topo da repressão e da tortura, como o coronel Brilhante Ulstra, ao arcebispo dom Paulo Evaristo Arns, num arco de pontos de vista de fato abrangentes. E este certamente é um dos grandes trunfos do filme. Premiado no Festival Internacional de Documentários “É Tudo Verdade”, foi aplaudido de pé na Mostra de São Paulo e no Festival do Rio de Janeiro.
Foram muitos os capitalistas envolvidos diretamente na guerra da ditadura contra as organizações de esquerda que a enfrentavam. A Oban, um dos principais núcleos de investigação e de torturas montados pelo exército brasileiro ao final da década de 60, era financiada por empresários e banqueiros. Boilesen estava entre eles. Mas, à diferença do empresário Sebastião Camargo ou do banqueiro Amador Aguiar (Bradesco), Boilesen gostava de atuar e se envolver nos aspectos práticos das operações. Não apenas emprestando caminhões de distribuição de gás da empresa que presidia aos sinistros aparelhos repressivos, da mesma forma que veículos do jornal “Folha da Tarde” (ver nota ao lado). O “cidadão Boilesen” descia aos porões, assistia e participava dos interrogatórios, que não raras vezes resultava na morte do interrogado ou da interrogada.
Atribui-se a ele a invenção de uma “máquina capaz de controlar, com teclados, a intensidade dos choques elétricos, (e) em sua homenagem o aparelho foi batizado de ‘pianola Boilesen’”.
A par de mostrar a perplexidade do filho que até hoje diz não compreender as razões da execução do pai, o documentário mostra também a lúcida análise do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, afirmando que, embora não se possa celebrar os métodos adotados, tampouco se pode negar que era “um a menos do lado adversário”.
A participação do Grupo Folha
Indignado com a revelação da participação do Grupo Folha nos atos clandestinos de tortura e morte de militantes da esquerda, o procurador Renato Khair enviou carta ao ombudsman do jornal (que não foi publicada) solicitando explicações. A resposta do ombudsman, que também não apareceu nas páginas do jornal, foi: “Caro sr. Renato, durante o período ditatorial, a direção da ‘Folha’ não foi informada da utilização dos seus caminhões pelos órgão de repressão. No entanto, investigações posteriores constataram que, de fato, alguns veículos do jornal foram usados por equipes do Doi-Codi. Esses atos foram praticados à revelia dos acionistas da empresa.”
Claro! — à revelia dos acionistas, esses seres inocentes e cândidos!
Sem deixar de anotar que o não-reconhecimento de atos praticados é geralmente entendido como pusilânime, vale a pena mostrar o trabalho da linguagem para dizer/não dizer o que todos sabem e a todos deveria envergonhar (mais vergonhoso é tentar escamotear fatos tão repulsivos). Na recente festa de comemoração dos seus 90 anos a “Folha” editou caderno especial no qual volta ao assunto para dizer que, em 1971, “a ALN incendiou três veículos do jornal e ameaçou assassinar seus proprietários”. E continua a nota “O papel na ditadura”: “Os atentados seriam uma reação ao apoio da ‘Folha da Tarde’ à repressão contra a luta armada. Segundo relato depois divulgado por militantes presos..., caminhonetes de entrega do jornal teriam sido usadas por agentes da repressão para acompanhar sob disfarce a movimentação de guerrilheiros. A direção da ‘Folha’ sempre negou ter conhecimento do uso de seus carros para tais fins.”
Dois antagonistas dão depoimentos esclarecedores
Dois dos antagonistas à época foram o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o ex-governador de São Paulo Paulo Egydio Martins — este, quase sempre furibundo. Ambos prestam esclarecedores depoimentos no documentário de Litewski. A biografia do ex-presidente é amplamente conhecida. A do obscuro ex-governador nem tanto.
Segundo a Wikipédia, Paulo Egydio é um empresário que iniciou a “carreira pública na esfera federal (como) ministro da Indústria e Comércio” do marechal Castello Branco. Era “grande acionista do Banco Comind e atualmente é diretor-presidente da Itaucorp S.A.” Foi governador de São Paulo, “eleito indiretamente durante o governo... Geisel”.
Ainda segundo a enciclopédia virtual, foi “no governo de Paulo Egydio que o jornalista Valdimir Herzog,... da TV Cultura, canal de televisão... vinculado ao governo do Estado, foi assassinado por integrantes de organizações da ditadura militar brasileira, em 1975. A violenta repressão a uma manifestação estudantil na PUC, em 1977, sob as ordens do coronel Erasmo Dias, também foi outro episódio... de sua gestão”.
Num dos depoimentos prestados a Litowski, Paulo Egydio se empenha em garantir que Boilesen (de quem era próximo) “era um idealista, um homem puro e íntegro” cuja reação ao saber que fazia parte de uma lista de empresários envolvidos na repressão e ameaçados de morte pela guerrilha “foi a de um esportista que está enfrentando seu adversário” (sic).
A propósito me ocorreu uma advertência de Hannah Arendt em seu famoso “Eichmann em Jerusalém — Um Relato Sobre a Banalidade do Mal” —, Eichmann foi um dos principais encarregados de planejar e executar o plano de extermínio dos judeus europeus pelos nazistas. Diz ela: “O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais”.
E sobre tal comentário valeria a pena eventualmente dedicar toda uma coluna...
É preciso deixar registrado, ainda, que embora houvesse empresários como Paulo Egydio e Boilesen, havia outros, como Antônio Ermírio de Moraes e José Mindlin (grande colecionador de livros), que se negaram a contribuir com o esquema ilegal de repressão — “a Oban era uma organização clandestina”, diz FHC no filme. Mindlin aparece relatando sua recusa. Secretário de Cultura de Paulo Egydio, Midlin afastou-se do governo pouco tempo depois do assassinato de Herzog.
Paulo Egydio Martins é hoje filiado ao PSDB, de Fernando Henrique Cardoso.