Edição 1889 de 18 a 24 de setembro de 2011
Euler de França Belém
Peça "inédita de” Oscar Wilde provoca polêmica
Neto do escritor inglês garante que a peça “Constance” não foi escrita pelo autor de “O Retrato de Dorian Gray”
Divulgação
Oscar Wilde: morto há 111 anos, o escritor irlandês continua
provocando polêmica

O irlandês Oscar Wilde era um escritor notável, um frasista do primeiro time e um dramaturgo de certa qualidade. Preso, depois de um relacionamento homossexual tumultuado com o nobre Alfred Douglas, Bosie, morreu jovem, aos 46 anos, em 1900. Deixou um romance impagável, “O Retrato de Dorian Gray” (espécie de “Fausto” da língua inglesa) — tão icônico quanto “O Morro dos Ventos Uivantes”, da britânica Emily Brontë —, peças, aforismos sensacionais, cartas e pequenos textos magistrais (“De Profundis” é uma obra mignon magnífica, ao mesmo tempo que poética, uma desmitificação da relação entre um jovem e um homem maduro — sobre quem seduz quem) e até um livrinho sobre o socialismo. O leitor brasileiro que quiser conhecer seu teatro, sempre divertido e inteligente, deve consultar a caprichada edição “A Importância de Ser Prudente e Outras Peças” (Penguin/

Companhia das Letras, 424 páginas, tradução de Sonia Moreira). Agora, quase 111 anos depois de sua morte, uma nova polêmica mexe com os brios da família de Wilde e com o público britânico.

A “batalha” sobre a peça “Constance”, “de” Wilde, que está sendo encenada no teatro The King Head, ganhou espaço no “The Guardian”. Merlin Holland, neto do dramaturgo, garante que Wilde não escreveu nenhuma palavra da peça. Os diretores e produtores afiançam que “Constance” é “autêntica e nova obra de Oscar Wilde”. Holland contesta. Ele sustenta que Wilde esboçou a ideia, mas não escreveu nenhuma peça com o nome de “Constance”.

Holland assegura que Wilde tão-somente esboçou, em 1894, em alguns parágrafos de uma carta, ideias para a peça. Mas não teria escrito “nenhuma palavra”, quer dizer, “não existe” uma peça chamada “Constance”... de Wilde. O neto do escritor denuncia como “desonesta” a ação dos produtores da peça. “Acabo de lê-la. É uma obra vergonhosa escrita a partir de alguns aforismos e de outros trabalhos. Os ‘autores’ manipulam para que pareça um pouco com o estilo de Oscar Wilde”, ataca Holland. “É o pior dos piores melodramas.”

Ao “Guardian”, Holland sugere que os produtores digam que a peça “foi baseada em uma ideia de Oscar Wilde, escrita em francês por Guillot de Saix e traduzida para o inglês e mais tarde adaptada por Charles Osborne”. O diretor do The Kings Head disse ao “Guardian” que se sente “confortável ao atribuir a Oscar Wilde a autoria da peça”. “Demos crédito a De Saix, Henri Briel e Osborne como tradutores e adaptadores de sua obra”, rebateu o produtor da peça.

A peça conta a história de um empresário, um self-made man, de sua mulher, Constance (nome da mulher de Wilde), de um reverendo e de um casal de aristocratas. Parece mais Jane Austen do que Wilde? Pode ser.