Edição 1865 de 3 a 9 de abril de 2011
Euler de França Belém
Passaralho no jornal Correio Braziliense

O mais importante jornal diário de Brasília, o “Correio Braziliense”, demitiu o editor-chefe, Paulo Rossi, do “Correio Braziliense Online” e seis repórteres. Logo no Dia do Jornalista, na quinta-feira, 7.

O site Comunique-se (comunique-se.com.br) revela o nome de alguns dos demitidos: os jornalistas Arthur Paganini, Mariana Sacramento, Fernanda Lobo e Camila Campos.

O Comunique-se conta que a cúpula do “Correio” decidiu não esclarecer a razão das demissões. Mas, na redação, comenta-se que a direção da empresa avalia que o site do jornal “não está acontecendo” e é “burocrático”. Faltam molho e informações de primeira. Nos bastidores, fala-se em novas demissões, tanto no online quanto na redação do jornal impresso.

O “Correio” online ficou apenas com 13 jornalistas, o que é pouco, quase nada, para o principal jornal da capital da República. Um repórter diz que o jornal parece ainda não ter entendido a “força” da internet. “Cúpulas envelhecidas não percebem que a internet é o presente, não é o mais o futuro. Fazem demissões sem critérios e, sobretudo, não investem no site do jornal, que, comparado com o da ‘Folha Online’ e de ‘O Globo’, chega a ser amador. O site tem sido visto, ao longo dos anos, como subproduto do produto principal, o jornal impresso. Não pode ser assim”, diz o repórter do “CB”.

O braguismo tuiteiro patrocina Pablo Kossa

Ao contrário do que sugerem os jornalistas financiados pelo alcidismo-braguismo, a reportagem “Monstro e Fósforo — Advogado diz que produtoras culturais não devem participar da Lei Goyazes”, de José Cácio Júnior, não é um “ataque” à honorabilidade do jornalista Pablo Kossa. Não há, em nenhum momento, julgamento de valor (não citamos problemas anteriores do jornalista, no Incra, por exemplo). O repórter ouviu todas as partes envolvidas e deixou de lado a história de um faturamento de 2 milhões de algumas produtoras “culturais” no governo Alcides Rodrigues. Por quê? Porque não recebeu toda a documentação sobre o caso. Agora, as informações estão sendo examinadas por nosso Departamento Jurídico.

Trata-se de um debate — criterioso, o repórter ressalva que há certo denuncismo no meio cultural — sobre a legalidade e a legitimidade de as produtoras Monstro e Fósforo se inscreverem para receber os benefícios da Lei Goyazes e, ao mesmo tempo, alguns de seus sócios terem cargos de proa na Agepel. Trata-se de um fato — o jornal nada inventou.

Não deixa de ser curioso que Kossa seja defendido pela tropa de choque que era financiada por Alcides Rodrigues e Jorcelino Braga, com salários (por fora) acima de 10 mil reais. Um dos jornalistas da tropa-de-choque do braguismo (agora, financiado pela Rádio 730) comprou uma casa no condomínio Jardins por 800 mil reais (com um salário, o legal, de 5 mil reais conseguiu fazer o milagre da multiplicação dos pães, ou dos reais?). Pagou à vista. Ele é o “chefão”, mas comporta-se como se fosse santo. É discípulo de Michael Corleone.

A história da mansão talvez possa ser entendida a partir da leitura da reportagem “Publicidade — Alcides gastou acima do permitido por lei”, de José Barbacena, do “Diário da Manhã”. Publicada na sexta-feira, 1º, a matéria conta que o relatório entregue pelo presidente da Agência Goiana de Comunicação (Agecom), José Luiz Bittencourt Filho, ao subprocurador-geral de justiça para Assuntos Institucionais, Eliseu José Taveira, mostra que “somente no primeiro semestre de 2010, o governo de Goiás [leia-se Alcides Rodrigues e entourage] gastou em publicidade mais que o dobro da média dos três anos anteriores. Quase metade da dívida do órgão auditada nos anos de 2007, 2008, 2009 e 2010 — cujo total ultrapassa os R$ 200 milhões — foi contraída no último ano da administração”. Noutras palavras, no ano eleitoral e no último ano de mandato, Alcides torrou dinheiro público com publicidade. Sabe-se que há jornais pequenos, um deles de Piracanjuba, que faturava mais do que o “Pop”, o jornal de maior circulação no Estado. Desse jeito, é fácil comprar casa de 800 mil reais e automóveis importados (colocados em nome de terceiros).

Lucidez

“Jacinta Passos, Coração Militante — Poesia, Prosa, Biografia, Fortuna Crítica” (Edufba/Corrupio, 579 páginas), da historiadora Janaína Amado, foi um dos principais lançamentos de 2010, mas não ganhou o destaque merecido em jornais e revistas. Jacinta Passos foi casada com James Amado (irmão de Jorge Amado) e teve sua poesia apreciada por Antonio Candido e José Paulo Paes. Nasceu em 1914, na Bahia, e morreu em 1973. Comunista, escreveu uma poesia na qual, no geral, se há resquício de engajamento, não há a pobreza estética dos adeptos do realismo socialista. Há traços de feminismo, mas este não significa limitação. Janaína, sua filha, diz que Jacinta morreu louca.

A poesia de Jacinta Passos, mais do que a prosa (aproxima-se de sua poesia, mas é menos densa), é notável e, divulgada e analisada adequadamente, deve colocá-la entre os grandes poetas brasileiros. O trabalho de Janaína, apesar da emoção, é rigoroso e deve incentivar estudos específicos sobre o trabalho da poeta baiana (é o que deve ser feito a respeito da poesia de Pio Vargas). A seguir, publico dois poemas, “Canção do amor livre” e “Canção da Liberdade”.

Canção do amor livre

Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.
Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.
Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.
Teu corpo.
Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.

Canção da liberdade

Jacinta Passos

Eu só tenho a vida minha.
Eu sou pobre pobrezinha,
tão pobre como nasci,
não tenho nada no mundo,
tudo que tive, perdi.
Que vontade de cantar:
a vida vale por si.
        Nada eu tenho neste mundo,
        Sozinha!
        Eu só tenho a vida minha.
Eu sou planta sem raiz
que o vento arrancou do chão,
já não quero o que já quis,
livre, livre o coração,
vou partir para outras terras,
nada mais eu quero ter,
só o gosto de viver:
        Nada eu tenho neste mundo,
        sozinha!
        Eu só tenho a vida minha.
Sem amor e sem saúde,
sem casa, nenhum limite,
sem tradição, sem dinheiro,
sou livre como a andorinha,
tem por pátria o mundo inteiro,
pelos céus cantando voa,
cantando que a vida é boa.
          Nada eu tenho neste mundo,
          Sozinha!
          Eu só tenho a vida minha.

(O poema é de 1943. Nota de Janaína Amado: “Este poema foi republicado no jornal ‘O Momento’, Salvador, 11 de junho de 1945, e no livro ‘Poemas Políticos’”)

Índios cortaram cabeças na Guerrilha do Araguaia

Mais uma revista de qualidade chega ao Brasil — a “Gentleman’s Quaterly” (GQ). O primeiro número, que está nas bancas, com a bela top model Alessandra Ambrósio na capa, contém duas reportagens de primeira. Uma sobre como seria o filme “O Poderoso Chefão IV” (é ótima) e outra sobre como índios foram usados no combate à Guerrilha do Araguaia.

Na reportagem “O Segredo dos Índios Aikewara”, Lucas Figueiredo prova aquilo que já se sabia — inclusive um livro citou a história —, mas não da boca dos próprios índios e dos militares.

Figueiredo conta que onze índios Aikewara, da aldeia Suruí Sororó, foram usados como mateiros e para matar (e cortar a cabeça de) guerrilheiros. Ele entrevistou os sete sobreviventes e todos admitem que trabalharam para o Exército.

Umassu revela que presenciou a prisão de Mariadina (Dinaelza Santana Coqueiro) e viu alguns corpos. Warini “presenciou enterros à beira de uma estrada”.

O coronel da reserva Aluisio Madruga de Moura e Souza admite que índios Aikewara participaram da guerrilha, na Operação Marajoara, “terceira e última campanha militar no Araguaia”. Num e-mail enviado para um amigo, Madruga escreveu: “O único caso de cabeças cortadas — duas — de que tenho conhecimento foi protagonizado pelos índios Suruí já mais para o final da Operação Marajoara”.

O relato de Sinésio Martins Ribeiro, que trabalhou como mateiro (guia) para o Exército, contraria a informação de Madruga: “Eles [os militares] davam um saco de plástico branco forte e diziam: ‘Derruba o papagaio e tira o bico dele’. Papagaio era como eles chamavam os guerrilheiros, e bico era a cabeça”. No final de 1973, militares e mateiros cercaram três guerrilheiros e Arilson Aírton Valadão, o Ari, foi morto. “Aí eu peguei meu facão e cortei a cabeça dele. Foi rápido. Não é difícil, mas tem de arrancar os ossos. (...) Cortaram cabeças demais”, conta Sinésio Ribeiro. Mateiros degolaram Jaime Petit da Silva.

A terceirização da luta na Guerrilha do Araguaia merece um livro e Lucas Figueiredo, jornalista com qualificação de historiador, além de texto de escritor, é o profissional certo para a empreitada.

A história de madre Maurina já foi contada

No domingo, 27, o “Pop” publicou na capa o título “Madre Maurina Borges — Histórias do cárcere”. A chamada acrescenta: “Família de madre Maurina revela, pela primeira vez, momentos da vida da única freira presa e torturada no regime militar no cárcere. Ela sofreu atrocidades nos porões da ditadura e preferiu o silêncio durante décadas. Após sua morte, no último dia 5, familiares resolveram relatar alguns detalhes de seu drama”. A reportagem de Rogério Borges, “Memórias do Cárcere” (alusão às memórias de Graciliano Ramos) é irretocável.

Faço apenas um senão, que não invalida a reportagem de Borges: de história de madre Maurina já foi contada várias vezes, em livros, revistas e jornais (o repórter nada cita, talvez por desconhecimento). Ela chegou a conceder entrevista a respeito de sua prisão. A jornalista Matilde Leone documenta a história da madre no livro “Sombras da Repressão” (Vozes, 332 páginas). No clássico “Combate nas Trevas”, Jacob Gorender, maior historiador da esquerda brasileira, cita Maurina. Outro problema, ainda menor: a Operação Bandeirantes ganha singular (“Bandeirante”) na reportagem.

A morte de Maurina foi relatada pela “Folha de S. Paulo” e pelo “Estadão” em 10 de março. O “Pop” esperou 22 dias.

Novo jornal

Os experimentados jornalistas Cassim Zaiden e Marcelo Heleno apresentam, a partir de segunda-feira, 4, o “Jornal 820”, da Rádio Jornal 820.

O jornal vai ao ar das 7 às 9 horas, de segunda a sexta-feira.

Rádio contrata Renato Dias

O jornalista Renato Dias é o novo repórter de política da Terra FM. Ele participará do “Jornal da Terra”, de 7 às 8h, e com pílulas durante a programação da emissora, que é líder de audiência. Renato Dias lançou, na quarta-feira, 30, na loja Paixão Vermelha, mais uma edição da “Revista do Vila Nova”.

Realismo político

Os presidentes dos Estados Unidos, Barack Obama, e do Brasil, Dilma Rousseff, não governam com base no que sai no Twitter. Governam com um olho no mundo real, longe da fofoca dos 140 toques.

Angústia da influência

As melhores frases da coluna “Parachoque”, do “Diário da Manhã”, são extraídas da internet. O editor da coluna, Edvan Antunes, pode alegar que são de domínio público. Talvez seja mesmo.

A capital dos buracos

O “Pop” publicou as melhores reportagens sobre a verdadeira buracolândia em que se tornou Goiânia. O jornal mostrou crateras em alguns bairros da capital — uma delas, na capa, impressiona até prefeitos que não são chegados a trabalhar. Faltou ao “Pop” mostrar que, nos dias sem chuva, o prefeito Paulo Garcia, do PT, nada fez para tapar os buracos. Um humorista disse a um repórter do Jornal Opção: “Era uma vez os buracos e sua cidade.

Trocando o Pop pelo MP

A repórter Marília Assunção, uma das mais premiadas da imprensa goiana, trocou o “Pop” pela assessoria de imprensa do Ministério Público.

O jornal não quis cobrir a proposta salarial do MP — 10 mil reais. Ganha o MP. Perde o “Pop”.

MEMÓRIA
A inocência castigada

Depois de três décadas, rompe-se o silêncio em torno da prisão de madre Maurina, única freira torturada pela repressão no Brasil

Da revista ÉpocaSubversiva. Terrorista. Amante de baderneiros. Foi com alcunhas pouco elogiosas que os agentes do regime militar confinaram a freira Maurina Borges da Silveira nos porões da ditadura. Corria o ano de 1970 e os brasileiros sonhavam com o tricampeonato de futebol, embalados pela marchinha "Pra Frente, Brasil". O que se passou nos cinco meses de prisão da religiosa, a partir de outubro de 1969, quando foi detida no interior de São Paulo, ainda constitui segredo muito bem guardado nos arquivos da ditadura e do Vaticano. Mas o véu de sigilo começa a ser levantado. Contribuiu para isso a recente publicação de Sombras da Repressão, resultado de 12 anos de trabalho da jornalista paulista Matilde Leone. Misturando ficção e realidade, Matilde remontou boa parte do sofrimento vivido pela única freira brasileira presa e torturada pela repressão. A prisão de madre Maurina, da Ordem Terceira de São Francisco, talvez tenha sido um dos mais lamentáveis enganos do regime que fez 20 mil perseguidos políticos no Brasil.

Banida para o México em troca da libertação do cônsul japonês Nobuo Okuchi, sequestrado em 1970, irmã Maurina foi mais que o símbolo de uma época: para seus algozes, que a castigaram de maneira brutal, tornou-se uma presa rara. Para as organizações de esquerda, envolvidas no confronto armado com o regime, virou uma prenda. Era a prova mais estapafúrdia dos arbítrios da época, que não poupavam nem mesmo uma freira voluntariosa, diretora de um orfanato de crianças carentes em Ribeirão Preto, a 320 quilômetros da capital paulista. Capturada, a religiosa padeceu tão cruelmente que o então bispo daquela cidade, dom Frei Felício, chegou a excomungar dois delegados a serviço do regime. O caso provocou uma conversão profunda e definitiva: ao tomar conhecimento dos fatos, o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, então bispo-auxiliar em São Paulo, arregaçou as mangas da batina e resolveu entrar de vez na luta pelos direitos humanos no país. O que se passou então?

É de arrepiar. Presa e torturada numa delegacia, despiram-na, deram-lhe choques, penduraram-na no pau-de-arara. E o pior para uma religiosa: passou por xingamentos, injúrias, ofensas, ameaças, gritos. Madre Maurina embarcou algemada para o exílio involuntário - e era com as algemas que limpava o suor do rosto no voo para o México, a bordo de um Caravelle fretado. Aos companheiros de viagem, reclamou do tratamento verbal recebido. "O que mais lhe doía eram as blasfêmias e os palavrões", conta Shizuo Ozawa, o Mário Japa, um dos líderes da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) - organização que comandou o sequestro do cônsul. Mário Japa foi um dos cinco presos políticos expulsos do Brasil em troca da libertação do diplomata. Hoje, a "freira subversiva" segue cuidando de seu rebanho na cidade paulista de Catanduva. Cabelos brancos, olhos azuis e um crucifixo no peito, vai levando a vidinha interiorana enquanto dribla as intempéries da saúde, já fragilizada por seus 72 anos. "Não gosto de falar sobre isso, já perdoei a todos."

O detonador da ira do regime não passou de um equívoco. No final do ano de 1969, Maurina era a madre superiora do Lar Santana, orfanato do bairro de Vila Tibério, em Ribeirão Preto. Seu delito maior, se é que se pode chamar assim, foi ter cedido uma das salas do orfanato para que um grupo de estudantes fizesse suas reuniões. Não sabia que eles pertenciam à Frente Armada de Libertação Nacional (Faln), organização de pequeno porte que se propunha combater pela força a ditadura militar. "Sua imprevidência foi abrir a sala para as reuniões. Os estudantes valeram-se de sua boa-fé, mas qualquer pessoa perceberia sua inocência. Menos os policiais", explica dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo-auxiliar de São Paulo, na época padre em Ribeirão. Com as primeiras prisões, Maurina, por precaução, queimou o material "subversivo" que os jovens deixavam no porão do Lar: a coleção de um jornalzinho mimeografado de nome O Berro e uma lista com alguns nomes de integrantes da Faln.

Por esse "crime" pagou caro. Os policiais vieram buscá-la no orfanato. Já no cárcere, foi interrogada pelo temido delegado Sérgio Paranhos Fleury, da Operação Bandeirantes, destacada para investigar o grupo de Ribeirão. Uma equipe de 15 torturadores revezou-se nos castigos, com provocações: "Chame esse seu Deus para livrar você das nossas mãos". Numa época de silêncio imposto e vigiado, os rumores da tortura da religiosa chocaram a Igreja Católica. "Foi inacreditável. Eles fizeram isso com todo mundo, mas por que com ela?", diz dom Angélico. "A irmã não tinha participação alguma na organização", confirma Vanderley Caixe, um dos líderes da Faln. A Frente surgiu de um racha do Partido Comunista e foi um dos primeiros grupos a aderir à luta armada. Amadores, os rapazes usavam o Manual do Escoteiro nos treinamentos.

Foram injustiças demais. Uma das piores, na visão da madre, foi a informação (que até hoje circula) de que teria sido estuprada por um torturador e embarcado grávida para o México. "Essa foi uma das grandes mentiras ditas a meu respeito", afirma. É um desses casos em que o silêncio em torno da realidade ganha importância diante da História. Criou-se uma aura de suspense que nem o livro esclarece. Não que o estupro fosse prática abolida dos manuais da repressão. Outras presas políticas passaram por isso. "Eram comuns os abusos sexuais", confirma a historiadora Inês Etienne Romeu, ex-dirigente da VPR, ela mesma vítima de dois estupros nos oito anos de prisão a que foi submetida. "Colocavam-me nua, de madrugada, no cimento molhado. Fui espancada várias vezes e levava choques elétricos na cabeça, nos pés, nas mãos, nos seios." Em 1981, Inês fez um depoimento audacioso, publicado no jornal O Pasquim, denunciando detalhes do que passou na Casa de Petrópolis, um dos centros de tortura montados pelo regime.

Em Sombras da Repressão, Maurina conta ter sido abordada por um militar loiro, alto e jovem durante sua prisão. Seu testemunho: "Ele começou a me abraçar e dizia que estava sozinho, longe de sua mulher. Eu pedia para ele se afastar, ficar longe de mim. Pegou uma arma e queria que eu a segurasse. Dizia para eu matá-lo. Queria que minhas impressões digitais ficassem na arma. Não peguei. A imprensa publicou que eu tive um filho desse militar. Outros disseram que fiz um aborto. Li essa notícia em uma revista, no México. Isso me abalou muito, tive uma depressão. Depois aceitei". Maurina viveu 14 anos no México, cinco dos quais na zona rural, visitando doentes, trabalhando com famílias e promovendo encontros de casais. Voltou ao Brasil depois que a hipófise começou a incomodá-la. Até hoje, a congregação das franciscanas não gosta que ela fale sobre o assunto.

"Não houve estupro", garante o frade dominicano Manoel Borges da Silveira, 67 anos, irmão de Maurina. Frei Manoel credita a versão da gravidez ao fato de Maurina ser uma religiosa de vida casta e recatada. Mas não se incomodou com o fato de o livro reacender especulações a respeito. "Naquela época era proibido falar sobre tortura, e esse fantasma continuou por muito tempo. Por isso o livro é bom, para acabar com um tabu." O romance histórico Sombras da Repressão teve sua venda suspensa por conter alguns erros de identificação, entretanto revolve um baú de lembranças delicadas. Em parte, isso se deve à própria autora. Para recontar uma história complexa e turbulenta, a jornalista criou um personagem fictício que colocou mais lenha na fogueira. É Felipe Castro, um jovem mexicano, filho adotivo, que desembarca em Ribeirão Preto à procura da mãe verdadeira. Na busca angustiada, ele conhece pessoas que passaram pela prisão e foram torturadas. No desenrolar da trama, há referências ao suposto filho de Maurina. "Considero esse livro um esboço. Felipe não existe, o que há é um manto muito denso cobrindo a história de Maurina", explica Matilde Leone. Alguns parentes da madre viram com desagrado o personagem mexicano.

Maurina nasceu em uma família humilde do interior de Minas Gerais. Foi criada na comunidade de Perdizinha, município de Perdizes, entre Uberaba e Araxá, um aglomerado de 50 casas construídas ao redor de uma capela. Havia missa uma vez por mês e reza do rosário todos os domingos. Seu pai, Antonio, católico fervoroso, trabalhava como "carapina", um carpinteiro dedicado à construção de carros de boi. Ao todo, eram 11 irmãos, quatro dos quais se tornaram religiosos. Maurina descobriu sua vocação aos 7 anos de idade, ao ouvir o pai contar a história de São Francisco de Assis, um entusiasta da vida religiosa para mulheres. Aos 14 anos, convenceu os pais a levá-la para o convento, em Araxá. E entregou-se à vocação. Nos cinco meses de cárcere, continuou pregando e, em pelo menos uma oportunidade, converteu uma comunista à fé católica. "Ela até me ofereceu a primeira hóstia que recebeu na prisão", conta a enfermeira Áurea Moretti, 52 anos, uma das líderes da Faln, companheira de cela e de tortura da irmã. Mais tarde, Áurea casou-se na igreja, como queria a madre.

"Eu a vi no momento do embarque, algemada. Foi um golpe. Aquela freirinha de rosto angelical e com as mãos atadas", relembra Damaris Lucena, 71 anos, integrante da VPR. Damaris, que hoje dirige uma pequena creche no interior de São Paulo, também foi trocada pela libertação do cônsul e viajou com a madre para o México. Levava consigo três filhos pequenos. "Várias vezes fez minha filha Telma, então com 3 anos, adormecer em seus braços. Ela também me convenceu a rezar." A fé de Maurina segue inabalável. Como nos tempos em que foi presa, continua dispensando o hábito da congregação, mas jamais deixou de vestir a vocação religiosa. A capacidade de perdão também continua a mesma. Passados 28 anos, acha que sua prisão foi apenas a parte que lhe coube na História. E ponto. (Nota do colunista: transcrito da revista “Época”. Não consegui precisar a data, mas, como a revista deixou tremas, suponho que é anterior à reforma ortográfica.)

POLÊMICA NA RECONSTRUÇÃO DA HISTÓRIA
Editora espera acordo para conseguir a liberação da venda

O livro Sombras da Repressão, publicado pela Editora Vozes, está com sua venda proibida. O presidente da Câmara Municipal de Ribeirão Preto, Leopoldo Paulino, do PSB, sentiu-se ofendido com um trecho em que é acusado de ter sido o alcagüete de Vanderley Caixe, um dos líderes da Faln. A jornalista Matilde Leone admite que o identificou erroneamente e se propõe a publicar uma errata com a informação correta. Paulino também pediu explicações à jornalista e quer indenização por danos morais, apesar de a edição, de 2 mil exemplares, ainda não ter sido vendida. "Errar é humano, mas se deve pagar pelos erros", explica Paulino. (Transcrito da revista Época)

ENTREVISTA
Delegado diz que não pôde impedir a tortura

Época: O senhor ordenou a prisão de madre Maurina. Passados quase 30 anos, ainda acredita que ela foi de fato uma terrorista?
Renato Soares: Não. Acho que ela foi uma inocente útil. Quem ordenou sua prisão fui eu porque havia provas contra ela. Eu não sabia qual o envolvimento exato da madre, mas não podia deixá-la solta.

Época: Como delegado seccional, o senhor não soube que havia prática de tortura na cidade?
Soares: Eu não tinha condições de impedir a tortura. Você acha fácil o que estava acontecendo na época? Havia um seqüestro sendo organizado. Nós não estávamos preparados para combater esses crimes, tanto que veio o pessoal da Operação Bandeirantes e os militares de Pirassununga. Além disso, muita gente nos procurava para entregar os outros. Isso era horroroso. Eu sempre fui um escravo da lei. E a ordem vigente na época era a Lei de Segurança Nacional.

Época: O senhor não se sentiu conivente com a tortura?
Soares: Não me sinto culpado pelo ato praticado por outros. Eu também recebia ordens. Era uma guerra.

Época: Como foi a excomunhão?
Soares: Irmã Maurina estava presa há 19 dias, e o clero não tinha se manifestado. Eu assistia a uma missa quando o padre leu o texto da minha excomunhão. Fiquei de pé o tempo todo. Seis anos depois, tive minha absolvição, mas meus filhos nunca mais puseram os pés na igreja. (Transcrito da revista “Época”, não consegui localizar a data)

Jornal diário é fechado em Brasília

O diário brasiliense “Tribuna do Brasil”, de Alci Colaço, fechou as portas.

ROBERT WALSER
O escritor suíço que fez a cabeça de Kafka

O corrosivo escritor austríaco Thomas Bernhard certamente “preferia” ser herdeiro de filósofos como Schopenhauer e, quem sabe, Nietzsche. Embora sua prosa seja esmagadora, sem concessões, é possível que um de seus pais — inconfesso — seja o suíço Robert Walser. A ironia indireta do romance “Jakob von Gunten — Um Diário” (Relógio D’Água, 161 páginas, tradução de Isabel Castro Silva) é mais, digamos, “sutil” do que os petardos virulentos de Bernhard. Mesmo assim, há certo parentesco, sobretudo na distância que ambos guardam da vida e do pensamento tradicionais. A diferença é que um é indireto e o outro é direto. Walser morreu, “louco” (há quem duvide disto, incluindo o próprio autor, que, perguntado porque não continuava escrevendo no hospício, redarguiu: ‘Eu estou aqui para ser louco, não para escrever”), aos 78 anos, em 1956. Ele era o autor preferido do tcheco Franz Kafka, que, como o suíço e o búlgaro Elias Canetti, escrevia em alemão.

No Brasil, Walser é pouco conhecido e, como somos surrealistas, a fortuna crítica chegou primeiro, com textos de Walter Benjamin, Zé Pedro Antunes, Marcelo Backes, J. M. Coetzee e Elias Canetti. Em 2003, o romance “O Ajudante” saiu pela Editora Arx, com tradução e apresentação de Zé Pedro Antunes. Portugal saiu na frente e publicou outros livros de Walser, como “Jacob von Gunten”, de 1909, seu principal romance. A obra sai agora no Brasil, sob chancela da Companhia das Letras (152 páginas), com tradução de Sergio Tellaroli.

O ensaio “Robert Walser” (inserto no livro “Magia e Técnica, Arte e Política”, Brasiliense, 253 páginas, tradução de Sergio Paulo Rouanet), escrito em 1929, de Walter Benjamin, tem apenas quatro páginas, mas certamente é o ponto de partida das críticas posteriores. “Walser nos confronta com uma selva linguística aparentemente desprovida de toda intenção e, no entanto, atraente e até fascinante, uma obra displicente que contém todas as formas, da graciosa à amarga”, escreveu Benjamin. Ao examinar a informação de Walser de que não revisava seus textos, o filósofo alemão assinala: “... escrever e jamais corrigir o que foi escrito constitui a mais completa interpretação de uma extrema ausência de intenção e de uma intencionalidade superior. (...) Para Walser, o ‘como’ do trabalho é tão importante, que para ele tudo o que tem a dizer recua totalmente diante da significação da escrita em si mesma. Podemos dizer que o conteúdo desaparece no ato de escrever. (...) Encontramos nesse autor algo de eminentemente suíço: o pudor. (...) A característica de Walser (...) é justamente esse pudor linguístico, tipicamente camponês. Assim que começa a escrever, sente-se desesperado”.

Benjamin pergunta: de onde vem as personagens de Walser? Sua resposta: “Eles vêm da noite, quando ela está mais escura, uma noite veneziana, se se quiser, iluminada pelos precários lampiões da esperança, com um certo brilho festivo no olhar, mas confusos e tristes a ponto de chorar. Seu choro é prosa. O soluço é a melodia das tagarelices de Walser. O soluço nos mostra de onde vêm os seus amores. Eles vêm da loucura, e de nenhum outro lugar. São personagens que têm a loucura atrás de si, e por isso sobrevivem numa superficialidade tão despedaçadora, tão desumana, tão imperturbável. Podemos resumir numa palavra tudo o que neles se traduz em alegria e inquietação: todos eles estão curados. Mas não compreenderemos jamais como se processou essa cura, a menos que nos aventuremos no seu ‘Branca de Neve’, uma das mais profundas criações da literatura moderna, que bastaria para entendermos por que Walser, aparentemente o menos rigoroso dos escritores, foi o autor favorito do implacável Franz Kafka”. Benjamin nota que as narrativas de Walser “são extraordinariamente ternas, mas não são movidas pela tensão nervosa da decadência, e sim pelo Estado de espírito puro e ativo do convalescente. ‘Assusta-me a ideia de ter sucesso na vida’, diz Walser. Todos os seus heróis partilham esse sentimento”. 

Elias Canetti diz que Kafka deve existência a Walser

Elias Canetti é um dos intérpretes mais contundentes de Robert Walser. “Robert Walser me toca mais e mais, especialmente em sua vida. Ele é tudo aquilo que não sou: desamparado, inocente e, de uma maneira sedutoramente pueril, genuíno”, diz o escritor-filósofo, no livro “Sobre os Escritores” (José Olympio, 208 páginas, tradução de Kristina Michahelles). Escrevendo num tom aforístico, Canetti é, necessariamente, assertivo, não raro idiossincrático. Começa seu ensaio de três páginas de modo enfático: “Topei com Robert Walser, entre muitos, entre uma centena de outras coisas: o mais vivo”. Acrescenta, de modo ambíguo (ou oblíquo): “Diante dele, Kafka empalidece”. O autor do romance “Auto-de-Fé” e da obra filosófica “Massa e Poder” anota que “a especificidade de Robert Walser como poeta consiste em que ele jamais nomeia os seus motivos. Ele é o mais encoberto de todos os poetas. Sempre está muito bem, sempre está encantado com tudo [a tese de Canetti parece uma síntese de “Jakob von Gunten”]. Mas a sua exaltação é fria, porque deixa de fora uma parte da pessoa, e por isso ela também é sinistra. Tudo nele se torna natureza exterior, e ele passa a vida inteira renegando a essência, o que há de mais interior, a angústia”. Note-se que Canetti trata os escritores como poetas, e os romances como poesia. Por isso diz que a “poesia” de Walser “é a tentativa incessante de calar a angústia. (...) Sua aversão profunda e instintiva a tudo o que é ‘superior’, principalmente a tudo o que tem fama e pretensão, faz dele um dos poetas essenciais do nosso tempo, um tempo que sufoca de poder. Temos pejo de chamá-lo de um ‘grande poeta’, segundo os hábitos linguísticos correntes, nada lhe repugna tanto quanto o que é ‘grande’. É apenas o brilho da grandeza ao qual ele se rende, não a sua pretensão. Seu prazer é a observação do brilho sem participar dele. Não se pode lê-lo sem se envergonhar daquilo que importou na vida exterior e assim ele é um santo por direito próprio, e não segundo regras ultrapassadas e esvaziadas”. Leitor apaixonado, Canetti cita uma frase de Walser — “Só consigo respirar nas regiões inferiores” — e conclui que se trata do “lema dos poetas”. Ao examinar o homem, Canetti diz que “ninguém teria conseguido inventar um personagem tão insólito quanto Walser” — que recusou o sucesso, a grandeza e optou por “exilar-se” em hospitais psiquiátricos. “Ele é mais extremo do que Kafka, que sem ele jamais teria surgido, que ele ajudou a criar”, frisa, com sua lógica enviesada, Canetti. É improvável, parece lógico, que Kafka não existiria sem Walser. 

Suíço é precursor da narrativa fantástico-alegórica

Um dos melhores críticos da literatura alemã no Brasil, Marcelo Backes escreveu um livro fundamental para compreendê-la: “A Arte do Combate” (Boitempo Editorial, 368 páginas). O crítico e escritor percebe Robert Walser como um escritor “à frente de seu tempo; precursor de Kafka”. Sobre o romance “Jacob von Gunten”, escreve: “É a obra-prima do autor; neste terceiro romance” de um “ciclo, a melancolia e a riqueza de nuanças, características da obra de Walser, atingem o ápice, unindo-se orgânica e homogeneamente a seu estilo narrativo”. Mais: Walser era um “precursor sutilizado da narrativa fantástico-alegórica em que Kafka veio a se tornar célebre. (...) Walser ilumina a existência humana pelas beiradas, desvelando o imenso valor das coisas ‘insignificantes’”.

A crítica (menos apaixonada) mais recente à obra de Walser está no livro “Mecanismos Internos — Ensaios Sobre Literatura” (Companhia das Letras, 358 páginas, tradução de Sergio Flaksman), de J. M. Coetzee. O ensaio “Robert Walser” contém 18 páginas de uma leitura percuciente da obra do escritor suíço.

Coetzee nota que “Jakob von Gunten” tem como precedente “o Homem do Subterrâneo de Dostoiévski e o Jean-Jacques Rousseau das ‘Confissões’”. “Há também em Jakob algo do herói dos contos tradicionais populares alemães, o rapaz que invade o castelo do gigante e emerge vitorioso. Franz Kafka admirava a obra de Walser (Max Brod registra com quanto encantamento Kafka lia em voz alta as passagens mais engraçadas de Walser). Barnabas e Jeremias, os ‘assistentes’ demoniacamente obstrutivos do agrimensor K. em ‘O Castelo’, têm seu protótipo em Jakob”, registra Coetzee. “Em Kafka também podemos perceber alguns ecos da prosa de Walser, com sua lúcida organização sintática, suas justaposições casuais do elevado com o banal, e sua lógica paradoxal assustadoramente convincente.”

Coetzee nota que, “hoje, Walser é valorizado principalmente por seus romances, muito embora estes só constituam um quinto da sua produção total e o romance não tenha sido propriamente o seu forte (as quatro obras de ficção mais longas que deixou pertencem na verdade à tradição menos ambiciosa da novela). Walser está mais à vontade em formas mais breves. Contos como ‘Helbring’ (1914) ou ‘Kleist in Thun’ (1913), em que nuances amareladas de sentimento são esquadrinhadas com a mais ligeira das ironias e a prosa responde a lufadas ocasionais de sentimento com a sensibilidade das asas de uma borboleta, mostram Walser no seu melhor. Seu único tema verdadeiro foi sua vida pouco movimentada mas, a seu modo, muito pungente. Cada um dos textos em prosa, sugeriu ele em retrospecto, pode ser lido como um capítulo de uma ‘narrativa longa, realista e sem enredo’, um ‘livro recortado ou desmembrado do eu (Ich-Buch]’”.

Num poema, citado por Coetzee, Walser escreveu: “Não desejaria a ninguém que fosse eu./Só eu sou capaz de me suportar./Saber tanto, ter visto tanto, e/Não dizer nada, ou quase nada”. 

Trecho do romance “Jakob von Gunten”

“Quem não tem razão é sempre insolente o bastante para apoquentar a paciência de quem tem razão. A razão ferve em pouca água, a ausência de razão aventa sempre uma aparência de descuido frívolo e orgulhoso. Quem tem boas e apaixonadas intenções (Kraus) sucumbe sempre às mãos de quem (eu, portanto) não preza tanto o que é bom e útil. Eu triunfo porque fico ainda deitado na cama. (...) São-me infinitamente simpáticas as pessoas que se zangam. (...) O indignado tem sempre de ser confrontado pelo pecador, caso contrário falta alguma coisa.” (Trecho do romance “Jakob von Gunten — Um Diário”, Relógio D’Água Editores, 2005, página 30, tradução de Isabel Castro Silva)

A história fabulosa e assustadora do navio negreiro

“O Navio Negreiro — Uma História Humana” (Companhia das Letras, 446 páginas), do historiador Marcus Rediker, é um livro brilhante. Escrito por um acadêmico que trabalha como alguns dos melhores escritores. Ele conta histórias fabulosas sobre um assunto, como diz, pouco pesquisado.

Trecho (e não dos melhores): “No decurso de quase quatrocentos anos de tráfico de escravos, entre o fim do século XV e o fim do século XIX, 12,4 milhões de pessoas foram embarcadas em navios negreiros e transportadas pela chamada Passagem do Meio, cruzando o Atlântico rumo a centenas de pontos de distribuição espalhados ao longo de milhares de quilômetros. Durante o terrível trajeto, 1,8 milhão delas morreram e tiveram seus corpos lançados ao mar, para proveito dos tubarões que seguiam os navios. A maior parte dos 10,6 milhões que sobreviveram foi despejada nas entranhas sangrentas de um sistema de plantation assassino, ao qual esses cativos resistiram de todas as formas imagináveis”

“O navio negreiro”, escreve Rediker, “é um navio-fantasma que viaja nas fímbrias da consciência moderna”.

Pequena impropriedade de biógrafa

No livro “Sarney — A Biografia” (Leya, 624 páginas), a jornalista Regina Echeverria escreve que o norte-americano John F. W. Dulles é “historiador e brasilianista”. É raro, talvez inimaginável, o uso desta forma. Basta dizer “brasilianista” ou, então, historiador americano. Ou, para incluir o modo preferido por Echeverria, pode ser historiador-brasilianista.

Um dos problemas do livro, ainda que menor, é a falta de capricho da revisão.

Um dos trechos mais hilariantes do livro não foi comentado pelos resenhistas. Echeverria conta, com base na versão de Sarney, a história da renúncia de Jânio Quadros.