“O Estado de S. Paulo” publicou no domingo, 5: “Títulos que tratam da biografia ou da recepção crítica do autor [Charles Dickens] ainda são escassos no País. Livros importantes como ‘Charles Dickens — Uma Vida’, de Claire Tomalin, e ‘A Vida de Charles Dickens’, de John Forster, somente estão disponíveis em inglês”. Há três problemas. Primeiro, hoje é muito fácil comprar livros pela internet nos Estados Unidos e na Europa. Segundo, embora cite a primeira grande biografia do escritor inglês, escrita por Forster, o jornal omite a biografia mais densa e atual, “Dickens — O Observador Solitário” (encontrável em inglês e espanhol), de Peter Ackroyd. Terceiro, não procede que as editoras brasileiras não tenham publicado obras críticas sobre o autor de “David Copperfield”.
No livro “11 Ensaios”, de Edmund Wilson, há um esplêndido ensaio, “Dickens: os dois Scrooges”, sobre o escritor e sua obra. O texto, com 60 páginas, deveria ser publicado como livro pela Companhia das Letras. É denso e preciso. Restaura a estatura literária do criador de “Oliver Twist”. Harold Bloom, o mais badalado crítico literário do mundo, tem dois ensaios sobre Dickens nos livros “Gênios — Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura” e “Como e Por Que Ler”, ambos editados pela Objetiva. Há outro livro notável: “A Efígie Violenta — Uma Análise da Imaginação de Dickens” (Ars Poetica), de John Carey. G. K. Chesterton, crítico perspicaz, escreveu “Dickens”.
Pop comete erros em texto sobre escritor britânico
Rogério Borges, do “Pop” (domingo, 5), escreveu excelentes textos sobre os 200 anos de nascimento do escritor inglês Charles Dickens. Os pequenos erros não invalidam o texto principal, “Um gigante entre os pequenos”, um título, por sinal, muito bom, mas insatisfatório. Porque Dickens, embora tenha escrito sobre crianças, sempre foi mais lido por adultos. Ao mesmo tempo, escrevia muito bem, como nota o belo título, sobre os “pequenos”.
Borges diz que Dickens lia Daniel “Dafoe”. Lia Daniel Defoe. O resenhista possivelmente confundiu o sobrenome do autor de “Robinson Crusoé” com o do ator William Dafoe.
O pai do escritor, John Dickens, não “afundou em dívidas” porque tinha oito filhos. Na verdade, era um gastador inveterado, como o próprio Dickens e, depois, alguns de seus filhos. Borges sugere que os Dickens eram totalmente pobres. Não eram: quando criança, Dickens teve preceptor formado por Oxford. Ficaram pobres. Portanto, Dickens não teve uma infância inteira de pobreza.
Dickens não trabalhou, quando tinha 12 anos, em vários serviços. Na verdade, trabalhou numa fábrica de graxa, e por seis meses, o que, como mostra Edmund Wilson, no ensaio “Dickens: os dois Scrooges”, o levou ao desespero. Borges escreve: “O pai de Charles queria que o filho continuasse a trabalhar no mesmo ritmo de quando se virava sozinho na cidade”. Wilson apresenta a versão aceita entre os estudiosos de Dickens, como o recente biógrafo Peter Ackroyd: “... Charles nunca perdoou à mãe ter querido mantê-lo trabalhando na fábrica depois de o pai ter decidido tirá-lo de lá”. Dickens escreveu: “Jamais esquecerei, jamais poderei esquecer”.