34 anos
Euler de França Belém
Livro explica Paris melhor do que Woody Allen

Você assistiu “Meia Noite em Paris”, filme de Woody Allen, e apaixonou ou reapaixonou por Paris? Pois bem: Paris é mesmo uma bela cidade, apesar de não ter mais o título de capital cultural do planeta. Agora quem viu o filme, mas não entendeu a história direito, agora pode entendê-la lendo o livro “Paris – Um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia”, de Sérgio Augusto, um dos mais importantes jornalistas culturais do país. A seguir, transcrevo uma entrevista que ele concedeu ao site da Livraria Cultura (www.livrariacultura.com.br).

Jornalista lança livro em que recupera reportagem publicada há duas décadas sobre a chamada Geração Perdida
Guilherme Bryan

          
Sucesso cinematográfico de 2011, “Meia-noite em Paris”, dirigido por Woody Allen, conquistou os cinéfilos ao mesclar cenas dos tempos atuais com as vividas por escritores norte-americanos, como Ernest Hemingway e Francis Scott Fitzgerald, na capital francesa dos anos 1920. Foi o longa-metragem o qual também inspirou o jornalista brasileiro Sérgio Augusto a revisitar uma reportagem sua publicada em janeiro de 1990 sobre estas figuras da chamada ‘Geração Perdida’. O texto, lido originalmente no Suplemento de Turismo da Folha de S. Paulo, foi editado para o recém-lançado E foram todos para “Paris – Um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia”.

“Quem leu Paris é uma festa, do Hemingway, sente uma inveja danada da vida boêmia da capital francesa nos anos 20. Nunca uma cidade foi culturalmente tão rica e estimulante, sem desdouro da Paris das décadas de 30 e 40.”

Talvez esteja aí a razão principal para revisitar uma reportagem aparentemente perdida no final da década de 1980. “Em novembro de 1989, ao cabo de uma viagem por outros países da Europa, cismei de seguir as pegadas da chamada ‘Geração Perdida’ em Paris. Anotara os endereços em que Hemingway, Fitzgerald, Pound e outros americanos haviam morado ou se hospedado naquelas décadas. E também os bares e restaurantes que frequentavam. Com uma câmera em punho, catei-os um a um”, conta.

Para quem se animou a procurar na capital francesa nova efervescência cultural, Sérgio Augusto aconselha outros destinos: “Faz tempo que a cidade perdeu o cetro de ‘capital cultural do mundo’ para Nova York. Há quem diga que Berlim, hoje, tem maior expressão cultural que Paris. A França estagnou depois das mortes de seus grandes intelectuais”, diz ele que, para recuperar a sonoridade dos tempos da ‘Geração Perdida’, indicou discos relacionados ao seu livro na Revista da Cultura de fevereiro.

Como surgiu a ideia de escrever o livro E foram todos para Paris – Um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia?
O livro foi escrito há 22 anos para uma edição especial do suplemento de Turismo, da Folha de S. Paulo, publicado em janeiro de 1990. Em novembro de 1989, ao cabo de uma viagem por outros países da Europa, cismei de seguir as pegadas da chamada “Geração Perdida” em Paris. Anotara os endereços em que Hemingway, Fitzgerald, Pound, John Dos Passos e outros americanos haviam morado ou se hospedado nos anos 1920, 1930 e 1940, e também os bares e restaurantes que havia frequentado. Com uma câmara em punho, catei-os um a um. A reportagem ocupou todas as 16 páginas do caderno da "Folha", com fotos, mapas e textos baseados em informações colhidas na farta literatura sobre aquele período, que então já existia. O caderno fez enorme sucesso. Sei de um bocado de gente que passeou por Paris com ele debaixo do braço, inclusive o Ruy Castro. Sempre pressionado para editar todo aquele material sob a forma de livro, resisti à tentação por julgá-lo insuficiente. Vale dizer indigno de uma lombada. Mas minha mulher e a editora Martha Ribas, da Casa da Palavra, afinal me convenceram de recauchutar a reportagem (e como ela foi recauchutada!) e dar-lhe um suporte mais sólido, acessível e fácil de carregar no bolso. 

O último filme de Woody Allen, Meia-noite em Paris, trata justamente dos artistas famosos que estiveram em Paris no passado. É possível traçar algum paralelo entre o filme e sua obra?
O sucesso de Meia-noite em Paris foi o maior estímulo à publicação de "E foram todos para Paris". Woody Allen e eu “viajamos” pela mesma época, esbarrando nas mesmas figuras; ele ficcionalmente e eu não-ficcionalmente. O filme dele é meio caricatural, um tanto deslumbrado e reducionista, mas muito afetuoso e divertido. Quem leu (e quem não leu?) Paris é uma festa, do Hemingway, sente uma inveja danada da vida boêmia na Paris dos anos 1920. Nunca uma cidade foi culturalmente tão rica e estimulante quanto a Paris daquele tempo, sem desdouro da Paris das décadas de 1930 e 1940. Fiquei chocado ao saber que muitos espectadores saíram do filme do Woody Allen crentes que aquelas figuras históricas (Hemingway, Gertrude Stein, Fitzgerald, Eliot etc) haviam sido inventadas pelo cineasta, como o nostálgico escritor interpretado por Owen Wilson.

Por que você acredita que tantos artistas foram buscar inspiração em Paris e a cidade era realmente uma festa nos anos 1920?
Era em Paris que estava o século 20. Estou citando Gertrude Stein. Os americanos, que desde a segunda metade do século 18 eram fascinados pela França (Thomas Jefferson e Benjamin Franklin moraram lá, Robert Fulton testou seu primeiro vapor no Sena), se mandaram aos magotes para a Paris nos anos 1920, porque a vida lá era bem mais barata que nos Estados Unidos e, sobretudo, por causa de sua ininterrupta efervescência cultural. O cubismo, o dadaísmo, o surrealismo são vanguardas daquela época. Outro fator de atração nada negligenciável foi a bebida. Na França, não só não havia Lei Seca, que na América durou de 1919 a 1933, como a bebida era farta e de qualidade infinitamente superior ao gin e ao uísque fabricados clandestinamente na América.

No que a cidade-luz dos anos 1920 se diferencia da atual?
Faz tempo que a cidade perdeu o cetro de ‘capital cultural do mundo’ para Nova York. Há quem diga que Berlim, hoje, tem maior expressão cultural que Paris. Londres já havia roubado um pouco ou bastante do antigo prestígio parisiense, nos anos 1960. A França estagnou depois das mortes de seus grandes intelectuais (Sartre, Foucault, Barthes, Lévi-Strauss) e da banalização terminal da Nouvelle Vague. Seu cinema é uma caricatura, sua literatura enfadonha, sua música inexpressiva. A cidade nunca perdeu seu charme, mas é triste testemunhar a ocupação da Rive Gauche pela indústria da moda, o abominável mundo fashion. Onde antes havia uma livraria, hoje existe uma boutique. Há dias me contaram que La Hune, a legendária livraria que separa o Café de Flore do Deux Magots, foi comprada pela grife Vuitton. Consolo: pretendem reabrir La Hune a poucos metros dali, na rue Bonaparte.

Você acredita que o cinema, a literatura e a música podem resultar em novos e interessantes roteiros turísticos? Por quê?
Sem dúvida. É possível fazer – e já fizeram – passeios por Londres, Florença, Nova York etc, a partir de textos literários, de filmes e mesmo de músicas. Eu mesmo já fiz vários. Aquela viagem que culminou na Paris da Geração Perdida começou com uma incursão pela Praga de Kafka e uma subida pelo Danúbio, de Budapeste a Viena, inspirada pelo esplêndido livro de Claudio Magris sobre aquele rio tão rico de histórias. No início dos anos 1970, montei, para consumo pessoal, um roteiro das locações do filme Um corpo que cai (Vertigo), de Hitchcock, em São Francisco. Hoje existe até uma agência de turismo especializada no Tour Vertigo, mas quando segui as pegadas de James Stewart tive de partir do zero.