Os jornais brasileiros tendem a ser porta-vozes dos governos, mas às vezes alguns deles escapa à “diretriz” geral. Na terça-feira, 22, o governo do Estado lançou um plano — “Paz, a gente faz” — para reduzir a violência. “O Hoje” publicou na primeira página: “Municípios se unem ao Estado contra violência”. A reportagem de Cejane Pupulin reproduz com fidelidade as ideias da Polícia Civil, abrindo espaço para a exposição do ex-diretor-geral da PC, Edemundo Dias. Mas não há nenhum esforço crítico para apontar virtudes e problemas do plano.
O “Diário da Manhã” publicou na primeira página: “Segurança a longo prazo”, um título que endossa a perspectiva oficial. O plano “pretende reduzir o número de homicídios em 20% por ano. Caso dê certo, mais de 49 mil mortes (70%) seriam evitadas, mas o resultado seria só em dez anos”. O jornal nem questiona o fato de que, no Brasil, planos não duram dez anos — exceto, em termos econômicos, o Plano Real. O repórter Jairo Menezes colheu uma opinião racional, a do juiz Jesseir Coelho, da 1ª Vara Criminal de Goiânia: “Nós não podemos esperar dez anos para que apareçam resultados”.
O “Pop” optou por uma cobertura mais crítica, isto é, jornalística. Dividiu a parte de cima da dobra ao meio e, de um lado, fez o título realista, sobre o que está acontecendo, sem controle: “Em 3 dias, 17 homicídios na região” (Grande Goiânia), e, do outro, um título crítico: “Pacote usa ações já anunciadas”. A reportagem de Carla Borges é incisiva: o governo estaria “lançando mão de estratégias já usadas anteriormente e prometendo pôr em prática ações já anunciadas, mas que não saíram do papel. A ênfase das ações policiais e de fiscalização em bares e outros locais de venda de bebidas alcoólicas, por exemplo, lembra a Operação Legalidade, da Polícia Militar. A intensificação das abordagens próximo a bares remete à Balada Responsável”.
Carla Borges apresenta dados que, embora conhecidos, estarrecem e nos lembram que, de algum modo, estamos envolvidos numa guerra urbana: “Até outubro deste ano, foram registrados em Goiás 1.989 homicídios. A estimativa é chegar, até o fim do ano, a 2.179 assassinatos e alcançar, em 2012, a assustadora marca de 2.673 homicídios no Estado”. Se contarmos isto a israelenses e palestinos, que estão sempre às turras, eles vão acreditar que há no Brasil uma guerra civil entre cidadãos de bem e criminosos. Há, sobretudo, um micro Estado criminoso no qual traficantes impuseram suas próprias leis e julgam, condenam e matam aqueles que distribuem ou usam drogas, como maconha, crack e cocaína, mas não repassam o dinheiro. Há também uma batalha entre grupos concorrentes de traficantes. Convencionou-se dizer que se trata das “motos do além”, ou seja, de policiais-matadores. Mas não são apenas policiais. O tráfico está matando muito mais.
Falta rigor na apuração de crime
Três jornais, “Pop”, “Diário da Manhã” e “O Hoje”, cobriram o mesmo crime e apresentaram personagens diferentes. O “DM” apresenta mais personagens, mas curiosamente omite o sobrenome de um deles, Edson (o “Pop” apresenta o nome completo, Edson Faria Garcia). Uma quadrilha especializada em roubar supermercados e vender drogas tentou assaltar um supermercado no sábado, 22, mas esbarrou na coragem do policial civil, Marcos Antônio Teixeira Freitas, de 52 anos, que reagiu e matou um dos criminosos, Rayner Dias Santana Pires, de 21 anos. Marcos Antônio acabou sendo assassinado. O “DM” (texto de Leydiane Alves) apresenta uma informação que não consta nas reportagens dos concorrentes: dois policiais (o jornal escreve “policias”) estavam na empresa no momento em que o assalto foi anunciado. O “Pop” (texto de Rosana Melo) diz que o policial conversava com o dono do empreendimento, mas omite a presença de uma menor, de 17 (14 no “DM”) anos, citada pelo “Hoje” e pelo “DM”. O crime ocorreu no sábado, 19, no Setor Parque Santa Rita, em Goiânia. O “Pop” cita o bairro, omitindo a palavra “Parque”, mas não menciona a cidade. O “DM” esqueceu o bairro e a cidade.
Até o “Magazine” se tornou escravo de agências
O diretor de Jornalismo da Organização Jaime Câmara, Luiz Fernando Rocha Lima, não percebeu, mas está faltando repórteres no “Magazine”. Antes, as reportagens de agências eram mais presentes na edição de segunda-feira, mas agora até nas outras edições textos da FolhaPress e da Agência O Globo, alguns sem nenhuma qualidade, possivelmente usados tão-somente para preencher espaço, ocupam espaço que poderia ser mais bem utilizado para reportagens de maior interesse do leitor.
Na edição de terça-feira, 22, contei 11 textos de agências. Não consegui identificar a autoria de alguns.
“Pop” parece ter desistido de corrigir matérias
A reportagem “Advogado pede suspensão e deixa defesa dativa de Alcides”, de Caio Henrique Salgado, do “Pop”, não mereceu revisão. O repórter escreve “Hélio” (o certo é Helio) de Sousa, “no entando” (entanto) e “constutuído” (constituído).
A tradição do novo na política
Jarbas Rodrigues Jr., na coluna “Giro”, do “Pop”, conta que deputados dos PT enviaram críticas do deputado tucano Túlio Isac ao governo federal para a ministra Ideli Salvatti.
Não mudou nada na política brasileira. Na ditadura, os deputados da Arena faziam o mesmo com os do MDB, enviando suas críticas aos governos dos militares.
As críticas de Túlio Isac, no geral, não têm nenhuma consistência e merecem ser ignoradas. Milhares de bobagens chegam às mãos dos dirigentes de Brasília e, como tais, são ignoradas olimpicamente.