Edição 1876 de 19 a 25 de junho de 2011
Euler de França Belém
Ganhador do Pulitzer mora ilegalmente nos EUA
O filipino José Antonio Vargas pode ser deportado. Ele diz que prefere revelar a verdade
José Antonio Vargas, embora repórter premiado, pode ser deportado

O jornalista filipino José Antonio Vargas, de 30 anos, ganhou o Pulitzer, o mais importante prêmio do jornalismo americano, mas é um imigrante vivendo ilegalmente nos Estados Unidos. Ele revelou sua história no artigo “Minha vida como imigrante sem documentos”, publicado no “New York Times”.

Cansado de fugir e de enganar o Estado, Vargas diz que está “esgotado”. “Não quero essa vida.” Ele ganhou o Pulitzer (compartilhado), em 2007, com uma reportagem sobre o tiroteio na Universidade de Virginia. O repórter diz que, apesar de sua bem-sucedida carreira, continua vivendo com documentos falsos — o que o deixa aflito.

Com documentos falsos — obtido “graças a elaboradas mentiras” —, começou a trabalhar no “Washington Post”, o célebre jornal americano que derrubou o presidente Richard Nixon, como “bolsista”, em 2003. Em seguida, foi para o “Huffington Post”.

Em 1993, a mãe de Vargas o apresentou a um homem, apontado como seu tio, que o levaria para os Estados Unidos. Ela explicou que, se alguém perguntasse o que iria fazer nos Estados Unidos, deveria dizer que estava viajando para conhecer a Disneylândia. “Na verdade”, segundo o jornal espanhol “ABC”, “Vargas iria morar om seus avós”. A mãe viajaria mais tarde, o que não aconteceu.

Embora pudesse continuar com a farsa, Vargas decidiu revelar a verdade, segundo sua versão, “para lutar pelos direitos dos imigrantes e pelo Dream Act, um projeto de lei parado no Congresso que legalizaria todos os jovens que chegaram aos Estados Unidos com menos de 16 anos e desejam estudar ou ingressar no Exército”. Pode ser verdade. Talvez a razão de Vargas seja mais pessoal. Se desmascarado, sua carreira seria encerrada, possivelmente com uma demissão. Contando sua própria história, certamente atenua sua “culpa”.

Vargas, que criou uma página na internet, diz ter consciência de que pode ser deportado. Se o governo tentar, o jornalismo e as entidades de direitos humanos certamente ficarão ao seu lado. Afinal, não é qualquer dia que se expulsa dos Estados Unidos, a suposta “terra da liberdade”, um profissional que ganhou o mais consagrador prêmio jornalístico dos Estados Unidos.


Repórter da TV Anhanguera pede demissão

O fantasma dos salários baixos está esvaziando a redação da TV Anhanguera. Marina Jorge, uma de suas principais repórteres, pediu demissão, “em caráter irrevogável”, conta um profissional da emissora goiana. “Bonita” e “competente”, na avaliação dos colegas de tevê, Marina optou pelo emprego público. “É uma excelente repórter”, diz um repórter da concorrente TV Record. “Fala bem, tem presença segura no vídeo.”

Aprovada em primeiro lugar no concurso para jornalistas da Câmara Municipal de Goiânia, com salário superior ao que recebia na TV Anhanguera, Marina vai dedicar-se ao emprego público. Ela estava de licença-maternidade.

Profissionais da TV Anhanguera admitem que estão insatisfeitos tanto com os “salários reduzidos” quanto com as “condições de trabalho”. “Exigem muito e dão pouco. A dificuldade para encontrar bons profissionais, que não se sujeitam a ganhar salários inferiores aos praticados no mercado, tem levado a TV Anhanguera a buscar jornalistas até no popularesco [jornal] ‘Daqui’”, afirma um funcionário da emissora. “Nada contra jornalistas que trabalham nos veículos impressos, mas é que eles chegam sem nenhuma experiência e precisam ser ensinados. O ideal é que, antes, fizessem algum estágio.”

Uma repórter do interior substitui Marina até a contratação de outro jornalista.

Sem editora, escritor vende 1 milhão de cópias de e-books

No Brasil, escritores hoje consagrados tiveram de bancar — no início de sua caminhada — a publicação de seus livros. Porque, até pouco tempo, as editoras não mantinham leitores especializados para avaliar as obras de escritores iniciantes. Os textos chegavam e, em geral, eram jogados no lixo. Hoje, mesmo com editores profissionalizados, aqui e ali algum talento escapa e, assim, fica inédito. Muitos preferem ficar inéditos a bancar a publicação de seus romances, contos e poesias. Os tímidos morrem sem publicar, certamente. O americano John Locke, escritor moderno (não se trata, obviamente, do filósofo inglês do século 17), não se preocupa minimamente com certos pudores e, por isso, deu-se muito bem. Segundo o jornal espanhol “ABC”, baseado em informações da BBC, o americano John Locke é o primeiro escritor que editou seu próprio seu e-book, sem passar por uma editora, pequena ou grande, a vender 1 milhão de exemplares. As vendas são feitas na livraria Amazon. Ele é autor de “Now & Then”, “Lethal  Experiment” e “Saving Rachel”. O jornal não avalia a qualidade da prosa do super Paulo Coelho dos Estados Unidos.

Nascido no Kentucky, John Locke, até se tornar uma estrela da Amazon, era um escritor desconhecido, pelo qual as editoras não tinham qualquer interesse. Agora, diz o “ABC”, “faz parte do seleto grupo de oito autores que vendem mais de 1 milhão de livros eletrônicos”. É uma estrela ao lado de best sellers consagrados, como Stieg Larsson, James Patterson, Nora Roberts, Charlaine Harris, Lee Child, Suzanne Collins e Michael Connely. Todos campeões na vendagem de e-books.

Centro de Convenções Oscar Niemeyer

Tudo indica que o Centro Cultural Oscar Niemeyer se tornou Centro de Convenções Oscar Niemeyer. Eventos culturais estão sendo trocados por eventos comerciais.

É a primeira bola fora do craque Nasr Chaul. Afinal, Goiânia já tem um centro de convenções, que funciona relativamente bem.


Violência
Narcotráfico mata jornalista e sua família


O jornalista era especializado em reportagens sobre segurança pública e tráfico de drogas

O narcotráfico pode ter feito mais uma vítima: o jornalista Miguel Ángel López Velasco, conhecido como Milo Vela, foi assassinado na segunda-feira, 20, em Vera Cruz, México. Sua mulher, Agustina Solana, e o filho, Misael López Solana, também foram mortos. Como era especializado em cobertura de assuntos de segurança pública, notadamente com denúncias sobre o narcotráfico, a polícia mexicana suspeita que Milo Vela tenha sido assassinados por um comando do negócio das drogas. Os criminosos usaram armas de grosso calibre e nada roubaram. Entraram na casa do repórter e colunista do jornal “Notiver” para matar.

Segundo o jornal mexicano “El Universal”, o “Notiver” é o jornal de maior circulação de Vera Cruz. Sua especialidade é a publicação de notícias sobre fatos policiais, com ênfase no narcotráfico, que é muito forte no México.

Corrupção atinge associação da Praça de Maio

A “Veja” e o jornal espanhol “El País” publicaram reportagens estarrecedoras sobre a Associación Madres de Plaza de Mayo (Associação das Mães da Praça de Maio), da Argentina. Suspeita-se que a associação foi usada para desviar cerca de 300 milhões de dólares do governo argentino. Os irmãos Sergio, de 53 anos, e Pablo Schoklender, acusados de matar os pais, Maurício e Sílvia, da alta burguesia da Argentina, teriam “usado” a presidente da associação, Hebe de Bonafini, de 82 anos. Hebe defendia os irmãos com unhas e dentes e suspeita-se que esteja envolvida nas fraudes. Agora, sob com a acusação pública, Hebe partiu para o ataque aos parceiros criminosos. Ela disse que é uma mulher “idosa, “enganada” e “esgotada”. Sergio e Pablo, disse, devem ser “penalizados duramente”. E acrescentou: “Esse malditos têm de ficar na prisão para sempre”.

“El País” assevera que “ninguém a acusa de ter se beneficiado do dinheiro desviado”. Mas os argentinos dizem que Hebe é responsável pelo “descontrole”. Sergio, o mentor do golpe, e Pablo têm mansões, avião, Ferrari e iate. O golpe era artificioso. O grupo pegava dinheiro para obras sociais, sobretudo para construir casas populares, mas o depositava em contas privadas. O título da reportagem da correspondente do “El País” Soledad Gallego-Díaz é sugestivo: “As mães de maio não são intocáveis”.

Aliados das mães da Plaza de Maio esperam que a presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, principal protetora de Hebe, negocie um acordo que preserve a instituição e sua presidente. O problema é “calar a boca” de Sergio e Pablo. Teme-se que, se transformados em únicos culpados, abram a boca e revelem os favores que faziam para Hebe.

O esquema patrocinado por Sergio e Pablo eram simples: pegavam dinheiro público, farto e sem burocracia, para construir casas de baixo custo para a empobrecida população da Argentina. No lugar de edificar as residências, a dupla comprava bens e leva uma vida nababesca. Chegaram a comprar uma rádio e uma faculdade. Hebe, com visão excelente para denunciar os “porcos capitalistas”, nada viu. Agora, com a descoberta do esquema para assaltar os cofres públicos, os irmãos posam de vítimas. Os “burgueses” estariam por trás das denúncias. Na verdade, não estão. A corrupção é notória.

A história de Hebe é impressionante. Em fevereiro de 1977, a ditadura militar sequestrou seu filho mais velho, Jorge, e, dez meses depois, sequestrou o outro filho, Raúl. A mulher de Jorge foi sequestrada em seguida. Todos estão desaparecidos, quer dizer, mortos. Hebe liderou um movimento admirável, respeitado em todo o mundo, em busca de justiça. “Eu era dona de casa”, diz Hebe. “A questão econômica e a situação política me eram totalmente alheias.” Depois, virou uma gigante na defesa dos direitos humanos. Hoje, tornou-se tão ou mais radical dos que os filhos. É antiamericana e anticapitalista. Já defendeu o ETA, grupo terrorista da Espanha, e é adepta do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. O atentado às Torres Gêmeas, ocorrido nos Estados Unidos, recebeu o apoio de Hebe. Ela ataca os adversários de sua protetora, Cristina Kirchner, com uma fúria inaudita.

O grupo fundador da Associación Madres de Plaza de Mayo, diante do autoritarismo e desmandos de Hebe, dividiu-se. A dissidência, as “Abuelas de Plaza de Mayo” (da “Línea Fundadora”), é presidida por Estela de Carlotto. A nova associação trabalha para descobrir os bebês que foram tomados dos pais (mortos, em geral) e adotados ilegalmente.
A imprensa europeia escandalizou-se com a corrupção de uma associação que, no mundo todo, é vista como campeã dos direitos humanos.

TV Anhanguera confirma afastamento de Jackson Abrão

Depois que o Jornal Opção escancarou que Jackson Abrão não iria mais apresentar o Jornal Anhanguera, edição noturna, é que a Organização Jaime Câmara confirmou que Fábio Castro foi oficializado no cargo de apresentador-titular. Ele foi entrevistado por Ciça Carvello, colunista social do “Pop”, na edição de segunda-feira, 20.
Apesar de afastado da apresentação, Jackson Abrão não foi demitido pela TV Anhanguera.

TV Globo troca jornalistas do comando de telejornais

De tempos em tempos, a TV Globo, como quaisquer outras, promove mudanças no seu jornalismo. Renato Machado, que será correspondente em Londres, será substituído por Chico Pinheiro na apresentação do “Bom Dia Brasil”, a partir de setembro.

César Tralli apresentará o “SPTV 1º”, substituindo Chico Pinheiro. Mariana Godoy irá para o “Jornal das Dez”, da Globo News, como “âncora”, no lugar de Ricardo Lessa, que volta à reportagem.

Jornalismo
Mulher assume comando do maior jornal dos Estados Unidos


O mais importante jornal dos Estados Unidos, o “New York Times” (de 160 anos), será dirigido pela jornalista Jill Abramson, de 57 anos. É a primeira diz que uma mulher comanda a redação do jornal. No Brasil, isto ocorreu duas vezes, com Eleonora Sena, editora do maior jornal brasileiro, a “Folha” de S. Paulo, e Ruth Aquino, em “O Dia” (jornal que, porém, não tem importância nacional). Nos Estados Unidos, o precedente foi Tina Brown, que dirigiu a prestigiosa revista “New Yorker”. Não foi muito bem-sucedida e acabou substituída por David Remnick. Em Goiânia, no “Pop”, Cileide Alves assumiu a direção do jornal há alguns meses. O problema do “Pop” é que, como só permite acesso a assinantes, o jornal praticamente só existe no papel e, portanto, está “fora” da internet.

Segundo o jornal espanhol “El País” (tradução do Universo Online), Al Hunt, chefe da redação da Bloomberg News em Washington, disse, num tom entre o machista e o condescendente: “Tem mais culhões do que os Yankees de Nova York”. Hunt foi chefe de Jill Abramson no “The Wall Street Journal”. Ele quer dizer, na verdade, que, além de competente, a editora é durona.

“Sei que não consegui este trabalho por ser mulher. Consegui porque sou a pessoa mais qualificada para desenvolvê-lo”, disse Jill Abramson. “Segundo o último censo da American Society News Editors (ASNE), só existem 34% de mulheres em cargos de responsabilidade e liderança nos jornais. Não está tão longe para as contemporâneas de Abramson o fato de que a Sociedade de Jornalistas Profissionais não permitia a entrada de mulheres em sua fraternidade até 1969”, conta “El País”.

A jornalista, formada em História e Literatura pela Universidade de Harvard, vai chefiar 1.200 jornalistas. Curiosidade: mesmo sendo uma das profissionais mais bem informadas do mundo, Jill Abramson não tinha Twitter. Passou a ter há alguns dias, ao assumir o comando do “Times”, tido, por muitos, como o mais influente jornal do planeta.

Pop compra versão e ignora crise real do Goiás

Na segunda-feira, 20, quando se esperava que trouxesse uma crítica consistente ao fraco time do Goiás — que faz feio na Série B do Campeonato Goiano e é forte candidato a ser “promovido” para a Série C —, o “Pop” publicou apenas uma minúscula reportagem, assinada por Cristiano Leobas, com explicações superficiais e que não contribuem para o debate realmente necessário.

No título, “Artur Neto alega falta de sorte para explicar má fase do Goiás”, o “Pop” praticamente endossa uma opinião que só podemos chamar de ingênua (ou seria má-fé?). Condescendente, o técnico acrescenta: “Não vou dizer que está faltando vontade ao time, mas falta o algo mais”. O volante Carlos Alberto acerta mais ao dizer que falta “tesão” ao elenco do Goiás. Mas Artur Neto e Carlos Alberto estariam mais próximos da verdade se tivessem coragem de dizer o óbvio: o que falta ao time do Goiás é talento. Falta time.

Que tal o “Pop”, que tem editoria especializada, mostrar os bastidores da crise do Goiás? Procede que o time está quebrado e, por isso, não tem condições de fazer contratações que façam a diferença?

As piadas começam a se propagar. Numa delas, conta-se que uma empresa japonesa quer patrocinar o Goiás, mas exige a mudança do nome do time. Passaria a ser Timiko (algo assim). Outra diz: “Pegue dois e leve três”.

Diário da Manhã ignora Vila nova e Goiás

O “Diário da Manhã” não publicou nenhuma linha na edição de segunda-feira, 20, sobre o Goiás e o Vila Nova. Será o “atestado” definitivo de que não vale cobrir os dois times?

O Hoje repete erro do Pop na área de variedade

O suplemento de entretenimento e variedade do jornal “O Hoje” comete os mesmos erros do equivalente do “Pop”, o Magazine. Um deles: publica material fraquíssimo da Agência Estado.

Se quer mimetizar o “Pop”, tudo bem. Mas o que os leitores vão dizer?

Vanderlan chega para ser general do PMDB

Será que “O Hoje” acredita mesmo que Vanderlan Cardoso chegou para ser “soldado” no PMDB? O ex-prefeito de Senador Canedo só filiou-se ao partido depois de arrancar o compromisso de que será seu candidato a governador em 2014.

Vanderlan é visto como o “novo” Iris Rezende do PMDB. Não é, nem pode ser, um soldado raso, porque o partido, para sobreviver, precisa de um novo comandante, de um general.

O discurso da “humildade” é apenas um discurso. Na política, no topo da cadeia, não há humildade alguma.

Coluna do “DM” esquece mulheres goianas

Pablo Kossa não é incompetente, mas a coluna “Geleia Geral”, com a licença de Luiz Augusto Pampinha, caiu muito. As mulheres são figurinhas carimbadas que saíram em revistas ou na internet. Cadê as maravilhosas goianas que, todos os dias, Pampinha exibia na coluna do “Diário da Manhã”?

Afinal, Pablo, as goianas são ou não as mulheres mais bonitas do País? Você não acha isto?

Almiro Marcos mostra Berlim aos leitores goianos

Almiro Marcos, do “Pop”, escreve uma reportagem correta sobre Berlim, capital da Alemanha. No subtítulo, o jornal diz: “Ela [a cidade] reúne história, badalação e natureza”. Certo, mas o repórter esqueceu o fator econômico. A Alemanha é o país mais rico da Europa e tem uma das quatro maiores economias do mundo.

A perseguição aos judeus — cerca de 6 milhões foram mortos pelo nazismo — é um fato incontestável. Não só. É o fato mais emblemático. Mas, como excelente repórter que é, Almiro deveria ter notado que Hitler não perseguiu nem matou somente judeus. Matou comunistas, democratas, pessoas sem participação política, soviéticos, bielorrussos, ucranianos, poloneses, ingleses, ciganos e, entre outros, homossexuais. Outra coisa: morreram 62 milhões de pessoas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A turma do politicamente correto certamente não aprovará a frase: “... presenciar alguns dos capítulos mais negros da história da humanidade”.

De resto, a reportagem é bem informativa, sem problemas. Tem a marca da qualidade dos textos de Almiro Marcos, um dos melhores repórteres da imprensa goiana.

Problema da Celg passa pela Eletrobrás, diz Pulcineli

Fabiana Pulcinelli escreve na edição de segunda-feira, 20, o artigo “Quem disse que seria fácil?”. Trata-se de um bom artigo, o que indica que está mesmo se firmando como articulista. Recolho alguns trechos. “O governo [de Marconi Perillo] vem sentindo o tamanho da dependência do governo federal na questão da Celg e, mais ainda, o peso da questão política nas conversas.” “O acordo [governo-Eletrobrás] passará pela questão política.” “O governo estadual já revelou que prioriza a negociação com a Eletrobrás, que dispensaria a entrada de outros parceiros.”

Entrevista de Ronaldo Caiado bombou na internet

A entrevista do deputado federal Ronaldo Caiado ao Jornal Opção, “O DEM tem de deixar de ser partido de vice”, é o grande destaque da edição que está no ar. É a mais lida, disparada, dos últimos meses.

Novo disco de Chico Buarque

Os jornais portugueses deram destaque para o novo disco de Chico Buarque. Lá, como aqui, o compositor, cantor e escritor é uma estrela.

O disco de Chico sai em julho.

Pop é crítico e DM acrítico sobre Trindade

Enquanto o “Pop” publica uma reportagem crítica à administração do prefeito de Trindade, Ricardo Fortunato, o “Diário da Manhã” elogia seus atos.

A Justiça proibiu Ricardo Fortunato de continuar asfaltando ruas histórias. O “DM”, pelo contrário, só percebe maravilhas na cidade. Parece evidente que o “Pop” está fazendo jornalismo.

Físico nuclear diz que professor da PUC desinforma sobre lixo nuclear de Angra

O físico nuclear Arthur Otto envia e-mail — “exclusivo para a coluna Imprensa”, diz — no qual aponta o “equívoco” de um acadêmico: “O ‘Bom Dia Goiás’ levou um professor de engenharia para falar sobre o lixo de média e baixa atividade dos reatores de Angra dos Reis. Foi um vexame, pois o mestre mais desinformou que informou. Perguntado de que é constituído o lixo — que poderia ser enviado para Abadia de Goiás —, ele disse: ‘Não nos informaram’. Ora, desinformado é o acadêmico da PUC, pois a todo momento anuncia-se que é lixo de baixa e média atividade, que se compõe basicamente de luvas, botas, roupas, papéis e a maior parte de líquidos contaminados no funcionamento normal de um reator. Depois, tentando consertar a gafe, frisou que o lixo era constituído de pastilhas (pellets). Trata-se de absurdo ainda maior. As pastilhas queimadas de combustível, lixo de alta intensidade, são meticulosamente tratadas após retiradas do reator e são estocadas em repositórios localizados em locais isolados. Em seguida, perguntado sobre a possibilidade de ‘perigo’, frisou que o lixo de Angra dos Reis não pode vir para cá porque não é igual ao que já está em Abadia. Bobagem, pois ambos são lixo de media e baixa intensidade”.

Arthur Otto, físico nuclear experimentado, diz que “a mídia deve ser mais cuidadosa na escolha de seus convidados para discorrer sobre um assunto tão sério. Pois, se não for criteriosa, vai colaborar para gerar e reproduzir mais desinformação sobre o assunto”.

Jornal deve cobrar eficiência do governo e não mais contratações

Malu Longo, do “Pop”, faz uma reportagem recorrente (mas necessária): “Inquéritos parados — A fila das mortes sem solução” (“Pop”, sexta-feira, 17). A repórter conta que “3.250 inquéritos policiais envolvendo homicídios ou tentativas de homicídios ocorridos entre a década de 1990 até dezembro de 2007” estão parados. Franz Kafka, que era advogado (dos bons, na área de seguros), ficaria horrorizado. Malu conta, muito bem, a história do assassinato do cobrador Lúcio Mauro Barbosa, ocorrido em setembro de 1997. Treze anos depois, a polícia não chegou ao criminoso, possivelmente um ex-policial militar. Crimes cometidos por policiais raramente são investigados com rigor pela polícia. As jovens Camila Lagares e Polyanna Arruda Borges foram assassinadas em Goiânia e a polícia “não” consegue descobrir seus matadores. Camila teria sido morta por três policiais militares. Polyanna foi morta por ladrões de carros que teriam cobertura tanto de policiais militares quanto de policiais civis. A investigação não avança por causa do envolvimento de policiais. É o mesmo caso da história de Lúcio Mauro.

O “Pop” fiou-se em declarações oficiais, mas deixou de observar que, se uma força-tarefa composta de seis promotores de justiça e quatro delegados pode resolver parte do problema, a causa do acúmulo de inquéritos parados não é a “carência de delegados”. O que há, em larga medida, é acomodação e omissão. Não se deve defender, ainda mais, o inchaço da máquina pública, com novas contratações. Quem paga os salários do funcionalismo público é o contribuinte. Jornal não pode embarcar na “tese” de que é preciso contratar mais. Deve cobrar mais eficiência da polícia e do governo do Estado.

Repórteres têm de transcrever tudo aquilo que dizem as fontes, mesmo quando a informação não tem lógica alguma? A mãe de Lúcio Mauro teve câncer e pode ter piorado depois da morte do filho, porque ficou psicologicamente abatida. Mas o que há de verificação científica no que diz sua ex-nora Wanessa (o “Pop” aboliu o sobrenome das pessoas): “Mais de 80% da doença dela foi por causa da morte do filho”?

Poetas  e intelectuais são “ingênuos” e ditadores são “realistas”

A formidável poeta Maria Lúcia Felix Bufáiçal (em crônica publicada no “Pop”) e Gabriel García Márquez ainda acreditam na Cuba dos ditadores dinásticos Fidel e Raúl Castro.

Fidel Castro matou e prendeu milhares de cubanos. Tudo em nome da construção de um paraíso que, ao contrário do que se esperava, nunca foi consolidado. Para manter-se no poder, criou um sistema policial que vigia toda a população, por meio de um esquema de infiltração em que parte dos cubanos é obrigada a agir como se fosse espiã. Com a queda do Muro de Berlim e a extinção da União Soviética, Cuba ficou sem norte, quer dizer, sem oxigênio. A URSS mandava milhões de dólares a fundo perdido, inclusive petróleo, para manter a ilha funcionando como se fosse um exemplo de “socialismo perfeito” grudado nos Estados Unidos. Sem os soviéticos, Cuba quebrou. Por isso, o principado da família Castro teve de buscar alternativas, como aceitar o dinheiro (pelo menos 1 bilhão de dólares por ano) que os exilados cubanos residentes nos Estados Unidos enviam para suas famílias e amigos e recorrer ao “amigo” Hugo Chávez (que envia petróleo a fundo perdido). Mesmo assim, a situação de Cuba é pior do que a da Celg. O país quebrou e não tem como virar a China da América.

Inocentes-úteis sempre foram usados para defender a Involução Cubana de 1959. Assim como Jean-Paul Sartre defendeu, durante algum tempo, as políticas de Stálin. Retratou-se, mais tarde. Quando será que os defensores de Fidel vão deixar de defendê-lo? Quando vão parar de brigar com os fatos? Ao contrário de Sartre, Maria Lúcia pelo menos é íntegra.

João Bosco deixa o Diário da Manhã

João Bosco Bittencourt deixou o “Diário da Manhã”. O experimentado jornalista vai ficar apenas no comando de redes sociais do governo Marconi Perillo. O triunvirato formado por Realle Palazzo-Martini, Ulisses Aesse e Deusmar Barreto assumiu o comando do jornal.

Iris não disputa em Goiânia

Jarbas Rodrigues Jr., editor da coluna “Giro”, erra ao dizer que Iris Araújo será vice do prefeito Paulo Garcia, em 2012, por dois motivos.

Primeiro, por ser casada com o ex-prefeito Iris Rezende, a peemedebista Iris Araújo não pode ser vice de Paulo Garcia. Se Jarbas tivesse consultado o advogado Dalmy de Faria, teria recebido esta informação.

Segundo, Iris Araújo está satisfeita com seu trabalho na Câmara dos Deputados.

Sócio capitalista

O ex-governador do Tocantins Carlos Gaguim procura um sócio capitalista para lançar um jornal diário que atenda Goiás e Tocantins. Vanderlan Cardoso está em sua mira.

Equívoco do Pop

O “Pop” erra ao não cobrir a CPI que investiga as contas do governo de Alcides Rodrigues. O jornal pode até criticá-la, mas não tem o direito de ignorá-la.

Jornais quase fantasmas

É mais do que evidente que houve uma farra de dinheiro para jornais dos quais os leitores não ouviram falar. Eram publicados apenas para faturar o governo e, tão logo Alcides Rodrigues saiu do Palácio das Esmeraldas, deixaram de circular.

Há o caso de um “jornalista” que publicava uma revista (sobre Direito) e dois jornais.

Passaralho no iG

O portal iG demitiu 30 jornalistas na semana passada e pode demitir mais 20. Motivo: queda no faturamento.

Resenha esportiva

O editor-executivo, Elder Dias, criou a já bem-sucedida coluna Resenha Esportiva  no site do Jornal Opção.

Górki “aparece” no cerrado goiano

A reportagem “Drogas — Mãe entrega filho suspeito de tráfico à PM” (“Pop”, sexta-feira, 17), de Rosana Melo, conta uma grande história. Uma costureira criou sozinha seis filhos e um deles, Alan Alípio da Silva, de 22 anos, começou a vender crack. (Os outros filhos não têm envolvimento com drogas e “são trabalhadores”.) Ao perceber que o garoto estava vendendo droga, a mãe não hesitou: denunciou-o à PM. Ela acredita que assim pode salvá-lo. Alan estaria comercializando crack para pagar dívida com traficantes de maconha. Ele é usuário. Ricardo Rafael fez uma fotografia que parece um quadro artístico. Mas não é montagem. No primeiro plano, exibe Alan, algemado com as mãos para trás. Ao fundo, com a imagem esmaecida, aparece a mãe, com uma mão no rosto, desolada.

Datena na Record

José Luiz Datena é a mais nova contratação da TV Record. Assinou um contrato de cinco anos, e vai receber salário acima de 1 milhão de reais. Datena estreia na segunda-feira, 20, no comando do “Cidade Alerta”.

TV adquire sede

A TV Record comprou sede própria em Goiânia, entre as avenidas T-9 e T-30, no Setor Bueno. O edifício, de quatro andares e com quase 3,.5 mil metros quadrados de área construída, foi vendido pela Consciente Construtora e pela Bambuí Empreendedores.

O rei de audiência

Oloares Ferreira completa dez anos de TV Record, em julho, com festa. Ele comemora mais do que isto. O programa que ele apresenta na capital, o popular “Balanço Geral”, é citado nacionalmente pela cúpula da tevê, porque, há pelo menos três meses, vem surrando a TV Anhanguera. Em termos de audiência, Oloares é o Neymar da tevê goiana.

Contratação

O jornalista Marcellus Araújo, ex-editor do Jornal Opção Online, é o mais novo contratado da editoria de Política do “Pop”.

“O ‘Pop’ contrata ex-repórteres do Jornal Opção porque têm texto final e boas fontes”, afirma um editor do jornal.

Classificados garantem sobrevivência de jornal

“O jornal ‘O Hoje’ estaria sendo mantido pelo faturamento dos classificados”, garante um funcionário da empresa. “O diretor comercial do grupo, Élio Junqueira, reorganizou as finanças do diário.”

Diversidade e homofobia

A Editora Fundação Perseu Abramo lança o livro “Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil” (252 páginas), organizado pelo sociólogo Gustavo Venturi, professor da USP, e pela socióloga Vilma Bokany. O goiano Léo Mendes assina um dos 13 artigos — “Presença LGBT na mídia”.

Competência de Fleurymar de Souza no O Hoje

Fleurymar de Souza, um dos melhores jornalistas políticos do país (eu não disse “só” de Goiás), está ampliando e melhorando a cobertura política de “O Hoje”.

Além de editor criterioso, Fleurymar é um articulista de raro brilho.

Pulcineli mantém qualidade de Reche do Pop

Fabiana Pulcineli substituiu, e bem, Carlos Eduardo Reche como principal articulista de política do “Pop” na edição de segunda-feira. Reche comanda a gerência de Comunicação da Secretaria de Ciência e Tecnologia do governo de Goiás.
Karla Jayme também substituiu Jarbas Rodrigues Jr., na edição da coluna “Giro”, na segunda-feira, com competência.

Marcos Fayad divulga boa música na CBN

O diretor de teatro Marcos Fayad faz comentários pertinentes sobre música na Rádio CBN. Sobretudo, não fica divulgando figurinhas carimbadas. Seu critério, o mais acertado, é sempre divulgar a boa música.

Etanol e crime — A polícia indiciou 11 empresários responsáveis pelos aumentos abusivos do etanol em Goiás. O “Pop” fez a pergunta certa: “Polícia indicia 11. Mas quem são eles?”. A Justiça proibiu a divulgação dos nomes. O delegado Antônio Carlos de Lima diz que, apesar do trabalho da polícia, é possível que, no fim deste ano, os empresários aumentem o preço mais uma vez.

Joyce Carol Oates lança “Memórias de uma Viúva”

Se a poeta Emily Dickinson é a grande rival de Walt Whitman, no século 19, a prosadora Joyce Carol Oates, de 73 anos, é a principal rival de William Faulkner no século 20. (Ian McEwan é seu par inglês.) Joyce escreve literatura de qualidade (tida como sombria, quando, na verdade, sombrios são a vida e o mundo) e crítica literária. E escreveu um bom livro sobre boxe. Sua obra-prima, o romance “A Filha do Coveiro”, conta a história de sua avó Blanche Morgenstern. A autora tem o hábito de vasculhar os segredos de família e ficcionalizá-los. Agora, com “Memórias de uma Viúva” (inédito no Brasil), conta um drama pessoal — a morte do marido, o editor Raymond Smith, em 2008. “É o livro mais pessoal e impactante de Joyce Carol Oates, firme candidata ao Prêmio Nobel de Literatura”, diz a “Revista de Letras” do jornal “La Vanguardia”, de Barcelona. O livro contém “agudas reflexões e, às vezes, humor negro”. Sobretudo, “narra uma comovente história de amor, lírica, moral e implacável, como as que povoam suas novelas, e oferecem um inédito retrato de sua intimidade, até agora zelosamente protegida”.

A “Revista de Letras” transcreve trecho da resenha de Ann Hulbert, publicada no suplemento “The New York Times Book Review”: o livro, diz a crítica, “hipnotizará e comoverá o leitor... Um livro mais dolorosamente auto revelador do que a Oates novelista ou crítica se atreveria a publicar”. Joyce ficou casada por 47 anos e 25 dias com Ray. Quando ele morreu, em 2008 — oito anos mais velho do que Joyce, Ray não se recuperou de uma pneumonia —, o mundo da escritora desmoronou. Ao se recompor, escreveu “Memórias de uma Viúva”. “La Vanguardia” publicou um capítulo do livro (a tradução para o espanhol é de María Luisa Rodríguez Tapia), do qual dou notícia e traduzo trechos.

Na parte um do primeiro capítulo, “A mensagem”, Joyce relata uma visita que fez ao marido, que estava internado no Centro Médico de Princeton. Ray, já melhor, iria ser transferido para uma clínica de “reabilitação”. “A esperança é nosso consolo ante a mortalidade”, anota Joyce. Ao voltar da visita, vê, preocupada, que havia um papel no para-brisa do Honda Accord da família. Acreditou que era uma multa e pensou: “Nada direi a Ray. Pagarei secretamente”. Não era uma multa. Era um bilhete com um xingamento porque a autora havia deixado o carro mal estacionado. O texto dizia: “Aprenda a estacionar, animal estúpido” (a palavra “zorra” também significa prostituta).

Segunda parte do mesmo capítulo, “O acidente”, Joyce volta a 2007. A escritora conta a história de um acidente de automóvel sofrido por ela e Ray. “Em retrospectiva, parece irônico que este acidente, no qual Ray poderia ter falecido, mas não morreu, tenha ocorrido a menos de dois quilômetros do Centro Médico de Princeton”, relata. A ironia é que, mais tarde, ele foi internado neste hospital, com pneumonia, e morreu. O carro, atingido por outro veículo, ficou inteiramente destruído. Era dirigido por um jovem.

Os airbags, dispostos nos automóveis para salvar vidas, quase mataram Ray e Joyce. “O impacto que Ray recebeu no rosto, nos ombros e peito pareceu um murro de um boxeador peso-pesado.” Joyce ficou com dores no corpo por vários meses. Mas, ao sair do carro, disseram, com alívio: “Estamos vivos! Saímos ilesos!” O casal rejeitou a recomendação da polícia de que deveriam ir para um hospital. “Nós queríamos ir para a nossa casa.” Depois, tomaram apenas aspirina. Ray disse, tranquilamente: “Amanhã vou comprar um carro novo”. “Raymond, o sábio protetor”, escreve Joyce. Ele queria deixá-la tranquila, e conseguiu.

Ray nasceu em março de 1930 e Joyce em junho de 1938. Casaram-se em 1961. Um casamento feliz. Joyce diz que, em 47 anos de casamento, não se conheciam inteiramente, foram se conhecendo aos poucos. Os dois queriam preservar o “território” físico e psíquico de cada um. “Havia muitas coisas que não queríamos dizer nem compartilhar com o outro.” O relativo grau de autonomia, longe de esfriar o relacionamento, fortaleceu o casamento e o amor.

Mas nem tudo é perfeito num casamento, e, com um pouco de mágoa, Joyce admite que Ray, seu marido querido, não era leitor de sua prosa. “Meu marido não leu quase nenhum de meus romances nem meus relatos curtos [contos]. Lia meus ensaios e minhas resenhas para o ‘New York Review of Books’ e a ‘New Yorker’. Ray era um editor excelente, sagaz e culto, como disseram inumeráveis escritores que colaboraram com o ‘Ontario Review’, mas não lia quase nada de minha ficção, e, nesse sentido, pode-se afirmar que Ray não me conhecia por completo ou, num aspecto importante, nem sequer em parte.” Trata-se de uma reclamação, que certamente não pôde ser feita a Ray, mas é apresentada num contexto de muito carinho e respeito pelo marido.

“Eu lamento”, acrescenta Joyce. “Porque escrever é um trabalho solitário, e um de seus perigos é a solidão. Mas uma vantagem da solidão é a intimidade, a autonomia, a liberdade.” O que Ray diria, por exemplo, sobre a história sombria do romance “A Filha do Coveiro”? Certamente se perguntaria: “Como pode a minha mulher, a doce Joyce, ser a autora desta história tão aterradora?” Os demônios interiores de Joyce — ou de todos nós, por meio do que lemos, quando não podemos expressá-los — aparecem, vigorosamente, na sua prosa. Recentemente, o escritor V. S. Naipaul disse que as mulheres escrevem uma prosa sentimental, irracionalista. No caso de Joyce, não há sentimentalismo e, mesmo, algumas de suas histórias parecem escritas por um homem. Claro, há a percepção feminina, sobretudo porque constrói muito bem as personagens femininas — os homens às vezes são meio caricatos —, mas há também certa secura que lembra a prosa masculina de um Ian McEwan.

Ray e Joyce formavam um casal apaixonado, com uma vida individualmente rica e complementar. Mas não há relacionamento sem certa dependência mútua. Por isso, quando do acidente, do qual escaparam bem, Joyce pensou: “Se Ray morrer, ficarei totalmente abandonada”. Por isso, frisa, “seria melhor morrer com ele do que sobreviver sozinha”. Joyce diz que, nesse momento, “não estava sendo escritora acima de tudo, e sim uma esposa. Uma esposa que tinha pânico de ser convertida em viúva”. Quando Ray estava vivo, logo depois do acidente, Joyce queria dizer-lhe: “‘Te quero, sou agradecida por estar casada com você’. Mas as palavras não saíram”. A vida é assim mesmo: às vezes queremos dizer alguma coisa à pessoa que a gente ama, mas a inibição — ou orgulho, medo de ser debitado como fraco ou piegas — não permite. “Quantas coisas queria dizer ao meu marido, quantas não disse. Uma razão é que haveria outros instantes, outras ocasiões. Anos.” O fato é que não há. Hoje ou amanhã, como somos mortais, poderá ser o fim da linha.
Joyce diz que, depois do acidente, viveram “um ano e seis semanas juntos — o tempo que nos restava — que foram um presente. Obrigado!” Trata-se de uma Joyce diferente, mais emotiva, vívida. Ainda assim, boa escritora, com sua prosa segura, perspicaz e atenta aos detalhes (a morada dos deuses).

Joyce Carol Oates produz obra-prima

Joyce Carol Oates produz obraprima"A Filha do Coveiro" (Alfaguara, 599 páginas, tradução afiada de Vera Ribeiro), obraprima de Joyce Carol Oates, é um romance que exibe a beleza (Rebecca Schwart, a música de Beethoven) cercada por imensa dor (nazismo alemão, intolerância americana, violência familiar). Uma tragédia grega, contada por uma Dostoiévski que veste saia, com uma espécie de redenção, mas não religiosa, e sim terrivelmente humana.

Numa entrevista ao "El País", concedida a Andrea Aguilar, em outubro de 2008, Oates explica como construiu o romance. Em maio de 1986, seu pai, septuagenário, contalhe, casualmente, um segredo de família guardado a setechaves: a história de seu avô Morgenstern que, depois de atirar na mulher, matouse com um tiro. Blanche Morgenstern, a filha do casal, estava no mesmo recinto. O bisavô de Oates era coveiro. No livro, a única pista dada pela escritora está na dedicatória: "Para minha avó, Blanche Morgenstern, a 'filha do coveiro'".

Posta a informação, o leitor pode pensar que se trata de uma biografia e não de um romance, o que não é, porém, certo. "A Filha do Coveiro" é uma bela obra de ficção, mas, como é baseada em fatos reais, explicados e adensados pelos amplos recursos da ficção, que cria vida onde os documentos e a memória falham, a própria Oates explicouse na entrevista ao "El País". "A ficção e a autobiografia — que amiúde é uma memória semificcionalizada — são meios para explorar o passado. É preciso imaginar, mas não inventar; se há invenções, ficção pura, isso deve brotar do real, do que verdadeiramente ocorreu", disse Oates. "Enfrentei a história assombrosa da vida de minha avó, mas não podia apropriarme dela diretamente porque não sabia realmente nada de primeira mão. Só podia chegar a ela de forma elíptica e por intermédio da arte. Ainda assim penso que a voz que imaginei para minha avó reflita de forma exata a simpatia, o pathos e a notável resistência de sua vida desconhecida", acrescenta a prosadora. "Um dos dados que Oates desconhecia sobre Blanche era sua ascendência judia", revela Andrea Aguilar.

O leitor do romance efetivamente não precisa saber que a história de Oates é baseada em fatos reais — ficcionalizados para serem iluminados, porque o real sem um pouco de luz extra, das cores da ficção, digamos assim, perde a graça — para entender que se trata de uma história poderosa.

Fugindo dos amplos tentáculos do nazismo de Hitler, o casal Jacob e Anna Schwart chegam aos Estados Unidos, com três filhos, Herschel, o mais velho, August (Gus) e a caçula Rebecca, que, nascida no navio, é cidadã americana. Rebecca é Blanche Morgenstern, a avó de Oates.

Na Alemanha, Jacob era professor de matemática e lia filósofos, como Hegel e Schopenhauer, e Anna tocava piano e amava a música de Beethoven. Um casal judeu de classe média. Nos Estados Unidos, desenraizado, Jacob consegue apenas o emprego de coveiro, em Milburn.

Não era uma vida fácil, e alemães naquele tempo, mesmo não nazistas e mesmo judeus, eram execrados pelos norteamericanos, especialmente os jovens. Para proteger a família, Jacob tentou isolála do mundo. Proibiu a mulher de falar alemão e obrigou os filhos a não terem amigos. Era como se tivesse inventado seu próprio gueto. Moravam numa casinha suja e velha no interior do cemitério. Não raro a casa e túmulos eram pichados com a suástica nazista. Jacob ficava horrorizado e tentava apagar a presença ostensiva da intolerância americana.

Um dia, Jacob compra um rádio, mas não permite que ninguém da família o ligue. Só o coveiro pode ouvir as notícias, que o irritam quando tratam das vitórias de Hitler. Quando Jacob sai, Anna às vezes chama Rebecca para ouvir música erudita — o que, mais tarde, vai marcar a formação do filho de Rebecca.

Quando Herschel e Gus saem de casa, fugindo da tirania do pai, tirania com a qual acreditava que protegia sua família, Jacob, talvez por julgar que perdeu o controle da família e por não ter cumprido a promessa de uma vida melhor para todos, mata a entorpecida Anna e se mata. Rebecca fica viva, aparentemente porque, sendo americana, nada se poderia fazer contra ela, na visão do pai, uma vítima tardia do nazismo e de seus próprios medos.

Com a morte do pai, Rebecca renasce, por assim dizer. Mas, antes de se tornar adulta, mora na casa de uma religiosa, a professora aposentada Rose Lutter. Rebecca sai de casa, ainda menor, por não suportar a carolice da tutora.

Juntase a amigas e começa a trabalhar num hotel, como camareira. Aí, de certo modo, descobre o mundo. Um hóspede tenta estuprála e outro hóspede, Niles Tignor, a protege.

Tignor, homem forte e imponente, conquista o coração de Rebecca, uma garota durona de 17 anos. Casamse. Tignor, conquistador inveterado, diz que é representante de uma cervejaria e, no início, carrega Rebecca por várias cidades americanas. Depois, instalaa, grávida, numa casa velha de fazenda. Para ter o filho, Niley, Rebecca precisa da ajuda de vizinhos para levála ao hospital. Tignor estava no mundo e, como não lhe dava mais dinheiro, Rebecca teve de trabalhar na fábrica Tubos de Fibra Niágara. Um trabalho duro, mas necessário.

Com o tempo, Tignor perde o viço e o emprego, envolvendose com criminosos. Tornase ciumento e violento. Espanca brutalmente Rebecca e o pequeno Tiley. Para sobreviver e, sobretudo, salvar o filho, a corajosa Rebecca espera Tignor dormir e foge.

Para escapar de Tignor, e talvez de sua própria história familiar macabra, Rebecca mora em várias cidades dos Estados Unidos. Numa das cidades, consegue mudar seu nome e o de Niley. Ela passa a se chamar Hazel Jones e Niley se torna Zacharias August Jones. Os dois reinventaramse, para sobreviver e seguir novo caminho.

Numa das cidades para onde se mudam, RebeccaHazel conhece o pianista de jazz e jornalista Chet Gallagher, filho de uma espécie de Roberto Marinho dos Estados Unidos.

Chet descobre que Zack é apaixonado por piano e financia seus estudos. Sob orientação de um professor judeu, Zack desenvolve seu talento. Hazel casase com Chet, mesmo sem amálo. Bonita e sensual, Hazel é uma presença iluminadora — há um quê de fantasmal ou mágico nesta personagem sólida como uma rocha.

O virtuose Zack encanta a todos no mundo do piano. Hazel fica feliz com o sucesso do garoto, como se fosse um presente tardio à sua mãe que, no pardieiro do cemitério, levoua escutar a música "Appassionata" de Beethoven tocada por Arthur Schnabel. Num raro momento de intimidade, a lacônica Anna diz para a garota Rebecca: "Quando eu era menina, na minha velha terra [Munique, na Alemanha], tocava essa ´Appassionata´. Não como o Schnabel, não tocava, mas tentava". Sem o saber, ao tocar "Appassionata", Zack arrancou Anna do túmulo e restaurou o tempo perdido. Um pedaço de Rebecca, que havia sido amputado na infância, pode ser instalado em seu corpo.

Quase no final, há dois momentos dilacerantes. Gus vê Rebecca, mas esta finge que não o conhece, porque já era a rica e protegida Hazel Jones e não queria que o passado voltasse a assombrála — mais do que sua memória implacável a atormentava. Depois, descobre que Freyda, a prima que julgava morta pelo nazismo, é uma cientista famosa, autora de uma autobiografia na qual conta a história de sua família num campo de concentração e extermínio. Freyda esnoba a prima e, quando decide encontrála, é muito tarde. RebeccaHazel, com câncer, não tem mais condições de se comunicar.
Freyda escreve numa carta aquilo que talvez resuma o romance: "Os fatos só são 'verdadeiros' depois de explicados". Fiz uma síntese pálida do romance, mas nada disse sobre a forma poderosa e sutil de Oates narrar sua bela e dolorosa história. A linguagem do romance é, de certo modo, sua mais poderosa "personagem".

Livro de jornalista resgata o Japão violento e sombrio que a mídia não mostra

O jornalista americano Jake Adelstein, de 41 anos, escreveu um livro muito interessante sobre um Japão que raramente aparece na mídia: “Tóquio Proibida — Uma Viagem Perigosa Pelo Submundo Japonês” (Companhia das Letras, 455 páginas, tradução de Donaldson M. Garschagen). Repórter do “Yomiuri Shimbun”, vasculhou o bas-fond do país. Chegou a ser ameaçado de morte pelo Yamaguchi-gumi, “a maior facção do crime organizado no Japão” (“cerca de 40 mil membros”).

Quem costuma perceber o Japão como um país pacífico ficará surpreso com as histórias contadas por Adelstein. Os integrantes da máfia japonesa são conhecidos no mundo todo como “yakuzas”, “mas muitos deles preferem o nome gokudo, que significa literalmente ‘o caminho final’. O Yamaguchi-gumi é o topo da pirâmide gokudo. E entre os numerosos subgrupos que constituem o Yamaguchi-gumi, o Goto-gumi, com mais de 9 mil membros, é o mais perigoso. Eles retalham o rosto de diretores de cinema, jogam gente pelas janelas dos hotéis, lançam retroescavadeiras contra as casas das pessoas”. O homem que ameaçou matar Adelstein, se ele publicasse uma reportagem, era do Goto-gumi.

Depois da leitura, o leitor brasileiro possivelmente vai avaliar que o Brasil é até um país bem “normal”.

Os japoneses fazem uma imagem positiva de si e, ao contrário de nós, brasileiros, não falam mal do próprio país. Quando estive em Tóquio, em 1996, ainda no micro-ônibus (equipado com karaokê), o nosso intérprete (Kenji Kawano, um japonês que mora no Brasil) disse: “O Japão é um país maravilhoso, desenvolvido, não tem miséria, a corrupção é punida”. Dias depois, nosso novo intérprete (um brasileiro que mora no Japão), de nome Manzo, me deu outra versão: “É bom viver no Japão, o país é mesmo desenvolvido, mas há pobres, o sistema de trabalho é muito rígido e a corrupção nem sempre é penalizada”. Num fim de semana, perguntou se eu queria conversar com mendigos. Surpreso, acompanhei-o. Pegamos o metrô e, numa das estações, vimos vários mendigos. Alguns estavam deitados em cima de colchões finos e separavam os “quartos” com papelão. Outros liam jornais. Eram, definitivamente, miseráveis. O professor Manzo, salvo engano agrônomo, explicou que alguns japoneses se tornam mendigos como forma de rejeição à rigidez das empresas do país. São “inadaptados”.

À noite, andamos pelas ruas de Tóquio, e mais uma vez fiquei impressionado com o número de prostitutas, algumas delas europeias.

 

Gaia — Uma boa edição de “A Vingança de Gaia” (159 páginas, tradução de Ivo Korytowski), de James Lovelock, saiu pela Editora Intrínseca. O cientista inglês, neste e em outros livros, diz que a situação da Terra não é nada boa. A Terra está “reagindo” às agressões feitas pelo homem. Ele anda mais cético, mas admite que é possível salvar parte da civilização.