Edição 1892 de 9 a 15 de outubro de 2011
Euler de França Belém
FBI espionou mulher de presidente brasileiro
Relatório de J. Edgar Hoover apurou que a mulher de Eurico Dutra flertava com o nazismo de Adolf Hitler
Santinha Teles Leite Dutra, a primeira-dama pró-nazista”,
e o presidente Eurico Gaspar Dutra: ele mandava no País,
mas ela mandava no marido

O jornalista Roberto Lopes tornou-se um historiador notável. Na revista “Leituras da História”, conta que a mulher do presidente Eurico Gaspar Dutra, eleito em 1945, foi espionada pelo FBI, a polícia federal dos Estados Unidos, a pedido do chefão J. Edgar Hoover.

Quando Carmela Teles Leite Dutra, Santinha, foi espionada, em 1942, seu marido, Dutra, ainda não era presidente — era ministro da Guerra. Santinha e Dutra nutriam simpatia pelo nazismo de Adolf Hitler. Daí a investigação.

O relatório de Hoover foi enviado ao secretário-assistente de Estado para Assuntos Latino­americanos, Adolf A. Berle: “Como seja do seu possível interesse, informação recebida de uma fonte confidencial, acredita-se que confiável, aponta que a sra. Santinha de Correa Dutra, esposa do ministro da Guerra brasileiro, general Eurico Dutra, exibe simpatias pró-Nazi e se reporta que está tentando converter suas ligações procedentes do mais alto estrato da sociedade brasileira para o nazismo. À sra. Dutra também é atribuída a declaração de que, se o Brasil for à guerra, seus dois filhos poderiam ser os primeiros a desertar do Exército brasileiro”.

Como o Brasil havia declarado guerra à Alemanha, em 1942, as investigações sobre a mulher do ministro da Guerra eram secretíssimas, mas o diretor de Inteligência Naval e o general Hayes Adlai Kroner, chefe do Serviço de Inteligência Militar da Força Terrestre Americana, tiveram acesso ao documento. Curiosamente, Dutra, sem saber que era investigado — o foco da espionagem era o general-ministro e não propriamente sua mulher —, estabeleceu, naquele momento, relações produtivas com o chefe do Estado-Maior do Exército dos Estados Unidos, general George C. Marshall. Se a informação vazasse, e tudo indica que não vazou, as relações ficariam comprometidas.

Como Getúlio Vargas, seu chefe político, Dutra era um mestre da ambiguidade. Em 1930, indeciso entre o governo de Washington Luís e a oposição de Vargas, ficou em cima do muro — aderindo apenas quando os revolucionários chegaram ao poder. Aliado do presidente, ajudou a esmagar a Intentona Comunista, em 1935. Ao lado do general Góis Monteiro, forneceu as bases militares para o golpe do Estado Novo, em novembro de 1937. Dúbio, oscilava entre os alemães nazistas, suas simpatias mais fortes, e os americanos. “Em fins de 1940, o general Dutra recebeu uma condecoração do embaixador de Hitler no Rio [de Janeiro], Prüffer. Depois, em 1942, foi visitar o general Marshall em Washington”, relata Roberto Lopes.

A ambiguidade dos militares brasileiros, sugere Roberto Lopes, tinha a ver, pelo menos em certa medida, com o fato de que as forças armadas estavam sucateadas e necessitavam “de quase tudo”. Os alemães demoravam a entregar armamentos. “Uns canhões antiaéreos encomendados ao Brasil à fábrica Krupp ficaram por longo tempo sujeitos ao embargo dos ingleses. As entregas de Washington poderiam chegar com muito mais rapidez”, anota o historiador. Como os americanos também retardaram as entregas, favorecendo os ingleses e, depois, os soviéticos, os militares brasileiros, imitando o presidente Getúlio Vargas, mantiveram a ambiguidade — até serem atendidos pelo presidente Franklin D. Roosevelt.

Há uma interpretação curiosa sobre a queda de Getúlio Vargas. Jornalistas e mesmo historiadores repetem a cantilena de que o presidente-ditador caiu porque, como viram a vitória da democracia na Europa, com a derrota do nazismo, os militares decidiram optar por um regime de liberdade. A velha basoseira de sempre. Na verdade, os militares que derrubaram Getúlio apoiaram sua ditadura, de 1937 a 1945, e muitos deles (como Dutra) tinham mais simpatia pelos governos totalitários da Itália e da Alemanha do que o próprio político gaúcho, um mestre da ambiguidade e do despiste. Os militares queriam o poder e agora sem a intermediação de civis — tanto que os dois candidatos mais fortes à sucessão de Vargas foram o general Eurico Dutra (PSD) e o brigadeiro Eduardo Gomes (UDN).

Com a queda de Vargas, em 1945, o nada carismático Dutra foi eleito presidente da República. Católica fervorosa, a primeira-dama Santinha exigiu do marido a proibição do jogo no Brasil e a extinção do Partido Comunista do Brasil (PCB). O presidente atendeu aos dois pedidos, ou ordens. Obesa, de saúde frágil, Santinha morreu em outubro de 1947, com o marido ainda no poder. Os dois são conhecidos, nos bastidores da história, como o casal mais feio da história presidencial do Brasil.