Edição 1887 de 4 a 10 de setembro de 2011
Euler de França Belém
Equívoco da ombudsman da Folha sobre o Twitter
A ombudsman da “Folha de S. Paulo”, Suzana Singer, em geral moderada, defende posição conservadora e diz que jornalista não deve ter Twitter pessoal
Folha Imagem/Maria Cauduro
Suzana Singer: “Não tem como ter dupla personalidade, separar sua
vida pessoal da profissional, assim como não dá para ter duas contas
no Twitter”

A repórter Silvana Chaves, do site www.comunique-se.com.br, conta que a ombudsman da “Folha de S. Paulo”, Suzana Singer (talvez a mais moderada e menos empolgada de todos os ombudsmen do jornal paulistano), disse, ao participar do painel “Crises no mundo virtual. É possível sair ileso”, do Info@Trends: “Jornalista não deveria ter Twitter pessoal, principalmente porque ele pode tuitar algo ofensivo e não sabe onde estará ou quem entrevistará amanhã”.

Silvana Chaves frisa que Suzana Singer “deixou claro que não há diferença entre o comunicador e a pessoa real. Hoje o jornalista pode estar em um churrasco, com os amigos, e ser ofensivo com os palmeirenses porque eles ganharam o jogo de domingo. E na semana seguinte ele tem que ir entrevistar o presidente do Palmeiras. Ou seja, é uma situação muito desagradável, que poderia ter sido evitada se o repórter tivesse a postura adequada de não misturar as coisas. Não tem como ter dupla personalidade, separar sua vida pessoal da profissional, assim como não dá para ter duas contas no Twitter”.

A análise de Suzana Singer é pertinente em parte, sobretudo quando se verifica os horrores que as pessoas, e não apenas jornalistas, dizem no Twitter, espaço público no qual não existe, em geral, qualquer grau de responsabilidade. As pessoas falam absurdos sobre outras pessoas e não apresentam prova alguma do que “denunciam” (digamos assim). Mas cabe ao jornalista que está no Twitter não partilhar os exageros tradicionais e não divulgar nem endossar opiniões estapafúrdias. Se entender que, ao opinar, estará sendo reconhecido pelo que é, ou seja, um profissional de determinado jornal (revista, rádio ou televisão), o jornalista certamente se comportará de modo mais responsável. E é isto o que importa, pois, como entendia o brilhante jornalista Claudio Abramo, a ética do jornalista é a mesma do cidadão.

A posição de Suzana Singer é conservadora no sentido de que parece não ter entendido a questão das mídias sociais. Sim, porque as mídias sociais, inclusive para os jornais e outros meios, são utilizadas para promover as reportagens e os meios de comunicações nos quais o jornalista trabalha. O Twitter pessoal é, em geral, um instrumento de reforço daquilo que o profissional publicou no seu jornal, na sua revista. Em termos de redes sociais, não há como voltar atrás. Elas vão ser aprofundadas e o que entendemos sobre comunicação está sendo modificado, e rapidamente, o que parece assustar os comunicadores tradicionais. Nada será como antes e ninguém, sobretudo os jornalistas, poderá evitar as redes sociais — que são um novo, e poderoso, meio de comunicação, mais complexo e, não raro, irresponsável. As redes vieram para ficar, queiramos ou não, e os jornalistas, com Twitters empresariais e profissionais, não terão como escapar de seus tentáculos.

É possível que vários jornalistas, não se sabe se é o caso de Suzana Singer, acreditem que Twitter e Facebook são “concorrentes” dos meios nos quais trabalham. Talvez sejam mais complementares do que “adversários”. As cúpulas dos meios tradicionais parecem assustadas com a possibilidade de perder o controle total sobre seus funcionários, sobre a opinião deles. Temem também o fato de que deixarão (já estão deixando) de ser os “únicos” produtores de notícias. Hoje, com as redes sociais e blogs, os leitores não são mais “servos” dos veículos de comunicação tradicionais. Um “furo” pode ser dado num blog, ou mesmo nas redes sociais, e os jornais, revistas, rádios e tevês têm de repercuti-lo.

O diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, defendeu uma posição realista e eficaz: o uso do bom senso. “Esse princípio sempre existiu mesmo antes das mídias sociais. A atual condição do Grupo Estado é que o nosso manual de jornalismo e ética são suficientes para orientar as práticas em qualquer mídia (eletrônica, impresso e internet)”, frisou.

Ricardo Gandour destacou que os jornalistas “que estão ‘dentro do guarda-chuva do Grupo’ Estado devem estar cientes das normas do manual de redação, que ‘não se adaptam à nada, são universais e levam em conta a ética do profissional”.

Sobre os perfis pessoais, Ricardo Gandour disse que o Grupo Estado “não se opõe a nenhum conteúdo publicado, é uma atividade dele. Ele tem que se portar como tal quando está fazendo uso de qualquer coisa da empresa, preservar a imagem”. O diretor faz uma ressalva, absolutamente consequente: os jornalistas do “Estadão”, do “Jornal da Tarde” e de outros produtos do grupo não devem usar o Twitter e o Facebook “para divulgar uma notícia ‘furando’ o veículo no qual ele trabalha”.

André Rosa, especialista em Comunicação Online, defende uma posição semelhante à de Ricardo Gandour: “Se não tem nada a esconder como pessoa, não vejo problemas em ter um perfil em qualquer mídia social. De certa forma é legal que o veículo enxergue que há uma pessoa por trás do profissional, isso também para o próprio leitor. Não existe uma regra para mediar isso. Em alguns casos, os perfis se mesclam”. André Rosa acrescenta: “Normalmente existe no veículo em que a pessoa trabalha numa própria páginas, numa página dentro do próprio veículo para publicar ali as opiniões do veículo por meio da pessoa. É claro que toda ferramenta ou perfil é criado e tem um objetivo definido”.

Tocando num ponto crucial, e expressando com elegância (porque, na verdade, a ombudsman revela, quem sabe inconscientemente, o receio que os jornais têm de perder o controle de seus profissionais e de suas informações, cada vez mais democratizadas e, assim, públicas), André Rosa frisa: “Historicamente o veículo tem a sua credibilidade a zelar e, nos últimos tempos, o contato entre o leitor e o jornalista se tornou muito mais próximo por meio da rede, o que torna esse comportamento uma discussão mais visível”. O jornalista, por assim dizer, ganhou um rosto, sua face não é mais apenas a “imagem” do jornal.

“Há nessa discussão uma complexidade que merece ser discutida individualmente e depende da postura de cada editora, de cada veículo em relação à essa nova realidade 2.0”, diz André Rosa.

No fundo, os dirigentes dos meios de comunicação estão incomodados com as redes sociais, e mesmo com a internet em geral, porque ainda não sabem lidar com a participação direta, em tempo real, da sociedade. Não deveria ser tão assustador. Mas é. Por isso os manuais de redação envelheceram e precisam ser reavaliados, até para evitar que uma ombudsman como Suzana Singer, consequente e competente, não precise opinar de modo tão tradicional, possivelmente seguindo mais a posição do grupo que edita a “Folha de S. Paulo” do que a sua opinião. Suzana Singer é uma jornalista notável.