Edição 1998 de 20 a 26 de outubro de 2013
Euler de França Belém
Eduardo Giannetti, guru de Marina Silva, contesta suas ideias sobre o agronegócio
Eduardo Giannetti da Fonseca, economista brilhante, é uma espécie de guru da ex-ministra Marina Silva (PSB). Recentemente, ao rejeitar aliança política com o deputado federal Ronaldo Caiado (DEM), Marina criticou o agronegócio, que parece perceber tão-somente como um agente de destruição do meio ambiente. A revista “GloboRural”, de setembro, entrevistou Giannetti e suas ideias sobre o agronegócio são opostas às da ambientalista. O título da matéria, baseada numa fala do economista, diz tudo: “O agronegócio é tudo que o Brasil deve aprender a ser”.
 
Giannetti afirma que é um equívoco apresentar a industrialização como salvação da lavoura, quer dizer, do Brasil. “Durante muito tempo prevaleceu no Brasil a ideia errônea de que o passaporte da modernidade era a indústria e a cidade. Se o país se industrializasse e se urbanizasse, automaticamente seríamos inseridos entre as nações desenvolvidas. É um equívoco, porque o agronegócio é uma atividade tão nobre e tão capaz de gerar riquezas como as outras. É uma vocação global do Brasil. Finalmente ele foi reconhecido como atividade que agrega riqueza à sociedade de uma maneira legítima, porque, ao contrário de outros setores, não depende de subsídios, proteção tarifária e favorecimento estatal”.
 
Ao contrário do que Marina acredita, talvez por não conhecer direito as ideias de seu guru — ou talvez pela velha e persistente má vontade da esquerda com os homens ditos do campo (a má vontade é derivada de um marxismo que examinou um campo que não existe mais) —, Giannetti mostra o vigor e a modernização do agronegócio: “... a produtividade do setor, seja soja, seja milho, é espetacular. Também a pecuária suína é eficiente, e a de aves é bem desenvolvida”.
 
Acredita-se, no círculo mais ortodoxo da esquerda, que o agronegócio é absolutamente concentrador de riqueza. Não é o que pensa Giannetti. O entrevistador Sebastião Nascimento pergunta: “O agronegócio realmente distribui riqueza pelo interior?” O economista diz que sim. “A economia é um sistema de vasos comunicantes. Mesmo um setor que não é de trabalho intensivo, como o do agronegócio, acaba irrigando o sistema econômico inteiro, por conta da receita e do valor que a atividade cria na compra de insumos, máquinas, fertilizantes, inseticidas, assistência técnica. Tem ainda a comercialização e os transportes. O dinheiro do agronegócio circula”, diz Giannetti. A “tese” do latifundiário que mantém a terra como valor de reserva, do fazendeiro que guarda dinheiro em casa, é uma coisa de um passado muito remoto.
 
O repórter da “Globo Rural” nota que, apesar da infraestrutura ruim, malcuidada e escassamente ampliada, a safra de 2013/2014 deverá ser de 205 milhões de toneladas de grãos. O setor, se não fosse moderno, não produziria tanto e, sobretudo, com a qualidade exigida pelo mercado internacional. As palavras do aliado de Marina: “A produtividade brasileira é tão extraordinária que o agronegócio tolera enormes desaforos e, mesmo a um custo elevado, progride. Desaforos de ineficiência sistêmica ligados ao transporte em ruínas. Os últimos governos do Brasil, inclusive o da presidente Dilma [Rousseff], vêm deixando muito a desejar em relação ao trabalho de melhoria de infraestrutura de suporte à produção”.
Recentemente, ao apresentar as críticas de Marina a Ronaldo Caiado, a “Folha de S. Paulo” citou o agronegócio como “setor primário”. Giannetti discorda: “Essa terminologia [primário] está completamente ultrapassada. Foi atropelada pelos fatos. Se tem uma coisa de importante para a vida humana é o alimento e a agricultura, que depende de muita tecnologia e conhecimento para atender 7 bilhões de seres humanos com aspirações crescentes em termos de melhoria de vida. O agronegócio lida com o grande desafio da humanidade no século 21: meio ambiente e sustentabilidade”.
 
A China, a partir de agora, vai comprar mais grãos e proteína, porque sua economia está incluindo mais pessoas ao mercado de consumo universal. Giannetti frisa que a China está procurando mudar seu modelo econômico. “Ao que tudo indica, o país asiático vai diminuir suas exportações e voltar-se para o mercado interno, baseado no consumo. Se for bem-sucedido, afeta positivamente as commodities agrícolas brasileiras e aquece também o setor de proteínas, visando atender a sua classe emergente.”
 
A notícia é muito boa para o mercado brasileiro. Mas a tese de Giannetti não é consenso entre os economistas. Especialistas dizem que o modelo chinês — voltado para exportação — não será modificado. Porque a exportação é o que mantém o crescimento interno acelerado. O que se fará, na opinião desses economistas, é uma ampliação do modelo econômico. Pretende-se manter o modelo exportador — especialmente de produtos que agregam mais valor, como automóveis e computadores —, mas incluindo mais chineses ao mercado de consumo internacional.
 
Mesmo com uma ditadura comunista dirigindo o país com mão de ferro, com punições severas, o governo não vai conseguir controlar por mais tempo os chineses que estão fora do mercado de consumo — os níveis de pobreza são abissais — e aqueles que, embora incluídos, exigem mais, quer dizer, padrões americanos, europeus e brasileiros.
 
Para evitar uma explosão social, com pobres e classes médias (crescentes) pressionando, o governo tende a incentivar o consumo. O consumo é o “alimento” fundamental para assegurar massas, de pobres às classes médias, conformistas. O capitalismo ocidental descobriu que essa é a forma adequada para evitar revoluções esquerdistas. O governo comunista da China “descobriu” a mesma coisa: os chineses querem comer mais, e alimentos de qualidade, e comprar produtos ocidentais. Nem os chineses querem mais usar apenas aquilo que a China exporta para todo o mundo — as bugigangas que são comercializadas nas ruas e nos camelódromos. As classes médias chinesas estão viajando mais, pondo-se em contato com aquilo que de melhor oferece as sociedades ocidentais, e certamente querem adotar alguns dos comportamentos que estão presenciando e, aos poucos, partilhando.
 
A transformação da China numa sociedade de consumo gigante — com milhões de consumidores (os 300 milhões de hoje breve serão 400 ou 500 milhões) — é música de Beethoven para as contas bancárias dos empresários que comandam o agronegócio no Brasil e em outros países.
 
Infelizmente, a música tocada por Giannetti parece que não é ouvida por Marina. Porém, se um dia chegar ao poder, tendo de lidar com questões práticas, a ex-senadora terá de mudar sua teoria — que, enquanto o país muda e se moderniza, persiste defasada e arcaica.