Edição 1979 de 9 a 15 de junho de 2013
Euler de França Belém
Dicionarista goiano mesmerizou Sérgio Buarque de Holanda e faz a cabeça de Chico Buarque

Goiás é, além de grande produtor de soja, um celeiro de dicionaristas. O “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa — Ideias Afins” (Lexicon, 763 páginas), de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo, é um sucesso nacional. Na apresentação da edição de 1974, o escritor Bernardo Élis, membro da Academia Brasileira de Letras, escreveu: “O Professor Ferreira foi um homem que acreditou na inteligência e por ela e para ela viveu. (...) Esse homem foi uma ilha”. O autor de “O Tronco” e “Veranico de Janeiro” repara que ele pesquisou e escreveu o livro sozinho. O falecido membro da Academia Brasileira de Letras revelou, no fim do texto: “O primeiro dicionário da língua portuguesa escrito e publicado (escrito e publicado, vejam) no Brasil foi de autoria de um goiano, Luís Maria da Silva Pinto, que, em 1832, em Ouro Preto, escrevia e imprimia na sua tipografia o ‘Dicionário da Língua Brasileira’”.

O Professor Ferreira escreveu o “Dicionário Analógico da Língua Por­tu­guesa”, mas não pôde ler a edição impressa pela Companhia Editora Nacional de São Paulo, em 1950. O scholar sem academia morreu em 1942.

Bernardo Élis, prosador respeitado por Monteiro Lobo e Guimarães Rosa, explica o que significa o “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa”: “Dada uma ideia, indica as palavras que podem expressar essa ideia ou que com ela têm analogia. (...) Quer dizer que não se arrolam apenas sinônimos, mas a imensa gama de palavras, termos, vocábulos ou expressões que se inscrevem nessa ampla e meio nebulosa área do campo semântico”. Aquele que busca a palavra justa, como o francês Gustave Flaubert, ganha, e muito, se usar o livraço do Professor Ferreira.

Na nova edição do dicionário, Leo­degário A. de Azevedo Filho, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), presidente de honra da Academia Brasileira de Filologia, escolhe a dedo uma palavra para definir o trabalho do Professor Ferreira: “Monumental”. Como anota acima Bernardo Élis, o mestre Leodegário Azevedo quase o repete, e não poderia ser diferente: no dicionário “busca-se uma palavra, entre muitas análogas, em uma área de significados conhecida e classificada numa frondosa árvore de classificações. (...) Trata-se de uma obra de fôlego, não existindo, que nos conste, na ampla bibliografia sobre o assunto, nada semelhante. Daí sua originalidade, na construção de um livro de consulta que será extremamente útil a todos que falam e escrevem a língua em que Camões cantou — como dizia o poeta Olavo Bilac — ‘o gênio sem ventura e o amor sem brilho’”.

Mesmo pesquisando sozinho, sem uma biblioteca decente e ampla, o Professor Ferreira produziu um dicionário que, segundo Leodegário Azevedo, vai além de “reunir e descrever o funcionamento do vocabulário” da Língua Portuguesa. “No caso em questão”, o do dicionário do mestre goiano, “vai-se, além disso, analisando-se o relacionamento de um conjunto de palavras semanticamente agrupadas, levando-se em conta todas as categorias gramaticais do idioma. E isso atesta a sua originalidade, louvando-se o extraordinário esforço de pesquisa e de penetração lexical de uma língua como a nossa, que é falada por cerca de 250 milhões de pessoas, sendo que, mais ou menos, 190 milhões se encontram no Brasil”. Ao final do texto, o professor da UERJ reforça que a obra é “verdadeiramente única”.



A apresentação da edição da Lexikon Editora Digital (de 2010), não assinada, registra, repetindo Bernardo Élis e Leodegário Azevedo: “O dicionário analógico, ou ‘Thesaurus’, na concepção de [Peter Mark] Roget, pressupõe que temos noção de um significado, temos uma intenção de uso, mas não nos ocorre uma palavra satisfatória. O ‘Thesaurus’, a partir de um contexto de possíveis significados, oferece uma nuvem de palavras em torno desse significado, ou seja, palavras análogas num maior ou menor grau de proximidade e exatidão, para que nessa nuvem possamos achar a palavra — ou expressão — que melhor nos convém, em qualquer de suas mais prováveis funções gramaticais”.

O “dicionário analógico completa, com um dicionário de língua, o ferramental necessário a quem busque a compreensão e o domínio de todas as potencialidades do código linguístico, seja no entendimento de significados e usos de palavras e expressões, seja na capacidade de encontrar as palavras e expressões que melhor traduzam o que se quer exprimir. (...) O admirável trabalho do Professor Ferreira, como gostava de ser chamado, calcado no método original de Roget, foi aplicá-lo à língua portuguesa, identificando mais de mil contextos conceituais da existência real — concreta e abstrata, física e espiritual, objetiva e subjetiva — para que a partir deles, em sub-ramificações que facilitam sua localização, possam ser encontrados os termos que melhor os expressem”, anota a apresentação da Lexikon.

O dicionário é fundamental para escritores e jornalistas que não apreciam repetições ou palavras mal dispostas na frase. Sérgio Buarque de Holanda não o retirava de sua mesa de trabalho quando estava escrevendo seus belos livros de história. Se o livro do Professor Ferreira não estiver próximo, visível, João Ubaldo Ribeiro não começa a escrever seus romances, contos e crônicas. Antônio José de Moura não desgruda de seu exemplar. Se alguém o pede emprestado, o autor dos romances “Sete Léguas de Paraíso” e “Umbra” prefere adquirir um exemplar e dá-lo de presente. O caso de amor mais fanático é o do compositor, cantor e escritor Chico Buarque de Holanda.

Na edição da Lexikon, na apresentação “Os dicionários de meu pai”, Chico Buarque conta que, “pouco antes de morrer”, seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, o chamou e, entregando-lhe um dicionário de capa preta, disse-lhe: “Isso pode te servir”. “Era como se ele, cansado, me passasse um bastão que de alguma forma eu deveria levar adiante. E por um bom tempo aquele livro me ajudou no acabamento de romances e letras de canções, sem falar das horas em que eu o folheava à toa. (...) Palavra puxa palavra, e escarafunchar o dicionário analógico foi virando para mim um passatempo”, escreve Chico Buarque.

De tanto consultá-lo, como se fosse quase um brinquedo nas mãos de uma criança com poucos recursos, o livro começou a esfarelar. Chico Buarque adquiriu outro exemplar, num sebo, no Rio de Janeiro, e guardou a preciosa herança paterna. “Com esse livro escrevi novas canções e romances, decifrei enigmas, fechei muitas palavras cruzadas”, relata o compositor-escritor. De novo, o livro começou a envelhecer devido ao manuseio intenso. O autor da música “Construção” e do romance “Leite Derramado” saiu a campo, quer dizer, aos sebos e, depois de muito procurar, encontrou dois exemplares, comprou-os e levou-os para casa. “Mas não me dei por satisfeito, fiquei viciado no negócio. Dei de vasculhar livrarias país a fora, só em São Paulo adquiri meia dúzia de exemplares, e ainda arrematei o último à venda na Amazon.com antes que algum aventureiro o fizesse”, relata o criador de “Fado Tropical”.

(Note, leitor, que escrevo Professor Ferreira, como se “Professor” fosse o prenome de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Mas, sim, o “Professor” praticamente foi incorporado ao nome, e Francisco dos Santos Azevedo foram “eliminados”. Leia mais sobre o autor do “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa” no link O professor Ferreira é o Euclides da Cunha do Cerrado, diz o médico e escritor Heitor Rosa.)