Edição 1985 de 21 a 27 de julho de 2013
Euler de França Belém
Crítico José Ramos Tinhorão diz que a canção de protesto é filha da bossa nova
Depois de atacar Roberto Carlos e o chamado rock nacional, o historiador da música popular garante que João Gilberto e Cartola são “plagiários” e diz que o axé “não é nada”

José Ramos Tinhorão, um dos mais polêmicos críticos e historiadores da música patropi, concedeu uma entrevista-fogaréu a Gabriel de Sá, do “Correio Braziliense” (edição de 9 de junho de 2013). Entorpecida pela “última” do rock britânico ou americano, a imprensa fez de conta que não viu. O repórter surpreende-se: “O sr. coloca a lambada dos carimbós como a última manifestação musical surgida no Brasil...”. O boca maldita, de 85 anos, ataca com uma pergunta-resposta: “Você conhece algum gênero brasileiro posterior à lambada?” O jornalista cita o “axé”. “O axé não é nada. É uma manifestação dentro das formas negras de você se divertir, mas não tem uma estrutura”, analista o pesquisador.

Sá nota que o tropicalismo é um “balaio de coisas” e Tinhorão amplia, na sua típica linguagem luciferina: “O tropicalismo é uma boa malandragem. As músicas têm várias coisas que cabem nelas. Tem aqueles coisas muito baianas que o Gil trouxe... O Gil e o Caetano, todos, são meninos da bossa nova baiana, nasceram na época em que estava nascendo a bossa nova na Bahia”. Em seguida, ressalva: “‘Do­mingo no Parque’, uma coisa originalíssima, é música de pernada, de capoeira. O ouvido deles estava impregnado com o baiano. Um compositor carioca não poderia ter feito ‘Domingo no Parque’. Na Bahia, a roda de pernada é um negócio ritual”. A “interpretação” de Tinhorão talvez seja mais “originalíssima” do que a música. Há um aspecto óbvio de capoeirismo, dada a citação direta (“E não foi pra Ribeira jogar capoeira!”), mas a raiz, a elaboração, lembra, aqui e ali, alguma coisa de Tom Jobim, noutras palavras, a bossa nova. Ou não?

O rock dito nacional sempre apanha de Tinhorão. Sá diz que o crítico “não cita o iê-iê-iê e o rock” no livro “Pequena História da Música Popular Segundo Seus Gêneros” — recém-lançado em edição revisada. No seu estilo heavy metal, o crítico parte pra cima: “Existe samba japonês? Não existe. Então também não existe rock brasileiro. A base da música popular é o ritmo e esse ritmo surgiu nos Estados Unidos por um processo histórico da vida americana”. Aí sobra para o Rei da jovem guarda e imperador da tradição: “Roberto Carlos é o subproduto do rock. A única coisa em que ele parece moderno é que os que acompanhavam ele usavam guitarra elétrica. Mas Roberto Carlos não é nada. Não é rock, não é canção brasileira. Mas é isso que foi oferecido às pessoas”. Na democracia, diz-se “oferecido”, pois o termo “imposto” é palavrão.

Sá nota que, no livro citado acima, Tinhorão lista a canção de protesto e a bossa nova no mesmo capítulo. “Quem é que fazia canção de protesto, típica da era dos festivais? O festival era apoiado em uma música de orquestra, com maestros arranjadores. E a base dessa música veio da bossa nova. Quando o cara faz, por exemplo [cantarola a introdução de ‘Disparada’]. Não é uma ‘Disparada’ como seria feita em uma música do mundo rural. Ela já é uma música adaptada pelo arranjador para aparecer na grande orquestra. Toda a geração que fez a canção de protesto veio da bossa nova. Você não encontra uma cara que não. Como aquela história de flor, amor e barquinho nem tinha mais vez, a música de festival ganhava uma eloquência maior. O [Geraldo] Vandré, que foi típico de festival, fez umas canções que pareciam nordestinas. Os primeiros discos dele eram bossa nova.” Uma bossa nova engajada, nacionalista, contraditando o internacionalismo da bossa nova mãe, sempre tão candentemente denunciado por Tinhorão? Este, não provocado, não explica de maneira mais precisa a conexão entre Vandré e, digamos, John (opa!, João) Gilberto.

Mesmo sem explicitar — insisto, ao menos não de maneira abrangente — em que a “batida” da canção de protesto repete a “cadência” da bossa nova, Tinhorão, instigado por Sá, retoma a velha e notória crítica à bossa nova, uma espécie de “retomada”, ou algo até pior, da música negra americana que produtores e artistas “embranqueceram”. As palavras de Tinhorão: “A bossa nova é uma variante da música americana branca, do cool jazz. Ela aproveita elementos do jazz. No caso do Tom Jobim, ele aproveita muito da harmonia. O número de músicas da bossa nova que eu detectei plagiadas da música americana... Vou te dar um exemplo: aquela música do lobo mau [cantarola ‘Lobo bobo’]. Sabe o que é isso? No filme do Gordo e o Magro tinha uma abertura. Sabe como era? [cantarola melodia parecida]. Foi tirada daí [ri]. E aquela do ‘Sabiá’? Está na ‘Ópera dos Três Vinténs’, do Kurt Weill”. 

Duas coisas sobre a “interpretação” de Tinhorão, um crítico, admito, respeitável e um pesquisador admirável. Primeira, o que parece plágio às vezes é aquilo que o crítico norte-americano Harold Bloom nomina de “angústia da influência”, talvez, numa linguagem mais chã, se possa falar em “tributo” ou “referência”. Segunda, a bossa nova sofreu influência do jazz, mas, adiante, o jazz sofreu (e sofre) influência da bossa nova. Pode-se dizer que a bossa nova “remoça” o jazz, porém, dada a presença de Tom Jobim e João Gilberto nos Estados Unidos, fica-se com a impressão de que a bossa nova é tão-somente escrava do jazz. Mas, afinal, há uma música “pura”? A arte não é uma eterna reciclagem, um eterno retorno?

O que, ao menos na entrevista, Tinhorão não diz é que, como os poetas que criaram o concretismo, os músicos-compositores-cantores da bossa nova comportam-se como ditadores. Antes deles, nada; depois deles, quase nada, exceto os epígonos. Os concretistas “inventaram” os poetas-antecessores, como Sousândrade e Pedro Kilkerry (até Gregório de Mattos Guerra quase vira “mestre”), e tentaram recriar mestres para competir com Carlos Drummond de Andrade, o Fernando Pessoa, o T. S. Eliot e o Jorge Luis Borges do Brasil. Entre os mestres estiveram Manuel Bandeira, primeiro, e, em seguida, João Cabral de Melo Neto. Infelizmente, para o concretismo, nenhum deles aceitou o cabresto da paulistocracia. Os irmãos Campos, Haroldo e Augusto, e Décio Pignatari, mais afortunados como críticos e tradutores do que como poetas, tiveram de contentar-se com epígonos — todos mais raquíticos do que eles próprios. A bossa nova é parecida. Antes de João Gilberto, o país contava com Noel Rosa e Mário Reis, para citar apenas dois exemplos — o primeiro compositor do mais alto nível e o segundo, cantor de amplos recursos, sem o “vozeirão” de Francisco Alves e Orlando Silva (dois cantores subestimados pelo “movimento” bossa-novista), e um artista que antecipa a voz intimista de João Gilberto — e, depois da bossa nova, se tem Caetano Veloso e Chico Buarque. Talvez seja verdadeiro sugerir que, como músicos, os papas da bossa nova são “superiores” a Caetano e Chico, que, vá lá, não são reis do violão. Mas as canções da bossa nova, como música e letra, são superiores às canções de Caetano e Chico? Por certo a bossa nova tem um balanço musicalmente mais ajustado ou harmônico — e é possível fazer boa música com letras sofríveis —, mas o refinamento intelectual e poético de Caetano e Chico não é, nem de perto nem de longe, superado pelo melhor dos artistas da bossa nova, como Tom Jobim e João Gilberto. Estes às vezes são intelectualmente superficiais, rasos. Mas é fato que tiram leite de pedra e conseguem sofisticar musicalmente aquilo que, em termos de ideias, é primário. A diferença entre o concretismo, a bossa nova e a ditadura militar é que esta ruiu, em 1985, e as duas ditaduras artísticas persistem, como a dinastia Castro. São ditaduras ruins? Não sei.

Voltemos, porém, ao Indiana Jones dos plágios, ou Doutor Plágio. Sá provoca e nota que Tinhorão “é conhecido por perceber canções ‘baseadas’ em outras”. “Disparada” foi “tirada de um disco daquele tocador de violão tradicional brasileiro, o Dilermando Reis, em uma toada com arranjo do americanizado Radamés Gnattali. ‘As rosas não falam’ [de Cartola] se parece com ‘La rosita’. (...) Eu não saco nada não. Quando eu falo, é porque eu fui lá. Eu tenho um ouvido desgraçado. ‘Desafinado’, por exemplo [canta os primeiros versos]... Olha um samba de 1934, de Bide e Marçal: ‘Violão amigo, ouve os meus ais...’. Onde nasce a batida do violão do João Gilberto? Esses contratempos que caracterizam a batida do violão dele já estão no contrabaixo de jazz americano”.

O crítico lamenta que os acadêmicos, apesar de todo o aparato de que se cerca, como uma pesquisa detalhada em arquivos e audição direta de centenas de discos, não o aceitam como “historiador” (mas, claro, “bebem” em seus livros). Se isto ocorre, os historiadores acadêmicos estão errados. Mas a crítica ao plágio na arte, que, aliás, não é o foco de seu trabalho, é, sem dúvida, exagerada. Mas vale, sim, um livro mais documentado, inclusive dialogando com os artistas. Às vezes a arte mais bem elaborada não é a original, mas a que surge na sequência, como tributária, porém mais ricamente elaborada.

O nome de Tinhorão é José Ramos e, quando começou a escrever, assinava-se J. Ramos, mas um colega, de brincadeira, mudou o nome para J. Ramos Tinhorão. Ao reclamar, o chefe de reportagem disse que “Ramos era nome de ladrão de galinha”. Ficou Tinhorão. “Tinhorão é aquela planta ornamental em formato de coração.”