Uma reportagem do “Wall Street Journal”, de Lingling Wei, merece a atenção dos governantes e jornalistas brasileiros, porque mostra que a China de fato está jogando pesado para se tornar a primeira potência global. Reproduzo parte do texto, publicado no Brasil pelo “Valor Econômico”: “Interessados em promover o uso internacional do yuan, a moeda chinesa, bancos daquele país estão buscando formas de ampliar empréstimos para países latino-americanos produtores de commodities. O objetivo é favorecer transações em yuan, em substituição ao dólar americano”. Lingling Wei acrescenta: “Desde o início do ano passado, o Banco de Exportações e Importações da China está em conversações com o Banco Interamericano de Desenvolvimento. A ideia é criar um fundo em yuans para financiar projetos de infraestrutura na América Latina e Caribe, regiões fornecedoras de riquezas minerais e produtos agrícolas para o mercado chinês”. “O Ex-Im da China”, escreve Lingling Wei, “se compromete a oferecer até 200 US$ milhões para financiar o comércio entre chineses e latino-americanos. Parte desse financiamento será feito em yuans. (...) Segunda maior economia do planeta, a China aspira ser uma potência mundial, com uma moeda utilizada em todo o globo”. A China “espera que o yuan seja aceito internacionalmente e se torne uma reserva de valor, tal como o dólar, o euro e o iene”.
Como se sabe, quando um país começa a impor sua moeda — e não apenas produtos —, é sinal de que quer competir com a principal potência, os Estados Unidos.
Kissinger lança livro sobre a China
“Sobre a China” (Objetiva, 556 páginas, tradução de Cássio de Arantes Leite), de Henry Kissinger, é um desses livros que, escritos com o máximo de clareza, e mantendo a profundidade, são imprescindíveis. É uma aula magna sobre um país ainda desconhecido pelos ocidentais, mas não pelo estudioso, que mostra paixão pelo país de Confúcio. “A China foi por séculos a economia mais produtiva do mundo. (....) A China produzia uma parcela maior do PIB mundial total do que qualquer sociedade ocidental em 18 dos últimos vinte séculos. Ainda em 1830, ela produziu mais de 30% do PIB mundial — quantidade que ultrapassava o PIB da Europa Ocidental, da Europa Oriental e dos Estados Unidos combinados.”
Kissinger mostra, com rara mestria, como a China sobreviveu a ataques de várias potências, negociando com habilidade, perdendo terreno comercial e, às vezes, espacial, mas mantendo sua unidade. Curiosamente, os chineses tratavam os ingleses do século 19 como bárbaros — o que irritava os súditos da rainha Vitória — e adotava a tática de jogar bárbaros contra bárbaros.
Embora o livro de Kissinger seja muito bom, inclusive simpático à China, vale a pena ler o livro “Em Busca da China Moderna — Quatro Séculos de História” (Companhia das Letras, 960 páginas, tradução de Pedro Maia Soares e Tomás Rosa Bueno), do historiador inglês Jonathan D. Spence. Trata-se de uma pesquisa rigorosa. Falta a Spence o charme textual de Kissinger.