37 anos
Edição 1941 de 16 a 22 de setembro de 2012
Euler de França Belém
Bomba atinge mão de correspondente da TV Record em Israel
Herbert Moraes: “Não há segurança total em nenhum lugar e muito menos na região na qual trabalho”

O correspondente da TV Record em Tel Aviv e colunista do Jornal Opção, Herbert Moraes, está acostumado com situações de risco e frequentemente, ao relatar alguns casos, não demonstra medo e é capaz de rir. A cautela, mais do que o medo, costuma frisar, contribui para a sobrevivência, mas quem trabalha no Oriente Médio sabe que enfrentar situações de risco é inescapável. “Não há segurança total em nenhum lugar e muito menos na região na qual trabalho”, afirma. Na sexta-feira, 14, em Jerusalém Oriental, milhares de palestinos, depois de fazer suas orações na mesquita de Al-Aqsa, criticavam os Estados Unidos e exigiam desculpas públicas do presidente Barack Obama devido ao filme “A Inocência dos Muçulmanos”, de Sam Bacile, em que o profeta Maomé mantém relações sexuais com vários mulheres. No momento em que a multidão palestina e a polícia israelense se enfrentavam, aquela com pedras e esta com bombas de efeito moral, a “latinha” de uma das bombas caiu na mão direita de Herbert Moraes.

“Eu estava ao lado dos palestinos, acompanhando o protesto com o objetivo de relatá-lo para o ‘Jornal da Record’. Quando a bomba me atingiu, nas proximidades do Portão de Damasco, olhei para minha mão direita e comecei a retirar a pólvora. Ao correr, em busca de proteção, caí e machuquei uma perna, que ficou ‘azulada’. Então, o dono de um açougue me viu, convidou-me a entrar no seu estabelecimento, lavou o machucado, retirando a pólvora, e colocou gelo na minha mão. Um gesto de solidariedade”, conta Herbert Moraes. O cinegrafista Arnon Kedem ficou ferido nas costas. Rindo, o jornalista, um dos que mais conhecem a política do Oriente Médio — além do inglês, domina o hebraico e sabe um pouco de árabe —, conta que, assim que pôde, entrou em contato com a redação da TV Record no Brasil: “Temos imagens quentes, inclusive da minha mão machucada”. O colega que ouviu a história, jornalista do primeiro time, disse: “Oba!”. “É assim mesmo que funciona a profissão. Nós temos de divulgar tudo, sem contemplação com nós mesmos. Em regiões mais calmas, jornalista nunca é notícia. No Oriente Médio, como às vezes é ferido ou proibido de entrar em determinados locais, se torna notícia com frequência.”
 
A semana foi difícil, admite Herbert Moraes. “Mas a vida não é mesmo fácil no Oriente Médio e, sobretudo, as crises são o material principal do correspondente estrangeiro. Trata-se de minha profissão. Poderia ter escolhido outra, mais segura, mas não quis.” Na quarta-feira, 12, na Jordânia, na fronteira com a Síria, “ao fazer gravações num campo de refugiados sírios, as pessoas, de repente, começaram a tentar quebrar nossa câmera e a nos agredir. Fomos protegidos pela polícia, mas os refugiados insistiram e queriam nos atacar”. Os agressores, ao saber que o correspondente era (é) brasileiro, ficaram irritados. Disseram que o governo da presidente Dilma Rousseff apoia o ditador sírio Bachar al-Assad. “Eu estava lá como repórter, não como representante do governo Dilma Rousseff, mas, mesmo assim, fui retaliado por ser brasileiro.”
 
A situação no Oriente Médio está complicada até nas portas da Embaixada dos Estados Unidos em Tel Aviv e no consulado em Jerusalém. “Devido ao atentado que matou o embaixador americano na Líbia, fazíamos gravações na porta do consulado dos EUA, em Jerusalém, quando fomos abordados por três agentes da CIA. Eles disseram que, por uma questão de segurança, não poderíamos continuar fazendo as gravações.” Pode-se dizer que a situação está feia no Oriente Médio? Herbert, como trabalha na região há mais de seis anos, avalia que a situação é a mesma de sempre. “Os protestos cessam por alguns momentos e, depois, voltam com intensidade. Há sempre ‘motivos especiais’, ou ‘pretextos’, na avaliação de alguns, para novas revoltas. Agora, é o filme sobre Maomé. Amanhã será outro motivo, mas os alvos quase sempre são Israel e Estados Unidos.” Política e religião são irmãs no Oriente Médio. Uma contamina a outra.