Edição 1882 de 31 de julho a 6 de agosto de 2011
Euler de França Belém
As dez fotos “mais” tristes da história

Uma imagem vale mais do que mil palavras? O filósofo do humor Millôr Fernandes contrapõe: agora diga isto sem palavras? Mas, em relação a certos acontecimentos, é quase impossível acreditar que tenham ocorrido se dependermos tão-somente de narrativas, embora, muitas vezes, uma reportagem (artigo ou livro) de qualidade possa ser mais convincente do que várias fotografias. O diário mexicano “El Universal” listou na edição de terça-feira, 26, o que chama de “as dez fotos mais tristes da história” (listas, sabe-se, sempre são incompletas; no caso, há outras fotografias igualmente tristes). Elas resultam, frisa o jornal, de “alguns dos momentos mais cruéis da história da humanidade”. E pergunta aos leitores se as imagens os deixam indignados. Filósofos e historiadores dizem que as fotografias do Holocausto, mostrando pessoas mortas ou muito magras, não chocam tanto hoje quanto em 1945. Há, por assim dizer, uma naturalização da violência, um sentimento de que os fatos são tão horríveis que, de algum modo, parecem ficções. Ao final do texto, “El Universal” pergunta: você acredita que os trabalhos documentam o sucesso profissional dos repórteres fotográficos ou são apenas mórbidos? Fico com a tese de que se trata de um registro jornalístico, histórico e humano necessário. Mostram o que às vezes não queremos mas precisamos ver.



1 — Desespero no Vietnã

Em 1972, militares americanos jogaram napalm numa área habitada do Vietnã. O fotógrafo vietnamita Nick Ut, atraído pelos gritos de um grupo de crianças, começou a fotografá-las, até descobrir a garota que havia tirado a roupa em chamas e, desesperada, caminhava nua. Ao seu modo, a fotografia contribuiu para apressar o fim da intervenção americana. Afinal, o que crianças tinham a ver com a guerra entre comunismo e capitalismo?







2 — Refugiado no Afeganistão


O site daylife.com, citado por “El Universal”, relata que o menino afegão está se protegendo de uma tempestade de areia num acampamento de refugiados em Kabul, em outubro de 2008. Enquanto os homens brigam por petróleo e poder, vítimas inocentes, como a criança da fotografia, sofrem, quase sempre indefesas. A guerra continua no Afeganistão, agora tendo os Estados Unidos como peça chave, e não mais a Rússia (ex-URSS).







3 — Biafra versus Nigéria


Quando a Nigéria se tornou independente, a República de Biafra seguiu seu caminho, em 1967. Aí começou a guerra. A Nigéria bloqueou a entrada de alimentos e o povo de Biafra passou fome. A guerra durou três anos e mais de 1 milhão de pessoas morreram, sobretudo de fome. As crianças, vítimas de kwashiorkor (doença provocada por falta de nutrição adequada, vitaminas, ferro, iodo), tiveram os músculos “desgastados” e o ventre inflamado.




4 — Execução no Vietnã


A fotografia, feita por Eddie Adams, mostra “o chefe de polícia nacional segundos antes de executar um jovem prisioneiro que declarou ser capitão do Vietcong. A fotografia provocou grande comoção e a opinião pública [internacional, em especial a norte-americana] se voltou contra a guerra”. Vietnã do Sul, apoiando pelos Estados Unidos, e Vietnã do Norte (comunista) travaram uma guerra mortal pelo controle da região. Os comunistas levaram a melhor.






5 — Bomba atômica em Hiroshima


Em 1945, ingleses, soviéticos e americanos haviam vencido a Segunda Guerra Mundial. Mas havia ajustes de contas entre Estados Unidos e Japão e o primeiro queria se firmar como principal player internacional. Resultado: bomba em Hiroshima (e Nagasaki). A fotografia mostra o primeiro bombardeio atômico da história. Morreram, num primeiro momento, 140 mil pessoas. Ao todo, devido às enfermidades, morreram 258 mil pessoas.






6 — Terror no centro do poder


A fotografia do atentado terrorista nas torres gêmeas de Nova York, símbolo do poder financeiro americano, mostra a ação do terror moderno da al-Qaeda de Osama bin Laden, em 11 de setembro de 2001. O jornal “El Universal” escolheu uma fotografia mais neutra da tragédia, enfocando “a debilidade e a vulnerabilidade do” poder americano. Evitou escolher as fotografias mais dramáticas e chocantes de pessoas pulando do edifício.





7 — Fome e fraude no Sudão


Segundo “El Universal, “a versão oficial indicava que a imagem vencedora do Pulitzer mostrava um menino que estava morrendo de fome, enquanto um abutre esperava o falecimento para poder alimentar-se. A realidade é que, embora a fotografia seja impactante, trata-se de uma fraude”. A fome, no Sudão, em 1993, era um fato. Mas o abutre não estava tão próximo do menino como a fotografia sugere. E o menino era assistido pela ONU. O fotógrafo se matou.





8 — Destruição das florestas


Uma foto ambientalista: a Indonésia, diz “El Universal”, é “o terceiro maior território do mundo em florestas tropicais, mas elas estão desaparecendo rapidamente”. O jornal diz que estão derrubando as árvores para fazer papel e para plantações. “A imagem mostra o grande dano que é causado ao ecossistema.” O mesmo ocorre na Amazônia, que está se tornando um imenso vazio, às vezes com pastagens para gado (inclusive de empresários e políticos goianos).





9 — Racismo nos Estados Unidos


A foto vale mesmo por muitas palavras. Mostra a segregação dos negros nos Estados Unidos, no século 20. “Apesar da curta distância entre os lavados para gente branca e gente negra”, é possível ver a diferença de qualidade dos produtos. O para brancos é maior e de melhor qualidade. É como se os objetos “falassem”: “Vocês, negros, são inferiores aos brancos”. A luta dos negros e a consciência coletiva do País melhoraram a situação de igualdade jurídica.





10 — A mão do subdesenvolvimento


“A pequena mão mostrada pela fotografia pertence a um menino faminto de Uganda. Ele é assistido por um missionário” — o dono da mão branca e sadia. “A comparação de ambas as mãos indica o grau de desnutrição do garoto.” A mão do menino parece mais uma garra ou o pata de uma ave de médio porte, tal a finura do braço. Num mundo em que os alimentos sobram, adultos e crianças ainda morrem de fome em vários países. A modernização, nota-se, não é para todos.



A bandidagem das torcidas

Em São Paulo, as torcidas organizadas são tratadas como antros de bandidagem. Alguns de seus integrantes são verdadeiros chefes de quadrilhas violentas. Em Goiás, há indícios de que as coisas, se não são iguais, são parecidas. Em maio deste ano, o torcedor esmeraldino Kaio Lopes de Oliveira, de 19 anos, foi assassinado depois de um jogo entre o Vila Nova e o Goiás. José Fernando Alves da Cruz, de 24 anos, da Sangue Colorado, torcida organizada do Vila, é acusado do crime. Segundo reportagem do “Pop”, assinada por Almiro Marcos, “os grupos não podem ser chamados de torcedores. ‘São quadrilhas travestidas de torcidas organizadas. Esse pessoal não vai ao estádio torcer. Vai para confrontar a torcida adversária. Isso tem a ver com violência. Não tem a ver com futebol’”, disse uma fonte da Polícia Civil ao “Pop”.

Na quinta-feira, 28, foram presos dois torcedores do Goiás. Evandro Rodrigues Cavalcante, de 34 anos (“Diário da Manhã” errou e publicou 33 anos), é acusado de mandar Rodrigo Rodrigues de Souza “matar o adolescente Lucas Arantes Silva de Moraes, de 17 anos”, em 25 de junho deste ano. Evandro não queria que Lucas namorasse sua filha de 15 anos. Mas o “Pop” revela que, na verdade,  “o pai não aceitou que a filha namorasse com o torcedor de um time rival, e, pior ainda, de uma torcida organizada” do Vila Nova.

Winehouse não é Holiday — Os elogios dos “críticos” brasileiros a Amy Winehouse indicam isto: falta de talento mais da mídia do que da cantora inglesa. Winehouse não é a Billie Holiday inglesa. É uma cantorinha. Na falta de grandes talentos e de parâmetros, e agora por ter morrido jovem, vão canonizá-la. 

No Brasil, sobretudo, quando uma pessoa morre, mesmo que não tenha sido uma grande figura em vida, praticamente vira santa e passa a não ter defeitos. Parece ser o caso da santa Amy Winihouse. Antonio Carlos Magalhães, se brincar, ganha imagem em alguma igreja baiana.

Entre nós, até Norah Jones, uma cantora de segunda categoria, ganha elogios fartos da crítica dita especializada. Dou uma dica: se você quiser saber se uma pessoa é emergente, ou quer ser emergente, pergunte se “adora” Norah Jones. Se disser que é “apaixonada”, pronto: é emergente ou quase.

Braga contrata Vassil Oliveira

Jorcelino Braga, que se diz marqueteiro do PMDB, começa a reforçar sua equipe para a campanha eleitoral de 2012. O jornalista Vassil Oliveira é seu mais novo contratado.

A censura do “cabo” Velomar

O prefeito de Catalão, Velomar Rios, não veste farda verde oliva, mas tem complexo de ditador. O “Programa do Jardel”, da Rádio Sucesso FM, faz enquetes com a população, que põe a boca no trombone e reclama da gestão do peemedebista. Irritado com a força da democracia, o “cabo” Velomar recorreu à Justiça para censurar o programa.
A Justiça deveria multar o “cabo” Velomar “Medici” Rios por conduta antidemocrática.

Uma mudança editorial rápida

Curiosidade da imprensa goiana: quando o Jornal Opção publicou, em primeira mão, que Juquinha das Neves iria perder a presidência da Valec e estava sendo investigado pela Polícia Federal, um diário goiano deu notas defendendo o chefe da Celg. Agora, mudou de posição e fala até em prisão do “empresário”.

Várias mortes no transporte coletivo

Seis pessoas morreram, em poucos dias, em acidentes envolvendo ônibus do transporte coletivo de Goiânia. O jornal “O Hoje”, em manchete, “Após seis mortes, MP dá ultimato a empresas”, relata que, em 45 dias, as empresas terão de apresentar “um plano emergencial de segurança nos serviços prestados aos usuários”.

Jornalismo ou publicidade?

Rute Guedes, do “Pop” (sexta-freira, 29), escreve um comentário (não uma crítica) sobre o filme “Capitão América: o Primeiro Vingador”. O título do texto mais parece publicidade: “O super-herói americano”.
O texto da repórter é superior ao título dado. De longe.

Falar em sexo  anal é ousado?

Noutros tempos, a palavra ousadia era usada, quando se tratava de artistas, para discutir suas ideias inovadoras. Chico Buarque e Caetano Veloso, juntos, talvez representem uma ousadia maior do que a ditadura da bossa nova de João Gilberto. Dos mais novos, Renato Russo era a grande promessa de ousadia. Pois agora ousadia, segundo o “Pop”, é a cantora Sandy, com sua voz raquítica, falar em sexo anal numa entrevista à revista “Playboy”. Por si, a entrevista de Sandy à “Playboy” diz muito mais sobre a decadência da revista do que a qualquer ousadia da cantora ou editorial. O próximo entrevistado deve ser o deputado-palhaço Tiririca.

Problemas na impressão

Assunto chato e de pouca importância: a impressão do “Pop” na edição de sexta-feira, 29, alterna trechos claros e trechos escuros. Problemas de impressão, diria Samuel Wainer.

O essencial e o perfunctório

O ministro do Exército, Nelson Jobim, disse que votou em José Serra, do PSDB, em 2010, e deixou a imprensa alvoraçada, notadamente a “Folha de S. Paulo”. Antes de fazer a revelação, o peemedebista teria contado à presidente Dilma Rousseff, do PT.

Mas o assunto merecia mesmo a primeira página da “Folha de S. Paulo”? Claro que não. A reportagem de Fernando Rodrigues deu outra informação de maior interesse público: “Sobre o projeto de Lei de Acesso a Informações Públicas, ora no Senado, Jobim recuou de sua posição inicial. Agora, aceita acabar com o sigilo eterno e fixar em 50 anos o prazo máximo para um documento ultrassecreto ficar guardado”. As palavras do próprio Jobim: “Vamos ser práticos. Daqui a 50 anos, se algum governo achar que tem algum documento [que não deve ser aberto], poderá alterar a lei”.

Sobre a Amazônia, sobre o combate ao narcotráfico, nenhuma linha. A “Folha” optou pela malícia da fofoca.

Médico precisa de chancela acadêmica

O médico goiano Áureo Ludovico de Paula ainda não entendeu que a cirurgia que fazia para reduzir ou acabar com o diabetes só deverá ser aprovada quando ele conquistar um doutorado numa faculdade de medicina consagrada, como a Universidade de São Paulo (USP). As revoluções científicas hoje só são aprovadas se passarem pelo crivo acadêmico.

Sem a chancela acadêmica, Áureo Ludovico, sem dúvida um grande médico, vai ser tratado como caso de polícia.

Só Pop acredita que Mercury é sucessora de Carmen Miranda

O repórter Renato Queiroz, do “Pop”, é um santo. O jornalista diz que a cantora baiana Daniela Mercury é, segundo título de seu texto, “Herdeira da pequena notável”. A pequena notável é a cantora Carmen Miranda. Recomenda-se a leitura da excelente biografia “Carmen” (Companhia das Letras, 632 páginas), do escritor e jornalista Ruy Castro. O livro mostra a importância de Carmen como cantora e atriz. A leitura certamente vai ajudar Renato Queiroz a entender que, se Daniela Mercury é pequena, não é, como cantora, nada notável.

Os elogios de Camille Paglia (que se assume lésbica) a Daniela Mercury dizem mais sobre a decadência intelectual da crítica americana do que sobre as qualidades da cantora brasileira. Antes, Paglia elogiava a cantora americana Madonna! Não estranhe se começar a elogiar Sandy ou Wanessa [Camargo].