Edição 1954 de 16 a 22 de dezembro de 2012
Euler de França Belém
A verdadeira história da espiã que seduziu José Dirceu
Maçã Dourada, Heloisa Helena Magalhães, contribuiu para derrubar o Congresso da UNE em Ibiúna
Heloisa Helena Magalhães, a Maçã Dourada, em dois momentos: jovem espiã, quando era namorada de José Dirceu, e em sua loja de artesanato

A revista “Alfa” escancara um dos segredos (ou meio segredo) da esquerda brasileira: a história de Maçã Dourada, a espiã que, ao conquistar o líder estudantil José “Mensalão” Dirceu, transmitiu informações cruciais para o Dops.

Em 1968, José Dirceu era presidente da União Estadual dos Estudantes (UEE) e, como diz Tom Cardoso, autor da reportagem “O fruto proibido”, “passava o rodo geral”. Era bonito e, por isso, as garotas o chamavam de “Alain Delon dos pobres” e seus companheiros, em tom jocoso, preferiam nominá-lo de “Ronnie Von das massas”. Espalhando charme e cantadas, o militante engatou um namoro meio livre com Heloisa Helena Magalhães, a espiã que o Dops infiltrou no movimento estudantil e que, em seguida, ganhou o célebre apelido de Maçã Dourada. Ela grudou em José Dirceu e assenhorou-se de informações fundamentais sobre o movimento estudantil e as repassava criteriosamente para seus superiores.

Depois de beijos, abraços e muito sexo, José Dirceu desconfiou de Heloisa Helena — parece que há sempre uma Heloisa Helena no caminho pedregoso do ex-guerrilheiro — ao vê-la manuseando uma pistola .22 com extrema destreza. Ela nega: “Nunca peguei numa arma — como ia conseguir desarmar uma?” A serviço do líder, o SNI dos estudantes vasculhou a vida de Maçã Dourada, chegando a invadir seu apartamento e a torturá-la. Um grupo de estudantes, depois de interrogá-lo durante cinco dias, soltou-a em 5 de julho de 1968. “O estrago”, diz Tom Cardoso, “já estava feito: três meses depois, o Dops desmantelou o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, no interior de São Paulo, prendendo cerca de mil estudantes, inclusive José Dirceu”. As informações que “derrubaram” o congresso foram repassadas por Maçã Dourada e outros informantes.

Ao receber Tom Cardoso na cidade de Casa Branca, em São Paulo, Heloisa Helena, conhecida como Zelena, contou que, com o apoio de um jornalista, está escrevendo um livro para esclarecer sua história. Funcionária do setor de Relações Públicas da Secretaria de Segurança Pública, frequentava os redutos da esquerda com uma carteira falsa de estudante.

À revista “Alfa”, Heloisa Helena diz que o nome “Maçã Dourada” foi inventado por José Dirceu. “As informações que vazaram e que caíram nas mãos do Dops não foram passadas por espiãs, e sim pela própria militância, que estava dividida em vários grupos, que nem sempre se entendiam”, diz a Mata Hari patropi. Ela insiste que nunca foi espiã. O ex-delegado do Dops José Paulo Bonchristiano, “um dos responsáveis por desmantelar o Congresso da UNE em Ibiúna”, apoia sua ex-funcionária: “A Heloisa nunca foi espiã. Eu garanto, pois quem infiltrava os espiões na Maria Antônia era eu”. Ele garante que Maçã Dourada era mais uma informante. “Eu sabia do relacionamento dela com o Dirceu. E ela passava informações, sim, e informações muito importantes. Mas daí dizer que ela era uma espiã já é demais”, diz o delegado, que, possivelmente, está protegendo a “aliada” ao reduzi-la de “espiã” para “informante”. O codinome Maçã Dourada, segundo Bonchristiano, não lhe foi dado pela polícia.

O estudante de letras Vicente Roig foi encarregado por José Dirceu a investigar Maçã Dourada. “Cheguei lá [no apartamento da espiã] e achei apenas um documento, um formulário com o nome de Heloisa e o seu codinome ao lado: Maçã Dourada. (...) Eu acho que a Heloisa está mais para laranja do que para maçã. Era uma menina bonitinha, deslumbrada, que circulava entre os estudantes e que certamente foi usada pelos caras do Dops”, contou Roig a Tom Cardoso. O agrônomo e economista José Eli Veiga, um dos chefes da segurança “dos estudantes durante a ocupação da Maria Antônia”, diz que “Heloisa não passava de uma garota que estava vivendo — assim como nós, homens — as vantagens do amor livre, da pílula anticoncepcional, que acabou virando lenda”.

O fato é que o sexo, resultado da “vitalidade” dos hormônios, fez José Dirceu perder a cabeça e, de algum modo, repassar informações cruciais do movimento estudantil ao Dops. O delegado Bonchristiano diz que as informações de Maçã Dourada foram decisivas para a descoberta do Congresso da Une em Ibiúna. José Dirceu era boa fonte. Tantos anos depois da Maçã, a que levou o militante estudantil à prisão, aparece, não uma espiã, Rose (Noronha), a primeira-amiga de Lula. Bem, depois da Maçã, a Rosa. Uma evolução, quem sabe.

(Vale o registro: um furo e tanto da revista "Alfa" e do repórter Tom Cardoso.)