34 anos
Gonçalo Armijos Palácios
Propriedade, violência e crime: a atualidade dos antigos
Nossa omissão de hoje será o inferno dos nossos descendentes

O problema da miséria me interessou desde muito cedo e fui à filosofia para ver suas causas e possíveis soluções. Como tenho dito em outras oportunidades, só li os antigos gregos depois de ler os pensadores modernos e contemporâneos. E precisamente o que me impressionou profundamente foi a atualidade de teses e teorias propostas há mais de dois mil anos.

Foram divulgadas, no outro dia, projeções sobre a população de alguns países daqui a 40 anos. Os dados, naturalmente, não podem deixar de surpreender e assustar. Pois se o mundo continuar crescendo como tem ocorrido e a distribuição de riqueza permanecer a mesma, só podemos imaginar um mundo assustador. A relação entre crescimento populacional (descontrolado), distribuição (desigual) de riqueza e crime já foi motivo de muita preocupação dos pensadores antigos, não só dos grandes filósofos, mas, como diz Aristóteles na sua “Política”, de políticos e até de cidadãos comuns.

Aristóteles lembra um calcedônio que parece ter sido o primeiro a chamar a atenção sobre a relação entre excesso de propriedade e crimes, adiantando uma proposta de igualização de bens. Diz o estagirita: “Os homens não fazem mal somente para satisfazer às suas necessidades – comportamento para o qual Falêas pensa que a igualização dos bens é a cura, evitando que os homens se tornem assaltantes de estrada por causa do frio e da fome; os homens também fazem mal para desfrutar de mais prazeres e para satisfazer seus desejos...” (1267a 1-4). Em seu projeto político, Platão proibia a propriedade para os governantes, mas deixa muitos detalhes obscuros. Aristóteles, partindo do fato de que naquela época “ninguém [era] excluído do direito de propriedade”, em uma de tantas críticas ao seu mestre afirma: “É também estranho que, embora igualizando as propriedades, Sócrates não regule o número de cidadãos, mas deixe a natalidade sem controle, na presunção de que ela seja devidamente estabilizada em um total constante graças aos casamentos estéreis (...) Pode-se pensar em restringir a natalidade, e não a propriedade, de maneira a não ser permitido o nascimento de mais de umas tantas crianças; fixado o seu número, a atenção deve voltar-se para as probabilidades de algumas crianças virem a morrer (...). Negligenciar o assunto, como acontece em muitas cidades, resultará no aumento da pobreza entre os cidadãos, e a pobreza gera a revolta e o crime”. (1265a 38 - 1265b 11)

Quem lê a “República” pode se surpreender ao ler passagens nas quais Platão, sem muita cerimônia, e como quem não diz nada, afirma que os governantes de sua república ideal cuidarão de não deixar que sobrevivam crianças nascidas com algum defeito ou de casamentos não autorizados pelo Estado. Quem conhece história antiga sabe que o controle da natalidade sempre existiu e que em alguns lugares, como em Esparta, eliminavam-se as crianças nascidas dos escravos quando a proporção entre estes e os homens livres aumentava de modo a ameaçar a estabilidade política.

Mas não foram apenas Platão ou Aristóteles os únicos a perceber, já naquele tempo, a necessidade de se controlar o enriquecimento desmedido, a pobreza que resulta disso e o aumento incontrolável da população – assuntos polêmicos e sobre os quais hoje muitos políticos, pensando nas urnas, preferem não se pronunciar.

Vivemos minuto a minuto bombardeados pela ideia de que as possibilidades são infinitas e de que todos podemos, algum dia, estar rodeados de riquezas. Atribuímos a violência quase que a causas naturais. Pois estamos acostumados a que haja ricos e pobres. Mas, como mostram as projeções da população mundial para daqui a 40 anos, o futuro será ainda muito pior que o presente. O que lembra Rousseau, que disse que a crítica ao presente é um elogio aos nossos antepassados e o horror dos que virão depois de nós.

Não discutir os problemas da distribuição desigual de riqueza e o aumento incontrolado da população é condenar as futuras gerações a um mundo de crime e violência inimagináveis. 

Gonçalo Armijos Palácios, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), é articulista do Jornal Opção.