34 anos
Gonçalo Armijos Palácios
EUA: conservadores e liberais
Aos extremos políticos podemos chegar, paradoxalmente, pelas mesmas razões
Jornal Opção

No artigo anterior, o leitor André LDC postou esta pergunta: “Sr. Palácios, acredita ser possível a existência de conservadores pobres? Ou acredita que o conservadorismo de uma pessoa está necessariamente atrelado à sua condição financeira?” Gostei muito da pergunta e respondi, brevemente, na mesma página. Aproveito a pertinência da pergunta para respondê-la mais extensamente aqui. Acho que a resposta à segunda questão é, naturalmente, “não”. Não há uma relação entre ser rico e conservador, por um la­do, e entre ser pobre e progressista, de outro. Manter essa posição é conceber as coisas mecanicamente. Há inúmeros fatores que levam uma pessoa a defender tal ou qual posição política. Essa, basicamente, foi minha resposta. Mas, como disse, gostaria de refletir um pouco mais sobre isso. Perceba-se que acabo de usar o termo “progressista” e não “liberal”. O fato é que os termos não têm um significado que seja independente do contexto do seu uso. Pois, num outro sentido, quem hoje se diz liberal ou neoliberal seria considerado um conservador.

No início do século 20, no meu país, os liberais eram considerados revolucionários e lutaram contra as forças chamadas conservadoras. A partir de então temos os partidos Conservador e Li­beral, tradicionalmente antagônicos. Mas, à medida que o tempo foi passando, conservadores e liberais assumiram o que se chegou a chamar de posições de direita, enquanto aos nascentes partidos socialistas se chamou de esquerda. Assim, as forças de direita são consideradas aquelas que lutam para que se mantenham os privilégios das classes tradicionalmente poderosas e os que dizem lutar contra esses privilégios são considerados progressistas ou de esquerda. Naturalmente, qualquer tipo de caracterização ou classificação, por mais ampla que for, como a que estou fazendo, é sujeita a erros, é meramente aproximada e pode não resistir objeções pontuais. Pois, com efeito, um grupo ou partido que uma vez se disse revolucionário e, portanto, de esquerda, pode, ao chegar ao governo, se converter numa força não só conservadora, como um obstáculo formidável a qualquer progresso. Pode, efetivamente, transformar-se numa força autoritária e repressiva — como aconteceu na União Soviética, na China e na Coreia do Norte. Não faltam  argumentos para dizer, sem ir muito longe, que o governo de Fidel Castro, apesar das conquistas sociais, como na educação e na medicina, se converteu num poder repressivo, autoritário e claramente conservador — curioso que regimes chamados de esquerda terminem, com os anos, numa familiocracia.

O artigo que motivou a pergunta do leitor foi escrito no contexto da política norte-americana. Nos Estados Unidos, “conservador” e “liberal” têm significados mais ou menos precisos. Os republicanos são considerados conservadores e os democratas, liberais. Naquele país, os conservadores, em geral, defendem um governo com pouquíssima ingerência nos assuntos econômicos, são contra regulações no mercado, em geral, e no mercado financeiro em particular. Opõem-se ao limite ou ao controle nas doações nas campanhas políticas; são contrários ao aborto; exigem leis de imigração fortes ou mesmo repressivas; defendem um orçamento militar maior e, ao mesmo tempo, intervenções militares em territórios considerados inimigos; são contrários a qualquer legislação que limite a emissão de gases ou produtos considerados poluidores; negam que o efeito estufa seja causado pelo homem; são favoráveis à pena de morte e a penas e castigos os mais duros; são contrários a conceder os mesmos direitos às minorias ou conceder-lhes direitos especiais, etc. Os liberais, ou democratas, se situariam no lado oposto de cada uma dessas posições. Agora, repito, tudo isso em geral, por um lado, e com qualificações, por outro. Ou seja, uns defendem medidas mais duras, outros, mais brandas, e, dentro da mesma posição, conservadora ou liberal, podemos es­tar mais à esquerda ou mais à direita — assim como conservadores e liberais podem, dentro da sua discordância geral, coincidir em determinados pontos.

Assim, se alguém perguntasse “o que determina que alguém, no lugar que for, seja conservador ou progressista?”, a resposta só pode ser: “os mais variados fatores”. As mesmas razões que podem levar alguém a defender posições muito conservadoras podem levar outra pessoa a defender posições radicalmente opostas. De forma que, pelas mesmas motivações — religiosas ou econômicas, por exemplo —, alguém pode chegar a ser um terrorista de extrema-direita ou de extrema-esquerda.

Gonçalo Armijos Palácios, filósofo e professor da Universidade Federal de Goiás (UFG),  é articulista do Jornal Opção.