
No último artigo refleti sobre as razões que levariam uma pessoa a adotar determinada posição política. Não é incomum ouvir das pessoas que elas são apolíticas. Ser apolítico é uma forma de fazer política — assim como ficar sempre sentado, ou sem aparentemente fazer nada, é uma forma de agir, caso contrário não se condenaria alguém por ter-se omitido a dar socorro, a afastar alguém de algum perigo, por exemplo. Assim como a omissão é uma forma de agir, ser apolítico é uma forma de fazer política.
As pessoas parecem estar naturalmente inclinadas a adotar tal ou qual posição política. Mas, o que deve entender-se por 'posição política’? Digamos, para simplificar, que é a posição que assumimos dentro destes extremos: o do nosso individualismo e os nossos interesses, por um lado, e o do interesses dos demais, dentro dos quais, claro, estamos incluídos, por outro. No primeiro caso, o que importa é, em primeira e última instâncias, defender meu interesse e tentar realizar tudo aquilo que redunde em meu benefício (meu e dos meus próximos, amigos, parentes, associados etc.).
Podemos dizer que, desde crianças, vemos as pessoas inclinadas a estarem mais próximas de um dos mencionados extremos, o do egoísmo e do altruísmo. Por que elas estão inclinadas nessa ou naquela direção? As razões são inúmeras. O curioso é que nenhuma dessas inclinações é, por si mesma, melhor ou pior do que a outra. O egoísmo, das duas inclinações, aparentemente, é um mal em si. Não obstante, há uma importante posição que quis provar o oposto. É a posição que parte do convencimento de que praticamente tudo o que a maioria das pessoas faz é visar seu próprio benefício. No fundo — afirma essa posição — somos egoístas, individualistas e hedonistas. Ou seja, achamos que a felicidade está em procurar nosso próprio prazer a qualquer custo ou na maioria das oportunidades, se não sempre.
Essa posição está por trás da intuição que conseguiu transformar a economia em ciência. É a intuição que tivera o escocês Adam Smith, quem publicou o que se considera a bíblia da Economia Clássica, “A Riqueza das Nações”, em 1776. Depreende-se da teoria de Adam Smith que os processos econômicos podem ser calculados a partir dessa tendência, natural em todos os seres humanos, de se beneficiar em tudo aquilo que fazem. Nessa ideia, por sua vez, está baseada a teoria liberal clássica, que considera que a mão invisível do mercado não controlado pelo Estado permite que a economia de um país prospere. Se Adam Smith tem razão, então, o egoísmo, em última instância, trabalha para o interesse comum. E não duvido que haja pessoas que realmente acreditem nisto, chegando a defender o que hoje se chamaria de posição conservadora ou de direita.
Do outro lado do espectro político estão os que consideram que, se o mercado é deixado sem intervenção do Estado, o que ocorre é, entre outras coisas, exploração do homem pelo homem e exploração da natureza (com todas as consequências negativas para a vida no planeta).
Qual é o problema de se defender uma ou outra posição? Não vejo nenhum, se realmente acreditamos na verdade do que as duas posições mantêm e vivemos tendo em vista o bem. Um dos problemas está em ocultar as reais motivações de defender tal ou qual posição, ou os objetivos reais que se persegue. As eleições presidenciais passadas no Brasil, e as primárias do partido Republicano, nos Estados Unidos, dão prova de como jogam a honestidade e a desonestidade na disputa político-ideológica. Quando a então candidata Dilma tinha disparado nas pesquisas de opinião, um candidato opositor não achou melhor forma de atacá-la que levantar a questão do aborto, direito defendido pela então candidata. E, sem dúvida, o efeito foi imediato, e a candidata começou a cair nas preferências do eleitorado, logo de um ataque maciço da mídia e setores reacionários. Só até o momento em que ex-alunas da mulher desse candidato trouxeram a público a declaração da própria esposa do candidato, quem numa sala de aula teria confessado que, quando no exílio nos Estados Unidos, realizara um aborto. O mesmo aconteceu com um dos principais pré-candidatos à presidência dos Estados Unidos. Por convicção, chegou a defender uma posição favorável ao aborto, só até o momento em que a extrema direita norte-americana começou a atacá-lo por isso.
Não é raro ver, em meios de comunicação de direita e de esquerda, que determinados articulistas dão a impressão de viver com apenas uma ideia fixa na cabeça, que mais que um princípio é uma consigna: “que porcarias vou publicar contra meus inimigos políticos para desmoralizá-los e ridicularizá-los?” Assim, seus artigos são previsíveis, e, leitor, até pelo título do artigo, antes mesmo de ler o seu autor, já poderá saber quem o escreveu. É a guerra entre o fanatismo mascarado da má fé, por um lado, e a verdade, por outro.