Edição 1858 de 13 a 19 de fevereiro de 2011
Alisson Azevedo
Por uma Ideologia da Cultura em Goiás

Os bem demarcados matizes ideológicos que perpassaram o século XX tiveram reflexos diretos na cultura. Tanto é assim que hoje, como antes, fica fácil identificar traços do fascismo, do stalinismo ou do american way of life em determinados movimentos culturais do século passado, sobretudo quando amparados pelo mecenato estatal.

É verdade que alguns artistas do período conseguiram escapar aos escaninhos ideológicos. Mas a maioria deles teve, voluntariamente ou não, sua arte subjugada por patrulhas e aparelhos, de direita, de esquerda ou de centro.

As ideologias, contudo, se acabaram antes que acabasse o século. E a cultura, outrora tão ideologizada, entrou numa era que muitos chamaram de “pós-tudo”, que também pode ser chamada de era do torpor: chata como o fim de século.

Mas prevalece a poética sabedoria de que não há mal que o tempo não cure. O novo século repõe, gradativamente, a cultura em seu lugar de vetor das diversas visões de mundo (ideologias) de uma época. Mundo afora, não há projeto hegemônico consistente que despreze o aspecto cultural. Dos Estados Unidos à China, do Brasil à Índia, todos querem vender, para além de mercadorias, seu “espírito”, seus símbolos, enfim, sua cultura.

E não é mau que seja assim. Quem disputa hegemonia política e econômica deve oferecer ao mundo o que tem de melhor, de original, de universal. E a arte dá conta desses predicados. Não raro isso resvala para a dominação cultural, mas essa é outra história.

No Brasil, a disputa por hegemonia entre os Estados também não menospreza o fator cultural. Para além de se afirmar política e economicamente, um Estado só obterá protagonismo se promover sua cultura. O Estado de São Paulo se mantém hegemônico, mais do que por sua riqueza, por seu capital cultural. A Semana de Arte Moderna (1922), o Museu de Arte Moderna (MAM), a USP (Universidade de São Paulo), o concretismo, etc., emprestam àquela província e, sobretudo à sua capital, o ar cosmopolita que a distingue das demais.

Goiás Em Cena

Somente há um tempo histórico relativamente curto Goiás começou a vislumbrar a possibilidade de estar entre os Estados brasileiros hegemônicos política e economicamente. O crônico “ilhamento” goiano deixou o Estado à margem do desenvolvimento nacional, colocando-o no limiar entre o arcaísmo e a modernidade.

Esse “ilhamento”, embora minimizado com a construção de Brasília, transcende os limites geográficos: se manifesta também na economia, na política e na cultura. Nosso desenvolvimento tecnológico ainda é pífio, nossa representação política nacional é insuficiente (há muito não temos um ministro, por exemplo) e nossa cultura carece de uma ideologia que a sustente.

Forjarmos tal ideologia implica em rompermos com certo ufanismo infantil e com a megalomania típica da periferia. Esses elementos ainda estão presentes em boa medida em nossas artes. Mas vão se tornando artificiais, na medida em que ocorre a adesão da elite do pensamento e da criação ao projeto de elevar Goiás da condição de arcaica província à de Estado moderno.

Essa adesão não implica, porém, em dinamitar o sentido de identidade, o sentimento de pertencimento ou os ganhos da tradição. Significa, ao contrário, engendrar o moderno a partir desses valores. E só a arte é capaz de tal façanha. “Grande sertão: veredas”, obra maior do mineiro Guimarães Rosa, conseguiu transformar um inóspito lugar e sua arredia gente no microcosmos da condição humana. É o mais universal dos romances brasileiros modernos.

Sem uma visão de mundo que leve em conta o aspecto cultural, Goiás estará fadado a cumprir o destino de Estado periférico, ainda que próximo dos centros político e econômico do país.