Edição 1913 de 4 a 10 de março de 2012
Alisson Azevedo
Greve da cultura em Goiás

A quixotesca greve dos professores goianos me fez entrar num transe surrealista. E se os artistas de Goiás – e os profissionais da cultura em geral – entrassem em greve?

Certamente esses proletários da inutilidade levariam pelo menos uma vantagem sobre os mestres: sua greve não seria declarada ilegal pela Justiça. Afinal, como todos sabemos, a arte não é exatamente um serviço essencial.

Em Goiás, Aliás, a julgar pelas aparências, a arte e a cultura são serviços públicos absolutamente dispensáveis. E não se trata de elitismo: nossos ricos não gostam de cultura, e nossa classe média é pródiga em imitar os ricos. (Para evitar uma desconfortável demissão por plágio, dou o crédito dessa ideia de uma elite goiana inculta ao jornalista Euler Belém.)

Mas vamos às aparências da cultura em Goiás. Do Centro Cultural Oscar Niemeyer deveria ser proibido falar. Qualquer censura é abominável, mas quando se trata de mito e monumento, alguma autocensura vai bem.

Estive na inauguração do Niemeyer. O Oscar não veio. O ex-governador Mauro Borges estava lá e me convidou a ir à casa dele. Ou fui eu que me convidei? Não fui ainda.

Lá estava também uma menininha, de uns cinco, seis anos. Queria porque queria ver o governador. A cada autoridade falante, ela perguntava à mãe: “É esse?”

Falou um literato, elogioso e metafórico. Falou o construtor da obra, falou o gestor da cultura, e por fim falou o governador. Nessa hora a menina pediu que a mãe a levantasse do chão e teve seu primeiro alumbramento cívico.

Não soube mais da menina. Do Oscar Niemeyer, o Centro Cultural, sei muito pouco e tenho uma vaga impressão: tudo pronto, nada acabado. Oxalá a menina não queira ir lá.

Oxalá a menina também não queira ir ao teatro Goiânia, em crônica reforma. Ou à Biblioteca Estadual Pio Vargas, cujo poeta homenageado já enviou um poema a um médium de um diário da capital denunciando o desmazelo com os livros – quando há livros.

E se algum erudito enamorado convidar a agora menina-moça a ir ao cinema, que não seja o Cine-Cultura. Ele até que foi reformado recentemente, mas na esfera pública a categoria dos bens duráveis é bastante restrita.

Malgrado esse triste cenário, há um alento. Outro dia li no jornal que o próximo Fica (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental) já tem data marcada.

O Fica já é um patrimônio da cultura estadual. Daqui a 100 anos, será o maior patrimônio da Cidade de Goiás. E será tombado como patrimônio da humanidade. (Haja patrimônio!)

O Fica é a prova internacional dos nove de que podemos fazer (ou premiar) cinema. É por meio dele que exorcizamos nosso atávico ilhamento e enfim rompemos com nossa indesejável condição de província periférica.

Tudo ao Fica! Milhões ao Fica, um monumento ao Fica, uma secretaria ao Fica. E tudo o mais ao léu.

O Fica não é o problema da cultura em Goiás, mas o pretexto. Realizado o Festival, a cada ano “o maior da história”, num infantil silogismo, nada mais há a fazer. A não ser, é claro, o próximo Fica.

E não é fácil superar esse eterno retorno. Mais do que a marca de um governo, o Fica está no imaginário coletivo como a mais importante ação cultural do estado. Ou como a única ação cultural importante.

Em Goiás, o mundo da cultura pode até desabar, inclusive literalmente, e a grande pergunta da imprensa ao secretário ou ao governador ainda será: e o próximo Fica? Ao que eles responderão, no mesmo tom grandiloqüente: “Assim é, se lhes parece”.

Nesse caso, eu fico com  aquele velho ditado: as aparências enganam... “... Aos que odeiam e aos que amam”, diz a canção.