34 anos
Alisson Azevedo
Buarqueanas

Tenho um fraco pelas mulheres do Chico. Gosto das famosas, como a Carolina, de “O mundo passou na janela / E só Carolina não viu”, a Bárbara, de “Vamos viver agonizando uma paixão vadia / Maravilhosa e transbordante, como uma hemorragia”, ou a Beatriz, do antológico “Para sempre é sempre por um triz”.

Mas me fascinam particularmente as buarqueanas anônimas. A mulher abandonada de “Atrás da porta”, por exemplo,  e sua ambígua e constrangedora confissão: “Dei pra maldizer o nosso lar / Pra sujar teu nome, te humilhar”. E a interpretação de Elis, com César Camargo Mariano ao piano, é capaz de desfazer ou refazer o mundo, a depender da paixão, da ocasião ou da razão.

Tem também aquela em que uma subitamente submissa Nara Leão canta seus dissabores conjugais: “Com açúcar, com afeto / Fiz seu doce predileto / Pra você parar em casa / Qual o quê...” E depois de narrar as peripécias de seu fugidio homem, a moça ruboriza as feministas ao recebê-lo, com mesa e cama postas: “Logo vou esquentar seu prato / Dou um beijo em seu retrato / e abro os meus braços pra você”.

Mas as buarqueanas mais legítimas, porque legitimamente desejáveis, são as de carne, osso e alma. Outro dia encontrei uma assim. Ela foi ver um show do Chico no Rio e por pouco não seguiu a turnê. (Talvez pelo emprego, pelo marido, pela casa... “Mas tudo é nada”).

Afora essa deslocada tietagem (e descontada minha descomunal inveja do Chico), essas buarqueanas militantes vivem as canções que elegeram. Assim é que há as buarqueanas de “Eu te amo” (“Ah, se já perdemos a noção da hora / Se juntos já jogamos tudo fora / Me conta agora como hei de partir...”), de “Todo o sentimento” (“Depois de te perder / te encontro com certeza / talvez no tempo da delicadeza”), de “futuros amantes” (“Não se afobe não, que nada é pra já / O amor não tem pressa, ele pode esperar em silêncio”), de “Terezinha” (“O terceiro me chegou / como quem chega do nada”)... A que encontrei por último, pelo tipo de amor que promete (e que desoladamente não sei se entrega), ainda me faz cantarolar “Suburbano coração”:

“A casa está bonita / A dona está demais / A última visita / Quanto tempo faz / Balançam os cabides/ Lustres se acenderão / O amor vai pôr os pés / No conjugado coração”.

Mas acho que ando cantarolando os versos errados da música. É que minha nova musa buarqueana tem um quê de enigma, então nada melhor que algumas charadas do Chico como trilha incerta:

“Será que o amor não tem programa / Ou ama com paixão / Mulher virando no sofá / Sofá virando cama coração”.