34 anos
Everaldo Leite
Esses economistas, para onde vão?
O que ocorre no Brasil é mais ou menos isto, a tentativa neo-estruturalista de fundar uma economia do desenvolvimento pós-moderna

A economia, como candidata à ciência, tornou-se conhecida após o lançamento do livro de Adam Smith, “A Riquezas das Nações, Investigação sobre sua Natureza e suas Causas”. Antes, uns franceses já haviam divulgado algumas ideais acerca da economia, mas foi Smith quem resolveu a questão, mostrando que a produtividade, a indústria e o livre mercado eram as variáveis relevantes no processo de desenvolvimento dos países. Tornou-se, assim, a base para os estudos de David Ricardo, que instituiu a lei das vantagens comparativas, de Malthus, que concebeu a extraordinária teoria da superpopulação, e de J. S. Mill, que elaborou a metodologia de investigação do economista. Smith acabou se tornando um tipo de pai da economia moderna, mas mais ainda, um patrono virtual de todos os movimentos liberais que surgiram nos dois últimos séculos.

Marx foi quem rompeu com a tradição clássica com sua obra “O Capital”. Não importa o que se diga, deve-se reconhecer que ele conseguiu caracterizar bem o capitalismo de sua época e, especialmente, desenvolver teorias respeitáveis como a que trata da reprodução ampliada dos meios de produção ou aquela outra sobre a tendência do sistema a conviver com crises cíclicas. O seu grande problema foi querer ser um oráculo furioso do apocalipse ou intentar fazer o leitor acreditar que o proletariado deflagraria uma revolução benéfica à humanidade. Marx se tornou importante para teóricos em várias frentes do pensamento social, mas, curiosamente, para os economistas que seguiam pela linha liberal é como se não tivesse existido. Mill, um dos maiores intelectuais de sua época, mesmo sendo contemporâneo de Marx, nunca ouviu falar no autor do “Manifesto Comunista”.

Marshall e outros economistas que partiram do ideário smithiano, do mesmo modo, não levaram em consideração os arroubos marxistas e acabaram sendo os responsáveis pela absorção da categoria “Economia” pelo mundo das ciências. Somente com muitos gráficos, cálculos, criação de modelos e elaboração de leis econômicas conseguiu-se a formalização necessária para que os economistas se tornassem realmente cientistas e fossem reconhecidos nos meios acadêmicos. Antes a economia era vista apenas como um ramo estranho da filosofia (onde Marx se circunscreveu). De fato, os livros de microeconomia são fundamentalmente um compêndio de todas aquelas teorias surgidas entre o final do século dezenove e o início do século vinte, quando germinaram os grandes estudos sobre preços e empresas. Os economistas, como classe de cientistas, técnicos e profissionais, sem dúvida, passaram a existir há pouco tempo e muito evoluíram, como veremos.

Antes da crise de 1929 mais de uma dezena de economistas já se mostravam nada satisfeitos com o andamento do laissez-faire, mas foi Keynes, em 1936, que realmente tornou a ruptura possível. Não uma ruptura com o capitalismo, como desejava Marx, ou com tudo que tinha sido estudado até ali, mas com axiomas econômicos que se mostravam elegantes no papel, porém totalmente desconexos com o comportamento do mundo real. Ao mesmo tempo em que criou uma nova ótica para o estudioso da matéria, a macroeconomia, deu início uma nova forma de crítica, mais abrangente. A sua obra “A Teoria Geral dos Juros, do emprego e da Renda”, na verdade, é tida como o primeiro texto de macroeconomia, sendo também a base de várias análises realizadas posteriormente. Hoje é fácil discutir o assunto, mas até o trabalho de Keynes havia uma grande dificuldade em se pensar em economia de forma agregada: todo o consumo de um país, somado a todo o investimento, a todo o gasto do governo e às exportações líquidas etc.. Era um curto-prazista fiscalista e cunhou a frase “no longo prazo estaremos todos mortos”, e este deve ter sido o seu maior erro, já que uma série de fenômenos econômicos ocorre somente no longo prazo, como, por exemplo, o desenvolvimento. De qualquer forma, sua influência foi tão grande que keynesianos, pós-keynesianos e novos-keynesianos ainda pululam atualmente por entre as lacunas das teses do mainstream.

Na América Latina o keynesianismo se ramificou e se misturou com um marxismo de segunda classe, fazendo nascer o que foi denominado “estruturalismo”. Na análise de economistas argentinos e brasileiros, a partir da década de 1950, a América Latina não podia ser observada mais pelo foco das teorias existentes, tendo de ser entendida como localidade periférica, subdesenvolvida e de capitalismo tardio, por isso, dessemelhante à economia de mercado do atlântico norte. No Brasil, Celso Furtado foi o grande nome do estruturalismo, e a sua publicação “Formação Econômica do Brasil” se tornou um clássico da literatura econômica nacional, sendo utilizado obrigatoriamente nas disciplinas de Economia Brasileira em todas as faculdades. O que eles tentaram, na prática, foi apontar as bases para concepção de uma moderna “economia do desenvolvimento”, que servisse de parâmetro para as políticas públicas no resto do mundo subdesenvolvido. A industrialização por etapas, ou por substituição, a utilização da poupança externa e o orçamento deficitário, durante muitos anos foram escolhas estruturalistas, para o bem ou para o mal. Talvez, mais para o mal.

Com o colapso latino, após as crises internacionais do petróleo na década de 1970, houve uma desorientação típica da economia e os países do cone sul foram à bancarrota. Toda a década de 1980 foi de descontrole e de desequilíbrio fiscal e monetário, algo que somente apontava para a ideia de que a ciência econômica tinha que repensar sua agenda para a América Latina. A necessidade de uma visão de longo prazo para a economia, então, aproximou os economistas brasileiros dos chamados monetaristas, uma turma de economistas de Chicago que renovaram o pensamento smithiano e dos seus asseclas oitocentistas ainda na década de 1970. Esses caras, com Milton Friedman à frente, desconstruíram de forma brutal o ideário keynesiano e em uma ou duas marteladas mostraram ao mundo que o liberalismo não tinha opositor a altura. Outrossim, foram eles que deram forma e função à globalização, fazendo os EUA atravessarem o melhor momento de sua história econômica, que o Greenspan apelidou de exuberância irracional, mas levando também o país e hoje a Europa ao seu maior débâcle desde 1929.

Hoje, novamente, estão de volta keynesianos e marxistas em busca da redenção. Com a crise de 2008 os mais bem remunerados gurus do neoliberalismo saíram de cena e uma chuva de artigos científicos e jornalísticos tomaram os céus de assalto, tentando viabilizar, por um lado, um regresso temporão dos argumentos de Keynes, e por outro, uma perspectiva marxista somada a um ambientalismo fundamentado em indignações. O que ocorre no Brasil é mais ou menos isto, a tentativa neo-estruturalista de fundar uma economia do desenvolvimento pós-moderna. Os economistas da vez, aqueles que estão no governo elaborando políticas econômicas, acreditam fielmente na possibilidade de domesticar o mercado através do Estado, impondo-lhe regras e protecionismos ingênuos. Quem for contra que receba a primeira pedrada, ou que encontre algum nicho subterrâneo onde possa assistir os desenlaces dos estratagemas do Mantega, aguardando o momento de retornar à luz do mundo da economia real. Por enquanto, verifica-se que a falta de oposição política não é mais a única questão que incomoda no Brasil do lulopetismo, os economistas do mainstream têm estado tão silenciosos quanto.