Em 25 de janeiro comemorou-se o dia da bossa-nova, o que nos faz refletir um pouco sobre tempos remotos deste país. De repente, na década de 1950, os brasileiros divisavam a possibilidade de superar o subdesenvolvimento e de ver nascer uma nova potência autônoma. Ao som de “Chega de Saudade”, de Tom e Vinícius, o governo JK abria a nossa economia para o investimento estrangeiro de risco nos setores produtivos, atraindo empresas multinacionais, implementava um robusto plano de metas e construía Brasília, fazendo crescer significativamente a autoestima do povo brasileiro e as oportunidades para a consolidação da indústria nacional.
Pela primeira vez tínhamos um modelo de desenvolvimento voltado essencialmente para a consumação de um crescimento econômico acelerado, em ritmo acima dos moldes históricos tradicionais, objetivando diminuir a distância de grau de industrialização e renda em relação aos países desenvolvidos. Ora, entre 1955 e 1961 a produção de aço cresceu 100 por cento, a das indústrias mecânicas, 125 por cento, a das elétricas e de comunicações, 380 por cento, e a das indústrias de equipamentos de transportes, 600 por cento. A produção industrial como um todo cresceu 100 por cento, a taxa de crescimento foi cerca de 7 por cento ao ano, e a renda per capita aumentou 4 por cento ao ano. “Nunca antes na história deste país”, como diria outro alguém, tinha se presenciado tal dinamismo.
Todavia, como já cantavam os bossanovistas, “tristeza não tem fim, felicidade sim”. De fato, os governos posteriores perceberam que, na verdade, nunca existiu almoço grátis, tendo que – agora ao som dos tropicalistas e dos Secos e Molhados – requebrar para pagar a conta JK. Obra e investimentos representavam gastos e como não havia recursos suficientes em caixa para pagá-los, passou-se a tomar empréstimos externos e a se emitir dinheiro. Imaginava-se que o maior crescimento da economia propiciado pelos investimentos criaria no futuro os recursos para saldar os débitos. As coisas não se deram bem assim, e o barco quase afundou. A sorte é que a liquidez andava alta no planeta e o financiamento externo veio bem a calhar durante quase toda a década de 70, sendo interrompido definitivamente somente depois da segunda crise do petróleo. Para os brasileiros mais jovens, a música do final da década era aquela que dizia “nós não vamos pagar nada/ agora é free!/ tá na hora, é tudo free/ vamo embora/ dá lugar pros gringos entrar/ pois esse imóvel/ está prá alugar...”.
Como sabemos, a década de 80 foi perdida (inclusive a música, é claro) e a segunda metade da de 90, apesar das crises sucessivas, um pouco menos confusa. Não fosse o Plano Real e toda a iniciativa do Governo Fernando Henrique para buscar um equilíbrio macroeconômico, com estabilidade de preços, e teríamos patinado feio rumo ao bloco econômico africano, fazendo hoje parceria com a República Democrática do Congo, que fechou 2011 com sua moeda, o franco congolês, valendo 910 vezes menos que 1 dólar. Quer dizer, sem a manutenção da inflação em níveis baixos, estaríamos vivendo num modelo mercantilista em plena era da globalização. Como não consigo ser tão didático, ouça a moda de viola “A inflação e o salário”, de Dino Franco e Mouraí, e vai saber do que estou falando (“eu sou filha do dinheiro ganho desonestamente/ sou neta do juro alto, do agiota sou parente/ eu sou prima do desfalque, do luxo desnecessário/ ajudar ao semelhante pra mim é cosa de otário”).
Depois, durante a década de 2000 – ao fundo o funk carioca (“calma, calma foguetinha, tô ficando atoladinha”), – as ideias desenvolvimentistas já tinham sido esmagadas por uma compreensão tardia de que vencer num mundo capitalista dependia de sacrifícios, éticas específicas e institucionalizações. Mesmo o Lula, com toda a sua história sindical, foi obrigado a se declinar diante dos fatos, orientando o seu governo para um misto de neoliberalismo econômico e populismo social. Deu certo, já que o povo votou novamente no metalúrgico (mesmo com o mensalão) e acreditou que a Dilma daria continuidade às suas políticas. Da parte econômica, principalmente, podemos dizer, sem medo de errar, que a continuidade da estratégia do Banco Central em defender a estabilidade foi a responsável direta por ter alçado o Brasil à posição de destaque que hoje se encontra, mesmo que tenha se constrangido o crescimento em determinados momentos.
Enfim, hoje o mundo rico passa por um momento difícil e os países em desenvolvimento se sentem encorajados, oportunizando até mesmo algumas bravatas do Lula, do Guido ou do Chávez. O tempo da bossa-nova só pode ser encontrado nos sebos e o que restou daqueles tempos de Juscelino, nas estantes dos antiquários, quem sabe num “retrato em branco e preto”. Podemos dizer que o país melhorou sua educação, mas não muito, melhorou sua saúde, mas nem tanto, incluiu uma parte dos despojados e dos miseráveis, mas sem encontrar uma saída definitiva para os mesmos, e, outrossim, que o Brasil retomou o sonho em se tornar desenvolvido, buscando elevar sua própria autoestima e uma melhor posição entre as nações. Aproveitemos, portanto. Ou, repitamos o chavão dos economistas – que proferem por aí que o Brasil dispõe de “janelas abertas” –, cantando juntos com Tom Jobim, “para que o sol possa vir iluminar nosso amor”.
Assim sendo e copiando Daniel Piza, porque ainda não me ufano? Infelizmente, nem o dia da bossa-nova, nem nossas reflexões acerca de um Brasil que quase deu certo, nos faz esquecer de que, apesar de sermos a sexta economia mundial, ainda somos pobres.