Edição 1889 de 18 a 24 de setembro de 2011
Herbert Moraes
Israel está cada vez mais sozinho
As mudanças nos regimes do mundo árabe e o declínio dos EUA deixam os judeus sob alta pressão
Manifestantes queimam a bandeira de Israel em frente à embaixada do país no Cairo: judeus perdem aliados no mundo árabe e ficam em situação mais enfraquecida

A embaixada de Israel no Cairo foi invadida na semana passada, e alguns funcionários quase foram linchados. Manifestantes egípcios só não terminaram o “serviço” porque uma das sete portas de aço que protegiam o escritório não foi derrubada. Só depois de uma ligação do primeiro-ministro de Israel para o presidente dos Estados Unidos, pedindo interferência, é que os israelenses foram salvos por militares egípcios, que entraram no local e os retiraram em segurança do prédio invadido.

O embaixador de Israel na Turquia foi expulso também na semana passada, depois que o país rompeu relações diplomáticas com o Estado judeu porque este não quis se desculpar pela morte de nove turcos após forças do exército entrarem na flotilha que levava ajuda humanitária para Faixa de Gaza no ano passado. Na sexta-feira, 16, foi a vez de o embaixador de Israel em Amã, na Jordânia, deixar o país depois que centenas de manifestantes protestaram em frente ao prédio da representação israelense.

Os longos anos de esforço diplomático para integrar Israel como um vizinho aceitável no Oriente Médio se desintegraram em apenas sete dias. Este é, sem dúvida, o pior momento da política internacional israelense nos últimos 40 anos. A região cada vez mais empurra o Estado judeu para a beira do abismo e só o que Israel sabe fazer é se proteger atrás de muros, liderado por um governo que se recusa a qualquer mudança, movimento ou reforma.

As discussões sobre paz deram espaço para ameaças de guerra. No Cairo, ainda semana passada, o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyp Erdogan, celebrou o retorno do seu país à liderança do Oriente Médio, quase um século depois que o general Allenby e suas tropas expulsaram os otomanos da mesma região. Ele aproveitou para apertar o cerco contra Israel e ameaçou: “As agressões de Israel colocam toda a região em risco e comprometem seu futuro”. Até mesmo o rei Abdullah II, da Jordânia, considerado o mais moderado dos países árabes e um aliado de Israel, se uniu ao grupo e declarou que o Estado judeu vive o seu pior momento e que está enfraquecido.

Nesta semana é a vez dos palestinos, que vão levar o pedido de independência e o reconhecimento do Estado à Assembléia Geral da ONU, que será realizada em Nova York a partir de terça-feira, 20. Israel deverá sofrer mais um golpe na diplomacia, talvez o mais devastador e preocupante de toda a sua história. O texto ainda não está finalizado, mas com ou sem a menção das fronteiras de 1967, os palestinos devem passar pelo Conselho de Segurança e vão ganhar um veto dos Estados Unidos, que vão impedir que se tornem Estado-membro. Na sequência farão o mesmo pedido à Assembléia Geral, que deverá aprovar o reconhecimento do Estado palestino como “observador”, assim como o Vaticano.

A verdade é que, mesmo com o teatro que vai acontecer na ONU, a questão palestina será de fato decidida entre as vielas e becos de Jerusalém, os montes da Cisjordânia e na fronteira com a Faixa de Gaza. Não em Washington ou em Nova York. É claro que uma resolução a favor do estabelecimento do Estado palestino vai conferir status internacional e até encorajar sua população na luta contra a ocupação israelense e os assentamentos. E é justamente aí que Erdogan, o rei Abdullah e os manifestantes no Cairo e em Amã querem chegar. Enquanto isso, por trás deles há um presidente americano que não coopera em nada com Israel e também preferiu se abster de envolvimento mais profundo na questão, depois de uma tentativa frustrada de elaborar um acordo que não saiu.

Israel entra nessa luta contra os palestinos completamente isolado, enfraquecido e com fama de vilão pela comunidade internacional. O primeiro-ministro Benyamin Netanyahu terá de pagar o preço pela onda de mudanças no Oriente Médio, o declínio da superpotência e aliado, a ascensão da Turquia de Erdogan, o progresso nuclear do Irã e o fortalecimento das massas nos países árabes. Netanyahu e generais das forças de Israel vêm tentando passar a mensagem para a população de que o exército está pronto pra qualquer tipo de situação e que se prepararam para o que pode vir por aí depois que passar a votação da ONU. O primeiro-ministro não é responsável pelas mudanças estratégicas que acontecem na região e não queria que elas acontecessem. Por ele, Hosni Mubarak estaria no poder no Egito, a Turquia continuaria secular e a América seria a única superpotência mundial, de preferência com um presidente republicano. Bibi reagiu passivamente às mudanças dramáticas nos países vizinhos e deixou que outros, como a Turquia e o Irã, conduzissem as regras do jogo.

“O mundo está cansado deste conflito e com raiva de Israel, porque o país é visto como conquistador, dominando um outro povo”, disse Ben Eliezer, um parlamentar israelense e ex-ministro da defesa. “Se eu fosse Netanyahu, reconheceria o Estado Palestino e depois negociaria as fronteiras e a segurança. Se nada acontecer, ficaremos apenas com um aliado, os Estados Unidos. E essa relação também não está nada boa.”

Resta saber se o primeiro-ministro vai ouvir o conselho do colega.