Edição 1934 de 29 de julho a 4 de agosto de 2012
Herbert Moraes
Alerta vermelho
Não é apenas o Irã nuclear que pode levar Israel a uma guerra. Os estoques sírios de armas químicas agora também viraram prioridade para o exército e o governo, que ainda está em dúvida se vai atacar ou não a Síria
Soldados da ONU observam antigo posto militar na Colinas do Golan, na Síria

“Um ataque israelense aos armazéns onde estão os estoques de armas químicas e biológicas da Síria deve colocar Israel num conflito militar muito maior.” Foi assim que o chefe das Forças Armadas de Israel, Benny Gantz, se dirigiu ao Comitê de Relações Exteriores e Defesa, na Knesset, o Parlamento israelense. Enquanto Israel fala publicamente sobre o perigo das armas químicas sírias, o maior receio está em outro tipo de armamento: os mísseis capazes de derrubar aviões e helicópteros que podem ser transferidos para o Hezbollah no Líbano. Satélites de Israel e dos EUA permitem observar esses armazéns e a movimentação das armas. Gantz previu, durante o encontro com o comitê, que Assad pode usar as armas químicas contra seu próprio povo e que, nesse momento, os armamentos que preocupam Israel poderiam ser transferidos para o grupo xiita libanês.

Num país onde a cada verão fala-se na possibilidade de uma guerra, desta vez Israel tem um cardápio variado de ameaças que podem desencadear um conflito. A entrada do banquete começou lá no inverno, que foi aquecido pela ameaça nuclear iraniana, mas encontrou um competidor à altura, agora que o ditador sírio Bashar Al Assad revelou ao mundo que realmente possui o maior armamento químico e biológico do planeta. A revelação colocou o exército em alerta máximo. A possibilidade de que um novo front se abra nas Colinas do Golã, território sírio anexado por Israel depois da Guerra dos Seis Dias em 1967, é real, e isso sem esquecer os 50 mil mísseis que o Hezbollah tem nas mãos, bem na fronteira ao lado.

O exército por enquanto tenta acalmar a população e garante que a ameaça vai passar. Mas muitos por aqui já falam que as forças de Israel não serão capazes de deter tantas ameaças. Hoje, já se sabe que, mesmo com um alto investimento do Estado na fabricação de máscaras antigás, levariam dois anos para que toda a população israelense pudesse ter a sua no caso de um ataque. Tel Aviv — a cidade que seria o alvo preferido do Irã, do Hezbollah, do Hamas e da Síria — tem abrigos subterrâneos com capacidade para proteger 40 mil pessoas, só que a cidade tem quase 1 milhão de habitantes.

Mas quem liga para máscaras ou abrigos subterrâneos? Todos aqui já sabem que o exército israelense está esperando o Hezbollah lançar o primeiro foguete Katyucha para daí então acabar de uma só vez com o “problema”. Só que o mes­mo exército já quis fazer isso uma vez e falhou, na guerra de 2006. E foi depois desse mesmo conflito que eles declararam “ter aprendido a lição”. Mas até que ponto? Se o Hezbollah tomar posse de armamentos mais pesados ou das armas químicas forma-se um novo cenário, ainda pior se resolverem usá-las contra Israel. É inimaginável o que pode acontecer, mas prova mais uma vez que tudo é possível no Oriente Médio e que ele está infestado de insanos.

Loucos, porém lógicos

Assad está sob pressão há 17 meses e vive diariamente o receio de perder o poder. No entanto, até agora não abriu fogo contra Israel nem transferiu armas para o Hezbollah. E muito menos o grupo libanês disparou sequer um míssil.

Bashar Al Assad sabe que, para sobreviver, até a guerra tem sua lógica. Ao abrir um front contra Israel ele estará dando de mão beijada para os rebeldes o apoio israelense, que junto com a comunidade internacional destruiria o que ainda lhe resta de poder. E o Hezbollah, o que pensa sobre toda essa situação? Será que o grupo, que já não está tão certo sobre o futuro de Assad e, consequentemente, o abastecimento ininterrupto de armamentos, se arriscaria em atacar Israel sabendo que boa parte dos estoques de mísseis será destruída?

Muitos criticam, mas talvez tenha sido até positivo para o exército de Israel ter mantido a ameaça viva, mas é bom não abusar. O problema é que mesmo que usem a lógica, ainda é difícil acreditar na racionalidade de Nassaralá, Assad e do aiatolá.

As máscaras estão em falta, mas muitos israelenses estão atrás delas, é o mínimo que podem fazer. Eu, como sou es­trangeiro, tive de comprar a minha. Es­pero não ter de usá-la.