
Apesar das críticas sobre os vetos da Rússia e da China a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre a Síria, é exatamente essa a possibilidade que os países-membros do conselho se reservam: o direito de interromper resoluções que possam afetar seus interesses. O veto aconteceu justamente no dia em que 300 pessoas morreram em Homs sob ataque de mísseis e bombas lançadas pelo exército do ditador Bahsar al-Assad.
Países ocidentais e a Liga Árabe reagiram dizendo que China e Rússia estavam compactuando com o banho de sangue que acontece na Síria. Pegou mal? Sim, pegou. Mas foi a ONU que se prejudicou ainda mais, porque expôs a fragilidade da organização: de um lado, existe a assembleia geral na qual votam todos os países, desde uma potência até o menor e mais pobre deles, democraticamente. Do outro lado, em termos operacionais e decisivos, estão as cinco potências mundiais que criaram o direito de veto, em 1945, quando a ONU foi estabelecida, justamente para se protegerem de qualquer outra decisão que possa afetá-los ou a seus aliados. E é justamente isso que mostra o abismo que existe nas entrelinhas do idealismo democrático em que a ONU foi criada.
Rússia e China simplesmente usaram uma ferramenta que, se necessário, está ali para ser usada. Ambos os países veem a ONU como uma organização voluntária, formada por Estados soberanos, mas que, no entanto, não tem o direito de se intrometer nos assuntos internos de seus integrantes. Apesar de nem sempre conseguirem ser bem-sucedidos na tentativa de influenciar as medidas tomadas pela ONU, sempre insistiram que, com relação a algumas resoluções, a organização não infringisse diretamente o conceito histórico de soberania.
No ano passado, Rússia e China se abstiveram quando o Conselho votou a resolução que afetava a Líbia. Desta vez, estão sendo extremamente cautelosos. Não querem ser levados a uma situação similar na Síria. A posição dos dois países também está relacionada aos problemas internos que enfrentam, já que os dois regimes são autoritários e têm problemas parecidos quando o assunto são as minorias. A Rússia já enfrentou e ainda enfrenta as tentativas da Chechênia de independência e a supressão ao levante maior que aconteceu na década de 1990 foi muito mais sanguinária do que o que acontece na Síria neste momento. A capital, Grosny, quase desapareceu do mapa quando os russos atacaram. Milhares de pessoas morreram e parte do apoio que Vladimir Putin tem do eleitor russo vem justamente da atuação de suas tropas na Chechênia. A separação poderia ter causado um efeito dominó no complexo mosaico que é a região do Cáucaso.
A China continua oprimindo os direitos dos tibetanos e dos uigurs, dois grupos étnicos, cada um com seu devido território. Ao vetarem a resolução da ONU, China e Rússia estão evitando dar a chance de possíveis reações desse grupos em seus territórios e também abrir brechas para a comunidade internacional tentar intervir em seus assuntos internos. De fato, até hoje o Ocidente nunca interviu diretamente na questão da Chechênia ou do Tibete porque sempre consideraram assunto doméstico. Da mesma maneira que nunca interferiu na opressão cruel feita pela Turquia contra os curdos.
Mas essas são apenas algumas explicações que podem justificar o veto na ONU. No entanto, há muito mais. A Rússia tem um claro interesse na Síria. Os russos sabem que não pega bem apoiar um regime sanguinário, por isso, logo depois do veto, o governo de Moscou enviou a Damasco o ministro de Relações Exteriores. A viagem, improdutiva, serviu apenas para criar a sensação de que os russos iriam puxar o freio do ditador. Desde que Vladimir Putin chegou ao poder, a Rússia está tentando retomar o status regional que tinha no Oriente Médio durante a era soviética. A Síria foi o que restou do espólio, e é o único país da região onde estão instaladas bases militares russas, além do porto naval de Latakia. Nesse sentido, a política da Rússia é apenas a continuação do que os soviéticos começaram.
O que aconteceu no Conselho de Segurança simboliza a falha das Nações Unidas. Qualquer um que acreditava que a organização era um mecanismo que garantia os direitos humanos ficou desapontado e ficará novamente no futuro. Mas talvez seja dessa frustração que vá emergir uma coalizão entre países ocidentais e a Liga Árabe contra a Síria, mesmo sabendo que as decisões terão de passar novamente pelo crivo de Rússia e China. Isso aconteceu uma vez, quando a ONU ficou paralisada com o que acontecia na antiga Iugoslávia, levando os Estados Unidos e a Otan a tomarem medidas militares contra a Sérvia para prevenir massacres na Bósnia e no Kosovo. Não é nada impossível que isto aconteça no caso da Síria. Paradoxalmente, a chave para a ajuda talvez esteja na Turquia, que, desde o início da revolta, mudou o tom com o regime de Bashar al-Assad e virou um dos maiores críticos ao governo do país de que um dia foi amiga.
Muitas surpresas ainda virão dessa história, por isso não se surpreenda se a crise Síria trazer de volta a tensão entre EUA e Rússia. O fato de os americanos e os árabes agora estarem lutando juntos no mesmo campo pela primeira vez, e em muitas décadas, também é uma delas e demonstra as mudanças significativas que estão acontecendo no mundo árabe.