34 anos
Herbert Moraes
A outra face do Irã
Enquanto o mundo se descabela com o avanço ininterrupto do programa nuclear iraniano, internamente o país se une em torno da ameaça, mesmo num ano de eleição
Fotos: Wikimédia
Mahmoud Ahmadinejad e Ali Khamenei: o primeiro estaria chantageando o segundo com denúncias de corrupção que envolvem um filho do líder supremo­

A Revolução Islâmica no Irã completou 33 anos, na semana passada. Apesar das cerimônias oficiais e demonstrações populares — “oficialmente” organizadas —, não foi um dia de festa. Choveu o dia inteiro em Teerã, e a noite a temperatura despencou para -3 graus Celsius.

Pelas ruas, de acordo com blogueiros, o assunto é “o ano da guerra” contra Israel. Ainda não há pânico, nem medo, mas há muitas perguntas. A China, por exemplo, decidiu interromper a importação de ferro do Irã. E isto quer dizer que as sanções estão surtindo efeito? Não necessariamente.

A Índia anunciou que a importação de petróleo do Irã aumentou 37% em janeiro. A estação de esqui em Shem­shak, nos arredores de Teerã, está lotada de esquiadores (de ambos os sexos) de várias partes do planeta, apesar das medidas restritivas publicadas pela polícia moral do país, que teoricamente “não permite” aglomerações de homens e mulheres. Ainda há empresas de turismo de vários países oferecendo pacotes de viagens para turistas que querem conhecer as cidades milenares da antiga Pérsia como Persépolis e Isfahan.

No Parlamento, que se prepara para as eleições gerais em março, a possibilidade de um ataque israelense ou de outro país não é a maior preocupação. No momento os parlamentares estão em plena campanha para uma eleição que pode ser crucial. Não porque será formado um novo mapa político no Irã, afinal os reformistas decidiram boicotar o pleito, mas porque vai determinar a continuação do legado de Mahmoud Ah­madinejad depois que ele deixar a presidência no próximo ano. Mas, para que isso aconteça, um jogo sujo acontece nos bastidores da política iraniana.

Muitos ministros do governo de Ah­madinejad estão envolvidos em es­quemas de corrupção. Escândalos que envolvem até mesmo o vice-presidente Mo­hammad Reza Rahimi, que foi acusado de cumplicidade num dos piores casos de corrupção no Irã, em que mais de 3 bilhões de dólares simplesmente desapareceram. O rombo nos cofres públicos causou um terremoto no sistema financeiro iraniano em setembro do ano passado. A Justiça exigiu uma investigação e a punição dos responsáveis.

Entretanto, quando ficou claro que o vice-presidente estava envolvido, o lí­der supremo Ali Khamenei, que é quem de fato decide absolutamente tu­do no país, interveio e ordenou que ele não fosse julgado.

Segundo as más línguas, talvez bem informadas, Khamenei não entregou o vice para a Justiça porque está sendo ameaçado por Ahmadinejad. O presidente tem provas de que o filho de Ali Kha­menei, Mojtaba, está envolvido até o último fio de cabelo em esquemas bilionários de corrupção. Ahmadinejad andou espalhando que pode tornar público os podres da família do líder máximo do Irã.

Mas esse não é o único caso que vem incendiando a arena política iraniana. Os grupos mais conservadores que vão concorrer nas eleições estão divididos entre os que apoiam Ahmadinejad e Khamenei. E até as eleições, no próximo dia 3 de março, muita coisa deve vir à tona.

No entanto, a questão atômica não é o assunto que ganha as manchetes no Irã. Pelo contrário, há um consenso nacional com relação ao desenvolvimento de tecnologia nuclear, mesmo que ele possa afetar o presidente Ahmadinejad, já que as sanções impostas pelo Oci­dente começaram a surtir efeito no cam­po econômico e a população já está sentindo isso no bolso. Mas será que os problemas domésticos vão redirecionar a política do Irã com o resto do mundo? Não a curto prazo.

Quando o assunto é política, todos os partidos, dos mais conservadores aos mo­derados, estão utilizando a questão nu­clear para exacerbar o nacionalismo e o pa­triotismo. As sanções, apesar de mais duras, em ano de eleição, estão sendo utilizadas para garantir votos.

Talvez, até as eleições presidenciais no ano que vem, o novo parlamento vol­te a examinar as implicações diplomáticas ao país e proponha alternativas. Até lá, países que querem ver mudanças in­ternas e externas terão que dançar de acordo com o ritmo iraniano — que, no mais das vezes, não tem “parentesco” com o ritmo em geral veloz do Ocidente. Não que os iranianos não sejam pragmáticos. A questão é que “rezam” por outra lógica e cultura.