Edição 1935 de 5 a 11 de agosto de 2012
Irapuan Costa Junior
Governo petista trabalha para desmoralizar as Forças Armadas
J.Lima/Jornal Opção
Castello Branco, Cordeiro de Farias, Eduardo Gomes, Golbery do Couto
e Silva, Ernesto Geisel: os cinco militares pertenciam a uma elite. Hoje,
militares preparados são politicamente esquecidos

Canrobert Pereira da Cos­ta, Cordeiro de Fa­rias, Eduardo Gomes, Góis Monteiro, Golbery do Couto e Silva, Juarez Távora, Mas­carenhas de Morais, Meira Mattos, Odílio Denys, Olímpio Mourão Filho, Orlando Geisel e tantos mais, hoje há um deserto de lideranças nas Forças Armadas.

O preconceito e o menoscabo com que têm sido tratadas as Forças Armadas desde que as esquerdas assumiram o governo federal no Brasil, isto é, desde Fernando Hen­rique Cardoso, merecem uma avaliação. E não nos referimos apenas à questão material, ao atraso no equipar as três armas, tal como requerem nossa dimensão continental, nossas extensas fronteiras e nossos recursos naturais abundantes, sobre os quais devemos exercer soberania. Isto é apenas parte do problema, subconjunto de um todo mais im­portante, uma face apenas de um po­liedro mais abrangente e mais complexo. Exército, Marinha e Ae­ronáutica costumam ser, em qualquer país acima de mediano, isto é, que tenha ao menos uma projeção regional, centros de estudo e formação de pensadores. De formuladores da estratégia nacional. Escolas militares costumam estar entre as melhores, em qualquer lugar do mundo. E não só como centros de formação militar, mas como, principalmente, de estudos geográficos, históricos, administrativos, té­c­­nicos e econômicos.

Apesar do descaso governamental, as FF AA brasileiras ainda mantêm suas ilhas de excelência. Nin­guém pode negar que o melhor centro de formação técnica do Brasil seja hoje o Instituto Tecno­lógico da Aeronáutica (ITA). Co­mo também não pode ser negada a qualidade do Instituto Militar de Enge­nharia (IME). As academias militares, A­cademia Militar das Agulhas Negras (Aman), Escola Naval e Academia da Força Aérea (AFA), não preparam apenas aspirantes a oficiais das forças armadas. Formam cidadãos aptos, após seus quatro anos de curso, com um curriculum que abrange, além das matérias de cunho militar, economia, administração, filosofia, psicologia, etc., a exercerem, se quiserem deixar a farda e complementar esse estudo, várias profissões liberais. Tudo isso com uma base de disciplina, moral e patriotismo agregada à sua formação.

O Exército Brasileiro tem ótima Escola de Administração; Exército e Marinha dispõem de Escolas de Saúde. Isso, com grande sacrifício e permanente falta de verbas. As escolas militares põem uma ênfase especial no respeito ao País e a seus recursos. Não admira que os batalhões de En­ge­nharia do E­xército cons­tru­am estradas me­lho­res e mais ba­ratas, e até devolvam recursos ao Te­souro, como vimos muitas vezes noticiado. Por outro lado, a formação militar, exigindo que se trabalhe em vários pontos do território nacional, faz com que os oficiais mais antigos e experimentados conheçam o País mais que outros profissionais e te­nham uma noção mais inteira de nos­sa nacionalidade.

Digam o que disserem os raivosos que integram nossa política, nossas universidades e nossa im­prensa, Castello Branco e Er­nesto Geisel foram os nossos mais competentes e íntegros presidentes, desde Juscelino Kubitschek. Se nunca um brasileiro obteve um prêmio Nobel, e essa verdade nos humilha, não é menos verdade que ao menos quatro patrícios estiveram à altura de recebê-lo, sendo um deles militar. Não chegaram até lá por razões várias, inclusive por falta de quem os projetasse: o médico Carlos Chagas, o sociólogo Gilberto Freyre, o físico César Lattes e o marechal Candido Ma­riano Ron­don. Se até pouco tem­po atrás militares existiam, cujo nome era sinal de respeito e admiração, como Canrobert Pe­reira da Costa, Cord­eiro de Fa­rias, Eduardo Gomes, Góis Mon­teiro, Golbery do Couto e Silva, Juarez Távora, Mascarenhas de Morais, Meira Mattos, Odílio De­nys, Olímpio Mourão Filho, Or­lando Geisel e tantos mais, hoje há um deserto de lideranças nas Forças Armadas.

Se elas próprias limitaram o brilho de seus oficiais generais, impondo a eles uma presença máxima de 12 anos na ativa, foram os governos de esquerda que, sistematicamente, procuraram su­focar o surgimento de líderes fardados, ca­rim­bando como in­devida a par­ti­ci­pa­ção dos mi­­­­­li­tares nas dis­cus­sões na­ci­onais. É um tipo de re­vanche. Afi­nal, os planos da “es­querda revolucionária” não prosperaram graças aos militares. Isto vem desde a criação do Ministério da Defesa, entregue sempre a titulares civis dissociados dos problemas das Forças, fracos, sem brilho intelectual, incapazes de levantar a nível mais alto as necessidades e direitos de Exército, Marinha e Aeronáutica, sempre acumulados de deveres. E deveres externos, como os que lhes atribuíram no Haiti, ou internos, devidos ou indevidos, como policiar morros tomados pelo tráfico.

Não podemos deixar de comentar a sistemática campanha de desmoralização do Exército, vendido como patrono de uma ditadura que não existiu, ao menos como a de Cuba, essa sim, sem liberdade de ir e vir, sem pluripartidarismo, sem propriedade privada, sem imprensa livre e sempre pronta a encarcerar ou eliminar adversários. Embora não se noticie, os nomes mais independentes e proeminentes das Forças são marginalizados no ocupar as posições mais importantes na administração militar e nas promoções.

Postos nos primeiros escalões da administração federal para egressos da caserna? Nem pensar, por mais competentes que sejam. Nada se pode alegar contra e muito se poderia alegar a favor de entregar a um militar o Ministério da Defesa ou a Secretaria de Assuntos Es­tratégicos. Essa discriminação, bem ao estilo gramscista, não atinge apenas aqueles que são mais veementes na defesa da farda, e por isso mesmo, in­jus­tamente tachados de radicais, e até calados, indevidamente, de maneira autoritária, antidemocrática, em suas manifestações, como ocorreu com o general Augusto He­leno Ribeiro Pereira.

Um almirante como Mario César Flores, um intelectual respeitado, um estudioso que muito sempre teve a dar ao país, não é sequer ouvido, assim como um general do porte de Leônidas Pires Gonçalves e muitos outros militares experientes, e democratas verdadeiros. É uma democracia de fachada a que despreza a contribuição do preparo e da inteligência de seus militares. Se os segrega, está a caminho de não ser uma democracia.

Os EUA nunca deixariam de lado a contribuição do general Eisenhower, duas vezes presidente e de outros militares preparados e ilustres, como mais recentemente o general Colin Powell, secretário de Estado de George W. Bush, e a­poia­dor de Barack Obama em sua eleição.

Na Alemanha, no pós-guerra, muitos oficiais da antiga Wermacht, e que não tiveram envolvimento político com o nazismo, foram chamados a cooperar na reconstrução do país e na organização da Otan. De Gaulle era militar, assim como muitos de seus principais ministros e auxiliares que reergueram a Fran­ça. Marginalizar militares competentes, dispensar sua valiosa colaboração intelectual, é privilégio de países que não precisam planejar, que dispensam pensar o futuro, e não necessitam se preparar para ele. Países ricos e com todos seus problemas resolvidos, como o Brasil.