34 anos
Irapuan Costa Junior
Dilma não agiu como estadista em Cuba
Dilma Rousseff e Raúl Castro: no lugar de criticar a dinossáurica ditadura cubana, a presidente brasileira erra e critica a democracia americana

Um estadista é uma pessoa de visão. Nelson Mandela, liberto da prisão em 1990, era o virtual presidente de uma África do Sul livre do apartheid. Era só uma questão de tempo. Em 1994, seria eleito e permanece até hoje, embora tenha exercido a presidência apenas até 1995, líder maior de seu povo. Um estadista não é uma pessoa pequena, voltada para vinditas de caráter pessoal. Quando se preparava para assumir o governo sul-africano, lideranças negras de vários lugares do mundo incitaram Mandela a uma vingança quando tomasse as rédeas da nação. Os brancos que o haviam mantido encarcerado por 28 anos deviam agora ser objeto de uma devassa e de um castigo severo. A resposta de Mandela foi firme: “Você não constrói uma nação grande e unida com base na vingança”. E a África do Sul é hoje um país pacificado, onde a maioria negra, que sofreu todo o preconceito racista da minoria branca, respeita democraticamente essa minoria e convive em paz com ela. Mandela exigiu que fosse assim. Houvesse lá uma Comissão da Verdade e o país estaria imerso numa imensa conflagração. Aqui, o rebotalho do stalinismo quer porque quer crucificar os militares que o derrotaram na tentativa de sovietizar o gigante deitado em berço esplêndido. Com apoio da presidente, que — essa viagem a Cuba mostra — não conseguiu entender que sua missão constitucional é imensamente maior que seu drama pessoal de guerrilheira derrotada. Um estadista é alguém voltado para o futuro, nunca para o passado. E deve ser uma pessoa de coragem.

Angela Merkel, na semana passada esteve na China. Que promove, para inveja das esquerdas do mundo todo, um casamento do capitalismo com o marxismo, com separação de bens. O capitalismo toca os negócios segundo suas regras e o marxismo domina a política, com toda sua truculência e falta de regras. O prêmio Nobel chinês Liu Shiaobo está preso, por dissidência. Seu advogado, também dissidente, pediu audiência a Merkel. Como a blogueira Yoani Sanchez fez com Dilma, em sua visita a Cuba. Merkel o convidou para jantar, embora só ficasse três dias na China, com uma agenda repleta. Dilma ignorou Yoani, embora não fizesse outra coisa em Cuba que não passear e amarrar nosso dinheiro no rabo do dinossauro. Merkel não teve como conversar com o advogado Mo Shaoping, preso em casa pela polícia chinesa para malograr o encontro. Mas cobrou dos líderes chineses, respeito aos direitos humanos inclusive no Tibet. Dilma não só não cobrou nada dos engelhados ditadores cubanos, como criticou os EUA pela prisão de Guantánamo. Por que a diferença? Questão de estatura moral, que separa uma estadista de uma simples presidente, eleita com prestígio alheio.

Presidente deve aprender com Merkel

Um amigo que vive na Alemanha me relata algumas particularidades sobre Angela Mer­kel, que morou por décadas na Alemanha Oriental. É filha de um pastor luterano que chefiava uma pequena igreja na cidade de Quitzow, próximo de Berlin. O pastor pode ter sido um agente da Stasi, a Gestapo comunista da Alemanha Oriental. Tinha privilégios que só podem ser explicados por essa militância. Vivia com certo fausto, inacessível em qualquer país comunista para os que não pertencem à nomenklatura. Viajava sem restrições entre as duas Alemanhas na época da Guerra Fria, algo impensável para um cidadão comum, principalmente um religioso. Se não bastasse isso, sua mulher foi membro do partido (evidentemente o único, na Alemanha comunista).

A própria Angela, de cuja juventude quase nada se sabe, teria sido também mais que uma simpatizante, também uma militante, quando estudou Física e se doutorou na Universidade de Leipzig. Ela própria faz questão de não lançar luzes sobre esse período de sua vida. Arre­pen­dida, talvez. Mas sabe-se que ela fala (e lê) fluentemente o russo, o que dificilmente uma universitária alemã de ciências exatas conseguiria, a menos que nutrisse grande admiração pela União Soviética. Não podemos nos es­quecer que a língua russa, eslava, não guarda qualquer semelhança com o alemão, língua germânica. Até o alfabeto russo, cirílico (com 33 letras), é completamente diverso do alfabeto latino, que o alemão usa. Se foi mesmo comunista na juventude, coisa comum no mundo todo, Angela Merkel abdicou da crença quando amadureceu, algo também comum, mas só entre os comunistas inteligentes. A ser verdade, Merkel seria uma espécie de Dilma Rousseff alemã, apenas curada da doença comunista e com uma visão e uma grandeza de estadista. Dilma estará com ela nos próximos dias. A­pren­derá algo?
 
Falta transparência ao governo federal na questão das ONGs
 
Após os escândalos que derrubaram os ministros do Trabalho, do Turismo e dos Esportes, ficaram mais evidentes as irregularidades que vinham sendo apontadas já há algum tempo pelos setores mais independentes da imprensa. Principalmente as relativas à corrupção via das ONGs ligadas a partidos ou a personalidades políticas. É uma aberração nacional. Aqui organização não governamental vive à custa de dinheiro... do governo. É a mais governamental das organizações.

A queda sem precedentes de ministro após ministro exigiu que o governo se mexesse nesse particular, o que vem fazendo cautelosamente. Convém a ele não ser muito afoito no tratar com a turma das ONGs. Afinal, a maioria parece ser de “companheiros”. Mesmo assim, a CGU promoveu um levantamento em uma “amostragem” de ONGs, e em convênios assinados com 1,4 mil delas encontrou suspeita de irregularidades em 305 e comprovação em 181 (cujos convênios foram suspensos). Isto é, em um terço da amostra, as coisas não cheiraram bem. O governo dispõe de um sistema de controle de repasses de verbas a essas entidades, o Sistema de Convênios do governo federal (Siconv). Ocorre que desde 2008 até 2011, a bagatela de 26,5 bilhões de reais foram repassados sem registro no Siconv, de um total de quase 50 bilhões. Mais da metade, portanto, dessas liberações foram feitas sem controle. Imagine-se quantas ocasiões para que se fizessem os ladrões. O governo promete rigor e transparência a partir deste ano. Até agora, empresas acusadas de grossas irregularidades ainda convivem com autoridades e se sentem à vontade com elas, como a Viva Rio e o Instituto Sangari, para citar apenas duas. Mesmo se ocorrer essa vigilância que o governo federal promete, ficam ainda os furos de que essas ONGs se aproveitam nos governos estaduais e municipais. Um problema.
 
Irresponsabilidade de Jaques Wagner
 
O político que destila o veneno do cinismo na oposição está fadado a tragá-lo em dobro se subir ao poder. O PT durante duas décadas acusou indiscriminadamente de corruptos todos os políticos de outros partidos que ocuparam os governos. Com sua sede de poder vintenária, foi depressa demais ao pote, tão logo Lula se instalou no Planalto, e o resultado foi o iceberg de corrupção, de que a parte visível é o mensalão, do governo anterior. Ou a queda — recorde mundial — sucessiva de ministros do governo atual. As privatizações, amaldiçoadas nos governos que não do PT, como pecado capital e de lesa-majestade, foram promovidas a virtude nesta semana, com a venda dos aeroportos, que o governo reconhece não ter competência para administrar, com a Copa e as Olimpíadas batendo na porta.

Jacques Wagner, governador da Bahia, velho insuflador de greves quando oposicionista, inclusive greves da Polícia Militar baiana, foi colhido pela mais grave delas, quando passeava na Disneylândia dos comunistas, sem nada ter que fazer na Ilha, junto com a presidente. A irresponsabilidade parece à primeira vista mercadoria gratuita. Mais cedo ou mais tarde, vai cobrar seu preço. Salgado.