Edição 1889 de 18 a 24 de setembro de 2011
Irapuan Costa Junior
A Alemanha não fez a bomba atômica porque perdeu cérebros para os Aliados
Albert Einstein, um dos maiores físicos do século 20: perse-
guido por ser judeu, saiu da Alemanha e foi contribuir com a
ciência noutro país

A Alemanha, no início do século 20, era a potência mais avançada em tecnologia no mundo. E o foi até o começo da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando Adolf Hitler, com sua intolerância racial, política e religiosa, afugentou os maiores cientistas, muitos deles judeus, que buscaram outras plagas para trabalhar, estudar ou lecionar. Einstein foi um deles. E a Alemanha ainda se beneficiou desse avanço durante a guerra, de forma tal que pôde construir armas avançadíssimas para a época, como os primeiros aviões a jato, ou os foguetes terra-terra (as bombas V-2) ou ar-ar, usados quando a guerra já estava perdida, mas que mesmo assim fizeram muito estrago nas cidades inglesas e esquadrilhas de bombardeios aliados.

Graças ao êxodo de cérebros, os alemães não puderam chegar à mais decisiva de todas as armas de então, a bomba atômica. Uma mostra desse avanço tecnológico aparece num artigo do famoso diretor do FBI, J. Edgar Hoover, que chefiou a polícia federal americana por 48 anos, inclusive durante toda a guerra. No artigo, escrito no início da década de 1950, pouco depois da rendição do eixo, Hoover conta como o FBI, encarregado da descoberta e prisão de espiões nazistas em território americano labutava para vencer os desafios. Este artigo chegou a ser traduzido para o português e publicado no Brasil pela revista “Seleções do Readers Digest”.

O FBI havia descoberto um canal de correspondência que tudo indicava ser destinado a instruir espiões. Contudo, por mais acurados que fossem os exames das cartas, nada se notava de anormal nelas. Chegaram a levá-las ao microscópio, quando um ponto final, no término de uma oração, brilhou um pouco mais à luz do aparelho. Examinando bem, o cientista viu que o ponto não era impresso, mas colado à carta. Destacado, mostrou-se uma mensagem completa, numa fotografia miniaturizada até a dimensão de um ponto de uma máquina de escrever comum. Muitas mensagens já deveriam ter chegado a seu destino por essa via. Hoover pensou de início em substituí-las  por outras falsas, que despistassem ou levassem a armadilhas os espiões nazistas. Não teve como fazê-lo. Os americanos não conseguiram fabricar uma emulsão fotográfica tão perfeita, com a granulometria dos sais de prata tão diminuta como a que era usada pelos alemães.

Um magistral livro de Charles Dickens

Um dos livros mais lidos de todos os tempos é um romance histórico de Charles Dickens. Entre nós muito menos conhecido do que “Oliver Twist”, “As Aventuras do Sr. Pickwick” ou “Conto de Natal”. Foi publicado em 1859, e chamou-se, originalmente, “A Tale of Two Cities” (traduzido para o português como “Um Conto de Duas Cidades” por Débora Landsberg, em edição de 2010 da Estação Liberdade). Vendeu até hoje, apenas nos países de língua inglesa, mais de 100 milhões de exemplares, estimando-se sua tiragem total, até agora, como acima dos 200 milhões. Pouquíssimos livros não religiosos atingiram esse volume.

Foi, como todo sucesso editorial, filmado em várias versões, nos EUA e na Inglaterra, a primeira em 1935 e a última em 1980. Ambientado em Paris e Londres (as duas cidades do título), na época da eclosão da Revolução Francesa, mistura história, romance, aventura e boa dose de suspense. Fácil de ler, leve, o que explica em parte seu sucesso, para o qual concorreu, sem dúvida, o nome do autor, já então, quando editado o livro, consagrado nas letras inglesas e com fama mundial. É também um ótimo volume para ser lido nas entrelinhas. A concepção inglesa da Revolução Francesa é inserida ali, em cada página, em cada cena, em cada episódio ou capítulo, ainda que sub-repticiamente. Os franceses (e as esquerdas em geral) pintam a Revolta como o maior dos movimentos libertários do mundo, filha do iluminismo, redentora dos explorados, punidora dos opressores componentes da igreja e da nobreza, promotora da igualdade.

A materialização do lema de Rousseau: Liberdade, Igualdade, Fraternidade. A complexidade dos movimentos que a compuseram é pouco explorada, seus excessos minimizados perante sua dimensão histórica, que era a própria dimensão da França. Os ingleses, tradicionais rivais dos franceses, sempre viram a Revolução como um movimento transitório, sangrento, tumultuado e de certa forma inútil, uma vez que, ao longo de dez anos, havia apenas derrubado a monarquia dos Luises para criar o império de Napoleão Bonaparte, com toda sua sede de conquista.

Lembremo-nos que a primeira-ministra Margareth Thatcher, convidada para os festejos do bicentenário da Revolução Francesa, recusou-se a comparecer, alegando que nada havia a festejar. Dickens, em seu livro, evidencia essa visão: o Terror Jacobino, as execuções de inocentes, as delações, a ausência de parâmetros legais, os excessos praticados pela turba sem controle. Liberdade, Igualdade, Fraternidade — ou Morte, é como aparece no livro o mote de Jean-Jacques Rousseau. 

A história de como morreu o marechal Erwin Rommel

Um dos segredos do nazismo — a circunstância da morte de Rommel — foi muito bem guardado até o final da guerra, só vindo a ser revelado com a morte de Hitler e a vitória dos aliados.

A versão oficial era de que Rommel havia falecido em razão de sequelas dos ferimentos sofridos quando dois caças britânicos metralharam seu carro, em 17 de julho de 1944, em Livarot, ao sul do Havre. De fato, ele fora gravemente atingido. Mas foram outras as razões de sua morte.

Rommel permanecera em sua casa em Herrlingen, perto de Ulm, convalescendo. Em 14 de outubro (de 1944), já praticamente recuperado, estava em companhia de sua esposa, Lucie-Maria, e de seu filho Manfred, de 16 anos, mas já soldado, quando recebeu a visita de dois generais, Ernst Maisel e Wilhelm Burgdorf. Conver­saram a sós, Rommel e seus dois colegas de farda. O marechal, terminada a reunião, subiu até seus aposentos, onde estavam a esposa e o filho, e comunicou a eles que estaria morto dentro de 15 minutos.

Maisel e Burgdorf haviam dito que tendo Hitler se convencido de que ele participara da conspiração de julho daquele ano, quando o ditador quase morrera num atentado a bomba, oferecera uma escolha: se Rommel se envenenasse, receberia honras de Estado e teria a família preservada. Caso contrário, seria julgado por uma corte marcial, enforcado como traidor e a família internada em um campo de concentração. Rommel preferiu preservar a família.

Manfred argumentou que preferia lutar, começando por matar os dois generais. Rommel não aceitou, até porque haviam soldados das SS nas proximidades da casa. Vestiu sua farda e seguiu com seus dois verdugos. Pouco depois, o mais famoso general (marechal, na verdade) alemão tomava o veneno e morria. Maisel sobreviveu à guerra. Foi feito prisioneiro pelos americanos, mas foi libertado poucos anos depois. Burgdorf suicidou-se no “bunker” de Hitler, quando os russos estavam prestes a tomá-lo. Manfred tornou-se um político estimado, membro da democracia cristã alemã. Foi prefeito de Sttutgart por 22 anos, de 1974 a 1996. Vive ainda.