37 anos
Edição 1990 de 25 a 31 de agosto de 2013
Rafael Jardim
Mais uma vez, o Congresso cospe na cara dos brasileiros
Só o fato de o Congresso poder decidir se mantém ou não o mandato de um parlamentar condenado à prisão pela Justiça já é por si uma aberração e um deboche à nação

A manutenção, pela Câmara, do mandato do deputado rondoniense Natan Donadon (sem partido, ex-PMDB) deve entrar na história como uma das maiores cuspidas no povo brasileiro que o parlamento brasileiro já desferiu. Não porque eles já não tenham feito coisas semelhantes em outros tempos, mas pelo significado de fazer isso pouco mais de dois meses depois de milhões de brasileiros terem ido às ruas exigindo, entre outras coisas, um pouco mais de decência por parte da classe política.

É preciso que fique claro: independentemente do como, seja por efetivamente ter votado pela não cassação, seja por ter se abstido, seja por não ter votado (apesar da presença no Plenário), seja por ter se ausentado da Câmara, qualquer um dos deputados que não aqueles 233 que votaram pela cassação de Donadon tem sua parcela de culpa no resultado. Em matéria do O Popular de hoje (sexta), os três deputados goianos que não participaram da votação se justificaram.

Marina Santanna (PT) explicou que foi levada a crer que não haveria votações polêmicas, e que portanto foi realizar atividades de trabalho em Goiânia. A deputada goiana é amplamente respeitada pela sociedade goiana, inclusive fora do campo da esquerda. Ela afirmou que votaria pela cassação de Donadon. Pelo seu histórico e seu prestígio, os goianos podem acreditar que sim, ela realmente teria votado pela cassação. Porém, se quiser manter esse prestígio, é de bom tom que ela faça sua mea culpa. Como deputada, ela deveria ter se informado melhor sobre a pauta do dia. E mais: as sessões no Congresso ocorrem apenas de terça a quinta justamente para que os parlamentares possam realizar suas atividades fora de Brasília entre sexta e segunda. Portanto, independentemente da pauta, quarta-feira é dia de ficar em Brasília.

Jovair Arantes, líder da bancada do PTB na Câmara, se justificou dizendo que tinha um check-up marcado há muito tempo no hospital Sírio Libanês. Ora, check-up é check-up. Por uma pauta relevante, não seria mais republicano adiar um compromisso pessoal – não urgente – para cumprir uma tarefa de homem público, ainda mais se tratando do líder de um partido?

Dos três goianos que não votaram, talvez o único que tenha apresentado uma justificativa realmente pertinente foi o deputado Heuler Cruvinel (PSD), que explicou ter ido para Rio Verde participar do velório de um aliado.

De qualquer maneira, é bom que tenhamos consciência de que, dos outros 14 deputados goianos, certamente não foram todos que votaram pela cassação de Donadon. Quem votou pela não cassação? Nunca saberemos. E não seria nada responsável fazer especulações. Diferentemente dos outros três, foram “salvos” pelo voto secreto.

Muitos estão dizendo que a manutenção do mandato de Donadon foi meramente um “laboratório” para manter os mandatos dos mensaleiros condenados. Sem dúvida, há lógica nessa especulação. E se for isso mesmo – descobriremos em breve, quando chegar a vez dos mensaleiros – o PT estará atuando mais uma vez para destruir a sua credibilidade perante o povo brasileiro.

Na realidade, uma parcela do PT. Oficialmente, a orientação do partido foi pela cassação do deputado rondoniense. Sem dúvida, muitos deputados petistas votaram, mesmo, pela cassação. Outros, sem dúvida, votaram pela não cassação. Em termos proporcionais, podemos ver que quase um quarto dos deputados petistas não votou. Não foi a maior proporção, já que 27% dos deputados do PSD, um terço dos do PR e 36% dos do PP não votaram. Porém, no fim das contas, se a não cassação de Donadon tiver mesmo sido um ensaio para a não cassação dos mensaleiros, quem vai pagar a conta disso, eleitoralmente, é o PT, mesmo que não tenha contribuído sozinho para isso. Se os petistas não quiserem colocar mais uma mancha na sua história, é bom que tenham consciência disso.

Termino fazendo algo que nunca achei que faria (mas também nunca hesitaria em fazê-lo se achasse pertinente, como agora): citar e endossar o deputado goiano Ronaldo Caiado (DEM). “A partir de agora, como vamos cobrar da sociedade brasileira o cumprimento de normas, sendo que esta Casa deu um atestado de idoneidade a um cidadão que já foi julgado e condenado por corrupção?”. Pois é, deputado. Pois é.