Edição 1998 de 20 a 26 de outubro de 2013
Rafael Jardim
Imprensa tenta desesperadamente carimbar Campos e Marina como “antipetistas” e como “oposição” apenas ao PT
Nas entrevistas recentes, tanto Campos quanto Marina têm colocado a aliança PSB-Rede como uma alternativa, uma nova possibilidade, criticando, levemente, tanto o PT quanto o PSDB. A imprensa porém, dá destaque absoluto às criticas ao PT e ignora solenemente as críticas ao PSDB

Entrei numa banca esses dias e me deparei com quatro capas de revista, uma ao lado da outra, todas com fotos de Eduardo Campos e Marina Silva (ou apenas o primeiro) estampadas. Chamou-me a atenção os títulos de cada uma, o que me levou a uma reflexão que, na verdade, eu e muitas pessoas Brasil afora já estávamos fazendo desde quando a aliança PSB-Rede foi anunciada. Falo da maneira cuidadosa com que certos veículos tem tentado construir a ideia de que, agora, é Dilma de um lado e Campos-Marina e Aécio de outro. Quase como se o pernambucano e a acreana estivessem dizendo: “pode ser nós ou pode ser Aécio, mas não pode ser Dilma”. Não é difícil perceber como esses veículos têm tentado fazer isso, e é facílimo provar que essa ideia é absolutamente falsa.

Em suas capas, tanto a Revista Época (leia-se Organizações Globo) quanto a Revista Exame (leia-se Editora Abril) reforçam a ideia de “oposição” e, no caso da primeira, de que a potencial chapa Campos-Marina é “contra Dilma”. Diferentemente dessa linha, a Carta Capital foca no enigma que é e/ou pode ser uma aliança entre os dois. E a Istoé, por sua vez – de longe o veículo mais independente desses quatro, ou o único que se esforça um pouco para ser – estampa a foto de Eduardo Campos com o título “Agora é a nossa vez”, numa uma alusão indireta (porém clara) tanto ao PT quanto ao PSDB. Para alguns, essas diferenças podem parecer triviais, mas são sintomáticas das linhas editoriais de cada grupo.

Ao publicar sua entrevista com Eduardo Campos, a Época fez um esforço monumental – e patético – para tirar leite de pedra e jogar Campos contra o PT e no “colo do PSDB” (para usar uma expressão usada por um amigo militante do PSB). Quem leu a entrevista com um mínimo de atenção percebeu a maquiagem que a revista fez. Para começar, o título da entrevista refere-se ao máximo de crítica que eles conseguiram extrair de Campos ao governo de Dilma. Ao fazer a pergunta “O senhor acha que Dilma poderia ter aproveitado melhor sua chance no governo?”, uma pergunta de resposta simples, “sim”, pois qualquer governante pode fazer melhor, Campos respondeu: “O povo poderá falar sobre isso em 2014”. O que a Época fez? Deu ares críticos a esse trecho, pôs “PT” na boca do socialista e colocou como título da entrevista: “O povo dirá se o ciclo do PT acabou”. Se quisesse mais, talvez eles pudessem ter perguntado: “O governo Dilma foi perfeito?” Desconfio que nem assim eles conseguiriam a resposta que tentavam.

Mais patético do que isso foi a forma que encontraram para fazer parecer que Campos “tucanou”. Quando perguntado sobre como ampliar a inovação, o socialista respondeu: “Discutimos isso quando eu estava no governo do presidente Lula. Fizemos o debate da inovação há dez anos. FHC passou sete anos tentando fazer a lei da inovação”. Ou seja, Campos disse que o debate da inovação existiu tanto no governo FHC quanto no governo Lula (cujo Ministério da Ciência e Tecnologia, responsável pelo tema inovação, foi comandado sempre pelo PSB, inclusive com Campos tendo sido ministro). E o que os editores fizeram? Jogaram uma foto de FHC e, logo abaixo, “citaram”: “FHC ficou sete anos tentando fazer a lei de inovação. Só ela nos permitirá melhorar”. Esse “meio que elogio” na segunda frase não consta na resposta do socialista publicada. Ou seja, mais uma vez forçaram uma barrinha, antes para criar uma critica num trecho em que ela não existiu, e agora para criar um elogio (ao PSDB, claro) onde ele não existiu.

Além de tudo isso, a edição da entrevista da Época não achou necessário dar nenhum destaque a uma crítica direta (e inesperada, o que deveria gerar ainda mais destaque) de Campos a Aécio Neves. Ao ouvir que o tucano propôs a redução do número de ministérios para 22, o pernambucano disse que isso por si só não resolve nada (o que faz todo sentido) e soltou, no meio de sua resposta: “(Isso) é um slogan, uma jogada de marketing”. Abafa...

Esse comportamento questionável da Revista Época fica muito mais evidente quando comparado com a edição da Istoé de sua entrevista com o presidente do PSB. Para começar, a entrevista da Época, apesar de ter feito também perguntas pertinentes, preferiu começar a conversa instigando Campos a criticar o PT, com perguntas capciosas como: se o período do PT se esgotou, se Dilma perdeu sua aura de ética e se o professor ganha mal no Brasil (pergunta difícil...). Aliás, é bom reparar que o nome de Dilma foi citado em quatro perguntas – duas das quais claramente intencionadas a jogar Campos contra a presidente –, enquanto o socialista mencionou o nome da petista apenas duas vezes, nenhuma das quais em tom crítico.

A Istoé, por sua vez, estava mais preocupada em saber o que Campos fará para melhorar a economia, qual será a estratégia de sua campanha e por que ele acredita que pode ser um bom presidente. No título da entrevista, ao invés de rodear ou colocar palavras na boca do governador de Pernambuco, os editores citaram sem maquiagem um trecho de uma resposta de Campos: “PSDB e PT já tiveram sua chance”.

Poderia continuar dando exemplos de como veículos como os das Organizações Globo e do Grupo Abril preferem distorcer a realidade para criar “quase verdades”, e como uma minoria absoluta ainda nos permite um pingo de esperança de uma imprensa com um mínimo (só um pouco já basta, mais do que pouco é utopia) de independência e, perdoem a franqueza, decência.

Enquanto isso, vamos conviver com a chapa Campos/Marina real e a construída. O Eduardo Campos e Marina Silva do mundo real são a dupla que diz de forma clara e sonora: “É preciso quebrar a falsa polarização entre PT e PSDB”. A mesma que propõe uma alternativa, um verdadeiro novo caminho “ao que está aí”, reconhecendo os acertos de ontem e hoje e buscando corrigir os erros de ontem e hoje. O Eduardo Campos e Marina Silva construídos, por sua vez, são a mais nova dupla antipetista, neotucana e “ex-esquerda”.

Para quem continua achando que o PSB entrou no barco da direita, sugiro que procurem as últimas declarações do vice-presidente do partido, Roberto Amaral. Entre outras cositas, Amaral diz que o adversário de Campos em 2014 é o Aécio, e não a Dilma, além de acusar Aécio de mentiroso e de “embromador”. Aliás, isso está bastante de acordo com o que ouvi de um amigo filiado ao PSB em conversa que tive algumas semanas atrás. Ele me disse, então: “Repare que o Eduardo nunca vai atacar ninguém, ele faz o jogo de conciliador. Quem cumpre para ele o papel de fazer críticas mais duras é o seu vice, Roberto Amaral”.

Lembro que após a conversa com esse amigo, que tem, inclusive, um cargo diretivo no PSB, fiz algumas afirmações. Primeiro, que seria zero a chance de uma chapa com Campos e Aécio. Aliás, quem disse isso foi um senador socialista, não eu. Segundo, que se o PSB for ao segundo turno com Dilma, o PSDB vai apoiá-lo e os socialistas aceitarão de bom grado esse apoio. Terceiro, que se o PSDB for ao segundo turno com Dilma, o PSB não deve, como sonha 90% da imprensa, apoiar os tucanos. Minha afirmação exata foi que isso “é algo muito próximo do impossível”. Coincidência ou não, há poucos dias o vice do PSB, Roberto Amaral, afirmou, sobre essa aliança: “Acho praticamente impossível”. Não. Isso não foi coincidência. Amaral não foi o primeiro socialista a dizer isso.