34 anos
Cezar Santos
Vice, o drama da aliança
Prós e contras dos nomes colocados pelos peemedebistas para compor a chapa com Paulo Garcia na disputa pela Prefeitura de Goiânia
Deputados Wagner Siqueira, Samuel Belchior e Bruno Peixoto e o presidente da Amob, Iram Saraiva Júnior: os nomes do PMDB até o momento para a vice de Paulo Garcia na eleição de outubro

Está certo, o ex-prefeito Iris Rezende já deu a ordem: o PM­DB vai apoiar a reeleição de Paulo Garcia para a Prefeitura de Goiânia, ocupando a vice do petista. Di­to assim, não resta dúvida de que a a­liança PT-PMDB e outros partidos menores seria, digamos, inabalável. Afinal, determinação do líder maior dos peemedebistas não se discute — quem poderia ou se atreveria a discutir já tirou o time de campo, procurou sua turma, saiu do partido. Quem ficou sabe muito bem por qual cartilha deve ler.

Se a aliança antecipadamente referendada por Iris está firme como rocha, então porque há tantos ruídos, tanto diz-que-diz? Basicamente são dois os fatores que estão causando senão uma instabilidade, pelo menos um tremor relativo nessa união partidária.

Primeiro, a necessidade cobrada por peemedebistas de ficar desde já estabelecido que a aliança tem de necessariamente se estender a 2014, com o PT apoiando a candidatura de um nome do PMDB ao governo, numa reciprocidade anunciada. Como os petistas ainda não bateram o martelo sobre essa reciprocidade, abre-se espaço para o diz-que-diz.

O outro imbróglio está dentro do próprio PMDB. Diz respeito à definição do vice a ser indicado pelo partido, o homem que vai marchar com Paulo Garcia na dura campanha que se anuncia. É esse o tema desta Conexão.

Depois de vários balões de ensaios, quatro nomes se firmaram na bolsa de especulações, os deputados estaduais Wag­ner Siqueira, Bruno Peixoto e Samuel Belchior e o presidente da  Agência Mu­ni­ci­pal de Obras (Amob), Iram Saraiva Jú­nior. Entre esses quatros Iris Rezende vai sacar o nome a ser referendado pelo partido em convenção.

E o que um vice tem de ter para ser o escolhido? O discurso de Iris sempre foi claro: ter capacidade eleitoral, unir o PMDB e ter lealdade ao partido. Pelo histórico dos quatro jovens políticos, todos preenchem os requisitos.

Falemos um pouquinho deles. Para começar, Samuel Belchior, que se licenciou na Assembleia Legislativa em novembro do ano passado para assumir a Secretaria de Governo da Prefeitura de Goiânia, vem de participação em trabalhos sociais no terceiro setor, com atuação na periferia de Goiânia, o que o levou à Câmara de Vereadores. Elegeu-se deputado em 2006 e bisou em 2010, como o mais votado do PMDB para a Assembleia, com mais de 43 mil votos. Samuel já manifestou seu interesse em trabalhar por sua candidatura à Câmara dos Deputados. Sendo assim, a princípio, seria carta fora do baralho para a vice de Paulo Garcia, mas se Iris resolver o contrário, Samuel entra no jogo novamente.

De antemão, quem acompanha a política sabe que Iris tem um preferido. É Wagner Siqueira Júnior, uma das grandes revelações da política goiana nos últimos anos. Convidado por Iris, em 2005 assumiu a Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg) e realizou uma bela administração num órgão que vinha com sérios problemas, usado que era de forma acintosa como comitê partidário na gestão anterior. Waguinho se elegeu bem para a Assembleia, com quase 30 mil votos, a maioria deles na Capital.

Currículo

Iram Saraiva já está na equipe de Paulo Garcia. Dos quatro, é o que tem o mais alentado currículo político. Ocupou vários cargos com Iris, foi vereador, deputado estadual e até já disputou, com Mauro Miranda, a eleição para a Pre­fei­tura de Goiânia, na posição de vice-prefeito, em 1999.

Bruno Peixoto começou a vida política em movimentos estudantis, foi eleito duas vezes vereador por Goiânia, tendo sido campeão de votos em 2008. Em 2010 elegeu-se bem para o Legislativo estadual, com mais de 35 mil votos.

Pelo que se ouve, há alguns condicionantes para Iris definir o nome. O ex-prefeito vai se pautar pela condição em que estará Paulo Garcia nas pesquisas em maio, em relação ao candidato de oposição. Se Paulo Garcia estiver muito atrás, vai precisar de um companheiro de chapa que agregue voto de forma inequívoca, não poderia ser um vice apenas decorativo, como se viu tantas e tantas vezes. Nesse ponto, uma pequena digressão, há um ditado que diz que vice já ajuda muito se não atrapalhar.

Na conjuntura de Paulo Garcia estar muito atrás do adversário, diminuem as chances de Waguinho e de Iranzinho. A explicação é simples, numa análise mais rápida, eles não têm densidade eleitoral própria. Iram Júnior fez sua carreira montado nos cargos oficiais que ocupou nos governos do PMDB. Waguinho deve sua boa votação para a Assembleia à visibilidade obtida na Comurg.

Nesse cenário, contrariamente, aumentam as chances de Bruno Peixoto e de Samuel Belchior. Ambos têm densidade eleitoral comprovada, independentemente do juízo de valor que se faça de suas atuações como parlamentares. Qualquer um deles seria, teoricamente, companheiro mais indicado que Waguinho ou Iram Júnior para dar um up na campanha de Paulo Garcia.

Aqui, Iram Júnior, por ser filho de quem é, merece considerações à parte nessa análise. Iram pai se colocará como personagem importantíssimo nessa história, se ele resolver bater pé em favor do filho. Iram Saraiva é presidente da Câmara de Vereadores e, como tal, na atual circunstância, também vice-prefeito. Como vice-prefeito e presidente da Câmara, ele tem uma boa porção de cargos comissionados para negociar em favor de Iranzinho.

Além disso, o presidente da Câmara atende os vereadores, o que para Paulo Garcia, até o final do mandato, é importantíssimo. Iram pai é o dono de ótimas cartas no jogo, digamos assim. Tem seu peso para negociar a vaga de vice para o filho. E aí há o outro lado da moeda. Ele tem a Câmara para negociar tanto pró quanto contra o prefeito. Iram também pode jogar contra a aliança PMDB-PT.

Difícil Iram Saraiva ir contra uma determinação de Iris? Nada, quem o conhece sabe que ele é, antes de tudo, um pragmático, sua trajetória mostra isso. E nem seria primeira vez que ele romperia com Iris. Em 1990, filiou-se ao PDT e disputou o governo. Ficou em quarto lugar, mas na campanha foi quem mais bateu no vencedor daquele pleito, justamente Iris Rezende.

Se Iram Saraiva achar que deve fazer jogo pesado para impor a vaga de vice ao rebento, não vai titubear. Por sua história, está claro que ele sabe e gosta de jogar pesado.

Como Iram pode jogar conta o prefeito? Simples, dificultando votação de projetos na Câmara, por exemplo. Nesse caso, pode até não inviabilizar, mas dá uma travada, um break, no restante do mandato de Paulo Garcia, o que compreende alguns meses dentro da campanha.

Outro fator que talvez pese — embora muita gente possa até colocar no rol de conjectura fantasiosa, mas que não pode ser deixado de lado numa análise que se proponha a clarear as implicações políticas —, é que Iram é muito ligado ao governador Marconi Perillo. Dizem mesmo que há uma amizade fraterna, de muito anos, entre eles. Não se pode esquecer que ambos militaram no PMDB. E não é segredo para ninguém que Iram foi eleito para a presidência da Câmara de Vereadores com o peso da bancada tucana mobilizada por Marconi.

Então, Iram, mesmo sendo do PMDB, pode cruzar os braços ou, pior, mexê-los em sentido contrário aos interesses da aliança entre petistas e peemedebistas. Quem vai querer pagar pra ver? Certa­mente não Paulo Garcia, mas isso não está nas mãos dele, é da alçada do PMDB.

Portanto, se a aliança entre petistas e peemedebistas para a eleição municipal está consolidada e não tem volta — Iris garante —, a questão do vice está mal resolvida dentro do partido. Isso pode sim prejudicar uma candidatura que está pegando rumo. Será que o PMDB terá suficiente discernimento para resolver seus imbróglios internos num clima pacificado? Ou Iris terá de intervir com força demasiada no processo? Se tiver, isso também pode colocar um elemento a mais de trauma na questão.

O x do problema para a aliança, então, é saber se o PMDB terá maturidade para es­colher o melhor nome para a vice de Paulo, de forma a atender o projeto coletivo, da aliança, e não para favorecer alguém em específico.

A candidatura à reeleição de Paulo Garcia, que está caminhando bem, foi definida com calma, com um desenho calculado, mas pode ser prejudicada pela má escolha do vice, justamente a parte que caberá ao parceiro PMDB.

PS: Para registro, nos últimos dias mais um peemedebista tem sido especulado para a vice de Paulo Garcia. Trata-se do ex-senador Mauro Miranda, homem da mais absoluta confiança de Iris Re­zende. Faz sentido.