Edição 1889 de 18 a 24 de setembro de 2011
Edgar Welzel
Sobre a grafia de um nome
Parece haver mais de 100 formas de nominar o ditador líbio e a mídia ocidental usa várias delas, o que só aumenta a confusão e, certamente, dificulta a informação
dpa

O coronel Mu’ammar al-Qaddafi (grafia que mais perto chega do original árabe) é um homem misterioso. Um homem de várias faces. Ninguém, talvez nem ele próprio, sabe qual é a sua verdadeira. Envolvido no terrorismo internacional, afastou-se destes métodos (segundo suas próprias declarações) e procurou a aproximação com a Europa e os Estados Unidos.

Sibylle Krause-Burger, autora e renomada colunista do “Stuttgarter-Zeitung” pergunta: “Com os diabos, como foi possível  que um louco, um delinquente burlesco de ópera-bufa como Kadafi conseguiu manter-se no poder por mais de quatro décadas? As carreiras que ele possibilitou? O dinheiro que ele distribuiu? Ou foi o petróleo, na necessidade de abastecer os nossos postos de abastecimento, que Estados democráticos pactuavam com ele? Só assim pode ter sido”.

O presidente Nicolás Sarkozy, da França, juntamente com o primeiro ministro britânico, David Cameron, foram os  principais articuladores desta guerra. Não tardou e a mídia passou a indagar quais seriam os verdadeiros interesses de Sarkozy e quais os “acordos” secretos já conveniados com os líderes revolucionários líbios? A impressão que paira é a de que o empenho do presidente Sarkozy  não foi unicamente por razões humanitárias em ajudar os revoltosos para “defender a população”, segundo o argumento oficial da Otan para imiscuir-se na guerra,  “de seu algoz coronel”.

Enquanto a guerra segue e as conjeturas brotam, a mídia ocidental demonstra ter um inequívoco problema com o nome do coronel líbio.  Nunca, em época alguma, houve tanta confusão na mídia internacional no que diz respeito à grafia correta de um nome próprio como nos mostra o caso do nome do ditador líbio.

Há longo tempo venho tropeçando nesta multiplicidade ortográfica. Resolvi investigar o assunto e parti em viagem virtual. O  resultado de minha pesquisa é de embasbacar. O Jornal Opção usa Kadafi; já o “Popular” usa Khadafi. O “Correio do Povo” usa Kadhafi, a Folha.com vem com Gaddafi. No “Correio Braziliense” encontrei as versões Gaddafi e Kadhafi; no “Jornal do Brasil” e no Globo.com encontrei três versões: Kadafi, Gaddafi e Kadhafi.

No Extra.online também encontrei três versões. Exemplo: num texto de 4 de maio posto às 15h36 aparece uma matéria com o título “Forças de Gaddafi atacam e invadem cidade estratégica” e logo a seguir no texto deste mesmo título encontrei a seguinte passagem: “... os rebeldes disseram que as forças de Kadhafi...”. Em 21 de agosto às 8h32 Extra Online publicou o seguinte: “Filho de Kadafi afirma...”  São três versões do mesmo jornal.

Na parte internacional do Estadão.com.br de 13 de setembro encontra-se uma matéria com o título: “Rebeldes estão ligados a execuções e tortura na Líbia, diz Anistia”. No subtítulo desta matéria lê-se: “Relatório diz que forças pró-Kadafi cometeram grande parte dos abusos...”. No 3° parágrafo lê-se: ”... mas pediu que a oposição a Khadafi....”; no fim da matéria encontra-se o seguinte: “Reduto de Gaddafi resiste sob contagem regressiva” e, a seguir sob a legenda Tópicos encontramos: “Oriente Médio, Líbia, Conselho de transição, Jalil, Khadafi, Anistia Internacional....”!!! Eis também aqui três grafias distintas numa mesma matéria para designar o mesmo personagem. Seguido à matéria encontramos o comentário de um leitor que, num texto de sete linhas, usa as formas Kadafi e Kadaffi.

O “ABC” de Madrid prefere Gadafi enquanto o “La Gaceta” opta por el Gadafi. Na Itália há uma inacreditável ordem: o “Corriere della Sera”, o “L’Osservatore Romano”, “La Stampa”, “Il Mondo”, saem com Gheddafi. O “Neue Züricher Zeitung”, da Suíça, usa Ghadhafi. A mídia alemã contenta-se com três grafias. O “Stuttgarter Zeitung”, “Bild”, “Focus” e outros usam Gaddafi; o semanário “Der Spiegel” usa Gaddafi e al-Gaddafi e o “Die Zeit” opta por Gadhafi. No Reino Unido aparentemente também há mais uniformidade. A forma Gaddafi é a mais usual e é a usada nas páginas do “The Times”, “The Sun”, “The Daily Mail”, “The Daily Mirror”, “Telegraph”, etc.

Nos Estados Unidos encontramos mais algumas variantes. O “New York Times” e o “Bloomberg Businessweek” usam Qaddafi; o “Washington Post” prefere Gadhafi mas a edição online de 7 de setembro às 12h6 saiu com duas grafias diferentes, Gaddafi e Gadhafi, na mesma página. O “The Boston Globe” vem com mais uma versão: Khadafy. O “Chicago Tribune” sai com Gaddafi. O “The Washington Times”, o “Wall Street Journal”, “Star Tribune” concordam com Gadhafi. No Canadá o “Toronto Star”, “Toronto Sun” e o “Vancouver Sun” também preferem Gadhafi. No México “El Universal” e o “Diário de Yucatán” e o “Granma” de Cuba também concordam e preferem Gaddafi. O “Belfast Telegraph” e o “Irish Examiner” saem com a versão Gaddafi enquanto o “Le Soir” da Bélgica francófona opta por Kadhafi.

Em Portugal o “Correio da Manhã” usa Kadafi, o “Diário de Notícias” e o “Expresso” usam Kadhafi mas o “Público” usa Khadafi. Os franceses “Le Monde”, “Le Figaro” e “Le Parisien” optam por Kadhafi mas o “International Herald Tribune” de Paris usa el-Qaddafi. O “Dagbladet” de Oslo sai com a versão Kadhafi e o “Aftenposten” da mesma cidade prefere Gadafi.

Nesta altura da minha pesquisa estive prestes a arquivar o assunto pois não esperava encontrar tamanha confusão. Mas a leitura de um pequeno texto de Pablo Sirvén, publicado no “La Nación” de 23 de agosto, em Buenos Aires, fez com que eu mudasse de ideia. Continuei. Pablo Sirvén apenas menciona a problemática das distintas grafias sem, no entanto, entrar mais a fundo na questão. Eis a tradução do texto de Sirvén no “La Nación”: “O nome do líder líbio tem distintas grafias segundo os diversos meios de comunicação. O mais usual é Kadafi, assim como o escrevem quatro diários, Clarín, Crónica, La Prensa e Libre. Mas, além disso há variações para todos os gostos: Khadafy (La Nación), Gadafi (Ambito Finaciero), Gaddafi (El Cronista e Buenos Aires Herald), Khadafi (Página 12 e Tiempo) e Kadhafi (Diario Popular)”.

Foi aí que me ocorreu que o líder líbio (evito usar seu nome pois não sei qual é a forma correta) também tem um pré-nome. Interessei-me também por este detalhe. Limitei-me a alguns jornais europeus e, em 20 minutos, encontrei as seguintes versões: Muammar, Moammar, Mu’ammar, Mouamar, Muamar, Moamar, Muhammar, Mu’hammar... parei por aqui pelo simples receio de que só complicaria a minha investigação.

Voltei ao sobrenome e em minha viagem virtual encontro-me em Rabat, no Marroco, onde deparo com o “Maroc Hebdo”, um jornal publicado em inglês. A versão online do “Maroc Hebdo” é o The Daily Caller. Na edição de 23 de fevereiro (10h18) encontrei uma matéria assinada pela jornalista americana Laura Donovan com o título: “Gaddafi? Kaddafi? Qaddafi? How do you spell the Libyan Leader’s name? (Como escreves o nome do líder líbio?) O texto de Laura Donovan trouxe um pouco de luz nesta intrincada questão. Traduzi algumas passagens: “A lista de possíveis grafias para o nome do coronel líbio continua aumentando para a frustração dos leitores e autores. Grandes jornais como o New York Times, a agência Reuters, a CNN, entre outros, parecem não demonstrar interesse em concordar com uma forma universal de escrever o nome do líder líbio....”, escreve a jornalista americana.

Mais adiante Laura Donovan escreve o seguinte: “O ABC News informa que existem 112 maneiras de escrever o nome do líder líbio e usa Moammar Gaddafi em seus próprios textos. De acordo a mesma informação do ABC News, a Library of Congress (Biblioteca do Congresso Americano) registrou 72 maneiras diferentes de escrever o nome do líbio em questão”.

Laura Donovan explica ainda que, “de acordo a CSM, o webside oficial do líder líbio usa a forma AL Gathafi mas o mesmo website também usa diferentes formas de escrever o nome do coronel”. Como? Também no website oficial do coronel aparecem várias grafias?! A máquina Google ajuda a confundir, pois lá encontramos al-Gaddafi, al-Qaddhafi, al-Qaddafi.

Toni Bellotto, num blog na revista “Veja”  colocado em 28 de agosto às 14h28 sob o título “Mil caras” também aborda o assunto. Bellotto cita  algumas versões nas quais, como eu, tropeçou: Cadafi, Cadáfi, Kadafi, Qadafi, Khaddafi, Gadhafi, Qadhafi, al-Kadhafi, al-Qadhafi, al-Kadhafi e termina com a pergunta: “...não era o Lula que há algum tempo fazia uma visita oficial ao Kanalha?” Confesso que esta última versão eu ainda não havia encontrado!

Qual então seria a correta?  Consultei um arabista que me explicou que a forma al-Qaddafi, a usada pelo pelo “New York Times” e pelo “Bloomberg BusinessWeek”, seria a que mais perto chega do original árabe. Mas, como o “Q” seguido do “A” não existe em português, esta versão não se adapta à mídia brasileira.

Desesperei-me e aqui quis pôr o ponto final nesta matéria. Mas tenho que postergá-lo, pois neste justo momento acabei tropeçando em mais algumas versões: Al Gatthafi, AL-Gatthafy, al-Kathafi, el Gadhafy...